
Amor
Fandom: Mundo real
Criado: 29/08/2026
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O Véu de Algodão e Aço
A fumaça de charutos caros e o cheiro enjoativo de perfumes baratos misturavam-se no ar pesado do "L’Éden", um cassino que, sob as luzes de neon e o tilintar das fichas, escondia um abismo de podridão. Kuro Hatake ajustou a gola da camisa, sentindo o suor frio escorrer pelas costas, não por medo, mas pela repulsa que o lugar lhe causava. Aos vinte e dois anos, com seu porte atlético e os cabelos brancos repicados que lhe davam um ar de "bad boy" inconsequente, ele era o disfarce perfeito. Ninguém desconfiaria que aquele jovem de sorriso fácil e músculos definidos sob a jaqueta de couro era, na verdade, um agente infiltrado da inteligência federal.
Ele caminhava pelo salão principal com a confiança de quem tinha dinheiro para queimar. Mas seus olhos castanhos escuros, aguçados e treinados, não perdiam um detalhe. Ele estava ali há duas semanas, mapeando as rotas de saída, identificando os seguranças e, principalmente, observando a mercadoria humana que circulava entre as mesas de pôquer.
O dono do lugar, um homem gorduroso chamado Volkov, aproximou-se com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Finalmente resolveu aproveitar a casa de verdade, Hatake? — Volkov deu um tapinha no ombro de Kuro, que forçou uma risada anasalada. — A pequena Nakamura está esperando. É a joia da casa, embora seja um pouco... arisca. Mas sei que um homem como você sabe como lidar com garotas difíceis.
Kuro sentiu o estômago revirar. Ele tinha escolhido Tatsuyo Nakamura por um motivo estratégico, mas também por algo que martelava seu peito toda vez que a via. Diferente das outras mulheres, que se moldavam aos desejos dos clientes com sorrisos plásticos, Tatsuyo parecia uma alma em suspensão. A descendente de japoneses, com seus longos cabelos pretos e pele parda, era como uma boneca de porcelana prestes a estilhaçar. Ele a vira tremer quando um cliente a tocava, vira o pavor mudo em seus olhos pretos. Ele precisava tirá-la dali. E precisava das informações que só alguém tão "protegida" — ou melhor, prisioneira — quanto ela poderia ter.
— Quarto 402 — disse Volkov, entregando-lhe uma chave magnética. — Não a quebre, ela é valiosa.
Kuro pegou a chave sem dizer nada, temendo que sua raiva transparecesse. Ele caminhou pelo corredor acarpetado, onde o som abafado de gemidos e risadas ecoava por trás das portas douradas. Cada passo parecia pesar uma tonelada. Quando parou diante da porta 402, respirou fundo, recompôs a máscara de cliente satisfeito e girou a maçaneta.
O quarto era opulento, com uma cama de casal enorme coberta por lençóis de seda vermelha. O contraste, porém, era cruel. Sentada na beirada da cama, encolhida como se tentasse desaparecer dentro de si mesma, estava Tatsuyo.
Assim que o clique da porta ecoou, ela deu um solavanco. O corpo dela se contraiu violentamente, os ombros subindo até as orelhas. Ela não olhou para ele de imediato; manteve a cabeça baixa, os cabelos negros caindo como uma cortina sobre o rosto. Ela vestia apenas uma lingerie de renda preta, minúscula e provocante, que deixava quase tudo à mostra.
Kuro sentiu um nó na garganta. De perto, a fragilidade dela era ainda mais gritante. Seus braços magros tentavam inutilmente cobrir os seios e a região da cintura. Foi então que ele viu. Perto da curva do seio esquerdo e nas coxas, havia manchas roxas e pequenas escoriações, marcas de dedos que apertaram com força demais, marcas de uma brutalidade que ele jurou combater.
— Por favor... — A voz dela era um sussurro quebrado, quase inaudível. — Por favor, não machuca... Seja rápido. Eu faço o que você quiser, só... não machuca.
Ela tremia tanto que a cama parecia vibrar sob ela. Kuro fechou a porta silenciosamente e trancou-a. Ele não se aproximou da cama de imediato. Em vez disso, permaneceu ali, observando-a com uma expressão que rapidamente perdeu a fachada de "engraçadinho" do cassino.
— Tatsuyo — disse ele suavemente.
Ao ouvir o próprio nome, ela finalmente levantou os olhos. Eram orbes negros inundados de lágrimas contidas e um terror tão profundo que Kuro sentiu uma pontada física no coração.
— Eu não vou tocar em você — afirmou ele, dando um passo à frente.
Ela se encolheu ainda mais, arrastando-se para o meio da cama, os olhos fixos nos movimentos dele como se esperasse um golpe.
— Eles sempre dizem isso — ela soluçou, a voz embargada. — Por favor, eu... eu não aguento mais apanhar. Eu faço o que você quiser, mas não me bate.
Kuro sentiu a bile subir. Ele se moveu devagar, como se estivesse diante de um animal ferido, e em vez de subir na cama ou se aproximar do corpo dela, ele se ajoelhou no chão, no tapete felpudo, ficando abaixo do nível da visão dela.
— Olha para mim, Tatsuyo. — Ele manteve as mãos visíveis, abertas sobre os joelhos. — Eu não sou quem eles pensam que eu sou. Meu nome é Kuro Hatake, e eu sou um agente infiltrado da polícia federal.
Tatsuyo parou de soluçar por um segundo, a confusão nublando o pavor. Ela piscou, as lágrimas escorrendo pelas bochechas pardas.
— O quê? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Eu estou aqui há duas semanas investigando o Volkov e o esquema de tráfico humano que ele opera — explicou Kuro, falando baixo e pausadamente. — Eu escolhi você porque vi o que eles fazem. Eu vi como você reage. Eu não vim aqui para ser um cliente. Eu vim aqui para tirar você e as outras desse inferno.
Tatsuyo soltou uma risada nervosa, quase histérica, e abraçou as próprias pernas, escondendo o rosto entre os joelhos.
— Você está mentindo. É um teste do Volkov. Ele quer ver se eu vou falar algo, se eu vou reclamar... Ele mandou você para me matar.
— Não, Tatsuyo. Ouça. — Kuro buscou na memória detalhes que só alguém de fora saberia. — O carregamento que chegou na terça-feira passada, às três da manhã, pelo porto secundário. Três garotas novas, uma delas com febre. Volkov a mandou para o porão. O código que os seguranças usam no rádio para "problemas com a mercadoria" é 'limpeza no corredor seis'. Eu sei de tudo isso porque eu estou grampeando as comunicações deles.
Tatsuyo ergueu a cabeça lentamente. O olhar dela percorreu o rosto de Kuro, buscando qualquer sinal de falsidade. Ele sustentou o olhar, deixando que ela visse a seriedade e a determinação em seus olhos castanhos.
— Você... você é mesmo um policial? — ela perguntou, a voz ainda carregada de descrença, mas com uma faísca de algo que parecia esperança, ou talvez apenas menos terror.
— Sou. E eu juro pela minha vida que ninguém vai encostar a mão em você enquanto eu estiver neste quarto. E se tudo der certo, ninguém nunca mais vai encostar em você contra a sua vontade.
Tatsuyo olhou para o próprio corpo, subitamente consciente da sua nudez e da vulnerabilidade daquela lingerie mínima. Ela tentou se cobrir novamente, um gesto instintivo de vergonha que fez Kuro desviar o olhar por respeito.
— Você está tremendo de frio ou de medo? — perguntou ele, embora soubesse a resposta.
— De tudo — sussurrou ela. — Eu sinto que estou morrendo um pouco a cada dia aqui.
Kuro não hesitou. Ele se levantou, fazendo-a recuar um pouco, mas parou no lugar. Com movimentos calmos, ele deslizou a jaqueta de couro preta dos ombros. Por baixo, ele usava uma regata que deixava à mostra os braços musculosos e definidos, mas ele não parecia uma ameaça agora. Ele estendeu a jaqueta para ela.
— Pega. Cobre isso.
Tatsuyo hesitou, olhando para a jaqueta como se fosse uma armadilha. Por fim, esticou a mão trêmula e pegou a peça de roupa. O couro ainda estava quente com o calor do corpo dele. Ela vestiu a jaqueta rapidamente. Para o seu tamanho pequeno, a peça ficou enorme, as mangas cobrindo suas mãos e a barra chegando quase aos seus joelhos. Ela fechou o zíper até o queixo, escondendo-se completamente dentro do casulo de couro e do cheiro de perfume amadeirado e menta que emanava de Kuro.
Ela soltou um suspiro longo, e pela primeira vez, os ombros dela relaxaram alguns milímetros.
— Obrigada — murmurou ela, a voz agora um pouco mais firme.
Kuro voltou a se sentar no chão, mantendo a distância.
— Eu preciso que você confie em mim, Tatsuyo. Eu sei que é pedir muito, depois de tudo o que você passou. Mas eu preciso de provas. Preciso saber onde o Volkov guarda os registros, os nomes dos compradores e para onde eles levam as garotas que não ficam aqui.
Tatsuyo apertou os punhos dentro das mangas da jaqueta. O medo ainda brilhava em seus olhos pretos, uma sombra persistente.
— Se eles descobrirem que eu falei... — Ela engoliu em seco, o terror voltando a aflorar. — Eles me matam. Eles matam a minha família no Japão. Eles disseram que sabem onde minha irmã mora.
— Eles não vão descobrir — afirmou Kuro com uma convicção que a fez parar. — Eu tenho uma equipe do lado de fora. Estamos esperando o momento certo para invadir. Mas sem as provas físicas, o Volkov sai em 24 horas pagando fiança. Eu preciso derrubar o império dele, não apenas fechar a porta por uma noite.
Tatsuyo olhou para a porta trancada e depois para o homem à sua frente. Kuro parecia sólido, como uma rocha em meio ao caos em que ela vivia.
— Por que eu? — ela perguntou, a voz pequena. — Por que me escolher para ajudar?
— Porque eu vi você — disse ele, a voz suavizando. — Eu vi você resistindo da única forma que podia, ficando em silêncio, tentando não ser notada. E porque eu não suporto ver alguém como você sendo destruído por monstros como eles.
Tatsuyo ficou em silêncio por um longo tempo. O som da música abafada do cassino lá embaixo parecia vir de outro planeta. Ela olhou para as próprias mãos, escondidas pelo couro da jaqueta de Kuro.
— Eu não sei se consigo — confessou ela, as lágrimas voltando a brotar. — Eu estou com tanto medo que mal consigo respirar.
— Você já é a pessoa mais corajosa que eu conheci nessas duas semanas, Tatsuyo. Só por estar aqui, sobrevivendo, você já é uma guerreira.
Ele estendeu a mão, mas não a tocou. Deixou-a no ar, um convite silencioso.
— Eu vou tirar você daqui. Eu prometo. Mas preciso que você me conte tudo o que viu. Cada detalhe, cada nome, cada entrega.
Tatsuyo olhou para a mão dele e depois para o seu rosto. Ela ainda não estava pronta para falar, as palavras pareciam presas em uma garganta seca de meses de silêncio forçado. A desconfiança ainda era um véu espesso entre eles, mas a jaqueta pesada em seus ombros era o primeiro sinal de proteção que ela sentia em anos.
— E se... e se você for embora e me deixar? — perguntou ela, a voz falhando.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você — respondeu Kuro, e pela primeira vez, ele permitiu que um pequeno sorriso encorajador surgisse em seus lábios. — Estamos juntos nisso agora.
Tatsuyo respirou fundo, o peito subindo e descendo de forma irregular sob a jaqueta de couro. Ela ainda não tinha começado a falar, o passado ainda era uma ferida aberta e dolorosa demais para ser exposta, mas ela não estava mais tentando se fundir à parede. Ela olhou para Kuro, e embora o silêncio ainda reinasse no quarto 402, algo havia mudado. O agente infiltrado havia encontrado sua aliada, e a prisioneira, talvez, tivesse encontrado sua primeira faísca de liberdade.
— Tudo bem — sussurrou ela, embora seu corpo ainda tremesse. — Tudo bem.
Kuro assentiu, respeitando o tempo dela. Ele sabia que aquela noite seria longa, e que as sombras que Tatsuyo carregava eram mais profundas do que qualquer relatório de inteligência poderia prever. Mas ele estava disposto a esperar. Ele ficaria ali, ajoelhado no chão, pelo tempo que fosse necessário, até que ela estivesse pronta para transformar seu medo em palavras.
