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Fandom: the witcher

Criado: 27/08/2026

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O Peso do Silêncio e das Cicatrizes

A estrada para Gulet era longa, empoeirada e parecia não ter fim, especialmente quando se estava a pé e carregando o peso de uma família inteira nas costas — ou, no caso de Clara, o peso das expectativas e das cordas do alaúde de seu irmão, Jaskier.

Como a irmã mais nova, seu destino fora selado pelos pais: ela deveria acompanhar Julian em suas andanças, garantindo que o bardo não morresse de fome, não se metesse em encrencas mortais com maridos traídos ou, o que era mais provável, não esquecesse de comer enquanto buscava a rima perfeita. Clara, no entanto, era o oposto do irmão. Enquanto Jaskier era esguio, vibrante e falante, ela era robusta, de curvas generosas que ela frequentemente tentava esconder sob camadas de linho, e possuía uma língua tão afiada quanto a espada de um mercenário.

Foi em uma dessas tavernas imundas, onde o cheiro de cerveja barata se misturava ao suor de camponeses, que ela o viu pela primeira vez. Geralt de Rívia. O Lobo Branco.

— Jaskier, se você cantar essa estrofe sobre as coxas da baronesa mais uma vez, eu mesma vou quebrar esse alaúde na sua cabeça — resmungou Clara, ajeitando a túnica que insistia em apertar em seus quadris.

— Você não tem alma artística, Clara! — Jaskier exclamou, fazendo um gesto dramático. — Onde está a sensibilidade? Onde está o apoio fraternal?

— Está enterrado sob a pilha de contas que você ainda não pagou — ela rebateu, cruzando os braços e lançando um olhar de deboche para o irmão.

Foi nesse momento que a porta da taverna se abriu e o ar pareceu esfriar. O bruxo entrou, uma figura de sombras e prata, e o coração de Clara fez algo que ela odiou instantaneamente: ele tropeçou.

Anos se passaram desde aquele dia. Anos em que Clara se tornou a sombra da sombra. Ela via Geralt e Jaskier trocarem insultos e canções, via o bruxo decapitar monstros com uma eficiência aterrorizante e, acima de tudo, via Geralt olhar através dela.

Naquela noite, em um acampamento improvisado sob as estrelas de Teméria, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar da fogueira e pelo som rítmico de Geralt afiando sua espada. Jaskier já roncava, enrolado em suas mantas coloridas.

Clara se aproximou com uma tigela de ensopado e um frasco de bálsamo. Geralt estava sem a parte de cima da armadura, as cicatrizes em suas costas brilhando sob a luz da lua como um mapa de dor. Ele tinha um corte profundo no ombro, cortesia de um carniçal mais rápido que o normal.

— Deixe-me ver isso — disse ela, o tom de voz equilibrando-se entre a autoridade e a timidez que ela só sentia perto dele.

— Não precisa — rosnou Geralt, sem desviar os olhos da lâmina.

— Geralt, você está sangrando em cima da sua bota de couro legítimo. Se não quer que eu cuide por bondade, faça isso pela economia. Couro é caro — ela retrucou, aproximando-se e sentando-se atrás dele.

Ele soltou um suspiro pesado, um som que vibrou no peito de Clara, mas não se afastou. Com dedos trêmulos que ela tentava manter firmes, ela começou a limpar a ferida. O contraste era gritante: a pele dele, pálida e marcada por batalhas; a dela, macia, gordinha e cheia de inseguranças que gritavam em sua mente. Ela sabia que não era o tipo de mulher que Geralt costumava levar para a cama — as feiticeiras esguias, as damas de nobreza com cinturas de vespa. E, no entanto, às vezes, na calada da noite, o desejo falava mais alto que o bom senso.

— Você é teimoso demais para o seu próprio bem — murmurou ela, aplicando o bálsamo.

— E você fala demais, assim como seu irmão — Geralt respondeu, a voz rouca.

— É um traço de família. Pelo menos eu sou a que tem o cérebro.

Geralt virou o rosto levemente, os olhos cor de âmbar encontrando os dela. Houve um momento de tensão, um puxão invisível que Clara conhecia bem. Ela sabia o que viria a seguir. Sabia que, daqui a pouco, eles estariam nos fundos de alguma estalagem ou sob as cobertas pesadas, em um emaranhado de corpos onde ele a usaria para esquecer o mundo, e ela se deixaria usar apenas para sentir que, por um instante, ele era dela.

Mas o bruxo nunca a assumiria. Ele nem sequer dizia que eram amigos. Para o mundo, ela era apenas a irmã de Jaskier que cozinhava e curava feridas.

— Geralt... — começou ela, a voz falhando.

— Não comece, Clara — cortou ele, voltando a olhar para a floresta. — Bruxos não sentem. Você sabe disso.

— Engraçado — ela disse, com um sorriso amargo que não chegou aos olhos —, porque você parece sentir bastante prazer em me ignorar na frente das outras.

Ele não respondeu. Nunca respondia.

Na manhã seguinte, a rotina de humilhação silenciosa recomeçou. Eles chegaram a uma vila onde uma mulher de cabelos ruivos e vestido decotado lançou um olhar sugestivo para o bruxo. Geralt não hesitou; ele a seguiu com o olhar e, poucas horas depois, Clara o viu entrar em um quarto com ela enquanto Jaskier cantava no salão principal.

Clara sentou-se a uma mesa de canto, picando vegetais para uma sopa que o estalajadeiro a deixara preparar em troca de algumas moedas a menos na conta.

— Ele é um idiota, Clara — disse Jaskier, sentando-se ao lado dela e roubando um pedaço de cenoura. — Eu o amo como a um irmão, mas ele é um brutamontes emocionalmente analfabeto.

— Eu sei o que ele é, Jaskier — ela respondeu, a voz carregada de uma irritação que escondia a mágoa. — E eu sou uma idiota por estar aqui.

— Você não é idiota. Você é leal. E ele é... bem, ele é o Geralt. Mas você merece mais do que sobras, maninha.

— Sobras de um bruxo ainda são melhores do que o banquete de muitos homens por aí — ela debochou, embora o comentário tivesse um gosto de cinzas. — E pare de roubar a comida, ou vai ficar sem jantar.

Jaskier suspirou, olhando para a escadaria por onde Geralt havia subido.

— Ele não merece você cuidando dele. Ele trata você como se fosse parte da bagagem.

— Talvez eu seja — disse ela, focando intensamente na tarefa de cortar as batatas.

Mais tarde naquela noite, Geralt apareceu no acampamento que haviam montado fora da vila. Ele cheirava a perfume barato e suor alheio. Clara sentiu o estômago revirar, mas manteve a expressão neutra, limpando suas panelas com uma ferocidade desnecessária.

— Jaskier já dormiu? — perguntou Geralt, aproximando-se da fogueira.

— Sim. E se você for acordá-lo com suas botas pesadas, eu juro que coloco veneno de rato no seu próximo tônico — ela disse, sem olhar para ele.

Geralt sentou-se à sua frente. O silêncio se estendeu, denso e desconfortável.

— Você está brava — constatou ele, como se fosse uma observação sobre o tempo.

— Oh, sério? O que te deu a dica, gênio? Foi o fato de eu não ter dito uma palavra para você desde que você decidiu que a ruiva da taverna era mais interessante do que o caminho que tínhamos que seguir?

— Eu sou um bruxo, Clara. Eu tenho necessidades.

— E eu sou uma mulher, Geralt! Não uma ferramenta que você usa quando está entediado e descarta quando aparece algo mais brilhante! — Ela se levantou, a respiração ofegante, o rosto corado de raiva e de uma insegurança que a corroía. — Eu cuido de você. Eu costuro suas roupas, eu limpo suas feridas, eu aturo suas patadas no meu irmão e o que eu recebo? "Bruxos não sentem". Se não sente nada, por que volta para o meu saco de dormir quando a noite esfria?

Geralt levantou-se também, pairando sobre ela. Sua presença era esmagadora, mas Clara não recuou. Ela era braba, e naquele momento, sua dor era maior que seu medo.

— Eu nunca prometi nada — disse ele, a voz fria como o gelo de Kaer Morhen.

— Eu sei que não prometeu! — gritou ela, embora tenha baixado o tom logo em seguida para não acordar o irmão. — Mas você me humilha. Você me deixa ter esperança e depois a esmaga. Você nem me considera sua amiga, Geralt. Para você, eu sou apenas... a irmã gordinha do Jaskier que é útil ter por perto.

Geralt deu um passo à frente, fechando a distância entre eles. Ele tocou o rosto dela, o polegar áspero passando pela bochecha de Clara. Por um segundo, houve uma faísca de algo — arrependimento? Desejo? Clara não sabia dizer.

— Você não é apenas útil — murmurou ele.

— Então o que eu sou? Diga. Diga na minha frente, sem o escudo dessa sua falta de sentimentos.

Geralt desviou o olhar. O silêncio dele foi a resposta mais dolorosa que ela poderia receber.

— Entendi — disse ela, afastando a mão dele de seu rosto. — A mesma história de sempre.

Ela se virou para se deitar, mas Geralt segurou seu pulso.

— Fique — pediu ele, a voz quase inaudível.

— Para quê? Para você se sentir menos sozinho até o sol nascer?

— Sim.

Clara fechou os olhos, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Ela o odiava por ser tão honesto em sua crueldade e se odiava ainda mais por saber que, apesar de tudo, ela ficaria. Ela se aninharia contra o peito dele, sentiria o calor de seu corpo e, por algumas horas, fingiria que ele a amava.

Ela aceitava a humilhação porque, no fundo, a esperança era o monstro mais difícil de matar, e nem mesmo um bruxo tinha uma espada de prata para acabar com ela.

— Só desta vez, Geralt — mentiu ela para si mesma, enquanto se deixava ser puxada para os braços dele. — Só desta vez.

No dia seguinte, Jaskier a encontraria com olheiras profundas e um humor ainda pior, e Geralt voltaria a ser o homem de pedra que mal a notava. E o ciclo recomeçaria, na poeira da estrada, entre canções de glória e a realidade silenciosa de um coração que se quebrava um pouco mais a cada quilômetro percorrido.

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