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Gostoso Aaron

Fandom: Estilhaça-me

Criado: 28/08/2026

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O Peso do Silêncio e o Gosto do Medo

O Ponto Ômega nunca fora um lugar de silêncio absoluto, mas, desde que Aaron Warner fora trancafiado em uma das celas de contenção, o ar parecia ter se tornado mais denso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Clara se arrepiarem.

Clara ajeitou a bandeja de metal contra o quadril, sentindo o peso familiar do objeto. Ela não era uma soldada. Não possuía habilidades cinéticas, não conseguia explodir coisas com a mente e certamente não era feita de aço. Ela era apenas Clara, a filha adotiva de Castle, a garota gordinha que preferia o calor das panelas na cozinha ao frio das armas de fogo. Suas mãos, sempre levemente sujas de farinha ou cheirando a ervas frescas, tremiam levemente enquanto ela caminhava pelo corredor úmido.

— Ei, C. — A voz de Kenji ecoou pelo corredor, fazendo-a dar um pequeno pulo.

Kenji estava encostado na parede de concreto, com a expressão habitual de tédio misturada a uma preocupação vigilante. Ele era o melhor amigo que Clara poderia ter naquele lugar caótico; o único que não a olhava com pena por ela não ser uma "arma viva".

— Você de novo? — perguntou Kenji, descruzando os braços e aproximando-se. — Sabe que não precisa fazer isso. Posso pedir para um dos sentinelas entregar a comida para o psicopata loiro.

Clara deu um sorriso tímido, desviando o olhar para o pão fresco na bandeja.

— Os sentinelas jogam a bandeja no chão, Kenji. Ele é um prisioneiro, mas ainda é um ser humano. E Castle disse que... bem, que eu tenho um jeito calmo. Talvez ele não tente matar alguém se eu for a pessoa a entrar lá.

Kenji soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos.

— Ele não fala com ninguém, Clara. Ele só abre a boca se a Juliette estiver por perto, e mesmo assim é para dizer coisas que deixam todo mundo desconfortável. Você está se desgastando por um muro de gelo.

— Eu não me importo — mentiu ela suavemente.

A verdade era que Clara achava Aaron Warner aterrorizante, mas também, de uma forma que a envergonhava profundamente, a criatura mais hipnotizante que já vira. Ele tinha uma beleza afiada, quase dolorosa de observar.

— Apenas tome cuidado — disse Kenji, sua voz suavizando. Ele deu um tapinha no ombro dela. — Se ele fizer qualquer gracinha, eu entro lá e mostro para ele que o Ponto Ômega tem dentes.

Clara assentiu e continuou seu caminho. Ao chegar à porta pesada da cela, ela respirou fundo, sentindo o aperto no peito que a insegurança sempre lhe trazia. Ela ajustou sua blusa larga, sentindo-se desconfortável com o próprio corpo sob o olhar imaginário de alguém tão perfeito quanto Warner.

A porta se abriu com um chiado hidráulico.

A cela era pequena, iluminada por uma luz fluorescente fria que zumbia irritantemente. Warner estava sentado na beira do catre, as costas eretas, as mãos repousando sobre os joelhos. Ele não usava mais o uniforme impecável do Setor 45, mas mesmo com as roupas simples de prisioneiro, ele parecia um rei em um trono de pedra.

Clara entrou, mantendo os olhos baixos enquanto caminhava até a pequena mesa aparafusada ao chão.

— Trouxe o jantar — disse ela, sua voz saindo quase como um sussurro.

Ela colocou a bandeja sobre a mesa. Além da comida, havia uma toalha limpa e um livro que ela pegara na biblioteca improvisada de Castle. Ela notou que Warner nem sequer se moveu. Seus olhos verdes, intensos e frios como esmeraldas submersas, estavam fixos na parede oposta.

— É sopa de legumes — continuou ela, sentindo a necessidade de preencher o silêncio opressor. — E o pão ainda está quente. Eu mesma fiz.

Warner finalmente virou a cabeça. O movimento foi lento, predatório. Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ele a observou por um longo momento, um escrutínio que parecia atravessar as camadas de gordura e insegurança, chegando direto à sua alma.

— Por que você continua vindo? — perguntou ele.

Sua voz era baixa, rouca pela falta de uso, mas ainda assim carregava uma autoridade inata. Foi a primeira vez que ele se dirigiu a ela diretamente em dias.

Clara engoliu em seco, apertando as mãos atrás das costas.

— Porque você precisa comer.

— Há outros que poderiam cumprir essa tarefa — disse Warner, levantando-se.

Ele deu um passo à frente, e Clara instintivamente deu um passo para trás, esbarrando na porta fechada. Ele era mais alto do que parecia sentado, e a aura de perigo que o cercava era quase palpável.

— Eles têm medo de você — admitiu Clara, a honestidade escapando antes que ela pudesse filtrá-la.

— E você não tem? — Um lampejo de algo que poderia ser curiosidade cruzou o rosto dele.

— Eu tenho — confessou ela, olhando para os próprios pés. — Mas eu sei o que é ser olhada como se você fosse algo... indesejado. Ou perigoso. Ou apenas um erro.

Houve um silêncio prolongado. Clara arriscou olhar para cima e viu que a expressão de Warner havia mudado ligeiramente. O desdém frio fora substituído por uma neutralidade pensativa. Ele olhou para a bandeja, especificamente para o livro que ela trouxera.

— "O Morro dos Ventos Uivantes" — leu ele, o canto de sua boca curvando-se em um quase imperceptível sinal de ironia. — Um clássico sobre almas torturadas. Acha que eu me identifico?

— Acho que todos no Ponto Ômega se identificam um pouco — respondeu Clara, ganhando uma coragem repentina. — Mas achei que você gostaria de algo para passar o tempo. O silêncio aqui dentro pode ser barulhento demais.

Warner estendeu a mão e, por um segundo, Clara temeu que ele fosse atacá-la. Em vez disso, ele pegou o pão, ainda exalando vapor. Ele levou à boca e deu uma mordida pequena, mastigando devagar.

— Está bom — disse ele, voltando a sentar-se no catre. — Pode ir agora, Clara.

O som de seu nome saindo da boca dele fez o coração dela disparar. Ela não sabia que ele sabia seu nome.

— Boa noite, Aaron — disse ela, antes de bater na porta para que os guardas a abrissem.

— É Warner — corrigiu ele, sem olhar para trás. — Apenas ela pode me chamar assim.

Clara saiu da cela com as pernas trêmulas. Kenji ainda estava lá fora, esperando por ela.

— E aí? Ele tentou te morder? — perguntou o amigo, examinando-a em busca de ferimentos.

— Não — disse Clara, soltando o ar que nem percebera que estava prendendo. — Ele só... ele comeu o pão.

— Grande avanço — ironizou Kenji, embora houvesse um alívio genuíno em seus olhos. — Vamos, a cozinha está um caos e eu preciso que você me esconda do treino do Adam.

Enquanto caminhava ao lado de Kenji, Clara sentia o peso do olhar de Warner ainda gravado em sua pele. Ela sabia que, para ele, ela era apenas a garota que trazia a comida. Ela sabia que o coração dele pertencia a Juliette, a garota feita de radiação e força.

Mas, naquela noite, enquanto voltava para o calor das panelas, Clara não se sentiu tão invisível. Ela havia visto uma rachadura na armadura do monstro, e ele, de alguma forma, havia visto que ela era mais do que apenas a filha adotiva de Castle.

Horas depois, na quietude de seu quarto compartilhado, Clara tocou o próprio rosto, imaginando como seria ser o tipo de mulher que Aaron Warner olharia com desejo, e não apenas com uma curiosidade passageira. Mas então ela lembrou-se do pão, do livro e da forma como ele dissera seu nome.

Talvez, pensou ela, a bondade fosse a única coisa que Warner não sabia como combater. E Clara tinha bondade de sobra para oferecer, mesmo que fosse em forma de sopa e silêncios compartilhados.

No dia seguinte, ela voltaria. E, desta vez, levaria um doce. Porque até mesmo os monstros, pensou ela com um pequeno sorriso antes de dormir, merecem algo doce de vez em quando.

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