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Fandom: A garota do momento

Criado: 02/09/2026

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RomanceDramaAngústiaHistóricoEstudo de PersonagemCiúmesRealismoHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaDor/ConfortoFofuraPsicológicoSuspense
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O Silêncio que Grita e o Sol de Copacabana

A brisa do Rio de Janeiro em 1958 costumava ser um bálsamo, mas para Bia Alencar, ela parecia carregar o peso de um insulto. Sentada em sua penteadeira de marfim, ela ajustava com dedos trêmulos o laço de seda de seu chapéu de abas largas. O reflexo no espelho devolvia a imagem de uma boneca de porcelana perfeita: a pele impecável, o batom coral combinando com o esmalte, e o vestido de algodão acetinado com estampa floral que marcava sua cintura de vespa.

Bia deveria estar feliz. Era um sábado ensolarado e ela estava prestes a encontrar Eugênia e Celeste para uma tarde na praia. No entanto, o vazio que sentia no peito tinha nome, sobrenome e uma nova atitude insuportável: Ronaldo Sobral.

Há duas semanas, após uma briga homérica no Country Club — onde ela o chamou de "mauricinho sem imaginação" e ele a acusou de ser uma "criança mimada em busca de um palco" —, algo mudou. Ronaldo, que sempre orbitava ao redor dela como um satélite persistente, simplesmente parou de girar.

— Ele pensa que me atinge com esse gelo — murmurou Bia para o espelho, ajeitando uma mecha do cabelo perfeitamente ondulado. — Pois que fique com a sua indiferença. Eu nem percebi que ele não ligou.

Mentira. Ela percebeu cada minuto de silêncio. Sentiu falta das provocações ácidas, dos olhares de soslaio que ele lançava quando ela entrava em uma sala e, principalmente, da atenção incondicional que ele sempre lhe dedicara, mesmo quando fingiam se odiar.

Ao chegar na areia de Copacabana, o cenário era vibrante. Sombrinhas coloridas pontilhavam a orla e o som da Bossa Nova parecia flutuar no ar quente. Eugênia e Celeste já a esperavam, estendendo suas toalhas.

— Bia, querida! Você está divina — exclamou Celeste, ajeitando os óculos escuros gatinho. — Mas por que essa cara de quem comeu limão e não gostou?

— É o calor, Celeste. Apenas o calor — mentiu Bia, retirando o vestido para revelar um biquíni de duas peças em tom azul-celeste.

Era uma peça ousada para os padrões mais conservadores, embora estivesse na moda. A calcinha de cintura alta e o top estruturado realçavam suas curvas de forma provocante. Ela sabia que chamava a atenção; vários rapazes que jogavam vôlei nas proximidades pararam por um segundo para admirar a jovem herdeira dos Alencar.

Bia sentiu um leve prazer com os olhares, mas sua satisfação durou pouco.

— Olhem, não é o Ronaldo? — apontou Eugênia, indicando um grupo que se aproximava da água.

O coração de Bia deu um solavanco. Ronaldo estava lá, vestindo um short de banho impecável e uma camisa de linho aberta, exibindo um porte atlético que ela raramente admitia notar. Mas ele não estava sozinho. Ao lado dele, rindo de algo que ele dizia, estava Camila.

Camila era o oposto de Bia: discreta, de gestos suaves e uma elegância contida que Ronaldo parecia estar apreciando muito nas últimas semanas.

— Eles têm se visto muito, não é? — comentou Celeste, sem maldade. — Dizem que Ronaldo a leva para ouvir discos na Hi-Fi quase todas as tardes.

Bia sentiu o sangue ferver. Ela se deitou na toalha, fingindo ler uma revista, mas seus olhos espiavam por cima das páginas. Ronaldo passou a poucos metros delas. Ele a viu. Seus olhos se encontraram por um breve segundo, mas, em vez do sorriso irônico ou da frase atrevida que ela esperava, ele apenas inclinou a cabeça em um cumprimento formal e gélido.

— Boa tarde, Bia. Meninas — disse ele, com a voz plana.

— Ronaldo — respondeu Bia, tentando manter a voz firme, embora quisesse gritar.

Ele continuou caminhando com Camila, parando logo adiante para arrumar o lugar da moça na sombra. Ele era atencioso, buscava água de coco para ela e ria abertamente, algo que raramente fazia com Bia sem que houvesse uma ponta de sarcasmo envolvida.

A tarde prosseguiu como uma tortura lenta. Bia tentava conversar com as amigas, mas sua atenção estava voltada para o casal a poucos metros. A risada de Camila parecia um estilete em seus ouvidos.

— Eu vou dar um mergulho — anunciou Bia, levantando-se abruptamente.

Ela caminhou em direção ao mar, consciente de que todos os olhos da praia a seguiam, inclusive os de Ronaldo. Ela entrou na água gelada, sentindo o choque térmico acalmar um pouco sua irritação. Ao sair, a água escorria por seu corpo, e ela passou as mãos pelos cabelos, sacudindo-os de forma deliberadamente cinematográfica.

Quando voltou para sua toalha, Ronaldo estava de pé, conversando com Beto e Beatriz, que haviam acabado de chegar. Beto, sempre carismático, acenou para Bia.

— Cuidado, Bia! Se continuar assim, vai causar um naufrágio com tanta beleza — brincou Beto, recebendo um olhar de reprovação de Beatriz.

— Deixe a menina, Beto — disse Beatriz, sorrindo para Bia. — Você está linda, Bia. Esse azul combina com seus olhos.

Ronaldo, no entanto, não sorria. Ele olhava para Bia com uma expressão de desaprovação que ela nunca vira antes. Ele se aproximou, deixando Camila por um momento, e parou diante de Bia.

— Você não acha que está chamando atenção demais, Bia? — perguntou ele, em voz baixa, para que apenas ela ouvisse.

Bia arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços e realçando ainda mais o biquíni.

— E desde quando você se importa com o que eu visto ou deixo de vestir, Ronaldo Sobral? Pensei que estivesse ocupado demais sendo o cavaleiro andante da Camila.

Ronaldo estreitou os olhos. A frieza que ele vinha mantendo vacilou, dando lugar a uma irritação genuína.

— A metade dos rapazes desta praia está olhando para você como se fosse um prato de sobremesa — disse ele, entre dentes. — Esse traje é... impróprio. Você é uma Alencar, deveria ter mais decoro.

Bia soltou uma risada curta e amarga.

— Decoro? Ora, Ronaldo, não seja hipócrita. Você passou anos tentando me convencer a sair com você, e agora quer dar lição de moral? Se os rapazes estão olhando, é porque apreciam o que veem. Ao contrário de você, que parece ter desenvolvido um gosto súbito por coisas... insossas.

Ela lançou um olhar cortante em direção a Camila. Ronaldo respirou fundo, recuperando a compostura. O brilho de raiva em seus olhos foi substituído por aquele distanciamento que a estava enlouquecendo.

— Você confunde atenção com admiração, Bia. E confunde liberdade com exibicionismo — disse ele, com uma calma devastadora. — Camila não precisa de biquínis minúsculos para ser notada. Ela tem uma classe que, infelizmente, você parece ter esquecido em casa hoje.

Bia sentiu como se tivesse levado um tapa. Suas mãos fecharam-se em punhos ao lado do corpo.

— Pois então volte para a sua "classe" e me deixe em paz! — sibilou ela.

— Com prazer — respondeu ele, fazendo uma leve reverência irônica. — Só tente não se queimar no sol. Seria uma pena estragar essa pele que você tanto preza.

Ele deu as costas e voltou para o seu grupo. Bia ficou parada, sentindo o calor do sol e o frio da rejeição. Ela se sentou na toalha, mas a revista agora era um borrão diante de seus olhos.

— O que ele disse? — perguntou Eugênia, curiosa.

— Nada — respondeu Bia, a voz embargada. — Apenas as bobagens de sempre.

Mas não eram as bobagens de sempre. Ronaldo nunca tinha sido tão cruel, nem tão indiferente. E o pior de tudo era que, enquanto ela o via rir novamente com Camila, Bia percebia que preferia mil vezes as brigas dele do que aquele silêncio educado.

Do outro lado, Ronaldo sentava-se ao lado de Camila, mas sua mente estava a poucos metros dali. Ele sentia o olhar de Beto sobre ele.

— Pegou pesado com ela, não acha? — sussurrou Beto, sentando-se ao lado do irmão enquanto as moças conversavam sobre música.

— Ela precisa aprender que o mundo não gira em torno dos seus caprichos, Beto — respondeu Ronaldo, embora suas mãos estivessem inquietas.

— Você está morrendo de ciúmes, Ronaldo. Admita. Aquele biquíni quase te fez ter um colapso — provocou Beto com um sorriso de canto.

— Não é ciúmes. É preocupação com a reputação das famílias — mentiu Ronaldo, olhando para o mar.

— Sei... A reputação — ironizou o irmão. — Só tome cuidado. Bia Alencar não é do tipo que aceita ser ignorada por muito tempo. Ela vai revidar.

Ronaldo sabia que Beto tinha razão. Ele conhecia Bia. Sabia que, por trás daquela fachada de menina rica e mimada, havia uma mulher que não suportava perder. Mas ele também estava cansado de ser apenas o brinquedo que ela usava para massagear o ego.

Enquanto o sol começava a baixar no horizonte, tingindo o céu de laranja e rosa, a tensão entre os dois grupos era quase palpável. Bia levantou-se para ir embora, vestindo seu vestido com movimentos bruscos. Ela passou por Ronaldo uma última vez, parando apenas o suficiente para que ele sentisse o perfume de jasmim que ela sempre usava.

— Espero que tenha uma boa noite, Ronaldo — disse ela, com um sorriso que não chegava aos olhos. — E espero que a companhia da Camila seja... suficiente para você.

— Será mais do que suficiente, Bia — respondeu ele, sustentando o olhar. — A paz é muito subestimada.

Bia girou nos calcanhares e saiu da areia, caminhando com a cabeça erguida. Mas, assim que entrou no carro de seu motorista, as lágrimas que ela segurou com tanto esforço finalmente rolaram.

Ela o odiava. Odiava o jeito que ele a fazia se sentir pequena. Odiava que ele estivesse com outra. Mas, acima de tudo, Bia odiava o fato de que, pela primeira vez na vida, não sabia como recuperar o que tinha perdido sem nem ao menos ter possuído de verdade.

Naquela noite, no silêncio de seu quarto, Bia olhou para o biquíni azul jogado sobre a poltrona. Ronaldo a chamara de sem classe. Ele a comparara a Camila e ela saíra perdendo.

— Isso não vai ficar assim, Ronaldo Sobral — sussurrou ela para a escuridão. — Você quer guerra? Pois terá uma que jamais esquecerá.

Mal sabia ela que, na mansão dos Sobral, Ronaldo também não conseguia dormir. A imagem de Bia na praia, radiante e audaciosa, estava gravada em sua mente. Ele queria protegê-la e, ao mesmo tempo, queria confrontá-la até que ela admitisse que também sentia algo.

A aliança que o destino reservava para eles, meses depois, ainda parecia um sonho distante e impossível. Naquele momento, em 1958, eles eram apenas dois jovens orgulhosos, perdidos em um jogo de espelhos onde o amor se fantasiava de desdém, e onde cada palavra fria era, na verdade, um grito desesperado por atenção.

A gravidez, o escândalo e a redenção ainda viriam. Mas, por enquanto, havia apenas o sal do mar, o ardor do ciúme e a certeza de que nenhum dos dois sairia ileso daquela batalha de vontades.

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