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Fandom: Nenhum

Criado: 27/08/2026

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Entre o Silêncio e a Proteção

O sol da tarde caía sobre as colinas da fazenda, pintando o pasto de um dourado nostálgico que parecia contrastar com a tensão silenciosa que Emanuel carregava nos ombros. Ele estava encostado na cerca de madeira, observando o movimento da família. Emanuel era um homem de poucas palavras e muitas ações, um império construído sob o som de máquinas de tatuagem e investimentos precisos. Aos vinte e cinco anos, ele exalava a aura de quem já viveu décadas, o olhar sempre atento, sempre vigiando.

Sentindo um toque macio em seu braço, ele nem precisou olhar para saber quem era. O perfume doce e a pressão leve do corpo contra o seu eram inconfundíveis.

— Você está muito tenso, amor — disse Sara, a voz carregada de uma ironia carinhosa.

Ela estava deslumbrante, como sempre. O vestido justo de seda vermelha marcava a barriga de três meses que começava a despontar, o anúncio de que Ágata estava a caminho. Sara era o oposto da discrição: loira, curvas acentuadas pelo silicone e pela genética, uma presença que exigia atenção. Ela não se importava com o que os parentes conservadores de Emanuel pensavam de seu estilo "vulgar"; ela era a dona do coração dele e sabia disso.

Emanuel passou o braço pela cintura dela, puxando-a para perto.

— Apenas pensando no que precisa ser feito — murmurou ele, a voz rouca.

Sara sorriu, deslizando a mão pelo peito dele. Ela sabia exatamente o que se passava na mente do marido. Não havia segredos entre eles. Emanuel tinha confessado, meses atrás, a dualidade de seus sentimentos. Ele a amava com uma intensidade possessiva, mas havia um espaço em seu peito, um canto mais suave e silencioso, que pertencia à prima, Eduarda. Para Sara, isso não era uma ameaça. Ela via Eduarda como uma criatura delicada que precisava de cuidados, quase como uma extensão da família que eles estavam construindo. Se Emanuel precisava daquela doçura para ser completo, Sara seria a primeira a abrir a porta.

— Ela está vindo — avisou Sara, apontando com o queixo para a varanda da casa grande.

Eduarda descia os degraus com a leveza de quem passou a vida na ponta dos pés. Aos vinte anos, a estudante de História da Arte e bailarina parecia uma pintura de Degas ganhando vida. Vestia um vestido de linho branco, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros esguios. Ela era a imagem da timidez, sempre buscando os cantos, sempre observando o mundo com olhos grandes e expressivos.

— Emanuel? Sara? — Eduarda se aproximou, a voz baixa, quase um sussurro. — Minha mãe disse que vocês queriam falar comigo.

Emanuel endireitou a postura. O instinto de proteção disparou. Ele recebeu mensagens naquela manhã. O "negócio" com seu antigo rival estava escalando. Ameaças diretas contra as mulheres de sua vida. Ele não permitiria que um fio de cabelo de Eduarda fosse tocado, e a única forma de garantir isso era mantendo-a sob seu teto, onde seus seguranças e seu controle eram absolutos.

— Na verdade, Duda, eu já falei com seus pais — disse Emanuel, o tom de voz tornando-se rígido, o modo "negócios" assumindo o controle. — Está decidido. Você vai se mudar para a minha casa na cidade na segunda-feira.

Eduarda piscou, confusa. Suas mãos se entrelaçaram na frente do corpo, um gesto típico de quando se sentia insegura.

— Mudar? Mas por quê? Eu moro com meus pais, é perto da faculdade e do estúdio de ballet... Eu não entendo.

Emanuel sentiu a irritação subir pela nuca. Ele odiava ser questionado quando estava tentando salvar alguém. A lógica era simples para ele: perigo lá fora, segurança aqui dentro.

— Eu não estou sugerindo, Eduarda. Estou dizendo que você vai — a voz dele subiu um tom, ficando mais seca. — A logística é melhor, eu tenho mais recursos lá e você ficará mais perto de mim e da Sara.

— Mas Emanuel... — Eduarda deu um passo atrás, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas. — Eu gosto da minha rotina. Meus pais são jovens, eles não se importam que eu esteja em casa. Por que isso agora, do nada?

Sara interveio, aproximando-se de Eduarda com um sorriso acolhedor, embora seus olhos brilhassem com a astúcia de quem sabe mais do que diz.

— Deixa de ser teimosa, boneca — disse Sara, tocando o ombro da menina. — A casa é enorme, eu me sinto sozinha enquanto o Emanuel viaja para cuidar dos estúdios. E com a Ágata chegando, eu adoraria ter você por perto. Não é por mal, é cuidado.

Eduarda olhou de Sara para Emanuel. A prima por afinidade parecia sincera, mas o olhar de Emanuel estava sombrio, quase autoritário. Ela sempre se sentiu protegida por ele, sempre sentiu que ele a olhava de um jeito diferente, mas aquele controle repentino a assustava.

— Eu não sou uma criança, Emanuel — murmurou ela, tentando encontrar uma coragem que raramente possuía. — Você não pode simplesmente decidir onde eu moro sem me explicar o motivo real.

Emanuel deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. Sua altura e presença física eram imponentes. Ele a queria por perto não só pelo perigo, mas porque a necessidade de tê-la sob seus olhos era uma fome que ele mal conseguia controlar.

— O motivo é que eu quero você lá. O motivo é que eu cuido do que é meu — ele disse, a voz baixa e vibrante de tensão. — Seus pais já concordaram. Eles sabem que é o melhor.

— Eles concordaram porque confiam em você cegamente! — Eduarda exclamou, sua voz falhando. — Mas eu me sinto... sufocada assim.

Emanuel sentiu um estalo de impaciência. O estresse acumulado das ameaças e da gestão de seus negócios explodiu em uma rigidez fria.

— Chega, Eduarda. Não torne as coisas difíceis. Você vai arrumar suas malas hoje à noite. Nós voltamos para a cidade amanhã cedo.

Eduarda olhou para ele, o lábio inferior tremendo. Ela buscou algum sinal de flexibilidade naquele rosto de pedra, mas só encontrou a determinação inabalável do primo. Sem dizer mais nada, ela se virou e caminhou rapidamente em direção ao pomar, buscando o refúgio do silêncio que tanto amava.

Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço.

— Deixa ela, Emanuel. Você sabe que ela é sensível. Você fala como se estivesse dando ordens a um dos seus gerentes — Sara deu uma risadinha, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Ela vai ceder. Ela sempre cede a você.

— Ela não entende o risco, Sara — Emanuel passou a mão pelo rosto, exausto. — Aquele desgraçado mandou fotos dela saindo do ballet. Se algo acontece com ela porque eu fui "gentil" demais para exigir que ela se mudasse...

— Eu sei, meu amor. Eu sei — Sara encostou a cabeça no ombro dele. — Mas você tem que saber lidar com a Duda. Ela é como um passarinho. Se você apertar demais, ela quebra. E você não quer quebrar a sua bonequinha de porcelana, quer?

Emanuel olhou para a direção onde Eduarda tinha desaparecido. O conflito interno o corroía. Ele amava a força e a cumplicidade de Sara, a mulher que carregava seu filho e aceitava suas sombras. Mas a necessidade de proteger Eduarda, de mantê-la em um casulo de pureza e arte, era uma obsessão que ele não conseguia — e não queria — domar.

— Eu só quero as duas seguras — ele admitiu, a voz carregada de um peso emocional que raramente mostrava. — E juntas. Comigo.

— E você terá — afirmou Sara, com a confiança de quem sempre conseguia o que queria. — Agora vá lá. Peça desculpas pelo tom de voz, use aquele seu jeito protetor que ela não consegue resistir. Eu vou falar com a sua tia sobre o enxoval da Ágata.

Emanuel assentiu e caminhou em direção às árvores frutíferas. Ele encontrou Eduarda sentada sob uma mangueira, os joelhos abraçados contra o peito, observando o horizonte. Ela parecia tão pequena, tão frágil diante do mundo violento que ele habitava.

Ele se aproximou silenciosamente e sentou-se ao lado dela na grama, mantendo uma distância respeitosa, mas sentindo o calor que emanava dela.

— Duda — chamou ele, suavemente.

Ela não olhou para ele.

— Você sempre faz isso. Decide e pronto.

— Eu faço isso porque o mundo não é um lugar gentil para pessoas como você — ele disse, e dessa vez não havia autoridade, apenas uma preocupação genuína. — Eu não suportaria se algo acontecesse com você. Na minha casa, eu posso garantir que você esteja bem. Você terá um estúdio para praticar, poderá estudar em paz...

Eduarda finalmente virou o rosto. Seus olhos intuitivos buscaram os dele.

— É só por segurança, Emanuel? Ou é porque você gosta de ter tudo sob controle?

Emanuel hesitou. A inteligência emocional dela sempre o pegava desprevenido.

— É porque eu não consigo imaginar minha vida sem ter você por perto para cuidar — ele confessou, a honestidade pairando no ar entre eles.

Eduarda sentiu o coração acelerar. Havia uma intensidade no olhar de Emanuel que ia além da proteção familiar, algo que ela sentia, mas tinha medo de nomear. Ela se inclinou levemente, apoiando a cabeça no ombro dele, cedendo, como Sara previra.

— Está bem — sussurrou ela. — Eu vou. Mas não brigue mais comigo. Eu não gosto quando você fica bravo.

Emanuel relaxou os ombros, passando o braço por cima dela e puxando-a para um abraço lateral apertado. Ali, no silêncio da fazenda, ele sentia que o seu mundo estava começando a se alinhar. Sara na casa grande, Eduarda sob sua asa, e o perigo... o perigo ele esmagaria com as próprias mãos antes que chegasse a qualquer uma delas.

— Eu nunca vou deixar nada de ruim te acontecer — prometeu ele contra o cabelo dela.

Eduarda fechou os olhos, sentindo-se segura, sem saber que aquela mudança era apenas o começo de uma nova e complexa vida a três, onde os limites entre cuidado, desejo e posse se tornariam cada vez mais tênues.

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