Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Sei la

Fandom: The Witcher

Criado: 27/08/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFantasiaEstudo de PersonagemCiúmesCenário Canônico
Índice

Cicatrizes de Prata e Sangue

O cheiro de verbena e sangue seco sempre parecia impregnar a tenda improvisada toda vez que Geralt de Rívia retornava de um contrato. Clara, sentada em um banco baixo, organizava seus frascos de ervas com mãos que tremiam apenas o suficiente para que ninguém notasse. Ela não era uma feiticeira, nem uma guerreira de renome; era apenas Clara, a irmã mais nova de Jaskier, a mulher que o bardo jurara proteger, mas que acabara se tornando a protetora de todos eles.

A aba da tenda se abriu, deixando entrar o ar frio da noite de Aedirn. Geralt entrou, cambaleante, com a armadura de couro retalhada no ombro esquerdo. O sangue escuro dos monstros manchava seu peito, mas era o sangue vermelho e vivo escorrendo pelo braço que fazia o coração de Clara apertar.

— Jaskier está na taverna — disse ela, sua voz saindo mais firme do que se sentia. — Ele está tentando convencer o estalajadeiro de que uma canção vale três noites de estadia.

Geralt soltou um rosnado baixo, um som que para qualquer outro seria uma ameaça, mas que para Clara era apenas um sinal de exaustão. Ele se sentou pesadamente no catre, os olhos âmbar brilhando na penumbra da lanterna.

— Ele vai acabar apanhando — resmungou o bruxo.

— Provavelmente. E eu terei que costurar o supercílio dele de novo — Clara se aproximou, pegando uma bacia com água morna e panos limpos. — Mas agora, é você quem está fazendo sujeira no meu tapete. Tire a armadura, Geralt.

O bruxo obedeceu com movimentos lentos e calculados. Clara o ajudou, suas mãos habilidosas desfazendo as fivelas de couro. Ela era uma mulher de formas generosas, com curvas que Jaskier costumava dizer que eram "poesia em carne", e uma força silenciosa que emanava de sua postura. Ela não era frágil, e Geralt sabia disso. Talvez fosse por isso que ele permitia que ela visse o que ninguém mais via: sua vulnerabilidade.

Quando a pele pálida e marcada por inúmeras cicatrizes ficou exposta, Clara sentiu aquele aperto familiar no peito. Ela conhecia cada marca naquele corpo. Sabia quais haviam sido feitas por estriles, quais por nekhulatos e quais haviam sido deixadas por mulheres que passaram por sua vida como tempestades de verão.

— Essa é profunda — comentou ela, passando suavemente o pano úmido ao redor do corte no ombro.

— Um carniçal faminto — Geralt sibilou quando a água tocou a ferida. — Ele foi mais rápido do que eu esperava.

— Você está ficando descuidado — ela ralhou, embora o toque de seus dedos fosse infinitamente terno. — Ou talvez esteja apenas cansado de carregar o mundo nas costas.

Geralt não respondeu. Ele apenas a observava. Clara tinha os cabelos castanhos presos em uma trança prática, e o rosto, redondo e expressivo, estava concentrado na tarefa. Havia uma beleza nela que não vinha de feitiços ou ilusões, mas de uma vitalidade terrena e protetora.

O silêncio na tenda tornou-se denso, carregado de eletricidade. Clara terminou de limpar a ferida e começou a aplicar uma pasta de celidônia. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância. Ela podia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de couro e o magnetismo perigoso que a atraíra desde o primeiro momento em que Jaskier os apresentou em uma estrada poenta anos atrás.

— Clara — sussurrou ele.

Ela não olhou para cima. Sabia o que viria a seguir. Era sempre assim. O cuidado se transformava em toque, o toque em desejo, e o desejo em um incêndio que a deixava em cinzas na manhã seguinte.

— Não diga nada, Geralt — pediu ela, a voz embargada. — Apenas... fique quieto.

Mas ele não ficou. Sua mão grande e calejada subiu pelo pescoço dela, o polegar acariciando a linha da mandíbula. Clara fechou os olhos, entregando-se ao toque. Quando ele a puxou para um beijo, foi com uma fome que parecia querer consumir tudo o que ela era.

Eles se amaram ali mesmo, entre o cheiro de ervas medicinais e o som do vento lá fora. Para Clara, cada toque era uma declaração, uma forma de dizer "eu te amo" sem precisar de palavras que ele se recusava a ouvir. Ela se perdia na imensidão daquele homem, sentindo-se protegida e, ao mesmo tempo, terrivelmente exposta.

Mais tarde, quando a respiração de ambos se acalmou, Geralt estava deitado com a cabeça no colo dela, enquanto Clara passava os dedos pelos cabelos brancos dele, desembaraçando os nós.

— Você deveria vir comigo para Novigrad — disse ela, a esperança brilhando por um breve segundo. — Jaskier quer passar o inverno lá. Podemos alugar uma casa pequena, longe da agitação.

Geralt tensionou-se sob suas mãos. O momento de paz evaporou como névoa ao sol.

— Eu sou um bruxo, Clara. Eu sigo a trilha. Não há lugar para uma vida doméstica no que eu faço.

Clara sentiu a pontada familiar no coração.

— Não estou pedindo para você parar de ser quem é. Estou pedindo para você ter um lugar para onde voltar. Para nós termos algo... real.

Geralt sentou-se, afastando-se do toque dela. Ele começou a se vestir, os movimentos agora rápidos e impessoais.

— Isso é real — disse ele, apontando para o espaço entre eles. — Mas não é um compromisso. Eu não posso te dar o que você quer. Eu não sinto as coisas da mesma forma que os humanos, Clara. As mutações...

— Não ouse usar as mutações como desculpa! — Ela se levantou, a raiva substituindo a tristeza. — Eu vejo como você olha para a Yennefer. Eu vejo como você se entrega a cada feiticeira que cruza o seu caminho. Você sente, Geralt. Você só escolhe não sentir por mim porque eu sou fácil de deixar para trás. Eu sou a irmã do bardo, a mulher que cura suas feridas e não faz perguntas.

— Isso não é verdade — rebateu ele, a voz baixa e perigosa.

— Então o que é? — Ela se aproximou, batendo no peito dele. — Por que eu nunca sou o suficiente para você assumir diante do mundo? Por que eu tenho que me contentar com as sobras do seu tempo e do seu afeto?

Geralt segurou os pulsos dela, não com força, mas com uma firmeza que a fez parar.

— Porque você é boa demais para este mundo, e eu sou parte da sujeira dele. Se eu te levar comigo, se eu te chamar de minha, você se torna um alvo. Eu não posso proteger você de tudo.

— Eu não preciso que você me proteja! — gritou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Eu sou a única que protege alguém aqui! Eu protejo o Jaskier das suas próprias loucuras e protejo você de morrer esvaído em sangue em uma vala qualquer! Quem me protege de ver você partir toda vez, sem saber se vai voltar?

Geralt soltou os pulsos dela e desviou o olhar. Ele não tinha resposta. O silêncio foi interrompido pelo som de passos bêbados e uma cantoria desafinada do lado de fora.

— "Oh, a donzela de Vicovaro, tem um beijo que é puro descaro..." — A voz de Jaskier ecoou, seguida por um tropeço alto contra a estaca da tenda.

Jaskier entrou, com o alaúde pendurado nas costas e um sorriso torto no rosto, que desapareceu instantaneamente ao ver o clima entre a irmã e o melhor amigo.

— Oh — disse o bardo, subitamente sóbrio. — Eu interrompi algo... intenso?

Clara limpou o rosto rapidamente com o dorso da mão.

— Não, Jaskier. Geralt já estava de saída.

O bruxo pegou sua espada e sua bolsa de poções. Ele parou na entrada da tenda, olhando para Clara por um último segundo. Havia algo em seus olhos — um lampejo de arrependimento, talvez? — mas desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Obrigado pelo curativo — disse ele, a voz rouca.

E então ele se foi, sumindo na escuridão da noite.

Jaskier aproximou-se da irmã, colocando um braço protetor sobre seus ombros. Apesar de todas as suas palhaçadas, ele amava Clara mais do que qualquer coisa no mundo e odiava ver a dor que aquele relacionamento secreto causava a ela.

— Ele é um idiota, maninha — sussurrou Jaskier. — Um mutante teimoso e sem noção.

— Eu sei — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro do irmão. — Mas ele é o meu idiota.

— Você merece mais do que o que ele está disposto a dar. Merece alguém que cante sobre você nas praças, não alguém que te esconda em tendas.

Clara deu um sorriso triste.

— Você já canta sobre mim, Jaskier. Isso basta.

Mas não bastava. Dias depois, eles estavam em uma estalagem em Oxenfurt. O lugar estava lotado, o ar pesado com o cheiro de cerveja barata e suor. Jaskier estava no palco improvisado, encantando a multidão. Clara estava sentada em um canto, observando a porta, como sempre fazia.

Foi quando ela o viu. Geralt entrou, mas não estava sozinho. Uma mulher de cabelos ruivos e um vestido de seda verde esmeralda estava pendurada em seu braço. Ela ria de algo que ele dissera, e Geralt, o homem que raramente sorria para Clara em público, tinha um leve arquear de lábios para a desconhecida.

O estômago de Clara deu um nó. Ela sentiu a bile subir pela garganta. Era Triss Merigold, ou talvez alguma outra feiticeira de passagem. Não importava o nome. O que importava era a facilidade com que ele se exibia com elas, enquanto Clara permanecia nas sombras, a "companheira de viagem" conveniente.

Ela se levantou abruptamente, derrubando sua caneca de hidromel. O barulho atraiu o olhar de Geralt. Por um breve momento, seus olhos se encontraram. O bruxo parou de andar, sua expressão endurecendo. A mulher ao seu lado percebeu a distração e olhou para Clara com curiosidade e um toque de desdém.

Clara não desviou o olhar. Ela manteve a cabeça erguida, a "braba" irmã de Jaskier que não aceitava desaforo de ninguém. Mas, por dentro, ela estava se quebrando em mil pedaços.

Ela saiu da taverna, ignorando o chamado de Jaskier do palco. O ar fresco da noite não ajudou a acalmar seu coração. Ela caminhou até o estábulo, onde Roach e seu próprio cavalo estavam abrigados.

— Você é um tolo, Geralt de Rívia — murmurou ela para o nada.

— Eu sei.

Ela se virou bruscamente. Geralt estava parado na entrada do estábulo. A feiticeira não estava em lugar nenhum.

— O que você quer? — perguntou ela, a voz carregada de veneno. — Volte para sua amiga sedosa. Ela parece muito mais interessante do que uma mulher gordinha que só serve para limpar suas feridas.

Geralt caminhou até ela, parando a uma distância segura.

— Ela é uma velha conhecida. Nada mais.

— Para você, tudo é "nada mais"! — Clara explodiu. — Eu sou nada mais, ela é nada mais, o mundo é nada mais! Você se esconde atrás dessa neutralidade de bruxo para não ter que enfrentar o fato de que você é um covarde emocional!

Geralt fechou os olhos, absorvendo as palavras como se fossem golpes físicos.

— Você tem razão — admitiu ele, surpreendendo-a. — Eu sou um covarde. Tenho medo do que você faz comigo, Clara. Tenho medo de que, se eu me deixar levar, eu não consiga mais fazer o que preciso fazer.

— E o que você precisa fazer é ser sozinho e infeliz? — Ela se aproximou dele, as mãos nos quadris. — Porque, se for isso, você está fazendo um excelente trabalho.

Geralt estendeu a mão, tocando o rosto dela. Desta vez, Clara tentou se afastar, mas ele foi mais rápido, segurando-a com delicadeza.

— Eu não posso te prometer um casamento, ou uma vida tranquila — disse ele, a voz baixa e intensa. — Mas eu não quero que você vá embora.

— Então me assuma — desafiou ela. — Entre naquela taverna, pegue minha mão na frente de todos e mostre que eu não sou apenas a irmã do Jaskier que você usa quando está ferido.

Geralt olhou para a porta da taverna e depois de volta para ela. O conflito era visível em seu rosto pálido. O bruxo, o carrasco de monstros, o Lobo Branco, estava aterrorizado por um simples gesto de afeto público.

— Eu não posso — sussurrou ele.

Clara sentiu a última chama de esperança se apagar. Ela se soltou dele, sentindo um frio gélido se instalar em seus ossos.

— Então acabou, Geralt. Eu vou continuar cuidando do Jaskier, e vou continuar cuidando de você se você aparecer sangrando na minha frente, porque é isso que eu faço. Eu protejo quem eu amo. Mas não espere mais que eu te espere na cama. Não espere que eu guarde meus beijos para um homem que tem vergonha de ser visto comigo.

Ela passou por ele, o ombro batendo no dele com força. Geralt não tentou impedi-la. Ele ficou parado no estábulo, cercado pelo cheiro de feno e cavalos, enquanto observava a única mulher que realmente o conhecia se afastar.

Naquela noite, Clara chorou nos braços de Jaskier. O bardo não disse "eu te avisei". Ele apenas a abraçou e cantou uma canção de ninar antiga, uma que a mãe deles cantava quando Clara era pequena e tinha medo do escuro.

Geralt, por sua vez, voltou para a taverna. Ele não procurou a feiticeira. Ele se sentou em um canto escuro e bebeu até que seus sentidos de bruxo ficassem nublados. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que Clara havia curado tantas vezes, e sentiu o peso da solidão que ele mesmo havia escolhido.

A trilha continuaria. Os monstros continuariam vindo. E Clara continuaria sendo sua âncora, mesmo que ele tivesse cortado a corda que os unia. Ele sabia que a veria novamente, sabia que ela não conseguiria virar as costas se ele estivesse em perigo. E era essa a maior crueldade de todas: ele sabia que ela o amava o suficiente para se destruir por ele, e ele não era homem o suficiente para impedi-la.

O sol nasceu sobre Oxenfurt, trazendo consigo a promessa de um novo dia, mas para Clara, o mundo parecia um pouco mais cinza. Ela arrumou suas malas, verificou se Jaskier tinha suas cordas de alaúde reserva e preparou-se para partir. Ela era Clara, a protetora. E, às vezes, a pessoa que você mais precisa proteger é você mesma.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic