
Quando eu conheci você
Fandom: Byler
Criado: 26/08/2026
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O Peso do Fogo e do Silêncio
A fumaça do cigarro misturada ao cheiro de cerveja barata e perfume doce deixava o ar da festa da fraternidade quase irrespirável. Will Byers, com seu jeito contido e seus fios castanho-loiros perfeitamente alinhados, tentava apenas atravessar o corredor lotado para encontrar um pouco de ar fresco. Ele nunca foi fã de multidões, preferindo o silêncio de suas telas de pintura ao caos das festas universitárias.
Foi quando o impacto aconteceu.
Will cambaleou para trás quando um corpo alto e magro colidiu contra o seu. O estranho segurou seus ombros para evitar que ele caísse, e Will sentiu uma descarga elétrica percorrer sua espinha. Ao levantar o olhar, deparou-se com um par de olhos escuros e intensos, emoldurados por cabelos pretos cacheados que caíam desordenadamente sobre uma pele muito pálida.
— Opa, desculpa! — O garoto exclamou, soltando-o rapidamente, mas mantendo o olhar fixo. — Eu não te vi, estava procurando por...
— Tudo bem, sem problemas — interrompeu Will, sentindo o rosto esquentar. Havia algo naquele estranho, uma energia caótica e magnética que o deixou momentaneamente sem fôlego.
O garoto sorriu de lado, um gesto rápido que fez o coração de Will errar uma batida, antes de desaparecer na multidão. Will ficou ali, parado no meio do corredor, perguntando-se por que um simples esbarrão o havia afetado tanto.
Duas horas depois, a cena era diferente. O grupo havia se deslocado para a clareira atrás do campus, onde uma fogueira enorme estalava, lançando faíscas alaranjadas contra o céu noturno. Max Mayfield, com seus cabelos ruivos brilhando sob a luz do fogo, estava sentada em um tronco ao lado de Lucas Sinclair, que ria de alguma piada interna. Dustin Henderson gesticulava freneticamente enquanto explicava uma teoria sobre física quântica para Steve e Robin, que pareciam apenas metade interessados.
— Will! Aqui! — Jane acenou, radiante.
A irmã de Will, sempre doce e gentil, estava radiante. Ao lado dela, o garoto do corredor.
— Will, finalmente! — Jane disse, puxando-o para perto. — Eu queria muito que você conhecesse meu namorado. Mike, este é meu irmão, Will. Will, este é o Mike Wheeler.
O mundo de Will pareceu girar por um segundo. Mike Wheeler. O estranho da festa. O namorado de sua irmã.
— A gente se esbarrou mais cedo — disse Mike, estendendo a mão. Havia um brilho estranho em seus olhos, algo que Will não conseguia decifrar.
— É, a gente se esbarrou — Will respondeu, apertando a mão dele. A pele de Mike era fria, mas o toque parecia queimar. — Prazer em conhecer você, Mike.
A noite prosseguiu, mas para Will, o ambiente mudou. Ele se sentou ao lado de Dustin, tentando se concentrar na conversa sobre o clube de rádio, mas seus olhos teimavam em vagar para o outro lado da fogueira. Mike estava sentado com o braço em volta de Jane, mas ele não parecia estar ouvindo o que ela dizia. Ele estava olhando para Will. Constantemente.
— Você está bem, Will? — Max perguntou, surgindo ao lado dele com aquela sua franqueza característica. — Você está com cara de quem viu um fantasma. Ou de quem está prestes a ter uma crise existencial.
— Só estou cansado, Max — mentiu Will, desviando o olhar.
— Sei. E eu sou a Rainha da Inglaterra — retrucou a ruiva, dando um gole em sua bebida. — Aquele Wheeler é meio estranho, não acha? Ele não para de encarar.
Will não respondeu. Ele sentia o peso do olhar de Mike e, mais do que isso, sentia uma pontada de algo que ele se recusava a nomear. Era errado. Era o namorado de Jane.
Nos dias que se seguiram, Mike começou a aparecer com mais frequência. Ele tentava se enturmar, mas suas tentativas de aproximação com Will eram desajeitadas. Ele aparecia na biblioteca quando Will estava estudando, ou se sentava ao lado dele durante os almoços em grupo, sempre puxando assuntos aleatórios sobre música ou arte.
Na noite da segunda fogueira da faculdade, as coisas saíram do controle.
O fogo estava mais alto, a música mais alta, e a tensão entre o grupo era palpável. Will estava conversando em um canto mais afastado com Carlton, um estudante de artes do segundo ano que claramente tinha interesse nele. Carlton era charmoso, loiro e estava inclinado para perto de Will, rindo de algo que ele dissera.
— Então, Will, você realmente precisa me mostrar aquele seu quadro sobre as sombras — disse Carlton, tocando levemente o braço de Will. — Eu adoraria ver seu processo criativo.
— Ah, claro, eu... — Will começou a responder, mas foi interrompido por um estrondo.
Mike havia derrubado sua cadeira ao se levantar bruscamente do outro lado do círculo. Ele parecia transtornado, a pele pálida agora manchada de um vermelho vivo nas maçãs do rosto.
— Mike? O que foi? — Jane perguntou, preocupada, segurando a mão dele.
— Nada! — Mike respondeu, a voz um tom acima do normal. — Eu só... eu preciso de outra bebida.
Ele caminhou em direção ao cooler, mas seu trajeto foi errático. Ele passou por Will e Carlton, lançando um olhar tão gélido para o outro garoto que Carlton recuou um passo, confuso.
— Cara, qual é o problema dele? — sussurrou Carlton.
Will não respondeu. Ele observou Mike voltar para o grupo, mas o comportamento do namorado da irmã só piorou. Ele começou a dar respostas atravessadas para Dustin, ignorou uma pergunta de Lucas sobre o time de basquete e agia como se estivesse em transe.
— Mike, você está agindo de um jeito muito estranho desde que chegamos — disse Jane, baixinho, tentando não chamar atenção, mas todos já haviam percebido. — Aconteceu alguma coisa?
— Eu já disse que estou bem, Jane! — Mike exclamou, mais ríspido do que pretendia. O silêncio caiu sobre o grupo. Eddie e Christy trocaram olhares desconfortáveis.
— Ei, cara, pega leve — Steve interveio, cruzando os braços. — A garota só fez uma pergunta.
Mike bufou, passando a mão pelos cabelos pretos, deixando-os ainda mais bagunçados. Ele olhou para Jane, depois para o grupo, e finalmente seus olhos pousaram em Will, que ainda estava perto de Carlton.
— Eu vou dar um passeio — declarou Mike, virando as costas e sumindo na escuridão da trilha que levava ao lago.
Jane suspirou, os ombros caindo.
— Eu vou falar com ele — ela disse, mas Max a segurou pelo pulso.
— Deixa ele, Jane. Ele está em um daqueles momentos de drama. Se você for atrás agora, ele só vai descontar em você.
Will sentiu uma inquietação crescer em seu peito. Ele sabia que Mike não estava apenas "em um momento". Havia algo errado, e uma parte sombria e esperançosa de sua mente temia saber o que era.
— Eu vou — disse Will, surpreendendo a todos. — Eu preciso buscar um casaco no carro mesmo, a trilha é no caminho. Eu vejo se ele está bem.
Jane sorriu agradecida.
— Obrigada, Will. Você é o melhor.
Will caminhou para longe do calor da fogueira, deixando para trás a luz e as vozes dos amigos. A escuridão da floresta era reconfortante e aterrorizante ao mesmo tempo. Ele encontrou Mike sentado em um cais de madeira velho, balançando as pernas sobre a água escura do lago.
— O Carlton é só um amigo — disse Will, aproximando-se lentamente.
Mike não se virou, mas seus ombros ficaram tensos.
— Eu não perguntei quem ele era.
— Não precisou perguntar. Você estava agindo como se quisesse incinerar o garoto com o olhar. E foi grosseiro com a Jane. Ela não merece isso, Mike.
Mike finalmente se virou. Sob a luz fraca da lua, seus olhos pareciam poços de angústia.
— Eu sei que não merece — confessou ele, a voz falhando. — Eu sou um idiota. Eu tento agir normal, Will. Eu juro que tento. Mas aí eu vejo você... e eu vejo ele tocando em você... e tudo dentro de mim simplesmente entra em curto-circuito.
O coração de Will disparou.
— Do que você está falando? — perguntou Will, embora sua alma já soubesse a resposta.
— Você sabe do que eu estou falando — Mike se levantou, dando um passo em direção a Will. Ele era mais alto, e sua presença preenchia o espaço entre eles. — Desde aquele esbarrão na festa. Eu tentei ignorar. Tentei focar na Jane, porque ela é incrível e eu a amo, mas... não é o mesmo tipo de "amo".
— Mike, para — pediu Will, a voz trêmula. — Ela é minha irmã. Você é o namorado dela. Isso é... isso é impossível.
— Eu sei que é! — Mike gritou frustrado, passando as mãos pelo rosto. — Você acha que eu não sei? Eu me sinto um monstro. Mas toda vez que você entra na sala, eu paro de respirar. E quando vi aquele cara perto de você, eu senti que ia explodir.
Will deu um passo atrás, mas suas costas encontraram o tronco de uma árvore. Mike não parou. Ele se aproximou, colocando as mãos no tronco, uma de cada lado da cabeça de Will, prendendo-o.
— O que a gente vai fazer, Will? — sussurrou Mike, a respiração quente contra o rosto de Will. — Porque eu não consigo mais fingir. Eu falhei miseravelmente hoje, e vou falhar amanhã de novo.
Will olhou para os lábios de Mike e depois para os olhos dele. Havia uma dor ali que espelhava a sua própria. Ele queria empurrá-lo e correr de volta para a segurança da fogueira, para a segurança da mentira. Mas ele também queria puxá-lo para mais perto e esquecer que o resto do mundo existia.
— Você vai voltar lá e pedir desculpas para ela — disse Will, embora sua voz não tivesse convicção.
— E depois?
— E depois... — Will engoliu em seco, sentindo uma lágrima solitária escorrer. — Depois a gente descobre como sobreviver a isso.
Mike inclinou a testa contra a de Will. O silêncio entre eles era pesado, carregado de segredos que poderiam destruir tudo o que construíram com seus amigos. A fogueira ainda queimava ao longe, mas ali, na escuridão, um fogo muito mais perigoso acabara de ser aceso.
— Eu não quero apenas sobreviver, Will — Mike murmurou.
— Eu também não — confessou Will em um sussurro quase inaudível.
Eles ficaram ali por um longo tempo, dois garotos perdidos entre a lealdade e o desejo, cientes de que, a partir daquela noite, nada na vida de Jane, de seus amigos ou deles mesmos seria igual novamente. Onde isso iria levá-los? Para a destruição ou para algo real? A resposta estava escondida nas sombras, esperando o momento certo para ser revelada.
