
Entre o Caos e o Controle
A biblioteca da escola era o único refúgio onde Julia sentia que o mundo fazia sentido. Entre as prateleiras de carvalho e o cheiro de papel antigo, ela não precisava ser nada além da menina estudiosa que todos esperavam que fosse. Com os óculos levemente caídos no nariz e um caderno repleto de anotações organizadas, ela revisava a matéria de física, alheia ao movimento do corredor.
— Julia, sério, você vai ter uma síncope se continuar estudando nesse ritmo — disse Lays, sentando-se à frente da amiga com um sorriso travesso. — A vida acontece lá fora, sabia? E hoje à noite a vida acontece na festa da Bia.
Julia levantou o olhar, ajustando os óculos. Lays era o seu oposto: vibrante, intensa e com uma lista de contatinhos que Julia não conseguiria decorar nem se tentasse.
— Eu tenho prova na segunda, Lays. E você sabe que festas não são exatamente a minha zona de conforto.
— Mas são a minha! — Juliana apareceu logo atrás, abraçando Julia pelos ombros. — E o meu namorado, o Leo, disse que o Ryan vai estar lá. E se o Ryan vai, o grupo todo vai. Você não pode nos deixar sozinhas.
Julia suspirou. Ryan. Só de ouvir o nome, uma pontada de ansiedade — ou seria algo mais? — atingiu seu estômago. Ryan era o problema em forma de gente. Alto, de pele clara que contrastava com os cabelos escuros, ele possuía uma lábia que desarmava qualquer um. Ele era o tipo de garoto que não pedia permissão, apenas tomava o que queria.
— O Ryan é um idiota — murmurou Julia, voltando os olhos para o caderno.
— Um idiota muito gato que não para de perguntar quem é a "garota dos livros" toda vez que passamos por ele — Lays deu uma piscadela. — Ele está de olho em você, Ju. E ele não é de desistir.
— Ele só quer me testar — Julia rebateu, embora sentisse o rosto esquentar. — Ele gosta do desafio de ver se consegue quebrar a minha paciência.
— Então vamos mostrar para ele que você é inquebrável — Juliana disse, decidida. — Ou que, pelo menos, sabe se divertir.
A festa estava no auge quando as três amigas chegaram. A casa de Bia estava envolta em luzes neon, música eletrônica pulsante e o cheiro característico de perfumes caros e bebidas cítricas. Julia usava um vestido azul marinho que, embora discreto, moldava seu corpo de uma forma que ela raramente permitia que vissem.
— Viu? Ninguém morreu por vir a uma festa — Lays gritou por cima da música, já balançando o corpo.
— Vou buscar algo para beber — Julia avisou, sentindo-se subitamente observada.
Ela caminhou em direção à mesa de bebidas, tentando manter a postura calma e educada que era sua marca registrada. No entanto, antes que pudesse alcançar um copo, uma figura alta bloqueou seu caminho.
— Fugindo dos livros ou apenas procurando um novo capítulo? — A voz era rouca, carregada de uma ironia que Julia conhecia bem.
Ela ergueu o olhar. Ryan estava ali, encostado em uma pilastra, com um copo na mão e um sorriso de lado que teria derretido qualquer outra garota. Ele a analisou de cima a baixo, os olhos parando por um segundo a mais em suas pernas.
— Ryan. Achei que estivesse ocupado demais com seu fã-clube para notar a minha presença — Julia respondeu, tentando manter a voz firme.
— O fã-clube é barulhento demais — ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Eu prefiro o silêncio. Especialmente o seu. Ele é... intrigante.
— Intrigante é a sua capacidade de achar que todo mundo quer te ouvir — ela retrucou, sentindo a eletricidade entre eles.
Ryan riu, um som baixo que vibrou no peito de Julia. Ele se aproximou ainda mais, a ponto de ela conseguir sentir o calor que emanava dele.
— Você é toda certinha, não é, Julia? Notas altas, comportamento impecável, nunca se mete em confusão.
— E o que tem de errado nisso? — perguntou ela, desafiadora.
— Nada. Mas eu me pergunto o que acontece quando alguém decide bagunçar essa sua ordem toda. — Ele estendeu a mão e tocou levemente uma mecha do cabelo dela. — Você parece o tipo de garota que guarda muitos segredos atrás dessa fachada de boa menina.
— Você não vai descobrir nenhum deles — ela disse, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— É o que vamos ver.
Durante a hora seguinte, Julia tentou se misturar com Lays e Juliana, mas a presença de Ryan era como um ímã. Onde quer que ela fosse, os olhos dele a seguiam. Ele não se aproximava de novo, apenas a observava, testando seus limites à distância, fazendo-a sentir-se nua sob aquele olhar predatório e, ao mesmo tempo, fascinado.
Quando a música mudou para algo mais lento e denso, Julia sentiu que precisava de ar. Ela caminhou em direção ao corredor que levava aos quartos, procurando um momento de paz, mas foi interceptada novamente. Desta vez, Ryan não estava apenas observando. Ele a cercou contra a parede de um corredor pouco iluminado.
— Você está fugindo de novo — ele constatou, a voz agora mais baixa, quase um sussurro.
— Eu não estou fugindo, Ryan. Só cansei do barulho.
— Mentirosa — ele disse, aproximando o rosto do dela. — Você está fugindo do que sentiu quando eu te olhei lá fora. Você está fugindo desse choque que acontece toda vez que a gente se encosta.
— Você é muito convencido — ela tentou empurrá-lo levemente pelo peito, mas suas mãos encontraram a firmeza dos músculos dele sob a camisa fina.
— E você está tremendo — ele rebateu, segurando os pulsos dela com delicadeza, mas firmeza. — Por que tanto medo, Julia? Eu não mordo... a menos que você peça.
A química entre eles era sufocante. Julia sentia o cheiro dele — uma mistura de madeira e algo puramente masculino — e a vontade de manter o controle estava escorrendo por entre seus dedos. O Ryan "pegador" e a Julia "estudiosa" pareciam conceitos distantes agora; ali, eram apenas dois polos magnéticos colidindo.
— Eu odeio o jeito que você acha que me conhece — ela sussurrou, os olhos fixos nos lábios dele.
— Eu não te conheço. Ainda. Mas eu quero.
Sem aviso, ele diminuiu a distância final. O beijo não começou calmo; foi uma explosão de tensão acumulada. Julia soltou um suspiro contra a boca dele, suas mãos subindo para os cabelos da nuca de Ryan, puxando-o para mais perto. Ele a prensou contra a parede, a língua explorando a dela com uma urgência que a deixou sem fôlego.
O corredor começou a ficar movimentado, e Ryan, percebendo a necessidade de privacidade, a puxou pela mão em direção à porta mais próxima: o banheiro social do andar de cima.
Assim que a porta foi trancada, o silêncio do cômodo foi preenchido apenas pela respiração pesada dos dois. Ryan não perdeu tempo. Ele a pegou pela cintura e a sentou na bancada de mármore da pia.
— Você não tem ideia de quanto tempo eu quis fazer isso — ele murmurou entre beijos que desciam pelo pescoço dela.
— Ryan... a gente não devia — Julia tentou dizer, mas suas ações contradiziam suas palavras enquanto ela abria as pernas para que ele se encaixasse entre elas.
— Esquece o que deve ou não deve, Julia. Só por hoje, deixa o controle comigo.
Ela não resistiu. O toque dele era quente, as mãos grandes subindo pelas suas coxas, fazendo sua pele formigar. Julia sentiu uma onda de audácia que nunca experimentara antes. Ela envolveu as pernas na cintura dele, puxando-o para um beijo ainda mais profundo, mais faminto.
Ryan soltou um gemido baixo, a mão subindo para a nuca dela, os dedos se enroscando em seus cabelos. Ele a ergueu da bancada e, com um movimento ágil, sentou-se na tampa fechada do vaso sanitário, trazendo-a para o seu colo. Julia agora estava acima dele, com as mãos apoiadas em seus ombros largos.
— Você é uma caixinha de surpresas — ele disse, a voz rouca, olhando-a com uma intensidade que a fez estremecer.
— Você me provoca, Ryan — ela respondeu, recuperando um pouco da sua voz, embora ainda estivesse ofegante. — Você gosta de testar meus limites, não gosta?
— Eu gosto de ver você perder o juízo — ele admitiu, as mãos descendo para a curva do quadril dela. — Porque, quando você perde o juízo, você é a coisa mais real que eu já vi.
O clima esquentou de forma irreversível. Os beijos tornaram-se mais urgentes, as mãos explorando territórios novos por baixo das roupas. Julia sentia o coração dele batendo contra o seu peito, um ritmo frenético que espelhava o dela. Naquele pequeno espaço, entre o luxo do mármore e a penumbra, a menina educada e o garoto rebelde haviam desaparecido, dando lugar a uma conexão crua e inegável.
— Julia — ele chamou, a voz falhando enquanto ela mordia levemente o lábio inferior dele. — Se a gente não parar agora... eu não vou conseguir parar depois.
Ela olhou nos olhos dele, vendo a vulnerabilidade que ele raramente mostrava. Havia desejo, sim, mas havia também uma curiosidade genuína, um reconhecimento de que aquilo era diferente de todas as outras garotas com quem ele já estivera.
— Quem disse que eu quero que você pare? — ela sussurrou, desafiando-o pela última vez naquela noite.
Ryan sorriu, um sorriso que não era de conquista, mas de rendição. Ele a puxou para mais um beijo, selando um pacto silencioso de que, a partir daquela noite, nada na escola — ou na vida deles — seria organizado e previsível como antes. O caos havia finalmente encontrado o controle, e nenhum dos dois parecia querer ser resgatado.
