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Fandom: Nenhum
Criado: 01/09/2026
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Entre Tintas e Sapatilhas
A luz da manhã filtrava-se pelas janelas do estúdio de dança, criando padrões geométricos no chão de madeira clara. Eduarda ajustava o coque com dedos ágeis, sentindo a leve queimação nos músculos após uma sequência intensa de grand pliés. Aos vinte anos, ela parecia flutuar entre dois mundos: o rigor clássico do ballet e a sensibilidade subjetiva da História da Arte.
Ela era o oposto do caos. Enquanto a música clássica preenchia o ambiente, sua mente divagava para o fim de semana que se aproximava. O grupo de amigos — um coletivo barulhento e heterogêneo que ela chamava de família — havia alugado uma chácara para celebrar a amizade e o sucesso recente de Emanuel, que acabara de inaugurar seu décimo estúdio de tatuagem, desta vez em Tóquio.
Eduarda pegou sua bolsa de lona, vestindo um cardigã de tricô cor de areia sobre o collant. Ela era uma criatura de tons pastéis e silêncios, alguém que preferia observar as cores da vida a pintá-las com agressividade.
Do outro lado da cidade, o cenário era drasticamente diferente. O escritório de Emanuel, localizado no andar superior de sua principal loja em São Paulo, exalava couro, tinta e café forte. Aos vinte e cinco anos, ele era um império em forma de homem. Suas mãos, marcadas por traços negros e precisos, agora repousavam protetoramente sobre o ventre ainda plano de Sara.
Sara estava sentada no colo dele, uma visão de excessos e confiança. O cabelo loiro platinado, impecavelmente escovado, caía sobre os ombros cobertos por uma blusa de seda vermelha decotada. Ela exibia o corpo curvilíneo com o orgulho de quem sabe o poder que exerce.
— Você está tenso, Manu — comentou Sara, a voz rouca e carregada de uma ironia afetuosa. Ela passou a mão pela nuca dele, sentindo a rigidez dos músculos.
— É a viagem. Muita gente, muita conversa — Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. — E tem a notícia. Quero que tudo seja perfeito.
Sara riu, um som alto que preencheu a sala. Ela não se importava com as convenções. Formada em administração, ela preferia gerenciar a vida social e os desejos de Emanuel a se prender a um escritório.
— Vai ser perfeito. Eles vão surtar quando souberem do herdeiro da tatuagem — ela inclinou o rosto, fitando-o com olhos astutos. — E a Duda? Você vai contar para ela?
Emanuel abriu os olhos, a expressão endurecendo ligeiramente. O nome de Eduarda sempre causava um curto-circuito em sua lógica racional.
— Não agora, Sara. Já conversamos sobre isso. Meu foco é você e o bebê. A Eduarda... ela é sensível. Eu não quero confundir as coisas agora.
— Você é tão protetor que chega a ser fofo, Manu — Sara deu de ombros, sem um pingo de ciúme. Ela conhecia a natureza do homem que amava. Emanuel era um acumulador de belezas; ele a amava com uma intensidade carnal e profunda, mas olhava para Eduarda como se ela fosse uma obra de arte rara em um museu que ele precisava desesperadamente adquirir para sua coleção particular. — Eu não me importo, você sabe. Ela é uma gracinha. Se você a quer, a gente dá um jeito. Mas você precisa parar de olhar para ela como se ela fosse quebrar.
— Ela é diferente de você, Sara. Você é um furacão. Ela é... uma brisa que eu não quero que mude de direção.
A chácara era um refúgio de verde exuberante, afastado do ruído urbano. O grupo de amigos já ocupava a área da piscina quando o carro de luxo de Emanuel estacionou.
Eduarda estava sentada em uma espreguiçadeira, lendo um livro sobre o Renascimento italiano, quando os viu chegar. Seu coração, sempre traidor, deu um salto. Ela admirava Emanuel de longe, com a timidez de quem se sente pequena diante de tanta presença. Ele era o porto seguro do grupo, o homem que resolvia problemas com uma ligação e que, inexplicavelmente, sempre tinha um olhar mais suave quando se dirigia a ela.
— Chegamos, seus viciados em cloro! — gritou Sara, saindo do carro com um óculos de sol gigante e um vestido justo que deixava pouco para a imaginação.
Emanuel saiu logo atrás, carregando as malas com facilidade. Seus olhos varreram o local até encontrarem a figura esguia de Eduarda. Ele caminhou em direção a ela antes mesmo de cumprimentar os outros rapazes.
— Oi, Duda — disse ele, a voz baixando um tom. — Você parece cansada. As aulas de ballet estão exigindo muito?
Eduarda fechou o livro, sentindo o rosto esquentar. A proximidade de Emanuel sempre a deixava um pouco sem fôlego.
— Um pouco, Emanuel. Estamos ensaiando para o espetáculo de inverno. Mas estou bem. E você? Como foi a viagem para o Japão?
— Cansativa. Mas valeu a pena.
Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho, afastou uma mecha de cabelo castanho que caía sobre o rosto dela. Eduarda se inclinou levemente para o toque, como uma planta buscando o sol.
— Ei, Manu! Deixa a menina ler! — Sara se aproximou, envolvendo o braço de Emanuel com o dela. Ela sorriu para Eduarda, um sorriso genuíno, sem qualquer traço de malícia. — Oi, Duda! Adorei esse vestido, tão... camponesa chique. Combina com você.
— Obrigada, Sara — respondeu Eduarda, com um sorriso tímido. Ela achava Sara fascinante, embora a energia da loira a exaurisse às vezes.
A tarde passou entre risadas, bebidas e o som de música ambiente. Emanuel, no entanto, não relaxava. Ele observava Sara constantemente, garantindo que ela estivesse hidratada, que não ficasse muito tempo no sol, que não fizesse esforços desnecessários. Sua proteção era quase magnética.
Ao cair da noite, o grupo se reuniu em volta de uma grande mesa de madeira no terraço. O cheiro de churrasco e o frescor da noite criavam o clima perfeito. Emanuel se levantou, pedindo a atenção de todos. Ele segurou a mão de Sara, que brilhava sob a luz dos lustres rústicos.
— Pessoal, eu e a Sara temos um anúncio.
O silêncio caiu sobre a mesa. Eduarda sentiu um aperto estranho no peito, uma intuição que ela não sabia nomear.
— Nós vamos ser pais — disse Emanuel, e pela primeira vez no dia, um sorriso aberto e genuíno iluminou seu rosto severo. — A Sara está grávida de um mês.
Uma explosão de gritos e aplausos tomou conta do lugar. Os amigos se levantaram para abraçá-los. Eduarda ficou estática por alguns segundos, processando a informação. Ela sentiu uma pontada de tristeza que a envergonhou imediatamente. Por que se sentia assim? Emanuel e Sara eram um casal sólido, era natural que isso acontecesse.
Ela se levantou e caminhou até eles.
— Parabéns, Sara. Parabéns, Emanuel — disse ela, a voz suave um pouco embargada pela emoção intuitiva que sempre a dominava. — Vai ser um bebê lindo.
Sara a puxou para um abraço apertado, o cheiro de perfume caro envolvendo Eduarda.
— Obrigada, Duda! Você vai ter que ensinar ballet para ela, se for menina. Ou para ele, quem sabe? — Sara piscou para Emanuel por cima do ombro de Eduarda.
Emanuel olhou para as duas mulheres em seus braços. Sara, a força vibrante que ele amava com paixão e lealdade; e Eduarda, a doçura etérea que ele desejava proteger do mundo e manter por perto, como um segredo precioso.
Mais tarde, quando a maioria dos amigos já estava alterada pelo álcool ou recolhida em seus quartos, Emanuel encontrou Eduarda na varanda, olhando para as estrelas.
— Você está muito quieta, Duda — comentou ele, encostando-se no parapeito ao lado dela.
— Só estou pensando — ela admitiu, sem olhar para ele. — O mundo vai mudar muito para vocês agora, não é?
— Vai. Mas algumas coisas nunca mudam — ele se aproximou mais, o calor de seu corpo irradiando para ela no frio da noite. — Eu ainda vou estar aqui para o que você precisar. Sempre.
Eduarda olhou para ele, seus olhos grandes e expressivos revelando uma vulnerabilidade que desarmava qualquer lógica de Emanuel.
— Por que você cuida tanto de mim, Emanuel? Você tem tanta coisa para se preocupar... Seus estúdios, a Sara, o bebê agora...
Emanuel sentiu a urgência de contar a verdade. De dizer que ela era a nota suave na sinfonia barulhenta de sua vida. Que ele a queria em sua casa, em sua cama, em sua rotina, tanto quanto queria Sara. Mas ele lembrou-se do que dissera à namorada: Eduarda era frágil. Ela não entenderia a complexidade do que eles viviam. Pelo menos não ainda.
— Porque você é importante, Eduarda. Simples assim.
Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando sua bochecha. Eduarda fechou os olhos, apoiando o rosto na palma da mão dele. Era um gesto de confiança absoluta, de entrega.
De uma das janelas do andar superior, Sara observava a cena enquanto passava creme na barriga. Ela não sentia raiva. Sentia uma satisfação estratégica. Ela conhecia Emanuel melhor do que ele mesmo. Sabia que ele precisava daquela paz que só Eduarda emanava para compensar o estresse da vida que levavam.
— Deixa ele, Duda — sussurrou Sara para si mesma, com um sorriso de canto. — Ele vai te buscar. E eu vou estar aqui para te receber.
Lá embaixo, Emanuel retirou a mão, lutando contra o impulso de beijá-la.
— Vá dormir, pequena. O dia foi longo.
— Boa noite, Emanuel.
Eduarda entrou, deixando-o sozinho com o silêncio da chácara. Emanuel acendeu um cigarro, algo que raramente fazia, observando a fumaça se dissipar no ar. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: dinheiro, sucesso e o amor de uma mulher incrível que agora carregava seu filho. Mas, enquanto olhava para a porta por onde Eduarda passara, ele sabia que sua coleção de felicidade ainda estava incompleta.
Ele era um homem prático, um estrategista. E, como qualquer bom tatuador, ele sabia que a beleza final de uma obra exigia paciência, camadas e, acima de tudo, a aceitação da dor antes da perfeição. Ele teria as duas. Era apenas uma questão de tempo e de como desenhar essa nova realidade na pele da vida delas.
