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Criado: 02/09/2026
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Entre o Nanquim e a Seda
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais luxuosos da capital, exalava um aroma misto de tinta, antisséptico e café caro. Pelas janelas de vidro do chão ao teto, a cidade parecia um tabuleiro de xadrez que ele dominava com precisão cirúrgica. Aos vinte e cinco anos, Emanuel não era apenas um tatuador; ele era um império. Mas, naquele fim de tarde, o peso da máquina de tatuar em sua mão parecia maior do que o normal.
Ele terminou o traçado fino no braço de um cliente VIP, limpou a área com cuidado e deu as instruções de pós-operatório com sua voz grave e contida. Assim que a porta se fechou, ele soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento. A tensão em seus ombros era uma constante, um subproduto de uma mente que nunca parava de calcular, proteger e prover.
A porta da sala privativa se abriu com um estrondo familiar. Sara entrou, trazendo consigo o perfume doce e invasivo que sempre anunciava sua chegada. Ela usava um vestido de seda vermelha extremamente justo, que realçava cada curva esculpida por cirurgias e confiança. Os saltos altos estalavam no piso de concreto polido.
— O dia foi longo, meu amor? — perguntou ela, aproximando-se e envolvendo os braços no pescoço dele.
Emanuel abriu os olhos e relaxou minimamente sob o toque dela. Sara era o seu fogo, a mulher que não tinha medo de nada e que compartilhava com ele uma honestidade brutal.
— O de sempre, Sara. Reuniões com os estúdios de Londres e Tóquio, e três sessões de fechamento de costas — respondeu ele, puxando-a para um beijo rápido, mas possessivo. — Onde está a Ágata?
— Ficou com a babá na loja. Ela estava destruindo o estoque de seda nova — Sara riu, uma risada alta e rouca. Ela se sentou na mesa de trabalho dele, cruzando as pernas longas. — E a Maya? Você passou na casa da Duda hoje?
O corpo de Emanuel enrijeceu quase imperceptivelmente. O nome de sua prima sempre causava aquela reação.
— Passei. Levei o estoque de fraldas e alguns brinquedos novos que comprei. A Maya está começando a andar mais firme. Ela me chamou de "papai" assim que me viu na porta.
Um sorriso raro e genuíno surgiu nos lábios de Emanuel. A paternidade de Ágata era biológica, mas a de Maya era uma escolha de alma. Quando o covarde que engravidara Eduarda fugiu, Emanuel assumiu o vácuo sem hesitar. Ele não permitiria que sua pequena e frágil prima enfrentasse o mundo sozinha.
Sara observou o marido com um olhar analítico. Ela o conhecia melhor do que ninguém. Sabia que, por trás daquela fachada de controle, havia um coração dividido em compartimentos muito específicos.
— Você está sentindo falta dela agora, não está? — Sara perguntou, sem qualquer traço de ciúme, apenas curiosidade. — Da Eduarda.
Emanuel suspirou, encostando-se na cadeira de couro. Ele nunca escondera nada de Sara. A transparência era o que mantinha o casamento deles inabalável, apesar das aparências.
— Sinto. É uma sensação estranha, Sara. Eu amo você, nossa vida, nossa intensidade. Mas quando estou com a Duda... é como se o mundo ficasse silencioso. Ela é tão doce, tão... — Ele hesitou, buscando a palavra.
— Sensível? — Sara completou, saltando da mesa e caminhando até ele. Ela começou a massagear os ombros tensos do marido. — Emanuel, eu já te disse. Eu não me importo. A Duda é uma gracinha, ela é família. E se para você ser completo, você precisa do meu fogo e da paz dela, quem sou eu para dizer não? Eu quero você feliz. E eu sei que ela precisa de um homem como você para protegê-la.
— Ela não faz ideia, Sara. Ela me vê como o primo protetor, o porto seguro. Ela é tímida demais, se assustaria se eu avançasse — comentou ele, fechando os olhos sob o toque da esposa.
— Então vamos com calma — disse Sara, com um sorriso malicioso. — Mas agora, vamos buscar nossas filhas. Quero jantar fora.
Enquanto isso, no subúrbio nobre, o ambiente era drasticamente diferente. O sobrado dos pais de Eduarda estava imerso no som suave de música clássica. No andar de cima, em um quarto decorado com tons de lavanda e branco, Eduarda, de vinte anos, terminava de vestir o seu collant de ballet.
Ela era a antítese de Sara. Enquanto Sara era cores vibrantes e ângulos agudos, Eduarda era tons pastéis e curvas suaves. Seu cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e seus olhos grandes e expressivos refletiam uma melancolia doce.
— Vamos, Maya? A mamãe precisa ensaiar um pouco antes da aula — murmurou ela para a pequena menina que brincava com um urso de pelúcia no tapete.
Maya olhou para a mãe e sorriu, mostrando os poucos dentes.
— Papai? — a pequena perguntou, olhando para a porta.
O coração de Eduarda deu um solavanco. Sempre que Maya chamava por Emanuel, uma mistura de gratidão e algo mais profundo, que ela não ousava nomear, a atingia. Emanuel era sua rocha. Ele era o homem que pagava sua faculdade de História da Arte, que garantia que Maya tivesse o melhor pediatra, que aparecia no meio da noite se ela ligasse dizendo que a bebê estava com febre.
— O papai Emanuel vem depois, meu amor — disse Eduarda, pegando a filha no colo e sentindo o cheirinho de bebê.
Eduarda desceu para a pequena sala de ensaios que seu pai havia construído para ela. Seus pais eram jovens e ativos, mas Emanuel era quem realmente exercia a figura de autoridade e cuidado em sua vida. Ela se sentia pequena e protegida sob a sombra dele, e, para sua personalidade tímida, aquilo era o paraíso.
Ela começou a praticar os passos na barra. Seus movimentos eram fluidos, leves, quase etéreos. Eduarda via o mundo através da arte e da emoção. Ela não entendia de negócios, de administração ou das intrigas que Sara dominava tão bem. Ela só entendia de beleza e de cuidado.
O som de um carro estacionando na frente da casa fez seu coração acelerar. Ela conhecia aquele motor.
Minutos depois, a porta da sala de ensaios se abriu. Emanuel entrou primeiro, vestindo uma camisa preta simples que destacava seus braços fortes. Logo atrás, Sara surgiu como um furacão de estilo, usando óculos escuros mesmo dentro de casa.
— Duda! — Sara exclamou, indo em direção à Maya e pegando-a no colo, enchendo a bochecha da menina de beijos marcados por batom caro. — Como está a minha sobrinha favorita?
Eduarda sorriu, descendo da ponta dos pés e caminhando timidamente até eles.
— Oi, Sara. Oi, Emanuel.
Emanuel não disse nada de imediato. Ele apenas observou Eduarda. Ela estava levemente suada, as faces coradas pelo esforço físico, a pele alva contrastando com o collant escuro. Para ele, ela parecia uma pintura renascentista que ganhara vida. O instinto de proteção rugiu em seu peito. Ele queria envolvê-la, tirá-la daquele cansaço e garantir que ela nunca tivesse que se preocupar com nada além de sua dança e de Maya.
— Você treinou demais hoje — disse Emanuel, sua voz soando mais rígida do que ele pretendia, o que era seu jeito de demonstrar preocupação. — Está pálida. Já comeu?
Eduarda baixou o olhar, mexendo nervosamente nos dedos.
— Comi um pouco de fruta antes de começar, Manu... Eu estou bem, de verdade.
— Não está — rebateu ele, aproximando-se e colocando a mão na nuca dela, um gesto que ele fazia com frequência e que sempre fazia Eduarda estremecer. — Vamos sair para jantar. Todos nós.
— Ah, eu não sei... Eu tenho um trabalho da faculdade para entregar amanhã sobre o Barroco e...
— O trabalho pode esperar duas horas — interrompeu Emanuel, não aceitando um não como resposta. — Sara já reservou o lugar.
Sara, que observava a interação enquanto brincava com Maya e Ágata (que a babá acabara de trazer do carro), deu uma piscadela para Emanuel.
— Vai ser divertido, Duda! — Sara disse, aproximando-se e passando o braço livre pelos ombros da prima de Emanuel. — Você vive trancada nesse museu ou nessa sala de dança. Precisa de um pouco de vida, de gente, de um drink... ou um suco, já que você é toda puritana.
Eduarda deu uma risadinha tímida, sentindo-se pequena entre a presença esmagadora de Sara e a solidez protetora de Emanuel.
— Tudo bem, eu vou. Só preciso de dez minutos para me trocar.
— Use aquele vestido azul claro que eu te dei — ordenou Emanuel, com um tom que não admitia discussões, mas que carregava um brilho de admiração nos olhos.
O restaurante era um dos mais exclusivos da cidade, com luz baixa e música ambiente. À mesa, o contraste era fascinante. Sara falava alto, gesticulava, atraindo os olhares de todos os homens (e mulheres) do recinto. Ela era o centro das atenções e adorava isso. Emanuel, ao seu lado, mantinha a postura ereta, observando o ambiente com olhos de falcão, sempre atento à segurança e ao conforto das mulheres à mesa.
Eduarda estava sentada à frente de Emanuel, cuidando de Maya enquanto Sara cuidava de Ágata. Ela se sentia um pouco deslocada naquele ambiente tão sofisticado, mas a presença de Emanuel a acalmava. Sempre que ela se sentia sobrecarregada pelo barulho ou pelas luzes, seus olhos buscavam os dele, e ele lhe devolvia um aceno sutil de cabeça, como se dissesse: "Eu estou aqui, você está segura".
— E então, Duda — começou Sara, tomando um gole de seu vinho caro —, Emanuel me contou que você tirou nota máxima na última prova de estética. Ele estava quase explodindo de orgulho, parecia que ele mesmo tinha feito a prova.
Eduarda ficou vermelha instantaneamente, olhando para o prato.
— O Manu exagera... era só um ensaio sobre a luz nas obras de Caravaggio.
— Não é exagero — interveio Emanuel, sua voz cortando o ar com autoridade. — Você é talentosa, Eduarda. Tem uma sensibilidade que poucas pessoas possuem. E eu faço questão de que você tenha tudo o que precisa para desenvolver isso.
— Eu sei, Manu... e eu sou muito grata. Eu não sei o que seria de mim e da Maya sem você.
Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele queria dizer a ela que não era por gratidão que ele fazia aquilo, mas por uma necessidade visceral de tê-la sob sua asa.
— Você não precisa ser grata por nada — disse ele, baixando o tom de voz. — É minha obrigação e meu desejo cuidar de vocês.
Sara observava a cena com um sorriso satisfeito. Ela se inclinou para frente, tocando a mão de Eduarda sobre a mesa.
— Sabe, Duda... a gente estava conversando, eu e o Emanuel. A sua casa é ótima, mas é longe dos seus ensaios e da faculdade. E o Emanuel sente muita falta da Maya durante a semana.
Eduarda piscou, confusa.
— O que você quer dizer, Sara?
— Queremos que você se mude para a nossa cobertura — declarou Emanuel, direto e prático, embora seu olhar estivesse fixo na reação dela. — O andar de baixo é praticamente um apartamento completo e independente. Você teria sua privacidade, mas estaríamos todos juntos. As meninas cresceriam como irmãs, e eu poderia garantir que nada faltasse a vocês, vinte e quatro horas por dia.
Eduarda sentiu o ar faltar. Morar com Emanuel? Estar perto dele todos os dias?
— Mas... e a sua privacidade, Sara? Eu não quero atrapalhar o casamento de vocês...
Sara soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.
— Querida, você nunca atrapalharia. Na verdade, eu acho que você é a peça que falta para a nossa rotina ficar perfeita. O Emanuel fica muito menos rabugento quando você está por perto, e eu ganho uma companhia para fofocar quando ele estiver enfurnado naqueles estúdios de tatuagem.
Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ele estendeu a mão sobre a mesa, e Eduarda, timidamente, colocou a sua pequena mão sobre a dele. A pele áspera e marcada por algumas cicatrizes de Emanuel contrastava com a suavidade da pele dela.
— Pense com carinho, Duda — disse ele, sua voz agora mais suave, quase um apelo. — Eu quero você por perto. Eu preciso saber que você está bem.
— Eu... eu vou pensar — sussurrou ela, sentindo um calor estranho subir pelo pescoço.
Naquele momento, sob a luz difusa do restaurante luxuoso, uma nova dinâmica começava a se desenhar. Emanuel olhou para Sara, que lhe deu um sorriso cúmplice, e depois para Eduarda, que parecia uma flor delicada prestes a desabrochar.
Ele era um homem de lógica e controle, mas entendia que o amor, às vezes, não seguia as regras da sociedade. Ele tinha o fogo de Sara e desejava a paz de Eduarda. E, pelo brilho nos olhos de sua esposa e pela confiança crescente no olhar de sua prima, ele percebeu que, talvez, pudesse realmente ter tudo.
— Vamos para casa — disse Emanuel, levantando-se e pegando Maya no colo, enquanto Sara pegava Ágata. — Amanhã será um longo dia. Temos muito o que planejar.
Enquanto caminhavam em direção à saída, Emanuel colocou a mão livre nas costas de Eduarda, guiando-a com firmeza e delicadeza. Sara caminhava à frente, rebolando com confiança, sabendo que estava construindo o mundo perfeito para o homem que amava. E Eduarda, envolvida pelo perfume de Emanuel e pela segurança de seu toque, sentiu que, pela primeira vez em muito tempo, não precisava ter medo do futuro.
O império de Emanuel estava crescendo, e ele não era feito apenas de estúdios e dinheiro, mas das duas mulheres que, de formas completamente opostas, detinham a chave de sua alma controlada.
