
House of the Dragon
Fandom: House of the Dragon
Criado: 01/09/2026
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As Marés de Bronze e o Olhar do Caçador
O ar de Porto Real era denso, impregnado com o cheiro de peixe podre do Baixio das Pulgas e o incenso pesado que emanava do Grande Septo de Baelor. Para Vaeron Targaryen, aquele cheiro era o aroma da decadência. Ele preferia o salitre de Pedra do Dragão, o rugido constante das ondas contra os penhascos de basalto e a pureza do vento que soprava do Mar Estreito. No entanto, o dever para com o irmão, o Rei Viserys, e a necessidade de apresentar sua filha à corte o trouxeram de volta ao ninho de víboras.
Aelira caminhava ao lado do pai com uma postura que desafiava a gravidade da Fortaleza Vermelha. Ela usava um vestido de seda cinza-azulada, cujas mangas eram bordadas com fios de bronze, uma homenagem silenciosa à montaria de seu pai, Vermithor. Em seu pescoço, um pingente de vidro de dragão esculpido em forma de bússola repousava sobre sua pele pálida. Ela era, em todos os sentidos, a imagem viva de Elaena Velaryon, exceto pelos olhos — um violeta tão profundo que parecia conter a própria essência de um incêndio.
— Mantenha a cabeça erguida, mas os olhos atentos, Aelira — sussurrou Vaeron enquanto cruzavam o pátio interno. — Aqui, até as estátuas têm ouvidos.
— Eu sei, pai — respondeu ela, sua voz clara e sem o tremor que muitas jovens de sua idade teriam ao entrar na presença do Rei. — Mapas não mentem, mas as pessoas sim. Eu já decorei o terreno.
Eles foram recebidos por Sor Criston Cole, cuja armadura branca brilhava sob o sol pálido da tarde. Ele os conduziu não ao Trono de Ferro, mas aos jardins privados, onde a família real se reunia para o desjejum.
Viserys parecia mais velho do que Vaeron se lembrava. Sua pele estava fina como pergaminho e ele se apoiava pesadamente em uma bengala. Ao ver o irmão e a sobrinha, um sorriso genuíno, embora fraco, iluminou seu rosto cansado.
— Vaeron! Meu bom irmão! — exclamou o Rei, estendendo a mão trêmula. — E esta deve ser Aelira. Pelos deuses, ela é a imagem da mãe.
Vaeron curvou-se levemente, um gesto de respeito que carregava a familiaridade de décadas.
— Ela tem a mente da mãe, Viserys. E, temo dizer, a minha teimosia.
Aelira aproximou-se e beijou a mão do Rei.
— É uma honra retornar, tio. Espero que os mapas que enviei de Pedra do Dragão tenham sido úteis.
— Úteis? — Viserys riu, tossindo logo em seguida. — Os mestres da Cidadela estão em polvorosa. Eles dizem que você é ousada demais em suas medições.
— A verdade costuma ser ousada para quem prefere o conforto da ignorância — disse uma voz vinda das sombras de uma pérgula.
Rhaenyra Targaryen surgiu, radiante e imponente. Ao seu lado, seus filhos, Jacaerys e Lucerys, observavam a prima com curiosidade e admiração. Rhaenyra abraçou Aelira com uma afeição que parecia um escudo contra o resto da corte.
— Ignore os mestres, querida — disse Rhaenyra. — Eles detestam quando uma mulher sabe o caminho de casa melhor do que eles.
Enquanto as duas conversavam, Vaeron sentiu um calafrio na espinha. Ele olhou para o outro lado do jardim, onde a facção da Rainha Alicent estava posicionada como sentinelas. Alicent observava o encontro com uma expressão neutra, mas seus dedos brincavam nervosamente com as unhas. Atrás dela, seus filhos estavam dispostos. Aegon parecia entediado, segurando uma taça de vinho mesmo àquela hora da manhã. Helaena murmurava algo para si mesma, observando um inseto na palma da mão.
E então havia Aemond.
O segundo filho de Alicent estava parado como uma estátua de obsidiana. Seu olho azul fixava-se em Aelira com uma intensidade que beirava o insulto. Ele não tinha a postura relaxada de Aegon ou a amabilidade fingida da corte. Ele parecia um predador que acabara de identificar uma presa que valia o esforço da caçada.
Mais tarde, quando o sol começou a declinar e as sombras se alongaram pelos corredores de pedra da fortaleza, Aelira buscou refúgio na Grande Biblioteca. Era o único lugar onde o silêncio não parecia carregado de conspiração. Ela estava debruçada sobre um tomo antigo que detalhava as correntes marítimas do Mar de Verão, comparando-o com um esboço que ela mesma fizera durante a viagem.
— A escala está errada — disse uma voz fria, cortando o silêncio como uma lâmina.
Aelira não se assustou. Ela reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Era a voz de quem exigia obediência sem nunca ter aprendido a pedir. Ela não se virou imediatamente; em vez disso, terminou de traçar uma linha com sua pena.
— Se você está se referindo à distância entre as Ilhas de Basalto e a costa de Dorne, eu levei em conta a deriva sazonal — respondeu ela calmamente. — Algo que este autor, um septão que provavelmente nunca saiu de seu gabinete, ignorou completamente.
Ela se virou e encontrou Aemond Targaryen parado a poucos passos. O tapa-olho de couro negro contrastava com sua pele pálida e os cabelos prateados que caíam retos sobre seus ombros. Ele era alto, mais alto do que ela se lembrava, e exalava uma aura de perigo contido.
— Você fala com muita propriedade para alguém que passa a maior parte do tempo olhando para o papel em vez de olhar para o mundo — disse Aemond, aproximando-se.
— Eu olho para o mundo de cima, Aemond — retrucou Aelira, cruzando os braços. — Do alto de Nyra, as fronteiras que vocês tanto defendem parecem apenas riscos na areia.
Aemond soltou um riso curto e seco. Ele parou diante da mesa, invadindo o espaço pessoal dela. Aelira sentiu o cheiro de couro e aço que emanava dele.
— Nyra é uma dragão jovem. Vhagar viu o mundo antes mesmo de seus mapas serem sonhados. Ela sabe que o mundo não é feito de correntes marinhas, mas de sangue e fogo.
— E é por isso que você está aqui? — perguntou Aelira, seus olhos violetas encontrando o azul gélido dele. — Para me dar uma lição de história ou para tentar me intimidar como faz com seus primos?
Aemond inclinou a cabeça. Um sorriso lento e predatório curvou seus lábios.
— Meus primos são meninos brincando de soldados. Você... você é um enigma, Aelira. A filha do "Príncipe Esquecido" e da "Princesa do Mar". Todos nesta corte se perguntam de que lado você cairá quando a tempestade chegar.
— Eu não caio, Aemond. Eu vôo através dela.
— Veremos — disse ele, sua voz baixando para um sussurro perigoso. Ele estendeu a mão, e por um momento Aelira pensou que ele tocaria seu rosto, mas ele apenas pegou a pena que ela havia deixado sobre a mesa. — O vento sopra forte para todos, prima. Mas para alguns, ele sopra apenas para apagar a chama.
Ele deixou a pena cair sobre o mapa e se retirou sem dizer mais nada. Aelira soltou a respiração que não sabia que estava segurando. Suas mãos tremiam levemente, não de medo, mas de uma adrenalina que ela não conseguia explicar. Havia algo em Aemond que a repelia e a atraía simultaneamente, como o abismo que chama o viajante para a beirada.
Naquela noite, Vaeron encontrou a filha na varanda de seus aposentos. Ela olhava para as luzes da cidade abaixo, mas seus pensamentos pareciam estar a léguas de distância.
— Você falou com ele — disse Vaeron, não como uma pergunta, mas como uma constatação.
— Ele é difícil de ignorar, pai. Ele carrega o peso de Vhagar em cada palavra.
Vaeron suspirou, apoiando as mãos no parapeito de pedra. As cicatrizes em suas mãos, memórias de anos domando o Fúria de Bronze, pareciam mais profundas sob a luz da lua.
— Aemond é um homem ferido que busca ferir os outros para se sentir inteiro. Alicent quer usá-lo para garantir o trono de Aegon, e Otto Hightower vê em você a peça que falta para consolidar o poder deles.
— Eles querem um casamento — disse Aelira, a voz desprovida de emoção.
— Eles querem o que você representa. Se o sangue de Baelon e o sangue de Corlys se unirem sob a bandeira dos Verdes, Rhaenyra perderá seu maior apoio naval e sua conexão mais forte com o legado do Velho Rei.
Aelira virou-se para o pai, a expressão endurecida.
— Eu prometi à minha mãe que nunca seria apenas uma esposa. Eu sou uma cartógrafa, uma montadora de dragões. Eu não serei a moeda de troca de Otto Hightower.
Vaeron colocou a mão no ombro da filha, um gesto de solidariedade que dizia mais do que mil palavras.
— Então teremos que ser mais espertos do que eles. O Fogo de Bronze e o Mar Estreito não se curvam facilmente.
Enquanto isso, em outra parte da fortaleza, Otto Hightower estava sentado em seu escritório, as luzes das velas projetando sombras longas nas paredes. Diante dele, Aemond permanecia em silêncio.
— Ela é a chave, Aemond — dizia Otto, sua voz calma e calculista. — Vaeron pode não ter ambição pelo trono, mas o respeito que ele comanda entre os senhores de Westeros é inestimável. Se você a trouxer para o nosso lado, você não terá apenas uma esposa. Você terá o controle sobre a frota Velaryon através da linhagem dela e neutralizará o irmão do Rei.
— Ela não é uma égua para ser domada, avô — respondeu Aemond, olhando para a própria mão, a mesma que quase tocara Aelira na biblioteca.
— Toda criatura tem um preço ou uma fraqueza. Descubra qual é a dela. Use esse interesse que ela parece ter despertado em você.
Aemond não respondeu. Ele pensou nos olhos violetas de Aelira, no modo como ela não recuara diante dele, no modo como ela falava do céu como se fosse sua verdadeira casa. Ele não queria apenas a utilidade política dela. Ele queria a submissão daquela chama. Ele queria ver se, sob a pressão certa, a "Princesa do Mar" ferveria ou se tornaria gelo.
Nos dias que se seguiram, a Fortaleza Vermelha tornou-se um campo de batalha silencioso. Aelira passava as manhãs com Rhaenyra e os filhos, treinando com Jacaerys no pátio ou discutindo estratégias de navegação com Lucerys. Ela sentia a proteção de Rhaenyra, um calor que a lembrava da família que seu pai tanto prezava.
— Eles estão observando você, Aelira — alertou Jacaerys durante um intervalo no treino de espada. — Aemond não tira os olhos de você durante os banquetes. É perturbador.
— Deixe-o olhar, Jace — respondeu ela, limpando o suor da testa. — Um observador que não age é apenas um espectador.
— Aemond nunca é apenas um espectador — murmurou Lucerys, tocando a cicatriz em seu próprio rosto, uma lembrança eterna da fúria do tio.
A tensão atingiu o ápice durante a celebração do dia do nome de Helaena. O salão estava repleto de nobres, a música tentava mascarar a hostilidade que pairava no ar. Vaeron estava ao lado de Viserys, os dois irmãos compartilhando um momento de melancolia enquanto observavam a nova geração.
— Você foi feliz, Vaeron? — perguntou Viserys subitamente. — Longe da corte, em sua torre com seus mapas?
Vaeron olhou para a filha, que dançava uma medida lenta com Jacaerys.
— Eu tive a paz que você nunca pôde ter, Viserys. E tive um amor que não era ditado pelo dever. Isso é mais do que a maioria dos reis pode dizer.
Viserys assentiu, os olhos marejados.
— Proteja-a. A tempestade está chegando, e temo que meu tempo de segurar os ventos esteja acabando.
Na pista de dança, a música mudou para um tom mais sombrio e rítmico. Jacaerys foi chamado por sua mãe, e antes que Aelira pudesse se retirar, uma mão enluvada segurou seu pulso.
— Esta dança é minha, prima — disse Aemond. Não era um pedido.
Aelira olhou para a mão dele e depois para o seu rosto. O salão pareceu silenciar enquanto os dois se posicionavam. Eles dançavam com uma precisão matemática, mas a energia entre eles era de um duelo.
— Você parece confortável no meio das víboras — comentou Aemond, conduzindo-a com uma firmeza que beirava a força bruta.
— Eu cresci entre dragões, Aemond. Víboras são apenas répteis que rastejam.
— E no entanto, você escolhe o lado dos bastardos. Rhaenyra não pode te proteger para sempre. Quando meu irmão subir ao trono, aqueles que não juraram lealdade serão esquecidos. Ou eliminados.
Aelira inclinou-se para perto dele, seu hálito roçando a orelha de Aemond.
— Meu pai foi chamado de "Príncipe Esquecido" por anos. E veja onde ele está agora: o único homem nesta sala que ninguém ousa desafiar. A força não vem de quem se senta no trono, mas de quem não precisa dele para ser respeitado.
Aemond a apertou mais contra si, uma reação instintiva à provocação. Por um breve momento, a máscara de frieza dele caiu, revelando uma fome crua.
— Você fala como se tivesse uma escolha, Aelira. Mas neste jogo, as mulheres são os prêmios ou as vítimas.
— E o que faz você pensar que eu não sou o jogador? — retrucou ela.
A música parou. Eles ficaram parados no centro do salão, a respiração de ambos pesada. Aemond soltou a mão dela, mas seu olhar permaneceu fixo.
— Porque jogadores não têm coração. E eu vejo o quanto você se importa com aquele velho e com seus primos. Essa é a sua fraqueza.
— E a sua, Aemond, é acreditar que o medo é o único modo de governar.
Ela se virou e caminhou em direção ao pai, sentindo o olhar de Aemond queimando em suas costas como o fogo de Vhagar.
Naquela noite, enquanto Porto Real dormia sob um manto de intrigas, Vaeron e Aelira subiram ao topo da Torre da Mão. Vermithor e Nyra estavam inquietos no Fosso dos Dragões, seus rugidos abafados ecoando pela cidade.
— O Rei está morrendo, pai — disse Aelira, o vento bagunçando seu cabelo prateado.
— Sim. E com ele, a última sombra de paz.
— O que faremos?
Vaeron olhou para o horizonte, onde o mar encontrava o céu em uma linha infinita de escuridão.
— Faremos o que os Targaryen sempre fizeram. Prepararemos o fogo. Mas faremos do nosso jeito. Você não é uma peça de Otto, nem um peão de Rhaenyra. Você é a filha de Bronze e Mar.
Aelira pegou a mão do pai. Ela sabia que os dias de paz em Pedra do Dragão haviam acabado. A cartógrafa agora teria que mapear um território muito mais perigoso: o coração de uma guerra civil. E enquanto pensava no olhar de Aemond, ela percebeu que a batalha não seria travada apenas com dragões e espadas, mas com a vontade de dois seres que se recusavam a ser quebrados.
A tempestade havia chegado, e Aelira Velaryon estava pronta para ser o seu olho.
