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Hotel Assombrado

Fandom: Hotel Assombrado

Criado: 03/09/2026

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FantasiaRomanceFatias de VidaHumorSombrioNoir GóticoEstudo de Personagem
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O Abismo no Fim do Corredor

As luzes do Hotel Assombrado sempre tiveram um jeito peculiar de piscar, como se o próprio edifício estivesse tentando se comunicar em código Morse com os vivos que ousavam caminhar por seus tapetes puídos. Para Kuro, no entanto, o problema não era a iluminação defeituosa ou o rangido das tábuas do assoalho. O problema era o peso do olhar que ele sentia em suas costas.

Kuro ajeitou a gola da sua camisa, passando a mão pelos cabelos brancos repicados. Aos catorze anos, ele já deveria estar acostumado com as esquisitices daquele lugar, mas havia algo na nova hóspede — ou melhor, na residente permanente — que fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem de um jeito que não era totalmente desagradável, mas definitivamente perigoso.

Ele parou em frente à porta do quarto 404. O número estava pendurado por apenas um parafuso, girando levemente. Kuro suspirou, segurando a bandeja de lanche com mais força.

— É só uma garota de dez anos, Kuro. Controle-se — murmurou para si mesmo, embora soubesse que aquela afirmação era a maior mentira que já contara.

Ele bateu na porta. O som ecoou pelo corredor vazio, parecendo mais alto do que deveria.

— Entre — a voz veio de dentro, fria e profunda, contrastando terrivelmente com a aparência infantil da dona do quarto.

Kuro empurrou a porta com o ombro. O quarto estava mergulhado em uma penumbra densa. Sentada na beira da cama, com as pernas curtas balançando no ar, estava Tatsuyo. Sua pele parda parecia brilhar sob a luz fraca da lua que filtrava pelas cortinas rasgadas. Os cabelos pretos, lisos mas com ondas rebeldes nas pontas, emolduravam um rosto que exalava uma autoridade ancestral.

— Trouxe o que você pediu — disse Kuro, tentando manter a voz firme. Ele caminhou até a mesinha de cabeceira, sentindo o perfume de enxofre e jasmim que sempre seguia Tatsuyo.

Ela virou o rosto lentamente. Seus olhos pretos não eram apenas escuros; eram vácuos. Kuro sentiu aquela velha pontada de curiosidade hormonal misturada com pavor. Ela era tecnicamente uma criança, mas ele sabia que ali dentro habitava Abadon, o anjo do abismo, o destruidor, um demônio de milhares de anos que já tinha visto impérios caírem enquanto ele ainda nem tinha aprendido a fazer a barba.

— Você demorou, mortal — Tatsuyo disse, saltando da cama com uma agilidade desumana. Ela parou a poucos centímetros dele.

— O forno do hotel resolveu assombrar o cozinheiro hoje — Kuro respondeu, dando um passo para trás, embora seus olhos castanhos escuros demorassem um pouco mais do que o necessário na figura dela. — Não é fácil trabalhar em um lugar onde os eletrodomésticos têm crises existenciais.

Tatsuyo soltou um riso curto, um som que lembrava o estalar de ossos secos.

— Você olha para mim com olhos de desejo e medo, Kuro. É uma combinação patética, mas divertida de observar.

Kuro sentiu o rosto esquentar, a pele branca tornando-se subitamente avermelhada.

— Eu não estou... eu só estava verificando se você estava bem. Sabe, política do hotel.

— Mentiroso — ela sibilou, aproximando-se mais. A diferença de altura era notável, mas a presença dela preenchia o quarto de forma que Kuro se sentia minúsculo. — Você sabe quem eu represento. Eu sou o Abismo. Eu sou Abadon. O que um garoto de catorze anos como você poderia querer com a destruição encarnada?

Kuro engoliu em seco. Ele sabia que deveria sair dali, mas havia algo magnético na aura de Tatsuyo.

— Talvez eu goste de um pouco de perigo — ele arriscou, um sorriso ladino e meio sem jeito surgindo em seus lábios. — E você não parece tão destruidora assim quando está comendo cookies de chocolate.

Tatsuyo estreitou os olhos. Por um momento, o ar no quarto ficou tão pesado que Kuro teve dificuldade para respirar. As sombras nas paredes começaram a se contorcer, assumindo formas de gafanhotos gigantes e fumaça negra.

— Você brinca com o que não entende — disse ela, a voz agora ressoando como se viesse debaixo da terra. — Milhares de anos atrás, reis imploravam pela minha misericórdia enquanto eu devorava suas cidades. E agora, aqui estou eu, sendo servida por um adolescente que mal consegue manter os olhos no meu rosto.

— É que você é... impressionante — Kuro admitiu, a honestidade escapando antes que ele pudesse filtrá-la. — Mesmo nesse corpo de dez anos, dá para ver que você é algo... maior.

A manifestação das sombras cessou abruptamente. Tatsuyo inclinou a cabeça, curiosa.

— Maior? — Ela pegou um cookie da bandeja e o analisou como se fosse uma relíquia antiga. — Eu sou o fim de todas as coisas, Kuro. O hotel é apenas um refúgio temporário para a minha essência. Abadon não pertence a corredores de carpete mofado.

— Então por que ficar? — perguntou Kuro, sentando-se na única cadeira do quarto. — Com todo esse poder, você poderia estar em qualquer lugar.

Tatsuyo mordeu o cookie, mastigando pensativamente. O contraste entre o ato mundano e a entidade que ela era chegava a ser cômico.

— O abismo é solitário — confessou ela, a voz perdendo um pouco daquela ressonância sobrenatural. — Aqui, os fantasmas não me temem tanto quanto os vivos temiam no passado. E você... você é estúpido o suficiente para não fugir.

— Ei! — protestou Kuro, embora não estivesse realmente ofendido. — Eu prefiro o termo "corajoso". Ou talvez "interessado".

— Interessado em quê? — Tatsuyo se aproximou novamente, subindo no colo de Kuro com uma leveza sobrenatural.

Kuro congelou. O coração dele martelava contra as costelas. Ele sentia o frio que emanava da pele dela, um frio que parecia vir do vácuo entre as estrelas.

— No que você é de verdade — ele sussurrou. — Todo mundo aqui tem medo das sombras, mas eu quero saber o que o Abismo pensa quando não está tentando destruir o mundo.

Tatsuyo olhou profundamente nos olhos dele. Por um instante, Kuro não viu apenas o preto das pupilas; ele viu o nascimento e a morte de galáxias, o fogo das batalhas celestiais e o silêncio eterno das profundezas.

— O Abismo pensa que você tem um cheiro irritante de sabonete barato e hormônios — ela disse, embora não se movesse. — E pensa que, se você continuar me olhando assim, eu posso decidir que sua alma é um petisco melhor que esses cookies.

— Seria uma forma interessante de ir embora — Kuro brincou, embora sua mão estivesse tremendo levemente onde repousava no braço da cadeira.

Tatsuyo soltou uma risada genuína desta vez. Ela pulou do colo dele e voltou para a cama, sentando-se em posição de lótus.

— Você é um espécime curioso, Kuro. A maioria dos humanos que encontra Abadon acaba em estado catatônico ou implorando por suas vidas. Você apenas... continua tentando ser charmoso. É quase insultuoso.

— Eu tento o meu melhor — Kuro disse, levantando-se e ajeitando a camisa novamente. Ele sentia que tinha sobrevivido a um encontro com um furacão. — Preciso voltar ao trabalho. O gerente vai me matar se eu passar muito tempo "confraternizando" com os hóspedes.

— Ele não ousaria tocar em você se soubesse que você é propriedade do Abismo — Tatsuyo disse, voltando sua atenção para a bandeja de comida.

Kuro parou na porta, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com medo.

— "Propriedade"? Isso foi um pedido de namoro vindo de um demônio milenar?

Tatsuyo jogou um pedaço de cookie nele, que Kuro desviou rindo.

— Saia logo daqui antes que eu decida abrir um portal para o tártaro debaixo dos seus pés! — ela gritou, mas havia um brilho divertido em seus olhos pretos.

Kuro fechou a porta e encostou a cabeça na madeira fria do corredor. Ele respirou fundo, tentando acalmar o batimento acelerado de seu coração. O Hotel Assombrado era um lugar perigoso, cheio de entidades que poderiam apagar sua existência com um estalar de dedos. Mas, enquanto caminhava de volta para a cozinha, Kuro não conseguia tirar o sorriso do rosto.

Afinal, não era todo dia que um adolescente conseguia arrancar uma risada do próprio Abadon.

— Abadon... — ele murmurou para as paredes vazias. — Tatsuyo.

O corredor pareceu sussurrar de volta, um som de mil vozes que se calaram assim que ele dobrou a esquina. No Hotel Assombrado, as paredes tinham ouvidos, as sombras tinham fome, e Kuro, contra todas as probabilidades, tinha acabado de encontrar algo que o fascinava muito mais do que qualquer garota normal de sua idade jamais conseguiria.

Ele sabia que estava brincando com fogo — ou melhor, com o vazio absoluto. Mas, para Kuro, o risco de ser devorado pelo abismo parecia um preço pequeno a pagar para ver o que mais estava escondido atrás daqueles olhos pretos e profundos.

Enquanto descia as escadas, ele já começou a planejar o que levaria na bandeja no dia seguinte. Talvez alguns bolinhos de canela. O Abismo parecia ter uma queda por doces, e Kuro tinha uma queda por tudo o que Tatsuyo representava.

O hotel continuava em seu silêncio sobrenatural, mas para Kuro, o ar parecia um pouco mais leve, mesmo carregado com o peso de milênios de destruição. Ele era apenas um garoto de catorze anos, e ela era a ruína das nações.

— É — disse ele para um fantasma que passava flutuando pelo teto —, vai ser um verão interessante.

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