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Fandom: Delegacia
Criado: 29/08/2026
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Entre Algemas e Confissões
O silêncio na delegacia era quase absoluto, quebrado apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado e o tique-taque rítmico do relógio de parede que marcava pouco mais de duas da manhã. A maioria das luzes já havia sido apagada, deixando o saguão principal mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelos feixes de luz que vinham da sala da delegada.
Laryssa estava sentada atrás de sua mesa de carvalho, cercada por pilhas de inquéritos e o brilho frio da tela do computador. Ela massageou as têmporas, sentindo o peso de um dia exaustivo. Ser delegada exigia uma armadura emocional que, às vezes, parecia pesada demais para carregar. Mas, naquela noite, o cansaço não era seu único incômodo. Havia uma tensão elétrica no ar, uma consciência aguda de que ela não estava sozinha no prédio.
Samuel estava na copa, a poucos metros dali. Ele poderia ter ido embora horas atrás, quando o turno dele terminou oficialmente, mas ele sempre encontrava uma desculpa para ficar. Um relatório de última hora, uma arma que precisava de limpeza, ou simplesmente a vontade silenciosa de garantir que ela não ficasse desprotegida.
O som de passos firmes ecoou pelo corredor. Laryssa não precisou olhar para cima para saber quem era. Ela conhecia o ritmo daquela caminhada, o som das botas táticas contra o piso de linóleo.
— Ainda aqui, Delegada? — A voz de Samuel era profunda, carregada de uma suavidade que ele raramente usava com outros colegas.
Laryssa levantou o olhar, encontrando-o encostado no batente da porta. Ele tinha abandonado o colete balístico, e a camisa preta da polícia estava com os primeiros botões abertos, revelando a base do pescoço. Ele segurava dois copos de café descartáveis.
— O crime não tira folga, Samuel — respondeu ela, tentando manter a voz profissional, embora sentisse o coração acelerar. — E você? Pensei que tivesse ido para casa depois daquela apreensão no porto.
Samuel caminhou até a mesa e depositou um dos copos à frente dela.
— Não consegui ir — disse ele, aproximando-se um pouco mais do que o estritamente necessário. — Fiquei pensando que você estaria aqui, tentando salvar o mundo sozinha de novo.
Laryssa deu um sorriso contido e pegou o café. O calor do copo aqueceu suas mãos frias.
— O café está horrível, como sempre? — perguntou ela, buscando um terreno comum para aliviar a tensão.
— Pior do que o normal — admitiu ele, soltando uma risada baixa. — Mas é o que temos para manter os olhos abertos.
Eles ficaram em silêncio por um momento, um silêncio que não era desconfortável, mas carregado de palavras não ditas. Samuel não se afastou. Ele permaneceu ali, observando-a com uma intensidade que fazia Laryssa se sentir exposta, como se ele pudesse ler cada um dos pensamentos que ela lutava para esconder.
Laryssa largou a caneta e recostou-se na cadeira, permitindo-se baixar a guarda por um segundo.
— Você está me olhando de um jeito estranho hoje, Samuel.
— É o jeito que eu sempre te olho, Laryssa — respondeu ele, a voz baixando um tom. — Você é que costuma estar ocupada demais fingindo que não percebe.
O uso do nome dela, sem o título, foi como um gatilho. Laryssa sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela se levantou, a cadeira rangendo levemente no chão. A mesa entre eles parecia, de repente, uma barreira que ambos queriam derrubar.
— Não é fingimento — disse ela, contornando a mesa devagar. — É autopreservação. Você sabe como as coisas são aqui. A delegada e o policial... as fofocas destruiriam a autoridade de qualquer um.
— Ninguém está aqui para ver — Samuel deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. — O turno da manhã só chega em quatro horas. As câmeras do corredor estão em manutenção. Somos só nós, Laryssa.
Ele estendeu a mão, hesitando por um milésimo de segundo antes de tocar o rosto dela. O contraste da pele áspera dos dedos dele contra a face macia dela fez Laryssa fechar os olhos por um momento.
— Eu não aguento mais essa distância — sussurrou ele. — Passar o dia recebendo ordens suas, querendo te puxar para um canto e dizer o quanto você é incrível... o quanto eu te quero.
Laryssa abriu os olhos, a determinação lutando contra o desejo.
— Samuel, se a gente cruzar essa linha... não tem volta.
— Eu não quero voltar — afirmou ele, a voz firme. — Quero ir em frente. Com você.
Ele encurtou a distância final. Quando seus lábios se encontraram, foi como se uma represa tivesse rompido. O beijo começou urgente, faminto, o resultado de meses de olhares furtivos e toques acidentais que queimavam como brasa. Laryssa enroscou os dedos nos cabelos curtos da nuca dele, puxando-o para mais perto, enquanto as mãos de Samuel desciam para a cintura dela, pressionando-a contra a borda da mesa.
O som da respiração pesada de ambos preenchia a sala. Samuel a ergueu com facilidade, sentando-a sobre a mesa de carvalho, espalhando alguns papéis sem a menor preocupação. O clima, que antes era de cansaço, agora ardia em uma combustão espontânea.
— Você tem ideia de quantas vezes eu imaginei isso? — perguntou Samuel entre beijos, a voz rouca contra o pescoço dela.
— Provavelmente as mesmas vezes que eu — confessou Laryssa, a voz trêmula. — Eu tentava me concentrar nos relatórios, mas tudo o que eu via era você no estande de tiro, ou entrando na minha sala com esse sorriso torto.
Samuel parou por um instante, segurando o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar nos olhos dele. A vulnerabilidade ali era clara.
— Isso não é só sobre o momento, Laryssa. Eu estou apaixonado por você. De verdade.
Laryssa sentiu um nó na garganta. Ela sempre fora a mulher de ferro, a autoridade máxima daquela unidade, mas diante de Samuel, ela se sentia apenas uma mulher que queria ser amada.
— Eu também, Samuel — admitiu ela, a voz quase um sussurro. — Eu tentei lutar contra isso, juro que tentei. Mas é impossível.
Ele voltou a beijá-la, desta vez com uma ternura que contrastava com a urgência de antes. Suas mãos exploravam as curvas dela com reverência, enquanto Laryssa sentia o peso do distintivo e da responsabilidade sumirem, substituídos pela sensação avassaladora de pertencer a alguém.
O ambiente da delegacia, com suas paredes cinzas e cheiro de café velho, transformou-se no santuário particular deles. Ali, entre arquivos confidenciais e a penumbra da madrugada, não havia hierarquia. Não havia delegada ou subordinado. Havia apenas dois corações que finalmente tinham encontrado o caminho um para o outro.
Samuel desceu os beijos pelo colo dela, afastando a gola da blusa de seda.
— A gente vai ter problemas amanhã, não vai? — murmurou ele contra a pele dela.
Laryssa soltou um suspiro baixo, inclinando a cabeça para trás.
— Amanhã a gente resolve os problemas — disse ela, puxando-o de volta para um beijo profundo. — Agora, a única ordem que eu dou é que você não pare.
Samuel sorriu, aquele sorriso que sempre desarmava Laryssa, e obedeceu. O relógio na parede continuava seu tique-taque, alheio ao fato de que, naquela noite, as regras da delegacia haviam sido reescritas sob a luz das estrelas e o calor de uma paixão há muito contida.
As horas passaram como se o tempo tivesse decidido parar para eles. Entre carícias e confissões sussurradas, eles descobriram que a conexão que sentiam no campo de batalha da profissão era apenas uma fração da química que os unia.
Quando os primeiros raios de sol começaram a tingir o horizonte de laranja, Laryssa estava encostada no peito de Samuel, ainda sentada na mesa, enquanto ele a abraçava por trás, protegendo-a do frio que começava a se dissipar.
— O pessoal vai chegar em meia hora — disse Samuel, depositando um beijo no topo da cabeça dela.
Laryssa suspirou, ajeitando a blusa e descendo da mesa. Ela olhou para a bagunça de papéis e sorriu.
— É melhor arrumarmos isso aqui. Se o escrivão ver esse inquérito amassado, vai achar que tivemos uma luta corporal com um suspeito.
Samuel riu, ajudando-a a organizar a mesa.
— Bom, tecnicamente, houve uma luta — brincou ele, piscando para ela. — Mas acho que ambos saímos vencedores.
Laryssa recuperou sua postura, ajeitando o cabelo e retomando a expressão séria que o cargo exigia, mas seus olhos ainda brilhavam com uma luz nova.
— Samuel — chamou ela, quando ele se dirigia à porta para retomar seu posto antes que os outros chegassem.
Ele parou e olhou para trás.
— Sim, Delegada?
— Tome cuidado na rua hoje — disse ela, com um carinho que não conseguia esconder.
Samuel sorriu, um sorriso largo e genuíno.
— Sempre tomo. Agora tenho um motivo a mais para voltar inteiro para casa. Ou melhor, para esta delegacia.
Ele saiu da sala, e Laryssa sentou-se novamente em sua cadeira. O café estava gelado, o trabalho ainda estava acumulado, e o risco profissional era imenso. Mas, pela primeira vez em anos, ela não se sentia cansada. Ela se sentia viva. E enquanto ouvia os primeiros sons da cidade acordando, ela soube que aquela noite fora apenas o primeiro capítulo de uma história que nenhum relatório seria capaz de descrever.
