
Sereia
Fandom: Sereias
Criado: 26/08/2026
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O Canto Acuado na Rede de Espinhos
O balanço do navio "Coração de Ferro" nunca pareceu tão violento quanto naquele fim de tarde, quando o sol se punha em tons de sangue sobre o horizonte. O convés, geralmente barulhento com a rotina bruta dos marujos, transformou-se em um palco de frenesi absoluto. No centro de um círculo de homens suados e barbudos, algo brilhava com a pureza da lua, contrastando com a madeira podre e o cheiro de rum e pólvora.
Tatsuyo estava presa. A rede de cordas grossas e ásperas cortava sua pele parda e se enroscava dolorosamente em sua cauda de escamas brancas, que reluziam como pérolas sob a luz crepuscular. As pequenas conchas e pérolas tecidas em seu cabelo preto ondulado tilintavam desesperadamente enquanto ela se debatia, um som cristalino que parecia um insulto aos gritos roucos dos piratas.
— Olhem o que o destino jogou no nosso colo! — gritou um dos homens, chutando o balde de iscas para o lado. — Uma sereia! Uma de verdade!
— Dizem que o fígado de uma dessas vale mais que um baú de ouro em Tortuga! — outro exclamou, aproximando-se com os olhos injetados de cobiça.
Tatsuyo soltou um som agudo, um choro que não era humano, mas que carregava toda a agonia de um animal acuado. Seus olhos pretos, grandes e úmidos de pavor, vagavam de rosto em rosto, encontrando apenas sorrisos desdentados e olhares carregados de uma malícia que ela, em sua inocência oceânica, mal conseguia compreender, mas que sentia vibrar no ar como eletricidade perigosa.
— Por favor... — ela murmurou em sua língua melodiosa, as mãos pequenas tentando afastar as cordas que a prendiam. — Me deixem... mar... voltar...
A resposta foi uma gargalhada coletiva. Os piratas estavam fora de controle. A visão da criatura mística, com os seios cobertos apenas por conchas brancas e a pele que parecia brilhar com luz própria, despertou neles o que havia de mais selvagem. Um deles, um homem corpulento com uma cicatriz que atravessava o nariz, estendeu a mão suja para tocar o rosto de Tatsuyo.
— Tão macia... — ele rosnou, a voz embargada pelo álcool. — Imagina o que dá pra fazer com uma coisinha dessas antes de vendê-la.
— Afastem-se, seus cães sarnentos! — Uma voz nova, mais clara e carregada de um sarcasmo perigoso, cortou o tumulto.
Kuro Hatake abriu caminho entre a multidão de homens. Ele não era o capitão, mas sua presença era impossível de ignorar. Com 1,80 de altura e um porte físico que denunciava horas de esforço bruto no mar, ele caminhava com uma confiança irritante. Seu cabelo branco e curto estava bagunçado pelo vento, e seus olhos castanhos escuros brilhavam com uma curiosidade predatória. A camisa de linho aberta revelava o abdômen definido e a pele branca que, ao contrário da maioria dos piratas, parecia bem cuidada, apesar das cicatrizes de batalha.
Os homens resmungaram, mas abriram espaço. Kuro parou diante da rede, cruzando os braços fortes sobre o peito musculoso. Ele inclinou a cabeça, observando Tatsuyo de cima a baixo. Um sorriso de canto de lábio surgiu em seu rosto, um misto de diversão e desejo descarado.
— Ora, ora... — Kuro assobiou baixo. — Que peixinho mais bonito nós pescamos hoje.
Tatsuyo encolheu-se o máximo que pôde, sua cauda branca batendo debilmente contra a madeira do convés. Ela olhou para Kuro, e por um segundo, a beleza dele a confundiu. Ele não parecia tão sujo ou grotesco quanto os outros, mas o olhar que ele lançava sobre seu corpo era tão pesado quanto as correntes de uma âncora.
— Você fala, gracinha? — perguntou Kuro, agachando-se para ficar na altura dela.
Tatsuyo tremeu, as pérolas em seu cabelo batendo umas nas outras.
— Por... favor... dói... — ela sussurrou, apontando para a rede que apertava suas barbatanas.
Kuro soltou uma risada curta e anasalada, o tipo de som de quem está achando a situação a melhor piada do mundo.
— Dói, é? Imagino que sim. O mundo dos homens não é tão gentil quanto o seu recife de coral, boneca. — Ele estendeu a mão, e Tatsuyo fechou os olhos com força, esperando um golpe.
Em vez disso, ela sentiu os dedos de Kuro tocarem uma das pérolas presas em seu cabelo. Ele a girou entre o polegar e o indicador, observando a reação da sereia.
— Ei, Kuro! — interrompeu o pirata da cicatriz, dando um passo à frente. — Não comece com suas gracinhas. Nós pegamos, nós decidimos o que fazer. O capitão ainda não viu, e até lá, a gente pode se divertir um pouco, não pode?
A atmosfera mudou instantaneamente. A luxúria dos homens estava chegando ao ponto de ebulição. Um deles tentou puxar a borda da rede, fazendo Tatsuyo soltar um grito de dor e medo.
— Não toquem! — ela implorou, as lágrimas começando a rolar por suas bochechas pardas.
Kuro levantou-se lentamente. O sorriso engraçadinho ainda estava lá, mas havia um brilho perigoso em seus olhos castanhos.
— Calma lá, brutamontes — disse Kuro, colocando-se entre a sereia e o resto da tripulação. — Vocês sabem como funciona. Se estragarem a mercadoria, o capitão corta a mão de quem começou. E olhem para ela... ela é delicada. Um toque bruto de vocês e ela quebra.
— E você vai fazer o quê? Ficar com ela só pra você? — desafiou o pirata.
Kuro deu de ombros, exibindo os músculos dos ombros e do peito de forma ostensiva.
— Talvez. Eu sempre tive curiosidade de saber se sereias são tão boas de cama quanto dizem as lendas. Ou se o gosto é de peixe. — Ele piscou para Tatsuyo, que não entendeu a conotação, mas sentiu o rosto esquentar sob o escrutínio dele.
— Ela é de todos nós! — gritou outro marujo, e o grupo começou a avançar, a ganância superando o medo da hierarquia.
Tatsuyo entrou em pânico total. Ela começou a se debater violentamente na rede, o coração batendo como o de um pássaro preso em uma gaiola. As conchas em seus seios ameaçavam se soltar com o movimento brusco, e o desespero em seus olhos pretos era absoluto. Ela não conhecia a maldade dos homens, mas o cheiro de suor, rum e a agressividade física eram sinais universais de perigo.
— Parem! — Tatsuyo gritou, sua voz ecoando com uma nota mística que fez alguns homens pararem por um segundo. — Eu não... eu não fiz nada!
Kuro percebeu que a situação ia sair de controle rápido. Se aqueles homens pulassem sobre ela, Tatsuyo não duraria dez minutos. E, embora ele fosse um pirata e estivesse longe de ser um santo, ele tinha seus próprios planos para a "peixinha".
— Já chega! — Kuro rugiu, sacando a adaga da cintura e cravando-a no mastro principal com um baque surdo que silenciou o convés. — O primeiro que der mais um passo vai descobrir se eu sou tão engraçadinho quanto pareço.
Os piratas hesitaram. Kuro era conhecido por ser o "palhaço" do navio, sempre com uma piada ou um comentário atrevido, mas também era um dos combatentes mais ágeis e letais da tripulação.
— Eu vou levá-la para o porão de carga — anunciou Kuro, voltando a suavizar o tom, embora sua mão permanecesse perto do cabo da adaga. — Vou limpá-la e garantir que ela não morra de desidratação antes do capitão decidir o preço. Se alguém tentar entrar lá sem a minha permissão, vai virar isca de tubarão antes do amanhecer. Entendido?
Houve resmungos de insatisfação, mas ninguém se atreveu a desafiá-lo diretamente. Kuro voltou-se para Tatsuyo. Ele se inclinou, e dessa vez, seus braços fortes passaram por baixo do corpo dela, levantando-a junto com a rede.
Tatsuyo soltou um arquejo, as mãos agarrando instintivamente os ombros de Kuro. A pele dele era quente, muito mais quente do que a água do mar, e o cheiro dele — uma mistura de sal e algo amadeirado — a atingiu em cheio.
— Calma, boneca — sussurrou Kuro perto do ouvido dela, fazendo-a estremecer. — Você está segura comigo. Por enquanto.
Ele começou a caminhar em direção às escadas que levavam ao convés inferior. Tatsuyo, apavorada, escondeu o rosto no pescoço dele, sentindo os músculos do peito de Kuro se moverem a cada passo. Ela não sabia para onde ele a levava, e a ideia de estar sozinha com aquele homem de cabelos brancos e olhar faminto era quase tão aterrorizante quanto a multidão lá fora.
Enquanto desciam para a escuridão do porão, Tatsuyo soluçou baixinho.
— Você vai me comer? — ela perguntou, a voz trêmula de inocência pura.
Kuro parou no meio da escada, surpreso pela pergunta. Ele olhou para a criatura em seus braços, vendo as pérolas presas no cabelo preto e a vulnerabilidade em seus olhos pretos. Um pensamento muito diferente do que ela imaginava passou pela mente dele, e seu sorriso tornou-se predatório e divertido ao mesmo tempo.
— Comer você? — Ele riu, uma risada baixa que vibrou contra o corpo dela. — Bem, gracinha, isso depende muito do que você entende por "comer". Mas prometo que, se eu fizer isso, você vai gostar muito mais do que imagina.
Tatsuyo não entendeu a piada, mas o tom da voz dele a fez se encolher ainda mais. O porão estava úmido e escuro, e quando Kuro a depositou sobre uma pilha de sacos de juta macios, ela sentiu que seu destino estava selado.
— Fique quietinha aí — ordenou Kuro, afastando a rede com a ponta da adaga, mas mantendo Tatsuyo sob seu olhar constante. — Vou buscar água. Se você tentar fugir, o que é impossível já que você não tem pernas, aqueles caras lá em cima vão te pegar. E eu garanto, eles não são tão bonitos quanto eu.
Ele deu um tapinha leve na cauda branca dela antes de se levantar. Tatsuyo ficou ali, tremendo, observando o pirata se afastar na penumbra. Ela estava no ventre do monstro de madeira, e o homem que a "salvara" parecia ter intenções que ela mal começava a vislumbrar, mas que faziam seu coração de sereia disparar de um jeito que nunca havia acontecido nas profundezas do oceano.
— Por favor, mar... — ela sussurrou para a escuridão, mas a única resposta foi o som das ondas batendo contra o casco do navio, lembrando-a de que sua casa nunca pareceu tão distante.
