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Fandom: A garota do momento
Criado: 02/09/2026
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Entre Rendas e Receios
O sol da tarde de 1958 filtrava-se pelas cortinas de renda da mansão dos Alencar, mas Bia mal percebia a beleza da luz. Sentada diante de sua penteadeira de jacarandá, ela encarava o próprio reflexo com uma estranheza que nunca sentira antes. Seu penteado, um poodle bouffant perfeitamente fixado com laquê, parecia pesado demais. O vestido de tafetá azul-celeste, com sua saia rodada e cintura marcadíssima, parecia subitamente apertado, embora a fita métrica dissesse o contrário.
Bia tocou o rosto, empalidecido sob o pó de arroz. O mundo ao seu redor continuava o mesmo: os discos de 78 rotações empilhados, o perfume francês sobre a bancada, a promessa de uma vida de festas no Copacabana Palace. Mas, por dentro, ela sentia que um abismo se abrira sob seus pés de salto agulha.
— Não pode ser — sussurrou para o espelho, as mãos enluvadas tremendo levemente. — Simplesmente não pode ser.
A visita a Celeste naquela manhã fora o gatilho. A irmã de Ronaldo, radiante em sua gravidez legítima e celebrada, falava sobre enxovais e nomes de bebês. Bia, ao ouvir sobre os primeiros sintomas, sentira um calafrio percorrer a espinha. As contas não fechavam. O atraso, que ela ingenuamente atribuíra ao estresse das brigas constantes com Ronaldo, agora ganhava um nome aterrorizante.
Um escândalo.
Ela se levantou bruscamente, a saia farfalhando. Precisava sair, precisava respirar. Mas para onde ir? Se fosse vista desfalecendo em público, os comentários começariam. Naquela época, a reputação de uma moça era um cristal fino: uma única rachadura e tudo estava perdido.
O som da campainha ecoou pelo corredor. Bia respirou fundo, recompôs a expressão de desdém que era sua armadura habitual e desceu as escadas. Para seu infortúnio — ou destino —, era Ronaldo quem cruzava a porta, conversando com o pai dela sobre negócios da Hi-Fi.
Ao ver Bia, a expressão de Ronaldo endureceu. Ele ainda vestia o paletó de alfaiataria cinza que ela tanto gostava, mas seu olhar era frio, carregado do ressentimento da última discussão que tiveram no clube.
— Boa tarde, Bia — disse ele, o tom formal e seco, típico de quem quer manter as aparências diante dos mais velhos.
— Ronaldo — respondeu ela, sustentando o queixo erguido, embora seu estômago desse um solavanco que nada tinha a ver com a briga. — Pensei que estivesse ocupado demais tentando superar o Beto na agência para vir nos visitar.
Ronaldo estreitou os olhos. A rivalidade com o irmão era sua ferida aberta, e Bia sabia exatamente onde cutucar.
— Algumas coisas são mais importantes do que picuinhas familiares, embora você pareça não entender isso — rebateu ele, aproximando-se dela enquanto o pai de Bia se afastava para o escritório. — Você continua a mesma, não é? Sempre com uma farpa na ponta da língua.
Bia sentiu uma onda de náusea. O cheiro do tabaco e da colônia de Ronaldo, que antes a atraía, agora parecia sufocante. Ela cambaleou levemente, apoiando-se no corrimão da escada.
— Você está bem? — perguntou Ronaldo, a voz oscilando entre a irritação e uma preocupação genuína que ele tentava esconder. — Está pálida. Mais do que o normal para quem vive fugindo do sol.
— Estou perfeitamente bem, Ronaldo Sobral! — Bia exclamou, dramática, tentando disfarçar o mal-estar. — Só estou cansada de ouvir sua voz monótona e suas reclamações sobre como o Beto é o favorito de todos.
— Ah, claro. O problema sou eu — ele riu, uma risada amarga. — Sempre eu. Você nunca erra, Bia. É a boneca de porcelana perfeita que nunca quebra e nunca falha.
Bia sentiu as lágrimas arderem. A ironia era cruel demais. Se ele soubesse que a "boneca perfeita" carregava um segredo que destruiria a imagem de ambas as famílias, ele não estaria ali discutindo por ego.
— Vá embora, Ronaldo — pediu ela, a voz subitamente baixa e falha. — Por favor, só vá embora.
Ronaldo franziu a testa, confuso com a mudança repentina de tom. Ele deu um passo à frente, mas Bia virou as costas e subiu as escadas correndo, deixando-o sozinho no hall, frustrado e mais convencido do que nunca de que ela era apenas uma menina mimada em meio a um de seus acessos de temperamento.
Horas depois, Bia caminhava nervosa pela calçada de Ipanema. Ela precisava de alguém que não a julgasse, alguém que tivesse a clareza que ela havia perdido. Por mais que doesse admitir, essa pessoa era Beatriz. A namorada de Beto era o oposto dela: pé no chão, madura e, acima de tudo, dona de um coração que, embora Bia tentasse ignorar, era generoso.
Ela encontrou Beatriz saindo de uma livraria.
— Beatriz! — chamou Bia, a voz quase um grito de socorro disfarçado de impaciência.
Beatriz parou, surpresa ao ver a rival de tantas ocasiões a abordando no meio da rua, sem a habitual comitiva de amigas ou o ar de superioridade.
— Bia? Aconteceu alguma coisa? Você parece... perturbada.
— Eu preciso falar com você. Em particular. Agora — exigiu Bia, agarrando o braço da outra.
Beatriz hesitou, mas a urgência nos olhos de Bia era real. Elas caminharam até um café discreto, longe dos olhares da alta sociedade.
— O que houve? — perguntou Beatriz, assim que se sentaram. — É sobre o Beto? Ou sobre o Ronaldo?
Bia abriu a bolsa, tirou um lenço bordado e começou a desfiá-lo com os dedos.
— Ronaldo e eu... nós tivemos um momento. Um deslize, meses atrás, quando achamos que as coisas poderiam dar certo entre nós — começou Bia, a voz trêmula. — E agora... minha regra não vem. Eu me sinto enjoada o dia todo. Vi a Celeste hoje e... Beatriz, eu acho que estou esperando um filho.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Beatriz arregalou os olhos, processando a gravidade daquelas palavras no contexto de 1958. Uma gravidez fora do casamento para uma moça como Bia Alencar não era apenas um problema pessoal; era um suicídio social.
— Você tem certeza? — perguntou Beatriz, baixinho.
— Quase absoluta — Bia soluçou, perdendo a pose. — O que eu vou fazer? Meu pai vai me mandar para um internato na Suíça ou me expulsar de casa. E o Ronaldo... ele me odeia agora! Ele acha que eu sou uma fútil, e se eu contar isso, ele vai achar que estou tentando prendê-lo, ou pior, vai se casar comigo por obrigação e me odiar para o resto da vida!
Beatriz estendeu a mão e cobriu a de Bia. A rivalidade entre as duas parecia insignificante diante daquele abismo.
— Bia, escute. Você não pode esconder isso por muito tempo. O corpo vai dar sinais. E Ronaldo, por mais que seja cabeça dura e queira provar o valor dele para o pai o tempo todo, ele tem um lado bom. Ele não é um monstro.
— Ele é um conservador, Beatriz! — Bia exclamou, limpando uma lágrima que ameaçava borrar o rímel. — Ele fala de honra e tradição o tempo todo. Ele vai ficar horrorizado.
— Ele vai ficar assustado — corrigiu Beatriz. — Como você está. Mas ele tem o direito de saber. E você precisa de apoio. Se não quiser contar para sua família ainda, tudo bem. Mas o pai da criança precisa saber.
— Eu não consigo — Bia balançou a cabeça, o medo paralisando seus sentidos. — Ele vai dizer que eu fiz de propósito. Ele vai dizer que eu sou ardilosa.
— Deixe que ele diga o que quiser no começo — disse Beatriz, firme. — Mas não carregue isso sozinha. Se você precisar, eu vou com você.
Bia olhou para Beatriz com uma mistura de gratidão e inveja. Como ela podia ser tão segura?
— Por que você está me ajudando? Eu sempre fui horrível com você.
Beatriz deu um sorriso triste e compreensivo.
— Porque antes de sermos rivais, somos mulheres, Bia. E eu sei o peso que o mundo coloca sobre nós. Ninguém merece carregar esse fardo no escuro.
Naquela noite, a agência Hi-Fi estava silenciosa. Ronaldo era o único que restara, debruçado sobre alguns layouts de propaganda, tentando provar a si mesmo que era tão talentoso quanto Beto. A porta se abriu suavemente, e ele nem se deu ao trabalho de olhar.
— Já disse que pode ir, Getúlio. Eu tranco tudo.
— Não é o Getúlio.
Ronaldo ergueu a cabeça rapidamente. Bia estava parada à porta, envolta em um casaco de lã fino, apesar da noite não estar tão fria. Seus olhos estavam vermelhos e ela parecia menor, menos imponente do que o habitual.
— Bia? O que faz aqui a esta hora? Se alguém te vir entrando sozinha na agência com um homem...
— Eu não me importo mais com o que os outros vão ver, Ronaldo — interrompeu ela, entrando e fechando a porta atrás de si.
Ronaldo levantou-se, ajeitando o paletó por instinto. A insegurança habitual aflorou.
— Veio para continuarmos a briga de hoje à tarde? Porque se for, eu realmente não estou com cabeça. O papai já me deu sermão o suficiente hoje sobre os novos clientes.
— Ronaldo, cale a boca por um minuto — disse Bia, a voz embargada.
Ele parou, pego de surpresa pela vulnerabilidade dela. Bia caminhou até a mesa dele, os dedos tocando os papéis espalhados sem realmente vê-los.
— Lembra-se daquela noite na casa de praia? Depois da festa de aniversário do seu pai? Quando todos foram embora e nós... nós ficamos?
Ronaldo sentiu o rosto esquentar.
— Claro que me lembro. Foi um erro, Bia. Nós dois concordamos que foi o calor do momento, que a gente estava brigando e...
— Não foi um erro que desapareceu, Ronaldo — ela o interrompeu, olhando-o nos olhos com uma franqueza que o desarmou completamente.
Ronaldo franziu a testa, a confusão dando lugar a uma percepção lenta e aterradora. Ele olhou para a silhueta de Bia, para as mãos dela que agora apertavam a própria barriga de forma inconsciente. O ar pareceu faltar em seus pulmões.
— O que você está dizendo? — a voz dele saiu como um sussurro esganiçado.
— Eu estou dizendo que a minha vida acabou — Bia desabou, as lágrimas finalmente caindo livremente, arruinando a maquiagem impecável. — Eu estou dizendo que o escândalo que você tanto teme, que a desonra que sua família abomina... está acontecendo. Eu estou grávida, Ronaldo.
Ronaldo cambaleou para trás, sentando-se pesadamente em sua cadeira giratória. O mundo dos anos 50, com suas regras rígidas e suas expectativas de perfeição, pareceu desabar sobre ele. Ele pensou em seu pai, na agência, na comparação eterna com Beto. Se isso vazasse...
Mas então, ele olhou para Bia. Ela não era mais a menina rica e manipuladora que ele usava como escudo para suas próprias frustrações. Ela era uma jovem apavorada, tremendo diante dele. O lado sensível e afetuoso que ele tanto escondia sob a máscara de "mauricinho" falou mais alto.
Ele se levantou, contornou a mesa e, hesitante, colocou as mãos nos ombros dela.
— Bia... meu Deus, Bia.
— Você me odeia? — ela perguntou entre soluços, escondendo o rosto nas mãos. — Você vai dizer que eu fiz por mal?
Ronaldo suspirou, puxando-a para um abraço desajeitado, mas protetor. O cheiro do laquê dela agora se misturava ao cheiro de sal das lágrimas.
— Eu não te odeio — disse ele, embora sua mente estivesse a mil por hora, calculando as consequências. — Eu estou apavorado, Bia. Se o meu pai souber... se a sociedade souber antes de resolvermos isso...
— Não há o que resolver, Ronaldo. O bebê está aqui.
Ronaldo a afastou um pouco, segurando seu rosto. A veia competitiva e ardilosa dele, por um momento, foi substituída por uma determinação nova.
— Nós vamos dar um jeito. Ninguém vai destruir a sua reputação, Bia. E ninguém vai chamar meu filho de bastardo.
Bia olhou para ele, surpresa.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que... — Ronaldo engoliu em seco, a ideia de um casamento apressado e forçado pela necessidade pesando em seus ombros, mas a visão de Bia tão fragilizada despertando nele um senso de dever que ele não sabia que possuía. — Quero dizer que vamos ter que ser mais espertos do que todos eles. Vamos precisar de um plano. E vamos precisar do Beto e da Beatriz.
— Você quer pedir ajuda ao seu irmão? — Bia perguntou, incrédula.
— Ele é o favorito, não é? — Ronaldo deu um sorriso amargo, mas com um toque de humor autodepreciativo. — Se alguém sabe como lidar com situações impossíveis e ainda sair como o herói da história, é o Beto. E a Beatriz... bem, ela parece gostar de causas perdidas.
Bia soltou uma risada curta em meio ao choro.
— Ela já sabe. Eu contei a ela hoje.
Ronaldo arqueou as sobrancelhas.
— Você contou para a namorada do Beto antes de contar para mim?
— Eu estava com medo, Ronaldo! — ela exclamou, recuperando um pouco de sua verve habitual. — Você é um chato conservador que só pensa em paletós e em agradar o seu pai!
Ronaldo riu, uma risada nervosa, e a puxou de volta para o abraço.
— E você é uma mimada dramática que não consegue passar cinco minutos sem criar um evento. Acho que, no fim das contas, esse bebê vai ter pais muito complicados.
O silêncio voltou a reinar na Hi-Fi, mas agora era um silêncio compartilhado. O segredo ainda era uma bomba-relógio, e o caminho à frente, em plena década de 50, seria repleto de mentiras, pressões sociais e o medo constante da descoberta. Mas, pela primeira vez em meses, Bia e Ronaldo não estavam em lados opostos de uma trincheira.
Eles tinham um segredo. E, para o bem ou para o mal, esse segredo os manteria unidos sob as luzes da cidade que nunca perdoava um deslize, mas que adorava uma boa história de amor — mesmo que essa tivesse começado pelo avesso.
