
Amor
Fandom: Stranger Things
Criado: 02/09/2026
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O Silêncio sob o Sol de Hawkins
A manhã em Hawkins tinha aquele cheiro característico de asfalto úmido e floresta, um aroma que Kuro Hatake já havia aprendido a associar tanto com a tranquilidade quanto com o perigo iminente. Montado em sua bicicleta, Kuro pedalava com uma facilidade invejável. Aos quinze anos, ele já ostentava uma estatura impressionante de 1,80m, e o esforço físico diário de fugir de monstros interdimensionais ou simplesmente treinar tinha deixado seu corpo definido, algo que ele não fazia questão de esconder quando usava camisas um pouco mais justas. Seus cabelos brancos e repicados balançavam ao vento, contrastando com seus olhos castanhos profundos que, naquele momento, procuravam pelos amigos no pátio da escola.
— Ei, Kuro! Por aqui, cara! — gritou Dustin, agitando os braços gordinhos enquanto tentava equilibrar sua mochila pesada.
Kuro freou derrapando, parando exatamente ao lado do grupo. Mike, Will, Lucas, Max e Eleven já estavam lá. O clima era o de sempre: discussões sobre a última campanha de D&D e reclamações sobre o teste de álgebra.
— Chegou cedo hoje, Hatake — comentou Max, cruzando os braços com seu habitual tom sarcástico. — O que foi? O despertador resolveu colaborar ou você só queria exibir esse cabelo novo?
Kuro deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que Eleven sempre achava engraçado e que Mike secretamente invejava pela confiança.
— Digamos que eu tive um incentivo extra para sair da cama — respondeu Kuro, piscando para Max, o que lhe rendeu um revirar de olhos da ruiva. — E aí, Eleven, alguma novidade no mundo invertido ou estamos seguros por hoje?
— Seguro — respondeu Eleven com um pequeno sorriso, embora seus olhos ainda carregassem a cautela de quem já viu demais.
A conversa fluía normalmente até que o som de um motor desconhecido estacionando perto da entrada chamou a atenção. Não era o carro de Steve e nem a caminhonete de Hopper. Era um carro antigo, meio empoeirado, de onde saiu uma figura que instantaneamente mudou a frequência do lugar.
Ela era diferente de qualquer pessoa em Hawkins. Tinha a pele parda, um tom rico que falava de raízes profundas e ancestrais, e cabelos pretos tão lisos que brilhavam sob o sol, presos em uma trança lateral longa que chegava até a cintura. Ela vestia uma calça jeans baggie, bem larga, e uma jaqueta colorida com um estilo skatista/surfista que parecia grande demais para o seu corpo de 1,63m, mas que lhe conferia um ar de mistério e rebeldia contida.
— Quem é aquela? — perguntou Lucas, ajustando o boné.
— Aluna nova — murmurou Will, observando a menina abraçar os próprios livros contra o peito, como se fossem um escudo. — O nome dela é Tatsuyo Nakamura. Ouvi os professores falando na secretaria.
Kuro não disse nada. Seus olhos castanhos estavam fixos nela. Havia algo na forma como ela caminhava — ombros encolhidos, olhar baixo — que ele reconhecia. Era a postura de quem está acostumado a ser alvo.
— Ela parece... assustada — notou Eleven, sentindo a aura de ansiedade que emanava da garota.
Infelizmente, Hawkins não era apenas feita de heróis. Enquanto Tatsuyo caminhava em direção à entrada principal, um grupo de veteranos, liderado por alguns dos remanescentes da turma de Billy, se posicionou no caminho.
— Olha só o que o vento trouxe — disse um dos rapazes, bloqueando a passagem de Tatsuyo. — O que é você? Algum tipo de índia perdida que errou o caminho da reserva?
Tatsuyo parou bruscamente. Seus olhos pretos, profundos e expressivos, brilharam com uma mistura de medo e uma mágoa antiga. Ela tentou desviar, mas o rapaz se moveu novamente, rindo.
— Ei, estou falando com você, Pocahontas. Não entende inglês ou o quê? — O grupo de idiotas ao redor dele começou a rir.
Kuro sentiu o sangue ferver. Ele nunca suportou valentões, especialmente aqueles que atacavam alguém por sua origem. Sem dizer uma palavra aos amigos, ele começou a caminhar.
— Kuro, espera! — chamou Mike, mas ele já estava longe.
Tatsuyo mantinha a cabeça baixa, a trança lateral balançando levemente enquanto ela tremia. Ela estava acostumada com aquilo. Toda a sua vida, em cada cidade que passava, o preconceito a seguia como uma sombra. O bullying por ser descendente de povos originários era uma cicatriz que ela carregava na alma.
— Deixa ela em paz, Troy — a voz de Kuro cortou o ar como uma lâmina fria.
O grupo de valentões se virou. Kuro era mais alto que a maioria deles e sua presença física era intimidadora quando ele decidia não sorrir.
— Ah, olha só, o Hatake resolveu ser o cavaleiro branco — debochou Troy, embora desse um passo para trás. — O que foi, Kuro? Gosta de exóticas?
Kuro se aproximou o suficiente para que Troy pudesse ver o fogo em seus olhos.
— Eu gosto de pessoas que sabem cuidar da própria vida. E eu detesto gente que se acha superior por causa da cor da pele ou da origem de alguém. — Kuro deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Troy. — Sai da frente. Agora.
Troy resmungou algo sobre Kuro ser um "esquisito", mas a memória de como Kuro lutava — rápido e sem piedade — o fez recuar. O grupo se dispersou, deixando Tatsuyo sozinha no meio do pátio.
Kuro relaxou os ombros e se virou para ela. De perto, ela era ainda mais bonita, embora a tristeza em seu olhar fosse quase palpável.
— Você está bem? — perguntou ele, sua voz suavizando instantaneamente.
Tatsuyo levantou os olhos lentamente. Ela viu o cabelo branco, o físico atlético e, por um momento, recuou, esperando que a gentileza fosse apenas uma armadilha para uma piada pior.
— Eu... eu estou bem — sussurrou ela. Sua voz era doce, mas carregada de uma timidez profunda. — Obrigada.
— Não precisa agradecer. Aqueles caras são uns idiotas completos — disse Kuro, oferecendo um sorriso que, desta vez, não tinha nada de atrevido, era apenas sincero. — Eu sou o Kuro. Kuro Hatake.
— Tatsuyo — respondeu ela, apertando a alça da mochila. — Tatsuyo Nakamura.
— Nome bonito. Significa algo? — perguntou ele, genuinamente curioso.
— Dragão — ela murmurou, quase inaudível, corando levemente.
Kuro soltou uma risada baixa e agradável.
— Um dragão, é? Bem, você não parece muito feroz agora, mas acho que o fogo deve estar escondido em algum lugar aí dentro.
Tatsuyo deu um sorriso minúsculo, o primeiro desde que chegara a Hawkins. Aquele garoto de cabelos brancos e jeito protetor parecia diferente de todos que ela já conhecera.
— Vem — disse Kuro, fazendo um gesto para onde o grupo de amigos esperava. — Vou te apresentar ao pessoal. A gente é o grupo dos "esquisitos", então você vai se sentir em casa. Eles são legais, eu prometo. Especialmente o Dustin, ele fala pelos cotovelos, mas é um gênio.
Tatsuyo hesitou por um segundo. A ideia de entrar em um grupo novo a aterrorizava. Mas, ao olhar para Kuro, ela sentiu uma segurança estranha. Ele não a olhava como se ela fosse uma curiosidade de museu ou alguém inferior; ele a olhava como se ela fosse a coisa mais interessante que ele tinha visto em muito tempo.
— Tudo bem — disse ela, finalmente dando um passo à frente.
Enquanto caminhavam em direção aos outros, Kuro não pôde evitar notar o jeito que a calça baggie dela se movia e como a jaqueta de skatista parecia estilosa nela.
— A propósito — disse ele, inclinando-se um pouco mais perto, recuperando seu tom levemente atrevido —, essa trança ficou muito bem em você. E essa jaqueta... você anda de skate ou é só pelo estilo?
Tatsuyo sentiu o rosto esquentar violentamente.
— Eu... eu ando um pouco — respondeu ela, olhando para os próprios pés. — Meu pai me ensinou.
— Sério? — Os olhos de Kuro brilharam. — Você tem que me mostrar um dia desses. Eu sou péssimo no skate, mas sou ótimo em observar quem sabe o que está fazendo.
Max, que já estava perto o suficiente para ouvir, revirou os olhos novamente.
— Kuro, pare de dar em cima da garota nova antes mesmo dela saber onde fica a biblioteca. — Ela estendeu a mão para Tatsuyo. — Oi, eu sou a Max. Ignore o Kuro, ele é um tarado incurável, mas tem um coração bom.
Tatsuyo apertou a mão de Max, sentindo-se acolhida pela primeira vez em anos.
— Oi — disse Tatsuyo, a voz ganhando um pouco mais de firmeza.
O restante do grupo se apresentou rapidamente. Dustin começou a falar sobre os novos jogos do fliperama, Will sorriu gentilmente, e Eleven apenas observou Tatsuyo com uma curiosidade silenciosa, antes de dizer:
— Você é... forte. Eu sinto.
Tatsuyo franziu a testa, sem entender o que Eleven queria dizer, mas sorriu de volta.
O sinal tocou, anunciando o início das aulas. O grupo começou a se dispersar para suas respectivas salas. Kuro, que por sorte (ou destino) compartilhava a primeira aula com Tatsuyo, caminhou ao lado dela pelo corredor.
— Não liga para o que o pessoal diz, Tatsuyo — disse ele, num tom mais sério enquanto entravam no prédio. — Hawkins tem muita coisa ruim escondida nas sombras, mas aqui em cima, no sol, a gente se protege. Ninguém vai mexer com você enquanto eu estiver por perto.
Tatsuyo parou em frente à porta da sala de aula e olhou para Kuro. Pela primeira vez, ela não desviou o olhar.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela. — Você nem me conhece.
Kuro encostou-se no batente da porta, cruzando os braços, o que fez seus músculos do braço se contraírem sob a manga da camisa. Ele deu aquele sorriso de lado novamente.
— Digamos que eu tenho um fraco por dragões — disse ele, piscando. — E eu acho que a gente vai ser grandes amigos. Ou talvez algo mais, quem sabe o que o futuro reserva?
Tatsuyo sentiu o coração disparar. Ela entrou na sala rapidamente para esconder o sorriso bobo que ameaçava surgir. Kuro a seguiu, sentindo que aquele ano letivo em Hawkins, apesar de todos os perigos sobrenaturais que sempre pareciam rondar a cidade, acabara de se tornar muito mais interessante.
Ele sabia que o bullying não pararia da noite para o dia. Sabia que o preconceito era um monstro tão difícil de combater quanto um Demogorgon. Mas, enquanto olhava para Tatsuyo se sentando e abrindo seu caderno com delicadeza, Kuro Hatake decidiu que seria o escudo dela. E, quem sabe, o fogo daquele dragão tímido ainda iria surpreender a todos.
