
Oliver
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 28/08/2026
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Reflexos de um Passado de Papel
O corredor da Paper School parecia mais longo do que o normal naquela noite. O silêncio, algo raro naquela escola cheia de gritos e caos, era interrompido apenas pelo som rítmico de mastigação. Oliver caminhava tranquilamente, segurando uma barra de sabão azul-claro como se fosse a mais deliciosa das guloseimas. Ele deu uma mordida generosa, sentindo o gosto químico e a textura familiar derreterem em sua boca.
Seus longos cabelos brancos, presos naquele rabo de cavalo baixo que quase tocava o chão, balançavam levemente a cada passo. A marca de "A+" em seu cabelo brilhava sob a luz fraca das lâmpadas fluorescentes que piscavam no teto. Ele estava de bom humor. Tinha acabado de esconder o estojo de um aluno do primeiro ano no topo de um armário e estava planejando algo ainda maior com Zip e Edward para o dia seguinte.
— Talvez eu devesse colocar cola nas cadeiras da Miss Circle... — murmurou Oliver para si mesmo, um sorriso travesso surgindo em seu rosto. — Não, ela me mataria. Literalmente.
Ele riu sozinho, ajeitando o relógio no pulso esquerdo, logo acima de onde seu braço se transformava em um lápis gigante. Oliver adorava ser quem era: o valentão, o pregador de peças, o garoto que ninguém ousava desafiar seriamente.
De repente, a luz do corredor falhou completamente. A escuridão engoliu as paredes de papel e os desenhos infantis colados nelas. Oliver parou de mastigar, seus olhos se ajustando ao breu. Ele não estava com medo, pelo menos não ainda. Ele conhecia cada canto daquela escola.
— Zip? Edward? Se for uma pegadinha, saibam que eu vou cobrar juros — gritou ele, a voz ecoando pelo vazio.
Ninguém respondeu. Apenas o som do silêncio pesado. Oliver deu mais um passo, mas sentiu um calafrio subir por sua espinha. Uma presença fria e esmagadora se materializou logo atrás dele. Antes que pudesse se virar, sentiu um hálito gélido em sua orelha e mãos enluvadas que pareciam feitas de sombra envolverem sua cintura.
— Sentiu minha falta... irmãozinho? — A voz era uma versão distorcida da sua, carregada de malícia e uma escuridão profunda.
Oliver congelou. O sabão caiu de sua mão, batendo no chão com um baque surdo. Ele conhecia aquela voz. Ele conhecia aquela sensação. Danger Oliver. A versão sombria que ele tentava trancar nas gavetas mais profundas de sua memória.
— O que... o que você está fazendo aqui? — Oliver gaguejou, a raiva começando a suplantar o choque inicial. — Me solta! Isso não é engraçado!
Danger Oliver soltou uma risada baixa, um som que parecia papel sendo rasgado. Ele apertou o aperto na cintura de Oliver, puxando-o para mais perto, o que fez o garoto de cabelos brancos corar violentamente, uma mistura de indignação e um desconforto que ele não conseguia explicar.
— Você acha que isso é um sonho, não é? — sussurrou Danger Oliver, sua mão subindo para tocar o "A+" no cabelo de Oliver. — Você sempre foi o favorito. O "aluno perfeito" por fora, mas um monstro por dentro. Exatamente como eu.
— Eu não sou como você! — Oliver gritou, tentando se soltar, mas o braço de lápis parecia inútil contra a força sobrenatural de seu sósia. — Zip! Edward! Alguém!
— Eles não podem te ouvir, Oliver. Estamos em um lugar onde o papel não tem voz — Danger Oliver riu novamente.
Em um movimento rápido, o mundo girou. Oliver sentiu-se sendo arrastado para uma sala lateral, um depósito que ele nunca tinha visto antes. Não havia janelas, nem luz, apenas a escuridão absoluta. Ele foi jogado ao chão, e o som dos passos de Danger Oliver — passos pesados, deliberados — ecoavam como batidas de tambor em seus ouvidos.
— Fique onde eu possa te ver — provocou a voz na escuridão.
Oliver tentou se levantar, mas cordas negras, que pareciam feitas de tinta fresca, surgiram do nada, prendendo seus pulsos e tornozelos. Em segundos, ele estava deitado de barriga para cima, imobilizado no chão frio. Antes que pudesse protestar novamente, um pano branco, sujo de grafite e poeira, foi amarrado com força em sua boca.
— Mmmph! Mmmph! — Oliver se debateu, seus olhos arregalados de puro ódio e terror.
Danger Oliver ajoelhou-se ao lado dele. Ele estendeu a mão e, com um gesto lento e provocador, tocou o queixo de Oliver, forçando-o a olhar em seus olhos vazios e sombrios.
— Lembra-se de quando éramos crianças, Oliver? — perguntou o sósia, sua voz suavizando em um tom perigosamente nostálgico. — Lembra-se das brincadeiras no jardim? De como costumávamos rasgar os desenhos dos outros garotos e rir enquanto eles choravam? Você adorava o caos tanto quanto eu.
A mente de Oliver foi inundada por imagens. Ele viu a si mesmo, menor, com os cabelos ainda curtos, rindo ao lado de uma sombra que tinha o seu rosto. Eles eram inseparáveis. Eles eram a definição de travessura cruel. Mas algo tinha mudado. Oliver tinha escolhido a escola, os amigos, a vida de valentão "divertido". Ele tinha tentado esquecer a parte dele que era apenas... perigo.
— Mmmph! — Oliver tentou gritar, a raiva queimando em seu peito. Ele não queria lembrar. Ele odiava aquelas memórias. Ele odiava como Danger Oliver o fazia se sentir pequeno e vulnerável.
— Shhh — Danger Oliver colocou um dedo sobre o pano que cobria os lábios de Oliver. — Fique quieto. Fique calado. Você sempre falou demais, sempre tentou esconder sua verdadeira natureza com piadas e sabonetes. Mas aqui, no escuro, você é apenas o meu irmãozinho. O pequeno Oliver que tem medo da própria sombra.
Oliver rosnou por trás da mordaça, seus olhos brilhando com um ódio intenso. Se ele pudesse soltar aquele braço de lápis, ele furaria o peito daquela sombra sem hesitar. Ele não era um "irmãozinho". Ele era Oliver, o terror da Paper School, o amigo de Zip e Edward.
Danger Oliver inclinou-se mais perto, o rosto a centímetros do de Oliver.
— Você pode ter ódio nos olhos agora, mas nós dois sabemos a verdade — sussurrou ele. — Você não pertence àquelas salas de aula brilhantes. Você pertence aqui, comigo, no rascunho.
O silêncio voltou a reinar na sala escura, quebrado apenas pela respiração abafada e pesada de Oliver. Ele estava preso, humilhado e confrontado com o seu pior reflexo. Mas, enquanto Danger Oliver continuava a provocá-lo com toques e memórias, uma coisa era certa: Oliver não ia desistir. Ele era feito de papel, mas o papel também podia cortar.
— Mmmph... — Oliver jurou mentalmente que, assim que se soltasse, Danger Oliver descobriria que até os desenhos mais bonitos têm pontas afiadas.
Danger Oliver apenas sorriu, sabendo que a diversão estava apenas começando.
— Vamos ver quanto tempo você aguenta antes de implorar para eu te levar de volta para casa, Oliver.
A escuridão na sala parecia pulsar, enquanto o valentão da escola, agora a vítima de sua própria sombra, lutava contra as cordas e contra o passado que ele tanto tentou apagar.
— Você se lembra daquela vez na árvore? — continuou Danger Oliver, ignorando os protestos abafados. — Você empurrou aquele garoto só para ver se ele flutuava como papel. Ele não flutuou. E você riu. Por que você parou de rir daquele jeito, Oliver? Por que agora você precisa de amigos como a Zip para se sentir importante?
Oliver fechou os olhos com força. As memórias eram como agulhas. Ele se lembrava do prazer frio que sentia ao causar dor, um prazer que ele tinha transformado em "pegadinhas" para ser aceito, para ter um lugar na hierarquia da escola. Ele não queria ser o monstro que Danger Oliver descrevia.
— Mmmph! — Ele deu um solavanco violento, conseguindo mover o ombro alguns centímetros.
— Cuidado — Danger Oliver riu, passando a mão pelo braço de lápis de Oliver. — Você pode quebrar sua única ferramenta de defesa. E então, o que sobraria de você? Apenas um rascunho mal feito.
O ódio de Oliver atingiu o ápice. Ele não sentia mais apenas medo; ele sentia uma fúria fria. Ele não era um rascunho. Ele era a versão final. E ele ia provar isso, mesmo que tivesse que rasgar a si mesmo no processo.
Danger Oliver levantou-se lentamente, caminhando ao redor do corpo amarrado de Oliver como um predador.
— Vou deixar você aqui um pouco, para que o silêncio te ajude a pensar. Quando eu voltar, espero que você tenha parado de fingir que é um herói incompreendido. Você é um valentão, Oliver. E valentões não pedem ajuda. Eles sobrevivem.
Com um último olhar carregado de escárnio, Danger Oliver desapareceu nas sombras da sala, deixando Oliver sozinho na escuridão total, com o gosto amargo do sabão e o peso das memórias sufocando-o mais do que o pano em sua boca.
Oliver parou de se debater por um momento, poupando energia. Seus olhos vasculharam a escuridão, procurando qualquer fraqueza nas cordas de tinta. Ele não ia esperar por Zip ou Edward. Ele ia sair dali sozinho. Porque, no fundo, Danger Oliver estava certo sobre uma coisa: Oliver era um sobrevivente. E ele ia garantir que aquele encontro fosse o último capítulo daquela sombra em sua vida.
