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Inexperiente

Fandom: Alien stage

Criado: 30/08/2026

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Manchas de Rosa e Cinza na Calçada

O motorista da família reduziu a velocidade conforme o sedan preto cruzava a guarita de vidro temperado e aço escovado. Ivan, com o rosto colado no vidro fumê, sentiu um leve formigamento de curiosidade. O condomínio não era apenas um conjunto de prédios; era uma pequena cidade particular, cercada por muros altos e câmeras que pareciam vigiar até o movimento das folhas das árvores meticulosamente podadas.

— Caralho — murmurou Ivan, a voz saindo abafada pelo pirulito de cereja que ele mantinha no canto da boca.

Sua, sentada ao lado dele, não desviou os olhos do livro que segurava, mas suas pupilas acompanharam o reflexo das torres espelhadas que passavam pela janela.

— O quê? — perguntou ela, o tom de voz linear e desprovido de qualquer urgência.

— Esse lugar é enorme — Ivan respondeu, gesticulando para a área de lazer que começava a surgir entre os blocos. — Olha o tamanho daquela quadra, Sua. E tem até uma área verde que parece um parque temático.

— É — limitou-se a dizer a garota, ajeitando a franja preta que insistia em cair sobre seus olhos roxos.

Ivan soltou um suspiro teatral e virou-se para a irmã, arqueando uma sobrancelha.

— Você não consegue demonstrar nenhuma emoção? Tipo, um "uau" ou um "nossa, que maneiro"? A gente se mudou para o topo da cadeia alimentar e você está aí agindo como se estivéssemos entrando em um velório.

Sua finalmente fechou o livro, marcando a página com o dedo indicador pálido. Ela encarou o irmão com uma expressão de tédio profundo.

— Consigo demonstrar emoção, Ivan.

— Ah, é? Quando?

— Quando você parar de falar — retrucou ela, voltando a abrir o livro imediatamente.

Ivan soltou uma risada curta e anasalada. Ele adorava como era fácil tirar a paciência da irmã, mesmo que a reação dela fosse sempre mínima. O carro estacionou em uma das vagas demarcadas no subsolo, um espaço tão limpo que Ivan sentiu que poderia comer no chão sem contrair nenhuma bactéria.

O processo de descarregar as primeiras caixas foi rápido, mas o silêncio do novo apartamento no quinto andar era quase ensurdecedor. Enquanto os pais discutiam onde ficaria o buffet da sala de jantar, Ivan e Sua se viram em um limbo de tédio.

Ivan estava jogado no sofá de couro novo, rolando o feed de uma rede social sem realmente ver nada. Ele olhou para o lado e viu Sua sentada em uma poltrona, já na metade de um novo capítulo.

— Vamos dar uma volta? — sugeriu ele, chutando levemente o pé da poltrona.

Sua nem sequer levantou a cabeça.

— Pra quê?

— Conhecer o condomínio, ué. Ver se tem gente da nossa idade, descobrir onde fica a sala de jogos... Eu vi uma mesa de sinuca lá embaixo.

Sua fechou o livro com um estalo seco. Ela odiava admitir, mas o ar condicionado central estava deixando-a com frio e o movimento faria bem.

— Tá.

Eles desceram pelo elevador de serviço, que era mais luxuoso que o elevador social do prédio antigo. Quando as portas se abriram no térreo, o cheiro de grama cortada e cloro atingiu Ivan. Eles passaram pela fachada de vidro da academia. Ivan parou por um segundo, observando as esteiras de última geração.

— Tem academia — comentou ele, ajustando o pirulito na boca.

— Eu vi — respondeu Sua, caminhando dois passos à frente.

— Eu só tô comentando, Sua. Relaxa.

— Você comenta demais — ela disse, sem diminuir o passo.

Eles continuaram a exploração, passando pela piscina de borda infinita que brilhava sob o sol da tarde e pela sala de jogos, onde o som de botões de fliperama ecoava vagamente. Ivan parou diante da mesa de sinuca forrada com feltro azul marinho.

— Depois eu quero jogar — disse ele, já planejando como ganharia da irmã.

— Tá.

O destino final da pequena expedição foi a quadra poliesportiva. O som de uma bola de vôlei batendo no chão e vozes jovens preencheram o ar. Ivan e Sua pararam perto da grade, observando a dinâmica que já existia ali.

Luka estava sentado no chão, encostado na mureta lateral. Seus óculos refletiam a luz do sol enquanto ele digitava calmamente no celular, parecendo alheio ao caos ao seu redor. No centro da quadra, a cena era mais energética. Hyuna, com sua pele morena brilhando de suor e um sorriso largo, saltou para fazer um levantamento.

— Vai, Till! Não mofa! — gritou ela, a voz carregada de uma animação contagiante.

Till, com seu cabelo cinza bagunçado e uma expressão que alternava entre a concentração extrema e a irritação pura, correu para atingir a bola.

— Cala a boca, Hyuna! Eu tô indo! — ele rebateu, a voz rouca e cheia de gírias. Ele golpeou a bola com força, mas ela bateu na rede e caiu do lado deles. — Porra! Que merda de rede baixa!

— Não é a rede, é você que é ruim — provocou Hyuna, caindo na gargalhada e limpando o suor da testa com o braço.

Os três notaram a presença dos novatos quase simultaneamente. Luka levantou o olhar por cima dos óculos, avaliando-os com uma curiosidade analítica. Hyuna parou de rir e deu um aceno discreto com a cabeça, enquanto Till simplesmente parou com as mãos nos quadris, encarando Ivan e Sua com aquele jeito rebelde de quem está sempre pronto para um confronto ou para uma amizade, dependendo do humor.

Ivan não se intimidou. Ele continuou andando devagar ao lado de Sua, mas seus olhos ficaram presos em Till. Havia algo na energia caótica daquele garoto de cabelo cinza que atraiu sua atenção imediatamente.

Sua, percebendo a distração do irmão, deu uma cotovelada leve nele.

— O quê? — perguntou ela.

Ivan piscou, voltando a olhar para o caminho à frente.

— Nada.

— Você tá olhando — insistiu ela, o tom seco de sempre.

Ivan deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que ele usava quando estava prestes a admitir algo ou a começar uma provocação.

— O cara ali é bonito.

Sua olhou discretamente para a quadra, identificando o alvo do comentário de Ivan.

— Qual?

— O de cabelo cinza — indicou Ivan com um movimento sutil de cabeça.

Sua observou Till por alguns segundos. O jeito impaciente dele de chutar a bola de volta para Hyuna, o cenho franzido, a postura de quem claramente não queria estar perdendo.

— Ah — disse ela.

— "Ah"? — Ivan riu. — Só isso? O que eu tenho que falar?

— Não sei. Você acha ele bonito?

Sua deu de ombros, voltando a olhar para o horizonte.

— Mais ou menos.

Ivan soltou uma gargalhada alta, atraindo por um segundo a atenção de Hyuna.

— Você é muito seca, Sua. Pelo amor de Deus.

— Você perguntou — ela respondeu, imperturbável.

Eles ficaram ali por mais alguns minutos, recostados em um pilar de concreto perto da entrada da quadra. O silêncio entre os dois irmãos não era desconfortável, era apenas a forma como eles operavam. Ivan observava o trio com o interesse de quem estuda um novo ecossistema.

— Você acha que eles são legais? — perguntou Ivan em voz baixa, sem tirar os olhos de Till, que agora tentava um saque viagem.

Sua olhou para Luka, que parecia mergulhado em algum artigo científico no celular, e depois para Hyuna, que gritava mais um palavrão após um erro de Till.

— Não sei.

— Parece que são — insistiu Ivan.

— Você nem falou com eles, como vai saber?

— Eu sei lá... vibração? — Ivan girou o pirulito na boca. — Só tô dizendo.

Dentro da quadra, o jogo de vôlei de dois parecia ter perdido a graça. Till segurou a bola sob o braço e olhou para o canto onde o loiro estava sentado.

— Luka.

Luka nem sequer se mexeu de imediato. Levou alguns segundos para terminar o que estava fazendo antes de levantar os olhos amarelos claros.

— Sim?

— Chama a Mizi — pediu Till, a impaciência transbordando no tom de voz. — Jogar com a Hyuna é irritante, ela não para de falar.

— Ei! Eu ouvi isso! — Hyuna protestou, embora estivesse sorrindo.

Luka apenas assentiu e pegou o celular novamente.

— Vou mandar mensagem.


No sétimo andar, o apartamento dos irmãos Mizi e Luka era um caos organizado de cores e livros. Mizi estava jogada transversalmente em sua cama, as pernas balançando no ar enquanto ela assistia a vídeos de dança. Seu cabelo rosa, com as pontas azuis vibrantes, estava espalhado pelo travesseiro.

O celular sobre seu peito vibrou. Ela olhou a notificação e um sorriso espontâneo surgiu em seu rosto. Era Luka.

Luka: "Estamos na quadra. O Till está perdendo a paciência com a Hyuna. Venha logo."

Mizi: "5 minutos e eu apareço para salvar o dia ;) "

Ela deu um pulo da cama, transbordando a energia que parecia ser sua marca registrada. Calçou um short jeans preto desfiado e vestiu uma blusa bege três vezes maior que o seu tamanho, que caía por um dos ombros. Não se deu ao trabalho de pentear o cabelo perfeitamente; o estilo bagunçado combinava com ela.

Mizi saiu do apartamento quase correndo, cumprimentou o porteiro com um "E aí, beleza?" cheio de gírias e seguiu em direção à área esportiva. Ela caminhava olhando para o celular, rindo de algum meme, e entrou na quadra sem nem olhar para os lados.

Ela se aproximou de Luka e sentou-se ao lado dele no chão com a naturalidade de quem é dona do lugar.

— Que foi? — perguntou ela, jogando o cabelo para trás.

Luka guardou o celular no bolso da calça social.

— O Till pediu para eu chamar você. Ele acha que você é a única capaz de equilibrar o time.

Mizi olhou para Till, que estava do outro lado da rede, e soltou um "Ah" prolongado. Till, vendo que ela finalmente tinha chegado, bateu a bola no chão com força.

— Finalmente, Mizi! Achei que tinha morrido no caminho.

Mizi não perdeu o tempo de resposta. Ela deu um sorriso debochado e mostrou a língua.

— Vai se ferrar, Till! Eu estava ocupada tendo uma vida, coisa que você claramente não tem.

Hyuna caiu na gargalhada, batendo palmas.

— Toma essa, revoltado!

Mizi voltou a atenção para o celular por um segundo, respondendo uma última mensagem antes de se levantar para o jogo.

Do lado de fora da grade, Ivan e Sua observavam a nova adição ao grupo. Ivan sentiu o braço de Sua tensionar levemente ao seu lado. Ele olhou para a irmã e percebeu que ela estava estática, com os olhos roxos fixos na garota de cabelo rosa.

Sua não costumava encarar as pessoas. Na verdade, ela evitava contato visual o máximo possível. Mas Mizi parecia ter um campo magnético próprio.

Ivan notou o silêncio prolongado da irmã e resolveu não deixar passar.

— O quê? — perguntou ele, com um sorriso travesso.

Sua piscou, desviando o olhar rapidamente para o chão, mas suas bochechas tinham um leve tom rosado que não estava lá antes.

— Nada.

— Então para de olhar — provocou Ivan, aproximando o rosto do dela.

— Você que estava olhando — mentiu ela, a voz saindo um pouco mais aguda que o normal.

Ivan começou a rir, uma risada genuína que fez Sua cruzar os braços e fechar a cara.

— Cala a boca, Ivan.

— Tá bom, tá bom. Não tá mais aqui quem falou.

Ele deu um último olhar para a quadra. Till agora estava discutindo com Mizi sobre quem ficaria na rede, enquanto Hyuna tentava mediar a situação e Luka apenas observava tudo com um ar de superioridade acadêmica. Era um grupo estranho, mas parecia orgânico.

— Bora? — perguntou Ivan, sentindo que já tinha visto o suficiente por hoje.

— Bora — Sua respondeu prontamente, já se virando para o caminho do elevador.

Eles caminharam de volta para o prédio em silêncio. Ivan ainda mastigava o palito do pirulito, pensando que, talvez, a mudança para aquele condomínio de luxo não fosse ser tão tediosa quanto ele imaginou.

Na quadra, o quarteto original permaneceu. Hyuna, que tinha o olhar mais atento do grupo, esperou os novatos sumirem de vista antes de comentar.

— Então... — começou ela, pegando a bola.

Till parou de reclamar da posição do sol e olhou para ela.

— O quê?

— Os dois eram novos, né? Os que estavam ali na grade.

Luka, que já estava de pé limpando a poeira da calça, confirmou com um aceno.

— Sim. Eu os vi entrando hoje à tarde com o caminhão de mudança. Estão no quinto andar, eu acho.

Mizi, que estava amarrando o cabelo em um rabo de cavalo alto, olhou para a saída da quadra, onde apenas a sombra dos irmãos ainda podia ser vista.

— Quem eram? — perguntou ela, curiosa.

— Provavelmente os novos moradores — Luka repetiu, paciente.

— Eu nunca tinha visto eles aqui — disse Till, chutando uma pedrinha para fora da linha da quadra. — O cara ficou me encarando um tempão. Achei que ele ia vir pedir a bola ou arrumar briga.

Hyuna riu, jogando a bola para cima e pegando-a com uma mão.

— Eu também não conhecia. O garoto parecia mais falante, estava rindo de alguma coisa o tempo todo.

— E a menina não falou uma palavra — observou Hyuna. — Parecia que estava em um funeral.

Luka ajeitou os óculos, pensativo.

— Talvez eles só estejam se acostumando ao lugar. Mudar-se para um condomínio desse tamanho no meio do ano letivo deve ser estranho.

Mizi deu de ombros, soltando um bocejo espontâneo que não tentou esconder.

— Amanhã a gente vê. Se eles forem legais, a gente chama para o vôlei. Se forem chatos, a gente ignora.

Till deu um sorriso de canto, o primeiro sinal de diversão genuína desde que o treino começou.

— É justo. Agora chega de papo. Bora continuar?

— Bora! — gritou Hyuna, sacando a bola com força.

O som da partida recomeçou, ecoando pelas paredes de vidro do condomínio. Enquanto isso, no quinto andar, Ivan e Sua entravam em seu novo apartamento. Eles ainda não sabiam os nomes de Mizi, Till, Hyuna ou Luka, e muito menos que, em poucos dias, aquelas vidas tão distintas colidiriam de uma forma que nenhum deles esperava.

Ivan foi direto para a cozinha procurar algo doce, enquanto Sua se trancou em seu novo quarto, abrindo o livro na mesma página de antes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, as palavras no papel pareciam menos interessantes do que a imagem de uma garota de cabelo rosa rindo em uma quadra ensolarada.

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