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Sla

Fandom: Byler

Criado: 26/08/2026

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Pós-ApocalípticoAngústiaDramaTragédiaMorte de PersonagemMorte do ProtagonistaTentativa de SuicídioHorror de SobrevivênciaFicção CientíficaHorror Corporal
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O Último Traço de Cor no Cinza

O mundo não acabou com um estrondo, como os quadrinhos que eles liam na infância sugeriam. Acabou com o cheiro de ozônio, terra molhada e o som constante de passos arrastados sobre o asfalto quebrado. Hawkins não era mais uma cidade; era um cemitério a céu aberto, onde o Mundo Invertido finalmente havia vomitado suas entranhas sobre a realidade.

Mike Wheeler caminhava à frente, a mão apertando o cabo de uma espingarda improvisada com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele era o eixo que mantinha o que restava do grupo unido. Dustin cuidava da logística, Lucas era o vigia, mas Mike... Mike era a vontade pura. Ele se recusava a aceitar que eles perderiam.

— Mantenham a formação — ordenou Mike, sua voz rouca pela falta de sono e pelo ar carregado de cinzas. — Estamos a menos de um quilômetro do abrigo subterrâneo. Se chegarmos lá, estaremos seguros.

Atrás dele, Will Byers tropeçava. Ele era a sombra do menino que um dia pintava dragões e heróis. Sua pele estava pálida, quase translúcida, e ele mantinha o braço esquerdo escondido sob a manga rasgada da jaqueta de flanela.

— Você está bem, Will? — perguntou Mike, parando por um segundo e olhando por cima do ombro. O olhar de Mike suavizou instantaneamente, uma rachadura na armadura de líder que ele forçara a si mesmo a usar.

Will forçou um sorriso, mas seus lábios estavam secos e rachados.

— Estou... só cansado, Mike. A caminhada está longa.

— Quase lá, parceiro — disse Mike, aproximando-se e apertando brevemente o ombro de Will. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Prometi, lembra?

Will assentiu, mas seus olhos, antes cheios de uma gentileza infinita, agora carregavam um brilho turvo, uma névoa que não pertencia a este mundo. Ele sentia o frio subindo pelas veias, uma queimação gelada que começara com uma mordida descuidada três horas atrás, quando eles atravessavam o bosque. Ele não contou. Ele sabia o que acontecia com quem contava.

Eles se refugiaram em uma antiga oficina mecânica para passar as últimas horas antes do pôr do sol. O lugar cheirava a óleo velho e ferrugem. Enquanto Dustin e Lucas montavam guarda nas janelas reforçadas com tábuas, Mike sentou-se ao lado de Will em um canto escuro.

— Quando isso acabar — começou Mike, a voz baixa, quase um segredo —, a gente vai para o Maine. Ou para a Califórnia. Para algum lugar onde o céu ainda seja azul, Will.

Will sentiu um espasmo no braço infectado. A fome estava começando — não uma fome de comida, mas um vazio voraz que clamava por algo que ele não queria nomear.

— Mike... — a voz de Will falhou. — Você se lembra daquela campanha de D&D? Onde o meu personagem se sacrificou para que o grupo pudesse atravessar a ponte?

— Will, não começa com isso — Mike franziu o cenho, a preocupação vincando sua testa. — Isso não é um jogo. E ninguém vai se sacrificar.

— Eu só quero dizer... — Will tossiu, um som úmido e doentio que ele tentou abafar na gola da camisa. — Que você é um ótimo líder. O melhor que a gente poderia ter. Você nos trouxe até aqui.

— Nós chegamos aqui juntos — corrigiu Mike, segurando a mão de Will.

A mão de Will estava gélida. Mike sentiu um calafrio, mas atribuiu ao frio da noite que caía.

— Eu vou verificar o perímetro com o Lucas — disse Mike, levantando-se relutante. — Tente dormir um pouco. Você precisa de forças para o último trecho.

Will observou Mike se afastar. O líder. O garoto que ele amou em silêncio durante toda a sua vida curta e trágica. Ele esperou até que as silhuetas de seus amigos fossem apenas sombras no fundo da oficina.

A dor explodiu em seu braço. Will puxou a manga e viu as veias negras subindo pelo pescoço. Ele sentia a consciência escorregar, o "Will" gentil e sensível sendo empurrado para um canto escuro de sua mente por um instinto selvagem e faminto. Ele começou a ouvir os sussurros do Devorador de Mentes, uma canção de ninar feita de estática e gritos.

Ele não podia ser um deles. Ele não podia machucar o Mike.

Com movimentos trêmulos, Will se arrastou para a pequena sala de ferramentas nos fundos da oficina. Ele fechou a porta silenciosamente. O trinco estava quebrado, mas serviria.

Lá dentro, entre chaves inglesas e latas de tinta vazias, ele encontrou o que procurava. Um revólver velho que Lucas havia achado dias atrás e que Will mantinha escondido para "emergências".

Ele se sentou no chão, as costas contra a parede fria. Sua visão estava falhando; o mundo estava se tornando tons de cinza e vermelho. Ele sentiu os dentes rangerem e um rosnado involuntário escapar de sua garganta.

— Sinto muito, Mike — sussurrou ele, as lágrimas finalmente caindo, quentes contra sua pele morta. — Eu não quero te esquecer.

Do outro lado da oficina, Mike parou de falar com Lucas. O silêncio da noite foi quebrado por um som que ele reconheceria em qualquer lugar: o choro abafado de Will. Mas havia algo mais. Um som de metal batendo contra metal.

— Will? — chamou Mike, o coração disparando.

— Mike, o que foi? — perguntou Dustin, aproximando-se.

— O Will. Ele sumiu do canto dele.

Eles correram em direção aos fundos da oficina. Mike chegou à porta da sala de ferramentas bem no momento em que um som seco e ensurdecedor ecoou pelo espaço confinado.

BANG.

O som pareceu reverberar para sempre nas paredes de metal.

— NÃO! — Mike gritou, chutando a porta com toda a força que tinha.

A porta se abriu com um estrondo. A lanterna de Dustin iluminou a cena, e o tempo pareceu congelar em um quadro de horror e angústia.

Will estava caído de lado. O revólver havia escapado de sua mão sem vida. O sangue que escorria não era mais o vermelho vivo e vibrante de um ser humano, mas um fluido escuro, quase preto, misturado com a infecção do Mundo Invertido.

Mike caiu de joelhos ao lado dele, ignorando o perigo, ignorando o cheiro de pólvora e morte. Ele pegou o corpo de Will nos braços, puxando-o contra o peito.

— Will! Will, olha para mim! — Mike implorou, sua voz quebrando em um soluço violento. — Por favor, acorda. Will!

Os olhos de Will estavam abertos, mas a luz neles havia se apagado. No entanto, por um breve segundo, antes que o rigor da morte se instalasse, a expressão de dor e fome havia desaparecido, substituída por uma calma triste.

Dustin cobriu a boca com a mão, caindo sentado no chão, enquanto Lucas desviava o olhar, as lágrimas correndo livremente pelo seu rosto endurecido pela guerra.

— Ele estava infectado — sussurrou Lucas, a voz trêmula. — Ele... ele se escondeu para não nos machucar.

Mike não ouvia. Ele apenas embalava o corpo de Will, balançando-se para frente e para trás no chão sujo de óleo. Ele tocou o rosto de Will, limpando um traço de sangue negro da bochecha do amigo.

— Você devia ter me contado — soluçou Mike, enterrando o rosto no pescoço frio de Will. — Eu teria dado um jeito. Eu sempre dou um jeito, Will... eu sou o líder, não sou? Eu deveria proteger você!

O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que Mike já experimentara. O apocalipse lá fora não importava mais. O abrigo, a salvação, a guerra contra os monstros... tudo parecia cinza e sem sentido.

— Mike — disse Dustin suavemente, colocando a mão no ombro do amigo. — Temos que ir. O barulho do tiro vai atrair... coisas.

Mike não se mexeu. Ele olhou para o rosto de Will, para o menino que ele amou desde o jardim de infância, o menino que ele buscou no Mundo Invertido, o menino que ele nunca teve a coragem de dizer o quanto significava para ele.

— Ele era o melhor de nós — disse Mike, sua voz agora vazia, desprovida de qualquer esperança. — E ele morreu sozinho porque achou que era um fardo.

Mike inclinou-se e beijou a testa gelada de Will. Foi um adeus que ele nunca planejou dar.

— Eu te amo, Will Byers — sussurrou ele, tão baixo que apenas os fantasmas daquela oficina puderam ouvir. — Eu sinto muito por ter chegado tarde demais.

Lá fora, o vento uivava, trazendo consigo os gritos das criaturas da noite. Mas dentro da pequena sala de ferramentas, o mundo já tinha acabado de verdade. O líder tinha perdido seu coração, e o resto da jornada seria apenas uma caminhada através das sombras, em um mundo que nunca mais teria cor.

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