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Natal

Fandom: mundo real

Criado: 28/08/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaPsicológicoConsertoMenção de Pedofilia
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Sob a Luz das Estrelas, Longe dos Sinos

A neve caía mansa do lado de fora da janela do apartamento, pintando a cidade de um branco que, para a maioria das pessoas, simbolizava pureza e recomeço. Para Tatsuyo, no entanto, aquele cenário era o prelúdio de um pesadelo que se repetia anualmente. As luzes coloridas piscando nas varandas vizinhas pareciam olhos invasivos, e o som distante de "Noite Feliz" ecoando de algum rádio vizinho fazia seu estômago se revirar em nós apertados.

Kuro estava na cozinha. Ele cantarolava uma melodia qualquer enquanto preparava o que parecia ser uma ceia especial. Aos 22 anos, ele transbordava uma energia vibrante que geralmente era o porto seguro de Tatsuyo. Com seus 1,80m de altura, o cabelo branco repicado sempre bagunçado e aquele físico atlético que ele exibia sem a menor modéstia ao usar apenas uma regata branca, Kuro era a definição de calor em meio ao inverno.

— Ei, Tatsy! — gritou ele, a voz carregada de entusiasmo. — Você viu onde eu guardei as fitas vermelhas? Quero deixar a sala impecável. É o nosso primeiro Natal juntos, tem que ser lendário!

Tatsuyo, sentada no sofá com os joelhos abraçados contra o peito, não respondeu. Seus olhos pretos estavam fixos em um ponto vazio da parede. O cabelo longo e ondulado caía como uma cortina ao redor de seu rosto pálido, escondendo a expressão de pânico que começava a se formar.

Kuro apareceu na porta da sala, segurando uma colher de pau e exibindo um sorriso largo que destacava seu tanquinho sob a regata justa.

— Terra chamando Tatsuyo! — Ele brincou, aproximando-se com passos leves. — Se você estiver planejando me dar carvão de presente, já aviso que prefiro chocolate.

Ele se inclinou para beijar a testa dela, mas Tatsuyo recuou bruscamente, como se tivesse sido queimada. O sorriso de Kuro desapareceu instantaneamente, substituído por uma expressão de confusão e preocupação.

— Ei, o que foi? — Ele se ajoelhou no tapete à frente dela, deixando a colher de lado. — Eu fiz algo errado? É o cheiro da comida? Eu posso pedir pizza se você preferir.

Tatsuyo tremia. O tremor começou nas mãos e se espalhou por todo o corpo de 1,63m. Ela olhou para a pequena árvore de Natal que Kuro havia montado no canto da sala — uma árvore simples, mas adornada com carinho. Para ela, aqueles enfeites pareciam correntes.

— Tira isso daqui, Kuro... — sussurrou ela, a voz falhando.

— O quê? A árvore? — Kuro franziu o cenho, tentando entender. — Mas a gente combinou que...

— TIRA! — Ela gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Por favor, apaga essas luzes, tira essas decorações... eu não consigo respirar, Kuro. Eu não consigo.

Kuro não hesitou. Ele não entendia o porquê, mas o desespero nos olhos da namorada era real demais para ser ignorado. Em silêncio, ele se levantou e desligou os pisca-piscas. Em seguida, pegou um lençol que estava no cesto de roupas limpas e cobriu a árvore, escondendo-a da vista. Ele fechou as cortinas pesadas para bloquear o brilho das luzes da rua e voltou para o lado dela.

— Pronto — disse ele, a voz agora baixa e suave, perdendo todo o tom brincalhão. — Está tudo escuro. Está tudo seguro. Respira comigo, Tatsy.

Ele esperou. Minutos se passaram enquanto o choro dela diminuía de soluços altos para um respirar pesado e cansado. Kuro apenas ficou ali, oferecendo sua presença musculosa e protetora, sem pressioná-la.

— Você deve estar achando que eu sou louca — disse ela finalmente, limpando o rosto com as costas das mãos.

— Eu acho que você é a mulher mais incrível que eu já conheci — rebateu Kuro seriamente. — E se você odeia o Natal a ponto de ter um ataque de pânico, deve haver um motivo muito maior do que "não gostar de rabanada". Você quer me contar?

Tatsuyo olhou para ele. Kuro Hatake era o homem que a fazia rir nos dias cinzentos, que a carregava nas costas quando ela estava cansada e que a amava com uma intensidade que ela nunca achou merecer. Ele merecia a verdade, por mais suja que ela fosse.

— Eu tinha dez anos — começou ela, a voz monótona, como se estivesse contando a história de outra pessoa. — Era noite de 24 de dezembro. Minha casa estava cheia de parentes, cheiro de peru assado e música. Eu estava ansiosa, sabe? Como toda criança.

Kuro ouvia atentamente, segurando as mãos dela entre as suas, sentindo o quanto elas estavam geladas.

— Meu pai... ele se aproximou de mim no corredor — continuou Tatsuyo, fechando os olhos com força. — Ele disse que tinha um presente adiantado. Que era um segredo só nosso e que eu ia amar. Eu acreditei. Eu amava meu pai. Ele me levou para o quarto dele... e o Natal acabou ali, Kuro.

O aperto de Kuro nas mãos dela se intensificou, mas não de forma dolorosa. Ele sentiu uma onda de choque percorrer sua espinha.

— Ele me estuprou enquanto o resto da família ria e brindava na sala — a voz dela quebrou. — E o pior não foi só isso. Na manhã seguinte, quando eu criei coragem para contar para a minha mãe, com o corpo todo doendo e o coração em pedaços... ela olhou para mim e disse que eu estava inventando histórias para chamar atenção. Que o pai dela era um homem santo e que eu era uma menina má por dizer coisas tão horríveis no dia do nascimento de Jesus.

Um silêncio sepulcral caiu sobre o apartamento. Kuro sentiu uma raiva tão visceral que seus músculos se retesaram, as veias dos braços saltando. Ele queria encontrar aquele homem e destruí-lo com as próprias mãos. Mas, ao olhar para a fragilidade de Tatsuyo, ele percebeu que a raiva dele não ajudaria em nada naquele momento. Ela precisava de cura, não de mais violência.

— Tatsy... — A voz dele estava embargada. — Eu sinto muito. Eu sinto tanto que não existam palavras no mundo para descrever.

— Todo ano, quando o dia 24 chega, eu volto para aquele quarto — disse ela, voltando a olhar para ele. — O cheiro de pinheiro, as luzes vermelhas... tudo me lembra o cheiro dele, o peso dele. Eu odeio o Natal, Kuro. Eu odeio com todas as minhas forças.

Kuro a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto dela em seu peito. Ele a segurou como se ela fosse um tesouro precioso que o mundo tentou quebrar, mas que ele estava determinado a colar peça por peça.

— Escuta aqui — disse ele, afastando-a apenas o suficiente para olhar nos seus olhos pretos. — A partir de hoje, o dia 24 de dezembro não é mais sobre ele. E não é mais sobre o Natal.

Tatsuyo piscou, confusa.

— O que você quer dizer?

— A gente vai cancelar o Natal — declarou Kuro com firmeza. — Para sempre, se você quiser. Mas hoje... hoje nós vamos criar uma nova tradição.

Ele se levantou, cheio de uma determinação renovada.

— Onde você vai? — perguntou ela.

— Fica aí. Não se mexa.

Kuro correu para o quarto e voltou carregando todos os cobertores e travesseiros que encontrou. Ele começou a afastar os móveis da sala, ignorando a árvore coberta no canto. Em poucos minutos, ele havia construído uma espécie de cabana ou forte de lençóis no meio da sala, usando o sofá e as cadeiras como suporte.

— O que é isso? — Tatsuyo soltou um riso fraco e incrédulo.

— É a Fortaleza Hatake — anunciou ele, fazendo uma pose de super-herói que, em outra situação, a faria gargalhar. — Lá dentro, o Natal é proibido. Não entram luzes coloridas, não entra música chata e, definitivamente, não entram lembranças ruins. Só entram pessoas que a gente ama e muita comida que não tem nada a ver com ceia tradicional.

Ele estendeu a mão para ela. Tatsuyo a segurou, sentindo o calor da palma dele. Kuro a guiou para dentro da cabana de lençóis. Ele havia colocado um notebook ali dentro e alguns pacotes de salgadinhos e potes de sorvete que tinha no freezer.

— Nós vamos maratonar aquela série de terror que você gosta — disse ele, ajeitando os travesseiros para que ela ficasse confortável. — E depois vamos jogar videogame até nossos dedos doerem. E se alguém bater na porta querendo cantar "Jingle Bells", eu juro que jogo um balde de água fria.

Tatsuyo sentiu um peso imenso saindo de seus ombros. Pela primeira vez em dez anos, a ansiedade sufocante do dia 24 começou a dissipar.

— Você faria isso? — perguntou ela, a voz baixa. — Abriria mão do seu Natal por mim?

Kuro se deitou ao lado dela, abraçando-a de lado. O calor do corpo dele era a única coisa que ela precisava sentir.

— Tatsy, o Natal é só uma data no calendário — disse ele seriamente. — Você é a minha vida. Se essa data te machuca, a gente joga ela no lixo e inventa outra coisa. Eu não preciso de árvore ou de presentes embrulhados. Ter você aqui, segura e sorrindo, é o único presente que me importa.

Eles passaram as horas seguintes mergulhados em um mundo só deles. Assistiram a filmes que não tinham nada de festivos, comeram hambúrgueres que Kuro pediu pelo aplicativo — fazendo questão de dizer ao entregador para não desejar "Feliz Natal" — e conversaram sobre o futuro, sobre viagens que queriam fazer e planos que não envolviam dezembro.

Perto da meia-noite, o momento que costumava ser o ápice do pânico para Tatsuyo, ela se deu conta de que estava... em paz. Ela estava nos braços de um homem que a respeitava, em um forte de lençóis, rindo das piadas bobas que Kuro fazia sobre os personagens do filme.

— Kuro? — chamou ela.

— Hum? — Ele estava distraído tentando abrir um pote de sorvete particularmente difícil.

— Obrigada.

Ele parou o que estava fazendo e olhou para ela. A luz suave do notebook refletia nos olhos dele, tornando o branco de seu cabelo quase prateado.

— Não precisa agradecer, pequena.

— Preciso sim. Você não faz ideia do quanto isso significa. Por muito tempo, eu achei que estava quebrada de um jeito que ninguém conseguiria consertar. Que eu teria que viver esse terror para sempre.

Kuro largou o sorvete e segurou o rosto dela com as duas mãos.

— Você não está quebrada, Tatsuyo. Você foi ferida, e a cicatriz é real, mas você é a pessoa mais forte que eu conheço. E eu vou estar aqui em todos os próximos 24 de dezembro, construindo fortes de lençóis, pedindo pizza e garantindo que ninguém chegue perto da sua paz.

Ele se inclinou e a beijou. Foi um beijo lento, cheio de promessas e de uma ternura que a fez se sentir, pela primeira vez, verdadeiramente em casa.

— Sabe de uma coisa? — Kuro disse, quebrando o beijo com um sorrisinho travesso. — Acho que o "Dia da Fortaleza" é uma tradição muito melhor do que o Natal.

Tatsuyo riu, um som cristalino que ecoou pela sala silenciosa, abafando qualquer som de sino que pudesse vir de fora.

— Eu também acho.

Naquela noite, enquanto o mundo lá fora celebrava uma data antiga, Tatsuyo Hatake dormiu sem pesadelos. Ela estava protegida por paredes de pano e pelo amor de um homem de cabelos brancos que entendia que, às vezes, o maior milagre não é o nascimento de alguém há dois mil anos, mas a cura de um coração que finalmente encontrou um lugar seguro para descansar.

O inverno continuava frio, a neve continuava caindo, mas dentro daquele pequeno apartamento, o calor era absoluto. O passado ainda existia, mas ele não tinha mais o poder de ditar o presente. Kuro Hatake havia mudado o Natal de Tatsuyo transformando-o em algo que ela nunca pensou que teria novamente: uma noite de silêncio, respeito e, acima de tudo, amor verdadeiro.

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