
amor
Fandom: GL
Criado: 26/08/2026
Tags
O Silêncio sob as Lentes de Vidro
A penumbra do dormitório 402 era cortada apenas pelo brilho gélido da lua que atravessava a fresta da cortina. O relógio digital na mesa de cabeceira de Celina marcava 01:12 da manhã. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da respiração contida de Celina, que estava sentada na poltrona de couro, com os braços cruzados e a postura impecável, apesar da hora. Ela não tinha pregado o olho. A preocupação, misturada a uma irritação latente que fervia em seu sangue alfa, a mantinha em alerta máximo.
O som da chave girando na fechadura foi quase imperceptível para ouvidos comuns, mas para Celina, soou como um tiro.
A porta rangeu levemente e uma silhueta esguia e cambaleante deslizou para dentro. Lucy tentava ser invisível, um hábito que carregava como uma segunda pele. Ela não acendeu a luz. Seus passos eram calculados, mas o leve arrastar do pé esquerdo denunciava que algo estava errado.
O estalo do interruptor ecoou no quarto, inundando o ambiente com uma luz amarela e súbita. Lucy estacou, fechando os olhos com força.
— Uma da manhã, Lucy. — A voz de Celina era um chicote, fria e cortante.
Lucy não respondeu de imediato. Ela abriu os olhos devagar, ajustando os óculos de aro fino que estavam levemente tortos em seu rosto pálido. O vidro da lente esquerda tinha uma pequena rachadura na extremidade. Ela não olhou para Celina; seus olhos estavam fixos no tapete.
— Eu perdi a hora — murmurou Lucy, a voz rouca e desprovida de qualquer emoção.
Celina levantou-se da poltrona. A diferença de dois anos entre elas parecia uma eternidade naquele momento. Celina emanava a autoridade natural de uma alfa que dominava não apenas as notas da academia, mas também o espaço ao seu redor. Ela caminhou até Lucy, cada passo ressoando como uma sentença.
Quando chegou perto o suficiente para que seus aromas se misturassem — o cheiro de sândalo e autoridade de Celina contra o cheiro metálico de sangue e o odor acre de rua de Lucy —, Celina sentiu seu estômago revirar.
— Olha para mim — ordenou Celina.
Lucy continuou imóvel, os ombros tensos, as mãos escondidas nos bolsos do moletom surrado.
— Lucy, eu disse para olhar para mim! — O tom de Celina subiu, a dominância alfa vibrando em suas cordas vocais.
Lentamente, a garota de dezesseis anos levantou o rosto. Celina soltou um suspiro audível, uma mistura de choque e fúria. O nariz de Lucy ainda sangrava levemente, o líquido carmesim escorrendo pelo lábio superior. Havia um corte profundo na sobrancelha e, o que mais incomodou Celina: hematomas arroxeados que subiam pela lateral do pescoço, desaparecendo sob a gola da camisa.
— Outra briga? — Celina perguntou, a voz tremendo de raiva contida. — De novo, Lucy? Você não presta atenção em uma única aula, você dorme o dia inteiro, e agora isso? Você quer ser expulsa? Quer acabar na rua?
— Não é da sua conta — cuspiu Lucy, tentando desviar o corpo para passar por Celina.
Celina, porém, foi mais rápida. Ela segurou o braço de Lucy com firmeza, impedindo-a de avançar. O efeito foi instantâneo e violento. Lucy deu um solavanco para trás, os olhos arregalados em um pânico súbito, a respiração tornando-se errática.
— Não me toca! — gritou Lucy, a voz quebrando. — Eu já disse para nunca me tocar!
Celina recuou um passo, surpresa pela intensidade da reação. Ela sabia que Lucy odiava o toque, atribuía isso ao temperamento difícil da garota, à sua rebeldia adolescente. Mas havia algo no fundo daqueles olhos castanhos, atrás das lentes de aro fino, que não era apenas raiva. Era terror. Um terror ancestral que Celina não conseguia compreender totalmente.
— Eu estou tentando ajudar você, sua idiota! — Celina rebateu, tentando esconder a preocupação sob a camada de brava impaciência. — Você divide este quarto comigo. Se você se meter em problemas, eu me meto em problemas. Eu tenho um futuro, Lucy. Eu tenho notas para manter, uma reputação...
— Então peça para me trocarem de quarto — disse Lucy, recuperando a máscara de indiferença, embora suas mãos ainda tremessem. — Eu nunca pedi para você se importar.
— Alguém tem que se importar! — Celina deu um passo à frente, fechando o espaço entre elas novamente, mas desta vez mantendo as mãos visíveis e longe do corpo da outra. — Olhe o seu estado. Você está se destruindo. Por que você faz isso? Por que toda noite você volta parecendo que passou por um moedor de carne?
Lucy soltou uma risada seca, sem humor. Ela caminhou até o espelho da cômoda e observou o próprio reflexo. Ajeitou os óculos, vendo o sangue seco em seu rosto. Ela odiava aquele rosto. Odiava o corpo que habitava.
— Às vezes, a dor do lado de fora é melhor do que a que fica guardada — sussurrou Lucy, tão baixo que Celina quase não ouviu.
— O que você disse? — Celina se aproximou, sua expressão suavizando-se por apenas um segundo antes de endurecer novamente. — Lucy, se alguém está te perseguindo, se alguém na escola...
— Ninguém na escola consegue me tocar se eu não quiser — interrompeu Lucy, voltando-se para Celina com um olhar gélido. — Eu sou boa nisso, Celina. Eu sou ótima em brigar. É a única coisa que eu faço bem, não é? Já que eu sou um fracasso em todo o resto.
— Você não é um fracasso — disse Celina, a voz mais baixa, mas ainda carregada de uma possessividade protetora. — Você é inteligente, eu vejo como você resolve aqueles problemas de física quando acha que ninguém está olhando. Mas você prefere fingir que não liga. Você prefere dormir nas aulas e se deixar sangrar em becos.
— Você não sabe de nada — Lucy sentiu a garganta apertar.
As imagens do passado, do pai e do irmão, das mãos que deveriam proteger e que apenas destruíram, passaram como flashes em sua mente. O segredo queimava em seu peito, uma ferida que nunca cicatrizava, mas que ela nunca deixaria ninguém ver. Falar significava tornar real. Falar significava que ela ainda era aquela criança indefesa.
— Eu sei que você está sofrendo — insistiu Celina, dando mais um passo. — E eu odeio ver você assim. Eu sou sua colega de quarto, Lucy. Eu sou... eu sou responsável por você aqui dentro.
— Você não é minha dona — Lucy rosnou, a defensividade alfa subindo para protegê-la.
— Não sou sua dona, mas você é minha — Celina afirmou, a voz soando profunda e territorial. — Pelo menos enquanto estiver sob este teto. Eu não vou deixar você sair amanhã se não me deixar cuidar desses ferimentos agora.
Lucy abriu a boca para protestar, mas a exaustão finalmente a atingiu. Suas pernas fraquejaram e ela se sentou na beira da cama, deixando os ombros caírem. O peso do mundo, e de tudo o que ela escondia, parecia esmagador naquela madrugada.
Celina, percebendo a rendição, foi até o banheiro e voltou com um kit de primeiros socorros. Ela se ajoelhou entre as pernas de Lucy, mantendo uma distância respeitosa para não desencadear outro ataque de pânico.
— Tire os óculos — pediu Celina, suavemente.
Lucy hesitou. Os óculos eram sua barreira, seu escudo. Sem eles, ela se sentia exposta. Mas, sob o olhar intenso e determinado de Celina, ela cedeu. Retirou o aro fino e o colocou sobre o criado-mudo.
Celina começou a limpar o sangue no nariz de Lucy com um algodão embebido em antisséptico. Lucy estremeceu, fechando os olhos com força.
— Calma — murmurou Celina. — Eu não vou te machucar.
— Todo mundo diz isso — Lucy respondeu, a voz falhando.
Celina parou o movimento por um segundo, observando a expressão de dor no rosto da garota mais nova. Ela sentiu uma vontade avassaladora de abraçá-la, de protegê-la de tudo o que a fazia ter tanto medo de um simples toque. Mas ela sabia que, com Lucy, o caminho era longo.
— Eu não sou todo mundo — Celina disse com firmeza. — Eu sou a Celina. E eu não quebro minhas promessas.
Ela continuou o trabalho, limpando o corte na sobrancelha e, com movimentos quase etéreos, passou o algodão pelo pescoço de Lucy, onde os hematomas eram mais escuros. Ela notou que as marcas não pareciam apenas de socos; algumas pareciam marcas de dedos, pressões antigas e novas que contavam uma história de silenciamento. A raiva de Celina mudou de alvo. Não era mais raiva de Lucy, mas de quem quer que tivesse causado aquilo, ou do que quer que Lucy estivesse tentando esconder através daquelas brigas de rua.
— Por que você não fala comigo, Lucy? — Celina perguntou, sua voz agora desprovida de qualquer dureza. — Por que guarda tudo isso?
— Porque palavras não mudam o que aconteceu — Lucy abriu os olhos, encarando Celina. — E elas não impedem que aconteça de novo.
— Eu impediria — Celina declarou, a possessividade alfa brilhando em seus olhos. — Se você me deixasse entrar, eu juro que ninguém nunca mais encostaria um dedo em você sem pagar o preço.
Lucy sentiu um calor estranho no peito. Era perigoso. Confiar era perigoso. Mas ali, sob a luz suave do quarto, com Celina cuidando dela com uma paciência que ela nunca viu a alfa ter com mais ninguém, a armadura de Lucy começou a rachar.
— Você é muito irritante — murmurou Lucy, tentando esconder a emoção.
— E você é teimosa, briguenta e precisa estudar mais — rebateu Celina com um meio sorriso, terminando de colocar um curativo na sobrancelha de Lucy. — Mas você é minha teimosa.
Celina guardou o material de limpeza, mas não se levantou imediatamente. Ela permaneceu ali, perto o suficiente para sentir o calor do corpo de Lucy.
— Prometa-me uma coisa — Celina disse, olhando nos olhos dela. — Sem brigas amanhã. Você vai para a aula, vai sentar e vai tentar não dormir. E se você sentir que vai explodir... você vem falar comigo. Não com os seus punhos.
Lucy desviou o olhar, pegando seus óculos de volta e colocando-os. A barreira estava de volta, mas não parecia tão intransponível quanto antes.
— Vou tentar — foi tudo o que Lucy disse.
— Ótimo — Celina levantou-se e caminhou até sua própria cama. — Agora durma. Eu vou estar bem aqui.
Lucy deitou-se, puxando o cobertor até o queixo. O silêncio voltou a reinar no dormitório, mas o clima tinha mudado. A tensão agressiva tinha dado lugar a uma vigília silenciosa.
— Celina? — Lucy chamou, sua voz quase um sussurro na escuridão.
— Sim?
— Obrigada.
Celina sorriu no escuro, um sorriso que ninguém mais veria.
— Durma, Lucy. Amanhã teremos um longo dia.
Lucy fechou os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, o peso em seu peito parecia um pouco mais leve. Ela ainda tinha seus segredos, ainda tinha suas cicatrizes invisíveis e o trauma que a impedia de respirar às vezes. Mas, enquanto ouvia a respiração tranquila de Celina do outro lado do quarto, ela sentiu que, talvez, apenas talvez, não precisasse lutar todas as batalhas sozinha.
E para Celina, a determinação só crescia. Ela descobriria o que atormentava Lucy. Ela protegeria aquela alfa quebrada, mesmo que tivesse que enfrentar o mundo inteiro para isso. Porque Lucy pertencia ao seu espaço, à sua vida, e Celina nunca deixava o que era dela ser destruído.
