
De inimigo a namorado
Fandom: Bts
Criado: 27/08/2026
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O Som do Silêncio e o Grito de Socorro
A luz do sol que entrava pelas frestas da persiana de metal parecia cortar os olhos de Namjoon como pequenas lâminas de vidro. Sua cabeça latejava em um ritmo frenético, uma consequência óbvia da mistura de uísque barato e do vazio em seu estômago. Ele tentou se sentar na cama, mas uma tontura aguda o fez recuar contra o travesseiro áspero.
Onde ele estava?
A última lembrança clara era o balcão de um bar escuro, o gosto amargo da bebida descendo pela garganta seca e a voz macia de Rayan, um homem que ele conhecera por acaso enquanto tentava afogar a mágoa de ter visto Jin — seu "namorado" de fachada e o homem que, infelizmente, ocupava seus pensamentos — beijando aquela modelo, Luna, no meio da pista de dança.
Namjoon olhou ao redor. O quarto era pequeno, bagunçado e cheirava a cigarro e mofo. Ele tentou se levantar novamente, sentindo o aperto desconfortável da cinta modeladora sob a camisa. Ele mal conseguia respirar. Nos últimos dias, a obsessão por perder peso e a pressão dos comentários maldosos na internet o fizeram apertar aquela cinta até o limite, ignorando a dor nas costelas.
— Rayan? — chamou ele, a voz saindo rouca e fraca.
Nenhuma resposta.
Namjoon tateou os bolsos da calça, buscando desesperadamente pelo celular. Nada. Ele revirou os lençóis, olhou debaixo da cama, mas seu aparelho havia sumido. O pânico começou a subir pelo seu peito, misturando-se à náusea. Ele caminhou até a porta e girou a maçaneta.
Trancada.
— Ei! Tem alguém aí? — Ele esmurrou a madeira, sentindo as mãos tremerem. — Rayan, abre essa porta! Isso não tem graça!
O silêncio do outro lado era absoluto, interrompido apenas pelo som abafado de uma televisão ligada em algum lugar distante da casa. Ele estava preso. O desespero o fez procurar qualquer coisa que pudesse ajudá-lo. Foi quando viu um tablet antigo sobre uma cômoda capenga. A tela estava rachada, mas, para sua sorte, não tinha senha e estava conectada a um Wi-Fi instável.
Ele não pensou duas vezes. Abriu o aplicativo de chamadas de emergência que sincronizava com sua conta pessoal. Seus dedos voaram para o número que ele mais odiava e, ao mesmo tempo, o que ele mais desejava que o protegesse.
Jin.
O toque chamou uma, duas, três vezes. Namjoon apertava o tablet contra o peito, as lágrimas começando a escorrer pelo rosto pálido.
— Atende, Jin... por favor, atende... — sussurrou ele, soluçando.
Do outro lado da cidade, no luxuoso apartamento que dividiam por obrigação da empresa, o celular de Seokjin vibrava sobre a mesa de centro. Jin, no entanto, não estava sozinho. Ele estava sentado no sofá, com Luna pendurada em seu pescoço, rindo de algo que ele acabara de dizer.
Jin olhou para a tela. O nome de Namjoon brilhava ali. Ele sentiu uma pontada de culpa, lembrando-se da briga horrível que tiveram na noite anterior, mas o orgulho e a presença da mulher ao seu lado falaram mais alto.
— Não vai atender? — perguntou Luna, passando os dedos pelo cabelo dele.
— É só o Namjoon — Jin respondeu, dando de ombros e virando o celular de cara para baixo. — Ele deve estar querendo reclamar de alguma coisa da dieta dele ou da agenda. Ele está impossível ultimamente, parece que vive na TPM.
— Deixa ele pra lá — Luna murmurou, aproximando o rosto do dele. — Foca em mim.
Jin sorriu, aquele sorriso de galã que ele usava para esconder o fato de que seu coração deu um solavanco quando viu o nome do líder no visor. Ele permitiu que Luna o beijasse, tentando ignorar a sensação incômoda de que algo estava errado. Ele gostava de Namjoon, estava começando a aceitar isso para si mesmo, mas a insegurança do outro e o jeito marrento o faziam querer revidar da pior forma: sendo o mulherengo que todos esperavam que ele fosse.
Enquanto isso, no quarto trancado, a chamada caiu na caixa postal.
Namjoon sentiu o mundo desabar. Ele jogou o tablet no chão, cobrindo o rosto com as mãos.
— Ele não atendeu... — Namjoon soluçou alto, o corpo tremendo violentamente. — Ele prefere ela. Ele sempre prefere qualquer uma a mim.
A falta de comida e a pressão da cinta começaram a cobrar o preço. A visão de Namjoon escureceu. Ele tentou respirar fundo, mas sentiu como se seus pulmões estivessem sendo esmagados. Ele caiu de joelhos, o suor frio escorrendo pela testa.
— Socorro... — ele tentou gritar, mas o som mal saiu de sua garganta.
Horas se passaram. Jin finalmente se despediu de Luna, sentindo um vazio estranho assim que a porta se fechou. Ele pegou o celular e viu que havia três chamadas perdidas de Namjoon e uma mensagem de texto de um número desconhecido que dizia apenas: "Perto do porto, galpão 4, ele está comigo".
O sangue de Jin gelou. Ele conhecia aquele tipo de mensagem. Rayan. Ele já tinha ouvido rumores sobre esse cara, um aproveitador que rondava ídolos em momentos de vulnerabilidade.
— Merda, Namjoon! O que você fez? — Jin gritou para o apartamento vazio, já correndo para pegar as chaves do carro.
Ele dirigiu como um louco pelas ruas de Seul. A preocupação agora sufocava qualquer resquício de raiva ou orgulho. Ele pensava em como Namjoon estava sensível ultimamente, em como ele o tratara mal, zombando de sua insegurança em vez de abraçá-lo. Jin sabia que Namjoon se escondia atrás daquela marra toda porque tinha medo de ser rejeitado. E Jin o rejeitara da pior forma possível.
Ao chegar ao endereço, Jin não esperou. Ele arrombou a porta principal da casa pequena e encontrou Rayan na sala, contando o dinheiro que provavelmente havia tirado da carteira de Namjoon.
— Onde ele está? — Jin rosnou, avançando sobre o homem com uma fúria que raramente mostrava.
— Calma, estrela de cinema — Rayan riu, mas parou ao ver o brilho assassino nos olhos de Jin. — Ele está no quarto. Ele é meio chato, não para de chorar.
Jin não perdeu tempo batendo no homem; ele apenas o empurrou contra a parede e correu para o corredor. Ele chutou a porta do quarto com toda a sua força até que a fechadura cedeu.
O que ele viu partiu seu coração em mil pedaços.
Namjoon estava caído no chão, encolhido em posição fetal. Ele estava pálido, quase azulado, e sua respiração era curta e ruidosa.
— Nam! Namjoon, olha para mim! — Jin se ajoelhou ao lado dele, puxando-o para o colo.
Namjoon abriu os olhos minimamente, a visão turva focando no rosto de Jin.
— Jin...? — a voz dele era um fio. — Você... você não atendeu...
— Eu sei, eu sou um idiota, um completo imbecil! — Jin disse, as lágrimas agora escorrendo livremente. — Desculpa, meu amor, me perdoa.
Jin percebeu a rigidez no abdômen de Namjoon e, ao levantar a camisa do outro, viu a cinta modeladora apertada de forma desumana.
— O que você fez consigo mesmo? — Jin murmurou, desfazendo os ganchos da cinta com as mãos trêmulas.
Assim que a pressão foi aliviada, Namjoon soltou um suspiro profundo, o ar finalmente voltando aos seus pulmões, mas a fraqueza era tanta que ele desmaiou nos braços de Jin.
— Namjoon! Namjoon, acorda! — Jin o sacudiu levemente, o pânico tomando conta.
Ele pegou o líder nos braços, sentindo como ele estava leve — leve demais para alguém da sua estrutura. Jin saiu da casa carregando Namjoon como se ele fosse o tesouro mais precioso do mundo. Ele não olhou para trás, nem para Rayan, nem para o perigo que haviam corrido. Sua única prioridade era o homem em seus braços.
No hospital, as horas pareciam séculos. Jin andava de um lado para o outro na sala de espera, recusando-se a sair dali até ter notícias. Os outros membros do BTS chegaram pouco depois, todos preocupados e confusos.
— O que aconteceu, Jin? — perguntou Hoseok, com os olhos vermelhos.
— Eu deixei ele sozinho — Jin respondeu, a voz embargada. — Eu fui um egoísta. Ele estava sofrendo, sendo atacado por todos os lados, e eu em vez de ser o porto seguro dele, fui mais um hater.
— Ele vai ficar bem — Jimin tentou consolar, mas Jin apenas balançou a cabeça.
— Eu quase o perdi. E ele me ligou... ele pediu ajuda, e eu ignorei para ficar com uma mulher que não significa nada para mim.
Finalmente, o médico apareceu.
— Kim Namjoon está estável. Ele teve uma crise de hipoglicemia severa combinada com restrição respiratória devido ao uso prolongado daquela cinta. Ele precisa de repouso e, acima de tudo, acompanhamento nutricional e psicológico. Ele está muito fragilizado.
Jin sentiu um peso sair de seus ombros, mas a culpa ainda permanecia. Ele pediu para entrar no quarto sozinho.
Namjoon estava deitado na cama hospitalar, com um acesso de soro no braço. Ele parecia tão pequeno sob os lençóis brancos, despojado de toda a marra e da máscara de líder forte.
Jin se aproximou lentamente e pegou a mão de Namjoon, levando-a aos lábios.
— Me desculpa, Joonie — ele sussurrou contra a pele fria. — Eu prometo que nunca mais vou soltar sua mão. Eu não ligo para a empresa, não ligo para o contrato de namoro falso... eu quero que seja real. Eu amo você, seu teimoso.
Para sua surpresa, os dedos de Namjoon se moveram levemente, apertando os de Jin.
— Você... fala demais — Namjoon disse, abrindo os olhos lentamente, um pequeno e fraco sorriso surgindo em seus lábios.
— E você continua sendo um marrento, mesmo quase morrendo — Jin riu entre as lágrimas, beijando a testa de Namjoon.
— Você não atendeu — Namjoon lembrou, o brilho de mágoa ainda presente no olhar sensível.
— Eu sei. E vou passar o resto da minha vida compensando isso. Vou atender cada ligação sua, mesmo que você ligue só para reclamar que eu deixei as meias no chão.
Namjoon suspirou, fechando os olhos novamente, mas desta vez, parecia em paz.
— Jin?
— Oi, meu bem?
— Me tira dessa dieta? Eu quero comer frango frito.
Jin soltou uma gargalhada alta, a primeira em dias que realmente vinha do coração.
— Eu vou te comprar todo o frango frito da Coreia, Namjoon. Só descansa agora. Eu estou aqui.
Jin acomodou-se na poltrona ao lado da cama, sem soltar a mão de Namjoon. O mundo lá fora ainda era complicado, a empresa ainda cobraria explicações e os haters ainda estariam lá, mas, naquele quarto de hospital, o "namoro de mentira" finalmente tinha encontrado sua verdade. E Jin sabia que, daquela vez, ele não deixaria ninguém, nem ele mesmo, estragar o que sentiam.
