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História de Viagem

Fandom: Escola, Acampamento

Criado: 02/09/2026

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Lentes, Baquetas e Dobraduras em Paraty

O ônibus da excursão escolar sacolejava pela Rodovia Rio-Santos, um monstro de metal cortando o verde da Mata Atlântica enquanto o cheiro de maresia começava a invadir as janelas entreabertas. Eram seis de outubro, e o segundo ano do ensino médio parecia ter deixado toda a sanidade em São Paulo.

No fundo do veículo, o caos tinha nome e sobrenome. Thiago Barbosa, com seus quase um metro e noventa de altura espremidos no banco estreito, não parava de batucar o ritmo de uma música de punk underground nos joelhos de Alexander Mozart.

— Dá para parar? — Mozart resmungou, sem tirar os olhos da visor de sua câmera fotográfica. O cabelo azul cacheado caía levemente sobre os olhos, e os snake bites brilharam quando ele contraiu os lábios em sinal de irritação. — Você está tremendo o banco todo. Eu estou tentando focar a lente.

— Relaxa, Mozie. É a energia do Rio entrando nas veias — Thiago riu, mostrando os dentes brancos que contrastavam com a pele morena. Ele ajeitou o colar com a cruz que pendia sobre a camiseta simples. — Além disso, você sabe que o silêncio te deixa entediado. Eu estou fazendo um favor para o seu entretenimento.

— O seu conceito de "favor" é o pesadelo de qualquer pessoa introvertida — rebateu Mozart, embora um pequeno sorriso de canto tentasse escapar. Ele não admitiria, mas a energia caótica de Thiago era o que mantinha a viagem interessante.

Sentado logo atrás deles, João Mota, com seu buzzcut loiro e óculos levemente tortos, cutucava o ombro de João Mendes.

— Ei, Mendes. Sabia que se a gente bater um papo com o motorista agora, ele pode fazer um drift nessa curva? — Mota disse, com a expressão mais séria do mundo, o puro suco do ragebait.

— O quê? Não viaja, Mota! A gente vai cair no despenhadeiro! — Mendes exclamou, caindo na pilha instantaneamente. — O cara tá a oitenta por hora, que drift o quê?

— É física básica, cara. Mas você gosta de Gorillaz, né? O cérebro deve ter virado desenho animado — Mota provocou, rindo quando Mendes começou a defender fervorosamente a complexidade rítmica de sua banda favorita.

Do outro lado do corredor, Eduarda Capozzolli ignorava a gritaria masculina com uma paciência de mestre zen. Seus dedos ágeis dobravam um pedaço de papel quadrado com precisão cirúrgica. Ela já tinha feito três tsurus e agora trabalhava em algo que parecia um dragão minúsculo. Seus tererês coloridos balançavam conforme ela inclinava a cabeça.

— Duda, como você consegue? — Nero perguntou em voz baixa, quase sumindo dentro do moletom largo. O jovem não-binário apertava o celular contra o peito, os olhos atentos a cada movimento de Eduarda. — O ônibus balança tanto que eu mal consigo digitar.

— É o foco, Nero — Eduarda sorriu, entregando um pequeno pássaro de papel para ele. — Se você focar no papel, o resto do mundo vira só ruído de fundo. Tenta.

— Se o ruído de fundo fosse só o motor, seria ótimo — Julia interveio, ajeitando os fones de ouvido. — Mas o Mota e o Thiago juntos têm a potência sonora de um show de rock em um banheiro público. É sarcasmo, tá? Antes que vocês achem que eu estou elogiando.

— Eu ouvi isso, Julia! — Thiago gritou lá de trás. — Inveja porque minha bateria mental é mais alta que o seu piano de cauda!


O hotel em Paraty era um casarão colonial reformado, com janelas largas e um pátio interno cheio de plantas. Após a divisão das chaves, o grupo teve o tão esperado tempo livre antes do jantar pedagógico.

No quarto masculino, o clima era de guerra territorial.

— Eu fico com a cama perto da janela — anunciou Mozart, jogando sua mochila e a capa da guitarra sobre o colchão. — Preciso de luz natural para desenhar amanhã cedo.

— Nem pensar, "azulzinho" — Thiago se jogou na cama, ocupando quase todo o espaço com suas pernas longas. — Essa cama é a única que cabe meus pés sem eles ficarem pendurados para fora. Vai para a de solteiro ali no canto.

— Thiago, eu vou enfiar uma palheta no seu nariz se você não sair daí — Mozart disse, aproximando-se com uma expressão irritada que, para quem o conhecia, era quase um convite para brincar.

— Tenta a sorte — Thiago desafiou, puxando Mozart pelo braço.

O puxão foi mais forte do que o esperado, e Mozart acabou caindo sentado na beirada da cama, a poucos centímetros de Thiago. Por um segundo, o sarcasmo morreu no ar. O cheiro de sabonete e o calor da pele de Thiago eram reais demais. Mozart sentiu o rosto esquentar, uma reação que ele odiava não conseguir controlar.

— Sai, seu brutamontes — Mozart resmungou, empurrando o peito de Thiago e se levantando rapidamente para esconder o embaraço. — Você é irritante demais.

— E você adora — Thiago piscou, voltando a rir enquanto Mota entrava no quarto com um pacote de salgadinhos.

— Vocês dois parecem um casal de idosos discutindo por causa do controle remoto — Mota comentou, sentando-se no chão. — Alguém quer ver um vídeo de nocaute no MMA? O cara literalmente dobrou o joelho ao contrário.

— Credo, Mota! — Mozart exclamou, pegando seu caderno de desenho. — Eu vou para o pátio. Pelo menos lá os mosquitos não falam de fraturas expostas.


No quarto feminino, a atmosfera era bem mais calma. Eduarda estava sentada no chão, cercada por papéis coloridos, enquanto Julia jogava algo no celular e Nero desenhava em um tablet, com fones de ouvido para abafar o som externo.

— Duda, você acha que o Mozart e o Thiago vão se matar até o final da viagem? — Julia perguntou, sem tirar os olhos da tela onde seu avatar de Roblox corria por uma pista de obstáculos.

— Ou se matar, ou se beijar — Eduarda respondeu calmamente, finalizando uma flor de lótus de papel. — A linha entre o ódio e o "eu quero sua atenção o tempo todo" é bem fina para aqueles dois. O Mozart finge que odeia, mas ele só tira foto do Thiago quando a gente sai.

— Sério? — Nero tirou um dos lados do fone, interessado na fofoca. — Eu achei que ele gostasse de fotografar a arquitetura.

— Ele gosta. Mas o Thiago é a "arquitetura" favorita dele — Eduarda riu, levantando-se. — Vou levar esse origami para ele. Ele estava meio tenso no ônibus.

Eduarda saiu do quarto e encontrou Mozart no pátio interno do hotel. Ele estava sentado em um banco de madeira, o skate apoiado contra a perna, desenhando algo com traços rápidos e precisos.

— Para o seu acervo de coisas bonitas — Eduarda disse, depositando a flor de papel sobre o caderno dele.

— Valeu, Duda — Mozart sorriu, o primeiro sorriso genuíno e aberto do dia. — Você sempre sabe quando eu preciso de um "reset" cerebral. O Mota e o Thiago são... exaustivos.

— O Thiago gosta de você, sabia? — Ela se sentou ao lado dele, direta como sempre.

Mozart parou o lápis no meio de uma sombra.

— Ele gosta de me irritar. É diferente.

— Ele irrita todo mundo, Mozart. Mas com você, ele faz questão de estar perto. Ele toca bateria no seu joelho, não no do Mota. Ele briga pela sua cama porque quer que você preste atenção nele.

Mozart suspirou, fechando o caderno.

— Ele é muito... barulhento. E religioso. E esportista. A gente não tem nada a ver.

— E você é um INTJ que usa azul e ouve música estranha — Eduarda deu de ombros. — Opostos se atraem, ou pelo menos se divertem tentando se entender.


A noite caiu sobre Paraty, e o horário de recolhimento nos quartos chegou. O corredor do hotel estava silencioso, exceto pelo som abafado de risadas vindo de trás das portas de madeira.

No quarto masculino, as luzes principais estavam apagadas, restando apenas o brilho de um abajur. Mota já estava roncando levemente, exausto de tanto tentar causar brigas em fóruns de internet durante a noite.

Mozart estava deitado em sua cama (ele acabou ficando com a da janela, após Thiago "ceder" em troca de Mozart prometer que o deixaria ouvir suas novas composições na guitarra), olhando para o teto.

— Ei, Mozie — a voz de Thiago veio da cama ao lado, baixa e sem a ironia habitual.

— O que foi agora, Barbosa? Se for para falar de Fórmula 1, eu juro que te jogo pela janela.

— Não é isso — Thiago se virou de lado, encarando a silhueta de Mozart no escuro. — Eu só queria saber se você tirou alguma foto boa hoje. Daquelas que você não mostra para os professores.

Mozart hesitou. Ele pegou a câmera na mesa de cabeceira e ligou a tela, o brilho azulado iluminando seu rosto. Ele passou por várias fotos: as ruas de pedra, a igreja de Santa Rita, um gato dormindo em um muro... e então, uma foto de Thiago.

Era uma foto espontânea. Thiago estava rindo de algo que Mendes dissera, a luz do sol poente batendo em seu rosto, destacando a curva do maxilar e o brilho nos olhos. Era uma imagem cheia de vida.

— Tirei algumas — Mozart respondeu, a voz quase um sussurro.

— Me mostra? — Thiago pediu, sentando-se na beirada da própria cama.

Mozart hesitou, mas estendeu a câmera. Thiago pegou o aparelho, suas mãos grandes tocando os dedos finos de Mozart por um breve momento. O toque enviou uma corrente elétrica pelo braço do garoto de cabelo azul.

Thiago passou as fotos em silêncio. Quando chegou na sua própria imagem, ele parou. O silêncio no quarto ficou denso, carregado de algo que nenhum dos dois sabia nomear, mas que ambos sentiam vibrar no ar.

— Você me vê assim? — Thiago perguntou, finalmente olhando para Mozart.

— Assim como? — Mozart sentiu o coração acelerar.

— Como se eu fosse... importante. A foto é bonita. Eu não sabia que eu podia parecer alguém interessante assim.

Mozart desviou o olhar, sentindo o piercing nos lábios esfriar com a respiração pesada.

— Você é um idiota, Thiago. Mas é um idiota que rende boas composições visuais.

Thiago deu um sorriso curto, devolvendo a câmera.

— Boa resposta, Mozart. Para um cara que odeia demonstrar carinho, essa foi quase uma declaração.

— Cala a boca e vai dormir — Mozart resmungou, virando-se para a parede, mas não conseguia apagar o sorriso que insistia em aparecer.

— Boa noite, Mozie. Amanhã eu vou te irritar o dobro, só para compensar esse momento sentimental.

— Eu não esperava nada diferente de você.

Enquanto o som das ondas de Paraty batia ao longe, o quarto mergulhou em um silêncio confortável. Entre as implicâncias de Mota, os origamis de Eduarda e as fotos escondidas de Mozart, a viagem estava apenas começando, e o segundo ano do ensino médio nunca pareceu tão cheio de possibilidades.

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