Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Ant Pile

Fandom: miss peregrine's home for peculiar children

Criado: 01/09/2026

Tags

FantasiaAventuraDor/ConfortoAçãoIsekai / Fantasia PortalViagem no TempoEstudo de PersonagemCenário CanônicoRecontar
Índice

O Eco do Invisível e o Nó de 1943

A grama sob os pés de Beatrice Portman parecia vibrar com uma energia que ela não conseguia explicar. Não era o tipo de vibração que se sente em uma cidade movimentada, mas algo mais profundo, como se a própria terra estivesse prendendo a respiração. Ao seu lado, Jacob mantinha os ombros tensos, os olhos varrendo as ruínas da velha casa na ilha de Cairnholm.

— Bea, você sentiu isso? — sussurrou Jacob, a voz falhando levemente.

Beatrice não respondeu de imediato. Ela puxou as mangas do seu cardigã cinza até cobrirem metade das palmas das mãos, um hábito nervoso que a acompanhava desde a morte do avô Abe. Seus olhos castanhos, grandes e expressivos, estavam fixos em um ponto entre as vigas carbonizadas do que um dia fora um lar.

— É como se... o ar estivesse mais pesado aqui, Jake — Bea finalmente disse, a voz suave e melódica, mas carregada de uma hesitação tímida. — Vovô não estava mentindo, estava?

Jacob olhou para a irmã, sentindo a necessidade habitual de protegê-la. Bea sempre fora a mais sensível, a que chorava quando encontrava um pássaro ferido no quintal, a que se escondia atrás dele quando estranhos vinham falar com a família. Mas ali, naquele lugar esquecido pelo tempo, havia algo nela que parecia... sintonizado.

O encontro com Emma Bloom foi um borrão de chamas e confusão. Quando a garota de olhar intenso e mãos que emanavam calor desapareceu pelo que parecia ser um túnel de rochas, Jacob não hesitou. Bea, embora tremendo e com o coração martelando contra as costelas, seguiu o irmão. Ela nunca o deixaria sozinho, nem mesmo se o próprio medo ameaçasse paralisar suas pernas.

Ao atravessarem a fenda, o mundo mudou. O cinza opaco da ilha moderna deu lugar a um azul vibrante, a um sol que parecia brilhar com uma intensidade eterna. E então, eles a viram. A casa. Não mais uma ruína, mas uma mansão majestosa, pulsante de vida.

— Sejam bem-vindos — disse uma voz firme e elegante.

Srta. Peregrine estava parada nos degraus, o relógio de bolso na mão, a postura impecável de uma Ymbryne que governa o tempo. Ao redor dela, crianças que pareciam saídas dos pesadelos e sonhos de Abe Portman começaram a surgir.

Bea deu um passo para trás, esbarrando no braço de Jacob. Suas bochechas ganharam um tom carmesim instantâneo quando percebeu que todos os olhos estavam nela.

— Ora, ora, o que temos aqui? — Uma voz arrastada e sarcástica veio de um garoto de cabelos loiros bagunçados e olhos escuros que pareciam avaliar a alma de Bea. — Jacob trouxe uma sombra?

— Ela é minha irmã, Enoch — Jacob interveio rapidamente, percebendo o desconforto de Bea. — O nome dela é Beatrice.

— Ela é adorável! — exclamou uma menina pequena, Olive, que flutuava a alguns centímetros do chão, mantida na terra apenas por pesados sapatos de chumbo.

Bea tentou sorrir, mas acabou apenas abaixando a cabeça, brincando com uma mecha de seu cabelo ondulado.

— Olá... — murmurou ela, tão baixo que quase se perdeu na brisa.

— Não precisa ter medo, querida — disse uma voz calorosa. Uma garota que parecia ter a força de um titã em um corpo delicado aproximou-se. Era Bronwyn. Ela pegou a mão de Bea com uma delicadeza surpreendente. — Eu sou a Bronwyn. Quer ver o jardim?

Bea olhou para Jacob, que assentiu com um sorriso encorajador. Aos poucos, a timidez de Bea começou a ceder diante da curiosidade. Ela passou a tarde sendo guiada por Bronwyn, que a tratava com uma reverência quase protetora, apesar de Bea ser tecnicamente mais velha. Havia uma conexão imediata ali; Bea sentia que precisava cuidar de Bronwyn, e Bronwyn sentia que precisava ser o escudo de Bea.

Enquanto Jacob conversava com Emma e a Srta. Peregrine, Bea foi apresentada às maravilhas e horrores da casa. Ela viu Hugh e suas abelhas, o invisível Millard — cuja voz a fez pular de susto na primeira vez —, e a doce Claire, que timidamente mostrou a boca extra na parte de trás da cabeça.

— É... é muito bonita — disse Bea para Claire, que ficou radiante. Bea não sabia muito bem como reagir a elogios, mas dar um era mais fácil do que receber.

No entanto, o clima de descoberta foi interrompido quando o grupo se reuniu perto da oficina de Enoch. O garoto estava ocupado dando vida a pequenas criaturas feitas de órgãos e argila, um espetáculo que fazia Bea estremecer e se aproximar de Jacob.

— Por que você fica me olhando assim? — perguntou Enoch, sem desviar os olhos de sua criação.

Bea corou violentamente.

— Eu... eu não queria ser rude. É que... é fascinante. E um pouco triste.

Enoch parou o que estava fazendo. Ninguém nunca chamara seu trabalho de "triste". Geralmente diziam "nojento" ou "assustador".

— Triste? — Ele arqueou uma sobrancelha.

— Eles não pediram para voltar, não é? — Bea disse, ganhando um pouco de coragem. — Mas você cuida deles. De um jeito estranho, mas cuida.

Enoch bufou, voltando ao trabalho para esconder um lampejo de surpresa.

— Você é estranha, Portman.

De repente, o ambiente mudou. Bea parou de falar no meio de uma frase. Ela se endireitou, o rosto perdendo a cor, os olhos castanhos fixos em um ponto além do muro do jardim, onde a floresta se tornava densa.

Jacob, que conhecia cada nuance da irmã, congelou.

— Bea? O que foi?

As outras crianças pararam de brincar. Srta. Peregrine, que estava por perto, aproximou-se com passos rápidos.

— Beatrice, o que você está vendo? — perguntou a Ymbryne, a voz carregada de uma autoridade preocupada.

— Não estou vendo... ainda — sussurrou Bea, a voz trêmula. — Mas está vindo. É frio. É um vazio que morde. Está perto, Jacob. Muito perto.

Jacob olhou para a mesma direção, mas não viu nada.

— Eu não vejo nada, Bea.

— Mas eu sinto! — ela exclamou, e pela primeira vez, a timidez desapareceu, substituída por um instinto de sobrevivência puramente peculiar. — Ele está contornando as árvores. Está vindo pelo lado leste.

Segundos depois, Jacob soltou um suspiro sufocado.

— Agora eu vejo. Um Etéreo.

O pânico ameaçou se instalar, mas a Srta. Peregrine agiu com rapidez, recolhendo todos para dentro da casa. A habilidade de Bea de detectar a proximidade antes mesmo da visão de Jacob se manifestar era um trunfo que a Ymbryne não esperava.

— Sua peculiaridade é mais refinada que a de seu avô, Beatrice — comentou a Srta. Peregrine mais tarde, enquanto os irmãos Portman descansavam na sala de estar. — Você não apenas vê o monstro; você sente a intenção dele no tempo.

Nos dias que se seguiram, a tensão aumentou. A investigação sobre a morte de Abe revelou a sombra de Barron e seus Wights. Jacob estava determinado a caçar a verdade, e Bea, apesar de seus protestos silenciosos, não o deixava.

Enoch, estranhamente, começou a orbitar ao redor de Bea. Ele não era gentil, não da forma tradicional, mas sempre parecia estar por perto quando ela se afastava demais do grupo.

— Se você for comida por um Hollow, não espere que eu use um dos meus corações em você — disse ele certa tarde, sentando-se ao lado dela enquanto ela observava Fiona fazer as flores crescerem. — Seria um desperdício de material.

Bea olhou para ele e, para surpresa de Enoch, deu uma risadinha.

— Você é péssimo em ser legal, Enoch.

— Eu não estou sendo legal.

— Está sim. Você está me dizendo para não morrer. Obrigada.

Enoch desviou o olhar, resmungando algo sobre "garotas sentimentais", mas não saiu do lado dela.

A paz do loop foi quebrada de forma definitiva quando o ataque aconteceu. O céu escureceu e o som de galhos quebrando ecoou como tiros de canhão. Barron e seus seguidores haviam encontrado o caminho.

No meio do caos, a Srta. Peregrine foi capturada, transformada em ave e levada antes que qualquer um pudesse reagir. As crianças estavam em pânico.

— Temos que ir para os barcos! — gritou Emma, as mãos brilhando em brasas.

— Onde está a Bronwyn? — Bea gritou, olhando em volta desesperada.

Ela viu a pequena gigante tentando segurar uma viga que caía para proteger Claire e Olive. Um Etéreo, uma massa de tentáculos e membros desproporcionais, surgiu das sombras, movendo-se em direção às costas expostas de Bronwyn.

— BRONWYN! ATRÁS DE VOCÊ! — Bea gritou.

Sem pensar, Bea correu. O medo que geralmente a fazia gaguejar ou corar desapareceu. Ela pegou um pesado castiçal de prata de uma mesa lateral e o lançou com uma precisão nascida do desespero. O objeto atingiu o rosto invisível da criatura, distraindo-a por um segundo.

— Saia daí, Beatrice! — A voz de Enoch soou como um trovão. Ele a agarrou pelo braço, puxando-a para trás com uma força que ela não sabia que ele tinha. Seu rosto estava pálido, e ele parecia genuinamente furioso. — Você ficou louca? Aquela coisa teria arrancado sua cabeça!

— Ela ia machucar a Bronwyn! — Bea retrucou, tentando se soltar.

— Deixe que os guerreiros lutem, sua idiota! — Enoch gritou, mas seus olhos mostravam outra coisa: medo. Medo por ela. Ele a segurou firme, protegendo-a com o próprio corpo enquanto Jacob e Emma enfrentavam a criatura.

A batalha foi feroz. Jacob, assumindo a liderança que Abe um dia ostentara, coordenou os ataques. Bea, mesmo trêmula nos braços de Enoch, apontava as direções.

— À esquerda, Jake! Ele está se movendo para a janela! Agora, Emma!

A sincronia entre os irmãos Portman era perfeita. Jacob era os olhos, mas Bea era o radar. Juntos, eles guiaram os outros peculiares, transformando o que seria um massacre em uma resistência organizada.

Quando o Etéreo finalmente caiu e os Wights recuaram temporariamente com sua prisioneira alada, o silêncio que se seguiu na casa em ruínas foi pesado.

Bea caiu de joelhos, o cardigã rasgado e as mãos sujas de fuligem. Bronwyn correu até ela, abraçando-a com tanta força que quase lhe tirou o ar.

— Você me salvou, Bea! Você foi tão corajosa!

Bea, sentindo o calor do elogio e a adrenalina baixando, sentiu o rosto esquentar novamente.

— Eu... eu só não queria que você se machucasse — murmurou, voltando a ser a garota tímida de sempre.

Enoch estava a poucos metros, observando a cena. Ele limpou o sangue de um corte no rosto e se aproximou.

— Nada mal, Portman — ele disse, com o tom sarcástico de sempre, mas estendeu a mão para ajudá-la a levantar. — Mas da próxima vez, tente não ser tão... heroica. Meu coração não aguenta tanta estupidez.

Bea aceitou a mão dele, dando um pequeno sorriso.

— Você se preocupa comigo, Enoch O'Connor. Pode admitir.

— Eu me preocupo com o meu inventário — ele retrucou, mas não soltou a mão dela imediatamente.

Jacob aproximou-se, colocando a mão no ombro da irmã. Eles olharam para o horizonte, onde o loop de 1943 começava a se fechar e a se repetir, mas sem a sua guardiã.

— Nós vamos buscá-la, não vamos? — perguntou Bea.

— Vamos — afirmou Jacob. — Todos nós.

Beatrice Portman olhou para o grupo de crianças — sua nova e estranha família. Ela ainda tinha medo, ainda sentia vontade de se esconder quando Horace fazia algum comentário sobre sua aparência desarrumada, e ainda não sabia como lidar com o jeito protetor e irritadiço de Enoch. Mas, enquanto olhava para os tentáculos invisíveis do destino que se aproximavam, ela sabia que não fugiria.

Afinal, ser peculiar não era apenas ter um dom; era ter coragem de ser visto, mesmo quando você passava a vida inteira tentando ser invisível. E Bea, com suas sardas e seu radar para monstros, estava pronta para ser vista.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic