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O dia que vc me deixou

Fandom: Byler

Criado: 26/08/2026

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DramaAngústiaDor/ConfortoFantasiaAçãoHorrorTragédiaMorte do ProtagonistaHorror CorporalCenário Canônico
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O Último Sacrifício do Mago

O ar em Hawkins estava pesado, carregado com o cheiro de ozônio e terra úmida. O Mundo Invertido não era mais apenas uma dimensão paralela; ele estava sangrando para a realidade, rasgando o céu em tons de roxo e vermelho. No centro do caos, dentro da mansão Creel que agora parecia pulsar como um coração doente, Will Byers sentia o frio familiar subindo por sua espinha.

Não era apenas o frio. Eram vozes. Uma voz específica, arrastada e gutural, que ecoava dentro de seu crânio como um prego martelando o metal.

— Will, você está me ouvindo? — A voz de Mike Wheeler o trouxe de volta, mas apenas por um segundo.

Mike estava ali, a poucos centímetros dele. O líder do grupo, o garoto que sempre tinha um plano, o garoto que Will amava em segredo desde que eram crianças sentadas no tapete do porão. Mike segurava os ombros de Will, os olhos castanhos transbordando uma preocupação que quase fazia Will confessar tudo ali mesmo. Mas o segredo que Will guardava era pesado demais para ser dito em voz alta.

— Eu estou bem, Mike — mentiu Will, embora sua voz soasse distante.

De repente, os olhos de Will reviraram, revelando apenas o branco. Seu corpo travou, erguendo-se alguns centímetros do chão. A conexão que ele tentara esconder, o vínculo que o prendia a Vecna desde os doze anos, havia se tornado uma ponte de mão dupla.

Ele sabe... — a voz de Will saiu distorcida, sobreposta pela de Henry Creel. — Ele sabe o que você esconde, Pequeno Mago. Ele sabe que seu coração bate por quem nunca poderá retribuir.

— Will! Solta ele! — gritou Mike, tentando segurar as pernas do amigo, mas uma onda de choque invisível o jogou para trás.

Jane surgiu das sombras, as mãos estendidas, o nariz já sangrando pelo esforço prévio. Seus olhos estavam fixos na figura invisível que torturava Will.

— Deixe ele em paz! — Jane rugiu, e a força de sua telecinese colidiu com a barreira de Vecna.

A batalha começou em uma escala que Hawkins nunca vira. Jane lutava com cada fibra de seu ser, arremessando destroços e canalizando sua raiva contra a mente de Vecna. Ao redor deles, o resto do grupo — Dustin, Lucas, Nancy e Steve — lutavam contra os morcegos e as vinhas que tentavam invadir o local. Mas Mike não conseguia se mexer. Ele estava paralisado, olhando para Will, cujo rosto estava contorcido em agonia.

— Mike, me escuta! — Will gritou, recuperando o controle por um breve momento enquanto Jane distraía o monstro.

— Will, aguenta firme! A Jane vai tirar você disso! — Mike gritou de volta, as lágrimas começando a rolar.

— Não se preocupe comigo, Mike. Eu sei o que tenho que fazer — Will disse, sua voz agora calma, terrivelmente calma. — Eu vou ajudar ela. Eu sou a âncora dele. Se eu puxar, ele cai.

— O que você quer dizer com isso? — Mike deu um passo à frente, mas o chão entre eles rachou.

Will fechou os olhos, concentrando-se na dor em sua nuca. Ele sentia Vecna. Ele sentia a podridão, a solidão e o ódio. Ele usou o vínculo como uma corda, amarrando sua própria mente à essência do monstro, impedindo que Vecna se teletransportasse ou se escondesse nas sombras da mente de Jane.

— Jane! — Will gritou, a voz falhando. — Agora! Fecha o portal e mata ele! Não para, não importa o que aconteça!

Jane hesitou por um milésimo de segundo, sentindo a conexão profunda entre Will e a criatura. Ela sabia o que aquilo significava. Mas o olhar de Will era de súplica. Era um sacrifício que ele já aceitara muito antes de entrarem naquela casa.

— Eu sinto muito, Will — sussurrou Jane, antes de soltar um grito primordial.

O grupo, seguindo o plano de Nancy, começou a lançar coquetéis molotov e usar o lança-chamas contra o corpo físico de Vecna que estava preso pelas vinhas. O fogo subiu, iluminando o céu escuro com um laranja infernal. Jane concentrou toda a sua energia em um único ponto, esmagando a consciência de Henry Creel contra a parede da realidade.

Com um estalo seco e um grito que pareceu rasgar o tecido do universo, Vecna se desintegrou. A conexão foi cortada.

Jane caiu de joelhos, exausta, mas viva. O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante que o barulho da batalha.

— Will? — Mike chamou, a voz trêmula.

Will Byers caiu no chão como uma boneca de pano. Mike correu até ele, deslizando nos joelhos e puxando a cabeça do amigo para o seu colo.

— Will! Ei, olha para mim. Acabou. Nós conseguimos! — Mike tentava sorrir, mas o sorriso morreu quando ele viu o rosto de Will.

Will começou a tossir violentamente. O sangue que saía de sua boca não era vermelho vivo; era escuro, quase preto. Sob sua pele clara, veias negras começaram a subir pelo pescoço, ramificando-se como as vinhas do Mundo Invertido. Era o efeito colateral da morte de Vecna. Eles eram um só. O que matava um, destruía o outro.

— Mike... — Will sussurrou, a voz apenas um sopro.

— Não fala. A gente vai te levar para o hospital. A Jane pode... Jane, ajuda ele! — Mike olhou desesperado para a namorada, mas Jane apenas cobriu a boca com as mãos, chorando silenciosamente. Ela sabia que não havia poder no mundo que pudesse curar aquilo.

— Mike... está tudo bem — Will disse, e uma lágrima solitária limpou um rastro na fuligem de seu rosto. — Eu já estava... preparado.

— Preparado para quê? Do que você está falando? — Mike soluçava abertamente agora, apertando a mão de Will contra o peito. — Você é o coração, Will! O grupo não funciona sem você! Eu não funciono sem você!

Will sorriu, um sorriso triste e doce, enquanto sua visão começava a escurecer. As veias negras agora cobriam metade de seu rosto, transformando sua beleza juvenil em algo marcado pela tragédia.

— Você vai ficar bem... — Will tossiu mais sangue, sentindo a vida esvair-se. — Tem uma coisa... no porão. Embaixo da mesa de D&D.

— Will, não me deixa. Por favor, não me deixa — Mike implorou, encostando a testa na de Will.

— Eu te amo, Mike. Sempre foi você.

A mão de Will, que segurava a de Mike com tanta força, relaxou. Seus olhos, antes cheios de uma sabedoria dolorosa, ficaram fixos e vazios. O Mago de Hawkins havia partido, levando consigo a escuridão que o assombrara por anos.

O grito de Mike ecoou pelas ruínas da mansão Creel, um som de pura agonia que nem mesmo Jane conseguiu consolar.


Dias depois, o funeral foi pequeno. Hawkins ainda estava tentando entender o "terremoto" que destruíra metade da cidade. Para o mundo, Will Byers era uma vítima do desastre. Para seus amigos, ele era o herói que ninguém conheceria.

Mike não conseguia ficar na presença dos outros. Ele se sentia um fantasma caminhando pela própria vida. Jane tentara falar com ele, mas o silêncio entre eles era um abismo. Mike não conseguia olhar para ela sem lembrar do momento em que a luz saiu dos olhos de Will.

Ele desceu as escadas do porão de sua casa. O lugar parecia diferente agora. O cheiro de mofo e poeira, que antes trazia conforto, agora parecia sufocante. Ele se aproximou da velha mesa de madeira onde tantas campanhas de Dungeons & Dragons haviam sido travadas.

Lá, colado com fita adesiva na parte de baixo da madeira, havia um envelope pardo. Tinha o nome dele escrito com a letra trêmula, mas cuidadosa, de Will.

Mike sentou-se na cadeira de mestre e, com as mãos tremendo, abriu a carta.

"Querido Mike,

Se você está lendo isso, significa que eu tive coragem o suficiente para fazer o que precisava ser feito, ou que as coisas simplesmente aconteceram como eu temia. De qualquer forma, eu não estou mais aí para te ver ler isso, e talvez seja melhor assim, porque eu sou um covarde quando se trata de falar o que sinto.

Eu passei muito tempo com medo, Mike. Medo do Mundo Invertido, medo do Vecna, mas, acima de tudo, medo de te perder. Eu sempre soube que havia algo diferente em mim. Não era apenas o que o Devorador de Mentes fez comigo. Era algo que eu sentia muito antes disso, naquelas tardes em que a gente jogava e eu só queria que o tempo parasse para que eu pudesse ficar ali, olhando para você.

Eu sei que você ama a Jane. E ela é incrível. Ela é a heroína que o mundo precisa. Mas, para mim, você sempre foi o meu herói. Você foi a pessoa que me procurou quando eu sumi. Você foi a pessoa que não desistiu de mim quando eu estava possuído. Você foi o meu 'paladino'.

Dói saber que eu nunca vou ver você crescer, que nunca vamos ter aquela vida que eu imaginava nos meus desenhos. Mas eu morreria mil vezes se isso significasse que você estaria seguro. Por favor, não se culpe. E não deixe o grupo se separar. Lucas e Dustin precisam de você. A Jane precisa de você.

Obrigado por ser o meu melhor amigo. E obrigado por me fazer sentir, mesmo que por pouco tempo, que eu não estava sozinho no escuro.

Com amor, do seu Mago,

Will Byers."

Mike abraçou o papel contra o peito, soluçando tão alto que o som ecoou pelas paredes vazias do porão. Ele olhou para o tabuleiro de D&D, para a miniatura do Will, o Sábio, que ainda estava posicionada no centro do mapa.

— Eu também te amo, Will — sussurrou Mike para o vazio. — Eu sempre vou te amar.

Mas o porão não respondeu. Apenas o silêncio de uma promessa que chegou tarde demais preencheu o lugar onde a infância deles havia morrido.

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