
Amor
Fandom: Jogos vorazes
Criado: 01/09/2026
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Lâminas e Ervas: O Pacto do Silêncio
O calor da arena era sufocante, um contraste brutal com o frio úmido e constante das minas do Distrito 12. O terreno era uma mistura traiçoeira de floresta densa e ruínas de pedra que pareciam ter pertencido a uma cidade esquecida. Tatsuyo sentia o peso da espada em sua mão, uma lâmina curta e leve que ela havia conquistado por puro instinto no banho de sangue inicial. Enquanto outros tributos se digladiavam por mochilas coloridas, ela deslizou como uma sombra, pegando o aço que ninguém queria e sumindo entre as árvores.
Ela era pequena, com seus 1,63 m e a pele parda que brilhava sob o sol artificial, mas havia uma agilidade ancestral em seus movimentos. Para quem assistia da Capital, Tatsuyo era a imagem da inocência, um símbolo de pureza que fazia os patrocinadores suspirarem. Mas, ali dentro, ela era uma sobrevivente. Em apenas dois dias, ela já havia mapeado uma pequena área, encontrado uma nascente de água limpa e coletado raízes comestíveis.
Foi no final da tarde do terceiro dia que ela o encontrou.
Tatsuyo estava em uma pequena clareira protegida por rochas, um refúgio improvisado onde ela se sentia segura o suficiente para cuidar de si mesma. Ela havia tirado a parte de cima do uniforme térmico, ficando apenas com uma peça íntima funcional por baixo, para limpar uma escoriação feia em seu ombro causada por um galho espinhoso. Era um momento de vulnerabilidade extrema, um instante de intimidade forçada pela necessidade de sobrevivência.
Um estalo de galho seco ecoou à sua direita.
Tatsuyo reagiu instantaneamente. Ela agarrou a espada, os olhos pretos dilatados de terror, o peito subindo e descendo com rapidez. Ela não teve tempo de se vestir. Ela se encolheu contra a rocha, a lâmina trêmula apontada para a folhagem.
— Afaste-se! — gritou ela, a voz falhando. — Eu vou te matar, eu juro!
De entre as samambaias gigantes, uma figura tropeçou. Não era um Carreirista ávido por sangue, mas sim Kuro. O outro tributo do Distrito 12.
Kuro estava em um estado deplorável. O cabelo branco curto estava manchado de sangue e terra. Seus olhos castanhos, geralmente intensos, estavam nublados pela dor. A pele branca estava pálida, quase cinzenta. O físico musculoso, que o tornava uma ameaça natural, parecia agora um fardo pesado demais para ele carregar. Ele segurava a lateral do abdômen, onde o tecido do uniforme estava rasgado e encharcado de um vermelho escuro e viscoso.
Ele parou, cambaleando, e olhou para Tatsuyo. Seus olhos desceram por um segundo, percebendo a situação dela, e ele rapidamente desviou o olhar, mesmo em meio à agonia.
— Tatsuyo... — a voz dele saiu como um sussurro rouco.
— Não dê mais um passo! — Ela soluçou, o desespero tomando conta. — Você vai me matar. Você é forte, você vai me esmagar para ganhar esse jogo!
Kuro soltou um riso seco que terminou em um gemido de dor. Ele caiu de joelhos, as mãos tremendo.
— Olhe para mim... — ele murmurou, tombando para o lado. — Eu mal consigo... ficar de pé. O cara do Distrito 2... ele me pegou. Eu fugi, mas... ele ainda está por aí.
Tatsuyo hesitou. O instinto de sobrevivência dizia para ela fugir ou terminar o serviço. Mas havia algo em Kuro, algo naquela vulnerabilidade que espelhava a sua própria, que a impediu. Ela viu o ferimento no abdômen dele; era profundo, feito por uma lança ou uma espada pesada. Se ela o deixasse ali, ele morreria em poucas horas.
Lentamente, ela abaixou a espada. O medo ainda estava lá, mas a compaixão, aquela característica que a tornava tão querida pelo público, falou mais alto. Ela vestiu a jaqueta rapidamente, fechando o zíper com dedos trêmulos, e se aproximou dele.
— Kuro? — Ela tocou o ombro dele. Ele estava queimando de febre.
— Vá embora, pequena... — ele murmurou, fechando os olhos. — Não perca seu tempo.
— Cale a boca — ordenou ela, a voz subitamente firme.
Tatsuyo agiu com uma eficiência que surpreenderia qualquer um. Ela o arrastou para a parte mais escondida da fenda entre as rochas. Ela tinha recursos. Enquanto os outros lutavam por migalhas, ela havia usado seu conhecimento de ervas para preparar compressas.
— Isso vai doer — avisou ela, retirando a mão dele do ferimento.
Kuro soltou um grito abafado quando ela limpou o sangue. O corte era feio, mas não tinha atingido nenhum órgão vital de forma definitiva, embora a perda de sangue fosse crítica. Ela aplicou uma pasta verde de folhas esmagadas e envolveu o torso dele com tiras de tecido que ela havia cortado de uma mochila extra que encontrara.
— Por que está fazendo isso? — perguntou Kuro, a respiração curta, enquanto ela cuidava dos outros cortes menores em seus braços e rosto.
— Porque somos do 12 — respondeu ela, sem olhar nos olhos dele. — E porque eu não quero ficar sozinha neste lugar.
Depois de estabilizar os ferimentos, Tatsuyo pegou uma pequena bolsa de couro. Ela retirou alguns pedaços de carne de coelho que havia assado na noite anterior, escondida pelo cheiro das flores noturnas, e algumas frutas silvestres doces.
Kuro tentou levantar a mão para pegar a comida, mas seus músculos falharam. Ele soltou um suspiro de frustração.
— Eu não consigo...
— Eu ajudo. — Tatsuyo sentou-se ao lado dele.
Ela levou um pedaço da carne à boca dele. Kuro hesitou por um segundo, a dignidade lutando contra a fome, mas a necessidade venceu. Ele aceitou a comida. Ela o alimentou lentamente, oferecendo água da sua cantil entre as mordidas.
— Você é a única pessoa aqui que parece ter tudo sob controle — comentou Kuro, sua voz ganhando um pouco mais de força. — Comida, remédios... como você conseguiu?
— Eles olham para mim e veem uma criança — disse ela, guardando os restos da comida. — Eles não esperam que eu saiba caçar ou que eu conheça a floresta. Eu sou invisível, Kuro. E a invisibilidade é a melhor arma.
Kuro olhou para a garota à sua frente. Ele tinha 18 anos, era musculoso, treinado para o trabalho pesado, mas ali, ele era o protegido. E ela, com seu jeito delicado e olhos de corça, era sua salvadora.
— Aquele cara do Distrito 2... — Kuro começou, tentando se sentar. — Ele é um monstro. Ele vai vir atrás de mim. Ele viu para que lado eu corri.
— Então temos que sair daqui logo que você puder andar — disse Tatsuyo, entregando a ele a espada dela para que ele a usasse como apoio. — Mas agora, você precisa descansar. Eu vou vigiar.
— Não — Kuro segurou o pulso dela, a mão grande envolvendo a pele parda com firmeza, mas sem agressividade. — Nós vamos vigiar juntos. Se alguém aparecer, eu luto. Eu ainda tenho força nos braços, Tatsuyo. Eu protejo você, e você me mantém vivo.
Tatsuyo olhou para a mão dele e depois para o rosto cansado de Kuro. Um pacto silencioso foi selado ali, entre o granito frio e o cheiro de sangue e ervas.
— Tudo bem — concordou ela. — Uma dupla.
A noite caiu sobre a arena, e o hino de Panem ecoou pelos céus, mostrando os rostos dos mortos. Nenhum deles era do Distrito 12.
Horas depois, quando a lua estava no topo, um ruído de passos pesados esmagando a vegetação despertou Kuro. Ele instantaneamente se colocou em alerta, apesar da dor lancinante em seu lado. Tatsuyo já estava de pé, a faca de osso que ela mesma improvisara em mãos.
— Ele está aqui — sussurrou Kuro, reconhecendo o ritmo dos passos.
— Fique atrás daquela pedra — Tatsuyo instruiu em voz baixa. — Se ele entrar, você o ataca por cima. Eu vou distraí-lo.
— Tatsuyo, não...
— Confie em mim — interrompeu ela, os olhos brilhando na escuridão.
O tributo do Distrito 2, um gigante chamado Brutus, entrou na clareira com um machado em mãos. Ele sorria, um brilho maníaco nos olhos.
— Eu sei que você está aqui, garoto do 12! — rugiu ele. — Sinto o cheiro do seu sangue!
Tatsuyo saiu das sombras, parecendo pequena e aterrorizada. Ela deixou a faca cair propositalmente.
— Por favor! — gritou ela, a voz carregada de uma inocência fingida que era sua maior atuação. — Não me machuque! Ele fugiu, ele me deixou aqui!
Brutus parou, surpreso ao ver a menina. Ele riu, baixando ligeiramente a guarda.
— A pequena do 12. Que sorte a minha. Vou acabar com você rápido antes de achar seu amigo.
No momento em que ele deu um passo à frente, Kuro se lançou da rocha acima. O impacto foi violento. Mesmo ferido, o peso e a determinação de Kuro derrubaram o gigante. Eles rolaram pelo chão da clareira, um emaranhado de socos e rosnados. Brutus era mais forte, mas Kuro lutava pela vida da garota que o alimentara na boca.
Tatsuyo não ficou apenas assistindo. Ela recuperou sua espada e, com a agilidade de um felino, circulou a briga. Quando Brutus conseguiu virar Kuro e levantou o machado para o golpe final, Tatsuyo mergulhou.
Ela não atacou o peito ou a cabeça. Ela cortou o tendão de Aquiles do gigante.
Brutus soltou um urro de agonia e tombou. Kuro, aproveitando a oportunidade, agarrou uma pedra pesada do chão e desferiu um golpe certeiro na têmpora do oponente. O corpo do tributo do Distrito 2 ficou imóvel.
O silêncio voltou à floresta, interrompido apenas pela respiração pesada dos dois sobreviventes. O canhão disparou, anunciando a morte.
Kuro rolou para o lado, ofegante, o ferimento no abdômen sangrando novamente através das bandagens. Tatsuyo correu para ele, ajoelhando-se no chão sujo.
— Você está bem? — perguntou ela, a voz embargada.
Kuro olhou para ela, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios manchados de sangue.
— Você... você cortou ele. Você foi incrível, Tatsuyo.
— Nós fomos — corrigiu ela, ajudando-o a se levantar.
Kuro passou o braço pelos ombros dela, apoiando boa parte do seu peso na garota menor. Pela primeira vez desde que entraram naquela arena mortal, eles não se sentiam apenas como peças em um jogo de xadrez. Eles eram uma equipe.
— Para onde agora? — perguntou Kuro, confiando cegamente na liderança dela.
Tatsuyo olhou para a floresta densa, onde as sombras pareciam oferecer um abraço protetor.
— Para o alto — disse ela. — Eu conheço um lugar onde as árvores são tão altas que ninguém vai nos encontrar. Eu vou cuidar de você, Kuro. E você vai me manter segura.
— Até o fim? — perguntou ele.
Tatsuyo olhou para os olhos castanhos dele, vendo a promessa de lealdade que nenhum tributo jamais deveria ter pelo outro em um jogo onde apenas um pode sair.
— Até o fim — confirmou ela.
Eles caminharam juntos para a escuridão, dois jovens do Distrito 12 que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado algo mais forte que o medo da morte: a necessidade de proteger um ao outro. A inocência de Tatsuyo e a força de Kuro haviam se fundido, criando algo que a Capital ainda não estava preparada para enfrentar.
