Fanfy
.studio
Imagem de fundo

D

Fandom: Nenhum

Criado: 31/08/2026

Tags

RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaEstudo de PersonagemGravidez Não Planejada/IndesejadaCiúmes
Índice

O Peso do Zelo e a Dança da Teimosia

O escritório de Emanuel no estúdio central de São Paulo exalava o cheiro característico de tinta, antisséptico e couro caro. Aos vinte e cinco anos, ele havia construído um império que muitos levariam décadas para erguer, mas o peso de gerir estúdios em três continentes não se comparava à pressão que sentia no peito toda vez que cruzava a porta de casa. O sucesso financeiro lhe dera conforto, mas sua natureza protetora e racional era constantemente testada pelas duas mulheres que ocupavam, cada uma à sua maneira, o centro de sua vida.

Emanuel massageou as têmporas, fechando os olhos por um momento. Ele era um homem de lógica. E a lógica ditava que, com Sara grávida de um mês, o caos urbano e o estresse da loja de roupas dela precisavam ser substituídos pelo ar puro e pelo silêncio da fazenda da família no interior.

A porta do escritório se abriu sem cerimônia. Sara entrou como um furacão de perfume importado e confiança. O vestido justo de seda vermelha realçava as curvas que ela exibia com orgulho, e o brilho nos olhos loiros indicava que ela não estava para brincadeira.

— Emanuel, querido, se você me fizer assinar mais um documento sobre a gestão da loja antes de viajarmos, eu juro que mando o contador para o inferno — disse ela, jogando a bolsa de grife sobre a mesa e sentando-se no braço da poltrona dele.

Emanuel abriu um sorriso contido, a mão subindo automaticamente para a cintura dela, um gesto de posse e cuidado que era instintivo.

— Você precisa descansar, Sara. O médico foi claro. O primeiro trimestre é delicado.

— Eu estou grávida, não inválida — ela rebateu com um sorriso irônico, passando os dedos longos e impecavelmente manicurados pelo cabelo dele. — Mas aceito a fazenda. O silêncio vai ser bom para pensar na nova coleção. E a Duda? Ela já arrumou as malas?

O semblante de Emanuel escureceu levemente.

— É sobre isso que precisamos conversar.

Nesse momento, a porta abriu-se novamente, mas de forma muito mais suave. Eduarda entrou timidamente, carregando sua bolsa de ballet e alguns livros de História da Arte contra o peito esguio. Ela parecia uma aparição delicada em comparação à presença vibrante de Sara. Usava um cardigã bege claro e uma saia rodada, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais pelos ombros.

— Oi... — murmurou Eduarda, os olhos grandes e expressivos buscando os de Emanuel.

— Vem aqui, pequena — chamou Emanuel, a voz suavizando instantaneamente.

Eduarda aproximou-se e sentou-se do outro lado de Emanuel, apoiando a cabeça no ombro dele. A dinâmica entre os três era algo que poucos entenderiam, mas que para eles funcionava com uma harmonia peculiar. Sara não via Eduarda como uma ameaça; via-a como uma doçura necessária, alguém que trazia paz ao temperamento explosivo de Emanuel. E Eduarda, em sua sensibilidade, sabia que Sara era a força e a chama que mantinha Emanuel motivado. Ambas o amavam o suficiente para saber que ele precisava da totalidade que elas formavam juntas.

— Estávamos falando da viagem — começou Emanuel, o tom voltando a ser firme. — Saímos amanhã cedo para a fazenda. Quero vocês duas longe dessa poluição e da correria.

Eduarda tensionou o corpo contra ele. Ela se afastou levemente, brincando com a ponta do cardigã, um sinal claro de seu nervosismo.

— Emanuel... eu não posso ir amanhã.

O tatuador franziu o cenho, o controle que ele tanto prezava começando a escorregar por entre os dedos.

— Como não pode, Eduarda? Já combinamos. As aulas na faculdade entraram em recesso e suas aulas de ballet no projeto também.

— É o espetáculo da Companhia Municipal — disse ela em voz baixa, quase um sussurro, mas com uma nota de teimosia que Emanuel conhecia bem. — Eu comprei os ingressos há meses. É uma apresentação única de "Giselle". Eu preciso ver, Emanuel. Como estudante de arte e bailarina, é... é fundamental.

Emanuel soltou um suspiro pesado, a irritação começando a borbulhar.

— Um espetáculo de ballet, Eduarda? Você quer ficar na cidade, sozinha, no meio desse caos, por causa de duas horas de dança?

— Não são apenas duas horas! — Eduarda exclamou, sua forma de "gritar" sendo apenas um aumento leve no tom de voz, acompanhado por um biquinho manhoso. — É importante para mim. Você sempre diz que apoia minha carreira.

— E eu apoio! — Emanuel levantou-se, começando a andar pela sala, a postura rígida. — Mas a Sara está grávida. Eu quero a família reunida onde eu possa proteger todos vocês. A fazenda é segura, é calma. Eu não vou ficar tranquilo sabendo que você está aqui batendo perna em teatro enquanto nós estamos lá.

Sara, que observava a cena com uma sobrancelha arqueada, interveio com seu tom prático e levemente sarcástico.

— Deixa de ser controlador, Emanuel. A menina quer ver o ballet. Ela não vai morrer se ficar dois dias sozinha.

— Não é sobre morrer, Sara, é sobre responsabilidade! — Emanuel virou-se para Sara, o estresse acumulado dos negócios transbordando. — Você está carregando um filho meu. Ela é... ela é a Eduarda! Ela se perde se o GPS falhar!

Eduarda sentiu os olhos marejarem. A insegurança bateu forte, mas a vontade de assistir ao espetáculo era sua única forma de pequena rebeldia.

— Você está sendo injusto — disse Eduarda, a voz embargada. Ela se levantou e caminhou até ele, segurando a barra da camisa social dele com as mãos pequenas. — Manu, por favor... eu vou logo depois. Eu pego um ônibus, ou peço para o meu pai me levar...

— Nem pensar! — Emanuel trovejou, a ideia de Eduarda em um ônibus de viagem ou dependendo dos pais dela — que eram jovens e, na cabeça dele, um tanto irresponsáveis — o deixava possesso. — Ou você vai conosco no carro amanhã, ou não vai mais a esse espetáculo.

A sala ficou em silêncio por um momento. Sara revirou os olhos, levantando-se e caminhando até o frigobar do escritório para pegar uma água.

— Você é um dinossauro, Emanuel. Um dinossauro possessivo — comentou Sara, antes de beber um gole. — Duda, não cede. Ele está fazendo pirraça porque não consegue agendar o seu horário como faz com os clientes dele.

Eduarda olhou para Sara em busca de apoio e depois voltou a olhar para Emanuel. Ela sabia que ele a amava, sabia que aquele excesso de proteção era a forma dele de demonstrar afeto, mas naquele momento, ela se sentia sufocada.

— Eu não vou, Emanuel — disse Eduarda, a voz trêmula, mas decidida. — Eu vou ficar para o espetáculo.

Emanuel sentiu a veia da têmpora pulsar. Ele era um homem que comandava centenas de funcionários, que negociava contratos milionários em Londres e Tóquio, mas ali, diante de uma garota de vinte anos com olhar de corça assustada, ele se sentia perdendo a guerra.

— Eduarda, não me desafie — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Eu estou tentando cuidar de vocês. A Sara precisa de paz, e eu preciso saber que você está bem para conseguir dar atenção a ela e ao bebê.

— Então você quer que eu vá só para ser um enfeite ou para você não ter que se preocupar? — Eduarda sentiu uma pontada de mágoa. — Eu também tenho minhas coisas, Emanuel. Eu amo você, amo a Sara e já amo esse bebê, mas eu não sou uma criança!

— Age como uma! — Emanuel disparou, arrependendo-se no segundo seguinte ao ver a primeira lágrima escorrer pelo rosto dela.

— Chega, Emanuel! — Sara interveio, aproximando-se e colocando-se entre os dois. Ela colocou a mão no peito dele, empurrando-o levemente. — Você está passando dos limites. A menina é sensível, e você está gritando como se estivesse em um cais de porto. E você, Duda, para de chorar que não resolve nada.

Eduarda soluçou baixinho, escondendo o rosto nas mãos. A reação dela, tão frágil e manhosa, desarmou Emanuel mais do que qualquer argumento lógico. O ódio que ele sentia por vê-la chorar era maior do que a irritação por não ser obedecido.

Ele soltou um suspiro longo, fechando os olhos e tentando recuperar a compostura. O silêncio na sala era apenas quebrado pelos soluços baixos de Eduarda e pelo som rítmico do salto de Sara batendo no chão.

— Tudo bem — disse Emanuel, finalmente, a voz rouca. — Tudo bem.

Eduarda baixou as mãos, olhando-o com esperança através das pestanas úmidas.

— Você me deixa ficar? — perguntou ela, a voz infantilizada pela emoção.

— Eu não "deixo" nada, Eduarda. Você é adulta — ele disse, embora suas ações sempre dissessem o contrário. — Mas eu não vou embora amanhã e deixar você aqui sozinha.

Sara cruzou os braços, intrigada.

— E o que o grande mestre planeja então?

— Nós vamos todos amanhã — Emanuel decidiu, apontando para Eduarda. — Você vai ao seu espetáculo. Eu vou com você. E a Sara também.

Sara soltou uma gargalhada alta e sonora.

— Eu? Ver ballet, Emanuel? Eu prefiro fazer um canal sem anestesia. Aquilo é um tédio!

— Você vai, Sara — Emanuel disse, agora voltando o tom controlador para ela. — Porque depois do espetáculo, nós vamos dormir no hotel aqui perto e saímos de madrugada, direto para a fazenda. Sem paradas, sem discussões. Eu não vou deixar a Eduarda aqui e não vou deixar você sozinha no hotel.

Eduarda abriu um sorriso radiante, a tristeza desaparecendo como se nunca tivesse existido. Ela se jogou nos braços de Emanuel, abraçando-o pelo pescoço.

— Obrigada, Manu! Você é o melhor, eu juro! Você vai amar, Giselle é lindo, é uma história de amor e...

— Eu vou odiar cada segundo — interrompeu ele, mas seus braços já a envolviam com força, o rosto escondido na curva do pescoço dela, aspirando o perfume suave de baunilha que ela sempre usava. — Mas vou estar lá garantindo que nada aconteça com você.

Sara suspirou, balançando a cabeça, mas havia um brilho de diversão em seus olhos. Ela se aproximou dos dois, abraçando Emanuel pelas costas, formando aquele círculo que era o seu mundo particular.

— Se eu dormir e roncar no meio da apresentação, a culpa é sua, Emanuel — avisou Sara. — E quero um jantar decente depois. Gravidez me dá fome, e eu não vou comer pipoca de teatro.

— Eu levo vocês para jantar onde quiserem — prometeu Emanuel, sentindo a tensão finalmente deixar seus ombros.

Ele tinha o controle novamente. Ou, pelo menos, a ilusão dele. Teria as duas sob seus olhos, protegidas sob sua asa. Para um homem como Emanuel, a felicidade não era um conceito abstrato; era a presença física daquelas duas mulheres, a segurança delas e a certeza de que, apesar das pirraças de Eduarda e das provocações de Sara, ele era o porto seguro onde ambas escolhiam atracar.

— Agora, as duas, para casa — ordenou ele, recuperando o tom de autoridade. — Eduarda, arrume suas sapatilhas. Sara, nada de saltos tão altos amanhã.

— Sim, senhor, capitão — zombou Sara, dando um tapinha atrevido no rosto dele antes de pegar sua bolsa.

Eduarda deu um beijo estalado na bochecha de Emanuel e depois um abraço carinhoso em Sara, passando a mão pela barriga dela ainda plana.

— O bebê vai gostar da música, Sara. Você vai ver.

— O bebê vai querer que a bailarina pare de pular para ele poder dormir, isso sim — retrucou a loira, mas com um tom carinhoso que raramente mostrava a outros.

Enquanto as duas saíam do escritório conversando sobre as roupas que levariam para a fazenda, Emanuel sentou-se novamente em sua cadeira. Ele olhou para a foto das duas em sua mesa. A vida dele era um equilíbrio constante entre a razão e a emoção, entre a força e a delicadeza. E, embora a teimosia de Eduarda o tivesse tirado do sério minutos antes, ele sabia que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.

Amanhã ele estaria em um teatro, provavelmente entediado, mas estaria cercado pelo que mais amava. E para Emanuel, o protetor, o provedor, o homem de gelo que só derretia por elas, isso era tudo o que importava. Ele pegou o celular e discou para o motorista, organizando os detalhes da logística. Tudo precisava ser perfeito. Porque, no mundo de Emanuel, o amor era medido pela precisão do cuidado.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic