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Novos agentes

Fandom: Autoral

Criado: 29/08/2026

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Sombras do Passado, Rostos de Agora

O silêncio na sala de monitoramento da Agência Central era tão espesso que poderia ser cortado com uma faca de combate. Helena sentia o coração martelar contra as costelas, um ritmo frenético que ela não experimentava desde o dia em que o galpão em chamas desabou diante de seus olhos, levando consigo os quatro adolescentes que ela jurara proteger. Marcus, ao seu lado, mantinha as mãos trêmulas escondidas nos bolsos do paletó, os olhos fixos na tela de alta definição.

— Não pode ser... — sussurrou Helena, a voz falhando. — As feições, o modo como se movem... Marcus, olhe para a garota de cabelos platinados. É a Alyssa. Eu reconheceria aquele jeito de inclinar a cabeça em qualquer lugar.

— O nome dela agora é Kira, Helena — interrompeu o Diretor Miller, cruzando os braços enquanto observava a gravação da última missão da equipe na sede de Berlim. — E o líder, que você conheceu como Harry, atende por Jack. Eles têm uma taxa de sucesso de 99,8%. São máquinas, os melhores que a rede global já produziu nos últimos anos.

O Subdiretor Vance, que até então permanecia nas sombras, deu um passo à frente. Seu rosto carregava uma expressão de culpa que o tempo não fora capaz de apagar.

— Nós falhamos com eles — disse Vance, com a voz grave. — A sabotagem, a acusação injusta... eles foram caçados pela própria casa. Se esses jovens forem realmente Harry, Oliver, Sarah e Alyssa, nós temos uma dívida de sangue com eles. Precisamos trazê-los de volta, nem que seja para pedir perdão.

— Eles não vão querer perdão — murmurou Marcus, finalmente falando. — Se forem eles, e se sobreviveram àquela explosão e aos anos na floresta sozinhos... eles não são mais as crianças que treinamos. São sobreviventes. E sobreviventes não confiam em quem os abandonou para morrer.

O plano foi traçado com a precisão cirúrgica que a Agência exigia. Um convite formal foi enviado à sede europeia, solicitando a transferência da "Equipe Alpha" para uma missão conjunta de alto nível na central. Quando as portas automáticas do hangar se abriram dois dias depois, o ar pareceu congelar.

Quatro figuras caminharam em sincronia perfeita. Jack, Josh, Luna e Kira. Eles vestiam uniformes táticos negros, sem insígnias, e seus olhares eram gélidos, desprovidos da centelha de juventude que Helena lembrava com tanta dor.

— Bem-vindos de volta — disse Miller, postado à frente do comitê de recepção.

O jovem de cabelos escuros e olhar penetrante, Jack, deu um passo à frente. Sua voz era um barítono frio, sem qualquer traço de reconhecimento.

— Agradecemos a recepção, Diretor, mas o termo "de volta" está incorreto. É a nossa primeira vez nesta unidade.

Helena deu um passo instintivo, as lágrimas queimando o fundo de seus olhos.

— Harry? Sarah? Por favor... somos nós. Helena e Marcus.

A garota que agora se chamava Luna arqueou uma sobrancelha, um gesto de puro descaso.

— Sinto muito, senhora, mas acho que a senhora está nos confundindo com fantasmas. Meu nome é Luna. Estes são Josh, Kira e nosso líder, Jack. Não conhecemos nenhum Harry ou Sarah.

— Parem com isso! — Marcus exclamou, a voz embargada. — Nós sabemos o que aconteceu no galpão. Sabemos que foram sabotados. Passamos dois anos procurando por vocês!

Josh, o mais robusto do grupo, soltou um riso seco, desprovido de humor.

— Uma história emocionante — disse Josh. — Mas somos agentes profissionais, não órfãos perdidos. Se nos trouxeram aqui para uma sessão de terapia sobre traumas antigos da agência, perdemos nosso tempo.

O Diretor Miller suspirou e fez um sinal para um assistente, que trouxe um tablet com documentos digitais.

— Temos aqui os contratos originais do Programa Teen desta agência. Assinados há quatro anos. O vínculo jurídico com a Agência Central nunca foi formalmente encerrado, pois vocês foram declarados mortos em serviço. Como estão vivos, o contrato ainda é válido. Vocês têm um ano e meio de serviço obrigatório restante nesta sede.

Jack estreitou os olhos, a postura tornando-se subitamente predatória.

— Esses contratos pertencem a pessoas mortas. Nós somos agentes independentes vinculados à rede global. Vocês não podem nos segurar aqui baseados na identidade de terceiros.

— O DNA dirá o contrário — rebateu Miller.

— Não haverá testes de DNA — declarou Kira, sua voz soando como lâminas de gelo. — Não daremos consentimento.

Houve um momento de tensão absoluta. Jack trocou um olhar rápido com seus companheiros. Em um movimento quase imperceptível, ele sinalizou.

— Precisamos de um momento para discutir os termos em particular — disse Jack, com uma polidez falsa.

Miller assentiu, indicando uma sala de reuniões envidraçada. Assim que a porta se fechou, os quatro não trocaram uma palavra sequer. Eles já haviam lido o ambiente. Sabiam onde estavam as câmeras, os pontos cegos e os sensores de pressão.

— Agora — sussurrou Jack.

Em um borrão de movimento, Josh desativou o painel eletrônico da porta com um dispositivo de pulso, enquanto Kira e Luna saltavam para o duto de ventilação com uma agilidade sobre-humana. Jack foi o último a subir, mas a Agência estava preparada. O sistema de segurança de contenção, projetado especificamente para agentes de elite, disparou um gás paralisante incolor e inodoro através das aberturas.

Jack sentiu os pulmões arderem e a visão turvar. Ele tentou lutar, mas seus joelhos cederam. O último que viu antes da escuridão total foram os olhos marejados de Helena através do vidro.

Quando acordaram, horas depois, estavam na ala médica, contidos por algemas magnéticas em macas individuais. Miller, Vance, Helena e Marcus estavam lá.

— O que vocês fizeram? — rosnou Jack, tentando forçar as algemas, mas sentindo uma fraqueza incomum nos membros.

— Fizemos o que era necessário — disse o Subdiretor Vance, aproximando-se com um relatório em mãos. — Enquanto estavam inconscientes, coletamos amostras de sangue.

Ele colocou o papel sobre o peito de Jack.

— 99,9% de compatibilidade genética com os perfis de Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Vocês são eles. Não há mais como negar.

Luna soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— Vocês são patéticos. Realmente acham que um exame de DNA prova alguma coisa neste mundo de espionagem? A Agência é mestre em forjar resultados, em criar narrativas. Vocês querem tanto que sejamos seus "meninos perdidos" que alteraram os dados para aliviar a própria culpa.

— Sarah, por favor... — Helena tentou tocar a mão da garota, mas Luna recolheu o braço com asco.

— Meu nome é Luna. E se vocês forjaram esse resultado para nos prender aqui, parabéns. Conseguiram. Mas não esperem que a gente aceite essa fantasia de que somos aqueles adolescentes fracos que vocês deixaram para morrer naquele galpão.

Kira olhou para o próprio pulso e notou uma pequena cicatriz de incisão que não estava lá antes.

— Rastreadores subdérmicos — observou ela, a voz monótona. — De última geração. Vocês realmente não confiam em nós.

— Não depois da tentativa de fuga — disse Miller. — Vocês cumprirão o tempo restante do contrato. Um ano e meio. Depois disso, se ainda insistirem que não são quem sabemos que são, estarão livres para ir para onde quiserem. Mas, até lá, trabalharão para esta sede.

Jack olhou para seus companheiros. Ele viu o ódio nos olhos de Josh e a indiferença calculada de Kira. Eles estavam encurralados, mas não derrotados.

— Tudo bem — disse Jack, encarando Miller diretamente nos olhos. — Vamos jogar o seu jogo. Vamos cumprir o contrato desses mortos que vocês tanto amam. Mas não se enganem: nós não somos eles. E nunca seremos.

Marcus deu um passo à frente, tentando suavizar o ambiente.

— Nós preparamos um lugar para vocês. Não vão ficar em celas. Vocês são agentes da casa.

Após a liberação das algemas, sob a mira de guardas que mantinham uma distância respeitosa, Helena e Marcus conduziram o grupo pelos corredores que, há dois anos, eram familiares para eles. Os quatro jovens caminhavam em silêncio, observando as mudanças na estrutura, os novos rostos, mas sem deixar transparecer qualquer sinal de nostalgia.

Eles chegaram a uma ala residencial reservada. Helena parou diante de uma porta dupla e a abriu, revelando um apartamento amplo, moderno, com quatro quartos individuais e uma área comum equipada com o que havia de melhor em tecnologia.

— Este é o apartamento de vocês — disse Helena, com um sorriso triste. — Tentamos manter algumas coisas... bem, tentamos deixar confortável. Há roupas, suprimentos e acesso à rede da Agência para estudos de casos.

Josh entrou primeiro, chutando levemente um puff no canto da sala.

— É um belo aquário — comentou ele, voltando-se para Marcus. — Onde ficam as câmeras de vigilância interna? Quero saber para onde não devo apontar o dedo médio quando for dormir.

— Não há câmeras nos quartos ou nos banheiros — respondeu Marcus, ignorando a provocação. — Queremos que se sintam em casa.

— Casa é onde a gente quer estar — retrucou Kira, passando por Helena sem olhá-la. — Isso aqui é apenas uma base de operações forçada.

Jack parou na soleira da porta e olhou para os dois agentes veteranos. Por um breve segundo, Helena viu um lampejo do Harry que ela conhecia — o menino que adorava ler sobre estratégia e que sempre pedia chocolate quente em noites de chuva. Mas o brilho desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituído pela frieza de Jack.

— Um ano e meio — disse Jack. — Nem um dia a mais. E não tentem nos "consertar". Não há nada quebrado aqui. Apenas evoluído.

Ele fechou a porta na cara de Helena e Marcus.

Do lado de fora, Helena encostou a testa na parede fria do corredor, deixando uma lágrima finalmente cair.

— Eles nos odeiam, Marcus.

— Eles estão vivos, Helena — respondeu Marcus, colocando a mão no ombro da parceira. — Por enquanto, isso tem que ser o suficiente. Temos um ano e meio para provar que ainda somos a família deles.

Dentro do apartamento, Jack verificou cada centímetro em busca de escutas, enquanto os outros três se reuniam no centro da sala.

— O que vamos fazer, Jack? — perguntou Luna, a voz agora mais baixa, mas ainda firme.

Jack olhou para a porta, depois para seus companheiros — sua verdadeira família, forjada no fogo e na sobrevivência da floresta.

— Vamos ser os melhores agentes que esta agência já viu — disse ele, com um sorriso sombrio. — Vamos dar a eles exatamente o que pediram. E, quando o contrato acabar, vamos desaparecer de uma forma que nem mesmo o DNA deles poderá nos encontrar. Até lá... lembrem-se: Harry, Oliver, Sarah e Alyssa morreram naquele galpão. Nós somos o que restou. E o que restou não perdoa.

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