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Criado: 28/08/2026
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As Ondas que Cantam Segredos
O horizonte de Awa'atlu era uma pintura viva de tons alaranjados e violetas, onde o céu encontrava o oceano sem pedir permissão. Para Tatsuyo, o mar não era apenas água; era um coro de vozes ancestrais, um pulsar rítmico que ela sentia sob as solas dos pés sempre que caminhava pelos decks suspensos da aldeia Metkayina. Aos quinze anos, ela carregava um peso que suas irmãs e irmãos pareciam não compreender totalmente. Enquanto Tsireya era a graça em movimento e Aonung a força bruta da liderança futura, Tatsuyo era o eco.
Ela estava sentada na beira de um recife raso, com a água turquesa batendo suavemente em suas coxas. Seus longos cabelos pretos, lisos com ondas suaves nas pontas, caíam como um manto sobre suas costas azul-esverdeadas. Ela fechou os olhos, murmurando uma prece antiga, tentando sintonizar o espírito da Grande Mãe através da pulsação das criaturas marinhas.
— Olhem só, a "Bruxa das Marés" está falando com os peixes de novo — uma voz debochada cortou o transe de Tatsuyo.
Ela abriu os olhos e viu um grupo de adolescentes Metkayina parados a poucos metros, rindo. O líder do grupo, um rapaz um pouco mais velho chamado Ka’lu, chutou a água na direção dela.
— Por que não mergulha e não volta mais, Tatsuyo? — ele riu, sendo acompanhado pelos outros. — Talvez Eywa queira você lá embaixo, já que aqui em cima você só serve para assustar os outros com suas visões de louca.
Tatsuyo abaixou a cabeça, o rosto queimando. Ela era a filha da Tsahìk, deveria ser respeitada, mas sua natureza introspectiva e sua conexão intensa com o lado espiritual a tornavam um alvo fácil. Para eles, ela não era sagrada; era apenas estranha.
— Deixem-na em paz! — A voz de Tsireya ecoou de longe, enquanto ela se aproximava nadando com elegância.
Os rapazes resmungaram, mas se afastaram antes que a filha mais velha do Olo’eyktan pudesse repreendê-los seriamente. Tsireya saiu da água e sentou-se ao lado da irmã, colocando a mão em seu ombro.
— Não os ouça, Tatsu. Você tem um dom que eles temem porque não entendem.
— Às vezes eu preferia ser normal como você, Tsireya — murmurou Tatsuyo, apertando as mãos contra o peito. — O mundo é barulhento demais para mim.
Antes que Tsireya pudesse responder, um som de buzina de concha ecoou por toda a aldeia. Era o sinal de visitantes. Estranhos se aproximavam do território Metkayina.
No céu, grandes vultos alados começaram a descer. Eram Ikrans, criaturas da floresta que Tatsuyo só conhecia por histórias. A família Omaticaya estava chegando.
Jake Sully liderava a formação, seguido por Neytiri e seus filhos. Quando os Ikrans pousaram nas areias brancas, a aldeia inteira se reuniu para observar. Tonowari e Ronal caminharam à frente com autoridade, e Tatsuyo se posicionou logo atrás da mãe, sentindo a energia caótica e vibrante que emanava dos recém-chegados.
Entre os Omaticaya, um jovem se destacava. Ele era alto, com a pele azulada dos Avatares, mas havia algo diferente nele. O cabelo era branco, curto e repicado, um contraste gritante com as tranças escuras dos outros. Ele se movia com uma confiança despojada, quase atrevida.
Kuro Hatake olhou ao redor, absorvendo o novo ambiente. Ele tinha dezesseis anos, mas sua alma parecia carregar a malícia de alguém que já vira de tudo. Ao lado dele, Lo’ak e Neteyam pareciam tensos, mas Kuro apenas sorria, os olhos correndo pelas mulheres do clã da água com uma curiosidade nada discreta.
— Pelos ossos de Eywa — sussurrou Kuro para Lo’ak, inclinando a cabeça na direção das Metkayina —, eu acho que morri e fui para o paraíso das águas. Olhe para aquelas cores, cara.
— Cale a boca, Kuro — sibilou Neteyam, o irmão mais velho, mantendo a postura ereta. — Estamos aqui para pedir asilo, não para você arranjar problemas.
Jake Sully e Tonowari trocaram saudações formais. Ronal, com seu olhar de águia, analisava cada um dos visitantes. Quando seus olhos caíram sobre Kuro, ela franziu a testa.
— Eles têm sangue de demônio — declarou Ronal, aproximando-se de Kuro e pegando sua mão com força. Ela contou os dedos. — Cinco dedos!
Kuro não recuou. Pelo contrário, ele deu um sorriso torto e charmoso, apesar da situação tensa.
— É, eu sei, sou um modelo exclusivo, senhora — disse Kuro, piscando para a Tsahìk. — Mas garanto que meus dedos funcionam muito bem para pescar... entre outras coisas.
Ronal soltou a mão dele com desgosto, mas Tatsuyo, observando de trás, sentiu uma faísca estranha. Ela nunca tinha visto ninguém falar com sua mãe daquela forma. E aquele rapaz... a energia dele era uma bagunça. Era barulhenta, cheia de cores vibrantes e um desejo que ela não sabia identificar, mas que a fazia corar.
Kuro virou o rosto e seus olhos encontraram os de Tatsuyo. O sorriso dele mudou. Não era mais o sorriso de deboche que ele usava para os outros; era algo mais focado, predatório e, ao mesmo tempo, fascinado.
— E quem é essa pequena pérola escondida na concha? — perguntou Kuro, dando um passo à frente, ignorando o protocolo.
— Kuro, volte aqui! — Jake ordenou, mas o rapaz já estava perto demais da filha mais nova do chefe.
Tatsuyo sentiu o coração disparar. Ela deu um passo atrás, a timidez a consumindo.
— Eu sou Tatsuyo — respondeu ela em um sussurro, mal conseguindo sustentar o olhar dele.
— Tatsuyo... — Kuro repetiu o nome como se o estivesse provando. — Nome bonito para uma garota que parece ter o oceano inteiro guardado nos olhos. Eu sou o Kuro. O cara que vai animar esse lugar.
— Você é... barulhento — disse ela, as palavras saindo antes que pudesse filtrá-las.
Kuro soltou uma gargalhada alta, atraindo a atenção de todos.
— Barulhento? Eu sou uma sinfonia, gracinha. Você só precisa aprender a ouvir a música certa.
— Chega de conversa — interveio Tonowari, sua voz de trovão silenciando a praia. — Tsireya, Aonung, levem os filhos de Jake Sully para aprenderem nossos costumes. Eles devem aprender a nadar e a respirar como nós. Se não aprenderem, serão como bebês chorando no mar.
Enquanto o grupo se dispersava, Tatsuyo tentou se afastar discretamente para o seu canto espiritual, mas Kuro Hatake parecia determinado a não deixá-la escapar. Ele caminhou ao lado dela enquanto se dirigiam para as passarelas de maru.
— Então, Tatsuyo — começou ele, as mãos atrás da cabeça, exibindo os músculos dos braços — me disseram que você é a próxima "bruxa" da tribo. Isso é verdade? Ou você só tem visões de mim no seu futuro?
Tatsuyo parou e olhou para ele, genuinamente surpresa.
— Como você sabe o que dizem de mim? E não sou bruxa. Eu ouço o que os outros esqueceram como escutar.
— Eu sei de muita coisa. Eu tenho bons ouvidos — Kuro se aproximou, invadindo o espaço pessoal dela. Ele era mais alto e exalava um calor que a pele turquesa de Tatsuyo não estava acostumada. — E eu gosto de coisas estranhas. O normal é chato, não acha?
— Eu... eu não sei — ela gaguejou, sentindo o rosto esquentar. — As pessoas dizem que eu sou louca.
Kuro inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela:
— Pois saiba que, de onde eu venho, os loucos são os únicos que se divertem. E você não me parece louca, Tatsuyo. Você parece... profunda. E eu adoraria mergulhar.
Ele deu uma piscadela e saiu correndo para alcançar Lo’ak, que o chamava de longe. Tatsuyo ficou parada, o coração batendo contra as costelas como um tambor de guerra. Ela olhou para suas próprias mãos, depois para a figura de Kuro desaparecendo na luz do entardecer.
Naquela noite, a família Sully se acomodou em sua nova tenda. Kuro, deitado em uma rede improvisada, olhava para o teto de palha trançada com um sorriso no rosto.
— Você não consegue se comportar nem por cinco minutos, não é? — perguntou Neteyam, sentando-se no chão para limpar sua faca.
— O que eu fiz agora? — Kuro perguntou com falsa inocência.
— Você estava dando em cima da filha do Olo’eyktan. A pequena. Ela parece uma criança, Kuro.
— Ela tem quinze anos, Neteyam. E ela não é uma criança, ela é... diferente. Tem algo nela. Uma calma que me dá vontade de fazer barulho só para ver a reação dela.
— Você vai nos fazer ser expulsos antes de aprendermos a montar um Ilu — resmungou Lo’ak, embora estivesse sorrindo.
— Relaxem — disse Kuro, fechando os olhos e lembrando-se da pele turquesa e dos olhos profundos de Tatsuyo. — Eu sou um mestre na diplomacia. E a diplomacia, meus amigos, começa com um bom flerte.
Enquanto isso, na cabana da Tsahìk, Tatsuyo não conseguia dormir. Ela saiu para a varanda de madeira e olhou para a água fosforescente abaixo. O mar estava calmo, mas dentro dela, algo havia mudado. A vibração de Kuro Hatake ainda ecoava em seus sentidos. Ele era caótico, perigoso e terrivelmente fascinante.
Pela primeira vez em muito tempo, as vozes dos ancestrais ficaram em silêncio, substituídas por uma única pergunta que martelava em sua mente: o que um humano transformado em Na’vi poderia ensinar a alguém que sempre viveu entre os espíritos?
Ela mergulhou na água morna, buscando o silêncio do oceano, mas mesmo lá embaixo, a imagem do rapaz de cabelos brancos e sorriso atrevido a perseguia. O destino dos Metkayina e dos Omaticaya estava agora entrelaçado, e Tatsuyo sentia que sua própria alma estava prestes a ser arrastada por uma correnteza que ela não poderia controlar.
No dia seguinte, o treinamento começou cedo. Aonung e Tsireya levaram os jovens visitantes para as águas profundas. Kuro, com sua constituição atlética, parecia se adaptar rápido, embora sua técnica fosse desajeitada.
— Você respira como se estivesse morrendo, Kuro! — gritou Aonung, rindo enquanto flutuava na água.
— É que a vista aqui fora é muito melhor do que lá embaixo! — Kuro rebateu, olhando para onde Tatsuyo estava sentada em um Ilu, observando de longe.
Ele nadou até a borda onde ela estava. Apoiou os braços na sela do animal dela, a água escorrendo pelo seu peito definido.
— Ei, Tatsu. Por que não vem me ensinar a respirar? Eu sinto que estou perdendo o fôlego toda vez que olho para você.
Tatsuyo sentiu o choque daquelas palavras diretas. Ela nunca tinha lidado com alguém tão... desavergonhado.
— Você deveria prestar atenção no meu irmão — disse ela, tentando manter a voz firme. — O mar não perdoa quem não o respeita.
— E eu respeito o mar — disse Kuro, sua voz ficando subitamente séria, os olhos fixos nos dela. — Mas eu respeito mais ainda o que me faz sentir vivo. E, garota, desde que eu cheguei aqui, você é a única coisa que não me parece um treinamento militar.
Ele mergulhou de volta antes que ela pudesse responder, deixando apenas bolhas e uma Tatsuyo confusa para trás. Ela percebeu, então, que as provocações dos outros jovens da aldeia não doíam mais tanto. O barulho que Kuro trazia consigo era tão alto que abafava os insultos de Ka’lu e dos outros.
Pela primeira vez, Tatsuyo não se sentia apenas a "bruxa" ou a futura Tsahìk. Ela se sentia vista. E, embora Kuro fosse o "demônio de cinco dedos" que sua mãe temia, para Tatsuyo, ele parecia ser a única pessoa capaz de entender que ser diferente não era uma maldição, mas uma música que nem todos tinham o ouvido para apreciar.
A jornada em Awa'atlu estava apenas começando, e as águas, que antes cantavam apenas segredos antigos, agora começavam a sussurrar uma nova melodia. Uma melodia que cheirava a maresia e tinha o brilho prateado de um cabelo branco sob a luz de Pandora.
