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Fandom: Nenhum

Criado: 29/08/2026

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Entre a Tradição e o Desejo

O sol da tarde caía sobre os campos da fazenda, pintando o horizonte com tons de dourado e laranja que pareciam saídos de uma das telas que Eduarda estudava em suas aulas de História da Arte. O ar ali era diferente da cidade; cheirava a terra molhada, capim fresco e àquela sensação nostálgica de infância que sempre a envolvia quando voltava para a casa dos avós.

Eduarda estava sentada no balanço da varanda, os pés descalços tocando levemente o chão de madeira. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e fluido, que contrastava com seus cabelos castanhos escuros que caíam em ondas naturais pelos ombros. Ela era a imagem da delicadeza, uma boneca de porcelana que parecia poder se quebrar se fosse tocada com muita força. Mas, por dentro, o que a consumia era uma ansiedade silenciosa, um aperto no peito que a acompanhava desde que completara vinte anos.

O som de um motor potente quebrou o silêncio da propriedade. Um utilitário preto de luxo subia a estrada de terra, levantando uma pequena nuvem de poeira. Eduarda sentiu o coração disparar. Ela sabia quem era.

Emanuel não mudava. Mesmo à distância, a aura de controle e estabilidade que ele emanava era palpável. Ele estacionou o carro e, antes mesmo de descer, o clima na varanda pareceu mudar.

— Ele chegou, Duda — disse a mãe dela, saindo da casa com um sorriso contido. — E trouxe a Sara.

Eduarda apenas assentiu, apertando as mãos no colo. O trato. A promessa. Desde que se entendia por gente, seu destino estava traçado nos livros de família: ela pertenceria a Emanuel. E, embora ele tivesse construído um império de tatuagens pelo mundo e vivido uma vida inteira longe daquelas tradições arcaicas, ele nunca revogara o acordo. Pelo contrário. Ao completar vinte anos, Emanuel deixara claro aos pais dela que viria buscar o que era seu.

A porta do carro se abriu. Emanuel desceu primeiro. Aos vinte e cinco anos, ele era um homem imponente. A postura firme, as roupas escuras e funcionais, o olhar que parecia ler cada detalhe do ambiente em segundos. Ele era o porto seguro em meio ao caos, mas também a fonte de toda a confusão emocional de Eduarda.

Logo em seguida, a porta do passageiro se abriu e Sara saiu.

Sara era o oposto absoluto de Eduarda. Loira, com curvas acentuadas que o vestido justo de grife fazia questão de ressaltar, ela não passava despercebida. O brilho do sol refletia em suas joias e na maquiagem impecável. Ela estava grávida de três meses, uma saliência já visível em seu ventre onde crescia a pequena Ágata. Ela caminhava com uma confiança que beirava a insolência, mas havia um brilho de diversão em seus olhos enquanto observava a fazenda.

Emanuel caminhou até a varanda, seus passos pesados e decididos. Ele parou diante de Eduarda, ignorando por um momento a presença dos outros. Seu olhar, geralmente sério e cansado pelo peso de seus negócios, suavizou-se instantaneamente ao pousar na prima.

— Você cresceu, Eduarda — disse ele, a voz grave e rouca.

— Oi, Emanuel — respondeu ela, quase em um sussurro, sentindo o rosto esquentar.

Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar roçando a pele macia de sua bochecha. Era um gesto possessivo, mas carregado de uma ternura que só ele dedicava a ela.

— Eu disse que voltaria quando chegasse a hora — continuou ele, ignorando o fato de que Sara agora subia os degraus da varanda, mascando um chiclete com desdém elegante.

— Credo, Emanuel, deixa a menina respirar — Sara interrompeu, soltando uma risada alta e anasalada. Ela parou ao lado do marido e colocou a mão no quadril, olhando Eduarda de cima a baixo. — Oi, gracinha. Você é ainda mais fofinha do que nas fotos. Parece um passarinho que caiu do ninho.

Eduarda olhou para Sara, sentindo-se intimidada pela presença vibrante da outra mulher.

— Olá, Sara. Como vai a gravidez? — perguntou Eduarda, tentando ser educada, apesar do turbilhão interno.

— Ah, a Ágata está ótima, mas me dando um enjoo dos infernos — Sara deu de ombros, passando a mão na barriga. — Mas o Emanuel me mima tanto que eu quase esqueço que tem um ser humano chutando minha bexiga.

Emanuel não pareceu incomodado com a interrupção. Ele passou o braço pela cintura de Sara, puxando-a para perto, mas seus olhos ainda estavam fixos em Eduarda. Era uma dinâmica estranha, uma tensão que poucas pessoas entenderiam. Ele amava Sara; amava a audácia dela, a vulgaridade honesta, a forma como ela não tinha medo de nada. Mas ele também desejava Eduarda; a pureza dela, a fragilidade que o instigava a proteger e a possuir.

— Vamos entrar — disse Emanuel, voltando ao seu tom de comando. — Temos muito o que conversar com os nossos pais.

O jantar na fazenda foi uma mistura de tradição e modernidade desconfortável. Os pais de Eduarda e os avós observavam a cena com uma mistura de aprovação e curiosidade. O trato estava sendo cumprido, mas a presença de Sara era o elemento que desafiava as convenções.

Após a refeição, Eduarda escapou para o jardim dos fundos. Ela precisava de ar. A faculdade de História da Arte e suas aulas de ballet eram seu refúgio, lugares onde tudo era estético e controlado. Ali, naquela fazenda, ela se sentia um objeto de uma negociação antiga.

— Fugindo de novo, pequena? — A voz de Emanuel veio das sombras.

Ela se virou e o viu encostado em um carvalho antigo, fumando um cigarro raríssimo. Ele parecia exausto.

— Eu só... é muita coisa para processar — disse Eduarda, abraçando o próprio corpo. — Você tem a Sara, Emanuel. Ela está grávida. Por que ainda quer levar isso adiante?

Emanuel caminhou até ela, jogando o cigarro fora e pisando nele. Ele parou a poucos centímetros dela, o calor de seu corpo emanando em direção a ela.

— Porque você é minha, Eduarda. Foi prometida a mim antes mesmo de saber o que era o amor. E eu nunca abro mão do que é meu.

— Mas e ela? Ela não se importa? — Eduarda olhou nos olhos dele, buscando uma resposta lógica.

— A Sara sabe quem eu sou. Ela sabe que meu coração é grande o suficiente para as duas, de formas diferentes — Emanuel explicou, a voz firme. — Ela não vê você como uma ameaça, e você não deveria vê-la assim. Ela quer que eu seja feliz, e eu só sou completo tendo você ao meu lado também.

— Isso parece tão... errado — murmurou ela, embora sentisse uma atração magnética pela segurança que ele oferecia.

— O que é certo, Eduarda? Seguir um papel num livro de história ou o que sentimos aqui? — Ele pegou as mãos dela, notando os calos leves nos dedos, fruto das horas de sapatilha de ponta. — Eu vi você dançar no recital do ano passado. Você parecia um anjo. Naquele momento, eu soube que não importava quanto tempo passasse, eu viria te buscar.

Antes que ela pudesse responder, o som de saltos altos estalando no caminho de pedra anunciou a chegada de Sara. Ela apareceu segurando uma taça de suco, com um sorriso de escárnio brincalhão nos lábios.

— Vocês dois parecem uma cena de filme de época — provocou Sara, aproximando-se e parando ao lado de Emanuel. — Emanuel, querido, para de assustar a menina com esse seu jeito de "dono do mundo".

— Eu não estou assustando ela, Sara — Emanuel respondeu, embora um leve sorriso de canto de boca tenha surgido.

Sara olhou para Eduarda e, por um momento, a máscara de provocação caiu, revelando uma mulher inteligente e observadora.

— Escuta aqui, Duda — disse Sara, usando o apelido com uma intimidade súbita. — Eu sei que você é toda certinha, bailarina, estudante de artes... E eu sou essa loira que fala palavrão e gasta o dinheiro dele. Mas a gente se entende. O Emanuel é um homem difícil, ele quer controlar tudo. Mas ele cuida da gente como ninguém. Se você vier com a gente, não vai te faltar nada. Nem amor, nem proteção. E eu? Eu ganho uma amiga pra não ter que aguentar o mau humor dele sozinha.

Eduarda ficou em silêncio, chocada com a franqueza de Sara.

— Você... você realmente não se importa? — perguntou Eduarda, a voz trêmula.

Sara deu de ombros, passando a mão livre pela barriga.

— A vida é curta demais para ser ciumenta, meu bem. Eu amo esse homem, e se ele diz que precisa de você para estar inteiro, quem sou eu para dizer não? Além disso, a Ágata vai precisar de uma tia, ou uma segunda mãe, ou seja lá o que a gente decidir ser.

Emanuel envolveu as duas com seus braços longos. Eduarda sentiu-se pequena entre eles, mas, pela primeira vez em anos, sentiu-se segura. O peso da incerteza começou a se dissipar.

— Eu vou levar vocês duas para a cidade amanhã — declarou Emanuel, o tom de decisão final voltando. — Eduarda, você termina seu curso lá. Eu já comprei um apartamento maior, perto do estúdio principal.

— Mas e meus pais? — Eduarda tentou protestar fracamente.

— Eles já concordaram. O trato está selado — disse ele, beijando o topo da cabeça de Eduarda e depois a testa de Sara. — Agora, vamos entrar. Está ficando frio e nenhuma das minhas mulheres pode ficar doente.

Enquanto caminhavam de volta para a casa grande, Eduarda olhou para Sara, que piscou para ela de forma cúmplice. A vida que ela imaginara — linear, simples e solitária — estava prestes a ser substituída por algo caótico, intenso e profundamente fora dos padrões.

— Ei, Duda — chamou Sara, enquanto subiam os degraus. — Amanhã a gente vai no shopping. Você precisa de umas roupas que não pareçam que você vai para um convento.

— Sara, deixe ela — resmungou Emanuel, embora não parecesse realmente irritado.

— Deixa nada! Se ela vai ser uma das mulheres do grande Emanuel, tem que brilhar — Sara riu, encostando a cabeça no ombro do marido.

Eduarda sorriu timidamente. Talvez, pensou ela, a arte não estivesse apenas nos quadros ou nos palcos. Talvez a vida pudesse ser uma composição estranha, assimétrica, mas ainda assim bela. Ela olhou para Emanuel, que a observava com uma posse silenciosa e protetora, e sentiu que, apesar de todo o medo, ela finalmente estava onde deveria estar.

Naquela noite, sob o teto da fazenda que vira gerações de sua família seguirem regras rígidas, Eduarda aceitou que seu destino não seria apenas ser a noiva prometida, mas parte de algo muito maior e mais complexo do que qualquer livro de história poderia ensinar. Ela era de Emanuel, e de certa forma, agora também era de Sara e da pequena Ágata que estava por vir. O futuro era incerto, mas pela primeira vez, ela não sentia que precisava enfrentá-lo sozinha.

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