
O Mistério da Sombra no Sótão e o Pote de Biscoitos
A mansão que servia de lar para o grupo era, por si só, um labirinto de mistérios e ecos do passado. Para quem olhasse de fora, Nathan, Katy e as crianças pareciam apenas uma família incomum vivendo em um lugar peculiar. No entanto, a verdade era muito mais profunda, enraizada em pactos antigos e almas que se recusavam a partir.
No centro dessa dinâmica estava Tatsuyo. Com sua pele parda, cabelos pretos que oscilavam entre o liso e o ondulado e olhos tão escuros quanto o abismo de onde sua essência provinha, ela parecia uma menina de sete anos comum. Mas as aparências enganavam. Tatsuyo era uma entidade milenar, um demônio que fora selado naquela forma infantil durante a Idade Média.
Naquela tarde chuvosa, o Hotel Assombrado estava silencioso, exceto pelo som rítmico das gotas batendo contra as vidraças altas. Kuro Hatake, com seus nove anos e cabelos brancos espetados que pareciam ter vida própria, caminhava na ponta dos pés pelo corredor do segundo andar. Ele tinha um sorriso travesso no rosto e os olhos castanhos brilhando com a promessa de uma nova brincadeira.
— Tatsuyo! — sussurrou ele, aproximando-se da porta do quarto da menina. — Eu sei que você está aí. Nathan disse que não podemos descer para a cozinha até o jantar, mas eu vi a Katy escondendo o pote de biscoitos de gengibre no alto da despensa.
Lá dentro, Tatsuyo estava sentada no chão, rodeada por alguns brinquedos antigos que Esther, a irmã de seis anos de Kuro, havia emprestado. Ela olhou para a porta com uma expressão de tédio fingido. Por dentro, a ideia de biscoitos de gengibre a animava mais do que ela jamais admitiria.
— E o que eu tenho a ver com isso, pirralho? — perguntou Tatsuyo, sua voz soando infantil, mas com uma cadência que carregava o peso de séculos. — Biscoitos são para mortais que precisam de açúcar para manter o coração batendo.
Kuro entrou no quarto, ignorando a tentativa dela de parecer superior. Ele se sentou ao lado dela, cruzando as pernas.
— Ah, qual é! Você adora os biscoitos da tia Katy. E não me chame de pirralho, eu sou dois anos mais velho que esse seu corpo aí.
Tatsuyo revirou os olhos, mas um pequeno sorriso ameaçou surgir no canto de seus lábios.
— Tecnicamente, eu poderia ter devorado seus ancestrais no café da manhã antes mesmo de você ser um pensamento no universo — retrucou ela, embora tenha se levantado e limpado o vestido. — Mas... suponho que eu possa te ajudar, já que você é claramente incapaz de alcançar a prateleira de cima sozinho.
— Esse é o espírito! — Kuro deu um pulinho, animado.
Eles saíram do quarto em silêncio. No caminho, passaram pelo quarto de Esther. A menina estava tirando uma soneca, abraçada a um urso de pelúcia desgastado. Kuro parou por um segundo, certificando-se de que a irmã não acordaria. Ele era protetor com ela, mas também sabia que Esther era a única que conseguia fazer Tatsuyo amolecer completamente sem nem tentar.
Enquanto desciam as escadas rangentes, Tatsuyo sentiu aquela sensação familiar no peito. Ela odiava admitir, mas se sentia em casa. Nathan era o mais próximo de um pai que ela já tivera em toda a sua existência eterna. Ele a encontrara, a acolhera e, de alguma forma, enxergara além da escuridão do demônio para a solidão da criança presa. Katy, com seu jeito prático e carinhoso, era a tia que sempre garantia que Tatsuyo tivesse roupas limpas e um prato de comida, mesmo que ela não precisasse estritamente de sustento humano.
— O Nathan está no escritório? — perguntou Tatsuyo em um sussurro, enquanto chegavam ao andar térreo.
— Sim, ele está revisando alguns documentos antigos com a Katy — respondeu Kuro. — É a nossa chance.
Eles entraram na cozinha. O cheiro de canela e madeira úmida pairava no ar. A despensa era um cômodo pequeno e escuro anexo à cozinha. Kuro apontou para a prateleira mais alta, onde um pote de cerâmica azul estava estrategicamente posicionado.
— Eu não alcanço nem com a escada — admitiu Kuro, frustrado. — E se eu usar a escada, faz muito barulho.
Tatsuyo olhou para o pote. Ela poderia simplesmente usar um pouco de sua energia sombria para flutuar o pote até o chão, mas Nathan sempre dizia que ela deveria evitar usar seus poderes para "travessuras mundanas".
— Afaste-se — ordenou ela, com um tom autoritário que não condizia com sua estatura.
Ela se aproximou da prateleira e, com uma agilidade sobre-humana, escalou as prateleiras inferiores como se fosse um gato. Em segundos, ela estava segurando o pote. No entanto, ao tentar descer, a manga de seu vestido prendeu em um gancho de metal.
— Droga... — resmungou ela.
— O que foi? — perguntou Kuro, olhando para cima com preocupação.
— Eu estou presa, Kuro! Não puxe, ou vai rasgar o vestido e a Katy vai saber que fomos nós.
Kuro tentou alcançar o pé dela para ajudar, mas acabou escorregando e batendo com força contra uma pilha de panelas de metal. O barulho foi ensurdecedor no silêncio da casa.
— Droga, Kuro! — Tatsuyo sibilou, os olhos brilhando levemente em um tom avermelhado por um instante.
Passos pesados foram ouvidos no corredor. O coração de Kuro disparou. Tatsuyo, em um movimento desesperado, conseguiu se soltar, mas o pote de biscoitos começou a cair. Ela saltou no ar, agarrando o pote contra o peito e aterrissando silenciosamente no chão, bem no momento em que a porta da despensa se abriu.
Nathan estava parado ali, com os braços cruzados e uma expressão que misturava divertimento e desaprovação. Atrás dele, Katy apareceu, segurando um pano de prato.
— Posso saber o que os meus "sobrinhos" favoritos estão fazendo no escuro da despensa? — perguntou Nathan, arqueando uma sobrancelha.
Kuro ficou vermelho instantaneamente.
— A gente... a gente ouviu um barulho! — mentiu ele, descaradamente. — Achamos que era um fantasma. Um dos bravos, sabe?
Nathan olhou para Tatsuyo, que ainda abraçava o pote de biscoitos como se fosse um tesouro sagrado.
— Um fantasma que gosta de biscoitos de gengibre, Tatsuyo? — Nathan perguntou, aproximando-se e agachando-se para ficar na altura dela.
A demônia milenar, que já havia visto impérios caírem e guerras devastarem continentes, sentiu suas bochechas esquentarem. Ela desviou o olhar, fazendo um biquinho involuntário.
— O Kuro estava com fome — murmurou ela. — Eu só estava garantindo que ele não quebrasse o pote.
Katy soltou uma risadinha e entrou na despensa, pegando o pote das mãos de Tatsuyo.
— Bem, já que o pote já foi "resgatado" de forma tão heroica, acho que podemos abrir uma exceção antes do jantar.
Kuro deu um grito de vitória silencioso. Nathan, porém, continuou olhando para Tatsuyo. Ele estendeu a mão e bagunçou suavemente os cabelos pretos dela. Por um breve segundo, Tatsuyo tencionou, sua natureza demoníaca instintivamente rejeitando o toque. Mas então, como sempre acontecia, o calor da mão de Nathan e a sensação de segurança a venceram. Ela inclinou a cabeça levemente para o toque, fechando os olhos por um momento.
— Você não precisa de desculpas para pedir um biscoito, Tatsuyo — disse Nathan suavemente. — Você faz parte desta família.
— Eu sou um demônio, Nathan — respondeu ela, recuperando sua postura fria e cruzando os braços. — Eu não "faço parte" de nada. Eu apenas tolero a presença de vocês porque o hotel é confortável.
Nathan sorriu, sabendo que aquilo era a maior mentira que ela já contara.
— Claro, claro. Vamos para a sala. A Esther acordou e está procurando por vocês.
Eles se dirigiram para a sala de estar, onde uma lareira já estava acesa, espantando o frio da chuva. Esther estava sentada no tapete, com seus seis anos de pura energia, e abriu um sorriso banguela ao ver os primos.
— Tatsuyo! Kuro! — ela correu e abraçou a cintura de Tatsuyo.
Tatsuyo ficou rígida.
— Criança, solte-me. Você está amassando meu vestido.
— Mas você está quentinha! — exclamou Esther, ignorando o protesto e apertando-a mais.
Kuro sentou-se ao lado delas e começou a distribuir os biscoitos que Katy havia colocado em um prato.
— Toma, Tatsuyo. O maior é seu porque você que pegou.
Tatsuyo pegou o biscoito, observando a interação ao seu redor. Kuro e Esther começaram a discutir sobre qual era o melhor jogo de tabuleiro, enquanto Nathan e Katy conversavam em tons baixos no sofá próximo. A luz das chamas dançava nas paredes, criando sombras que, para qualquer outra pessoa, poderiam parecer assustadoras, mas que para Tatsuyo eram apenas parte do cenário.
Ela mordeu o biscoito. Estava doce, com o toque picante do gengibre. Ela sentiu o peso de Esther em seu ombro; a menina havia decidido que o colo de Tatsuyo era o melhor travesseiro do mundo.
— Ela vai dormir de novo se você deixar — comentou Kuro, com a boca cheia.
— Deixe-a — respondeu Tatsuyo, sua voz suavizando sem que ela percebesse. — Ela é pequena e fraca. Precisa descansar para que eu possa continuar treinando a paciência dela amanhã.
Kuro riu, sabendo que Tatsuyo passaria horas brincando de chá com Esther se a menina pedisse.
— Você é engraçada, Tatsuyo. Às vezes parece uma vovó rabugenta e às vezes parece que tem a nossa idade.
— Eu tenho séculos de sabedoria, Kuro. Você não entenderia.
— Eu entendo que você gosta de cafuné — provocou o menino, esticando a mão para bagunçar o cabelo dela novamente.
Tatsuyo rosnou de brincadeira, mas não se afastou. A verdade era que, naquele corpo de sete anos, os instintos humanos que ela tanto desprezava em seus discursos eram os mesmos que a mantinham ali. O calor do colo, o som das risadas, a sensação de pertencer a algum lugar após eras de errância.
Nathan observava a cena de longe, um pequeno sorriso satisfeito no rosto. Ele sabia que Tatsuyo jamais admitiria em voz alta, mas ela amava aquelas crianças tanto quanto ele. Ela era a guardiã silenciosa daquela casa, a sombra que protegia o hotel não por obrigação, mas por um vínculo que nem mesmo o tempo ou a magia negra poderiam quebrar.
— Nathan — chamou Tatsuyo, sem olhar para ele.
— Sim?
— Amanhã... — ela hesitou, fingindo interesse em uma migalha de biscoito em seu vestido. — Amanhã você prometeu que me ensinaria mais sobre aquela biblioteca antiga no porão.
Nathan assentiu.
— Prometi. E vamos fazer isso. Depois que você e o Kuro ajudarem a Katy com as flores do jardim.
Tatsuyo bufou.
— Flores. Que degradante para um ser da minha estirpe.
— Mas você gosta das tulipas pretas, não gosta? — perguntou Katy, piscando para ela.
Tatsuyo não respondeu, mas o leve balançar de sua cabeça foi confirmação suficiente.
A noite avançou e, um a um, os moradores do Hotel Assombrado foram se recolhendo. Nathan carregou Esther, que já dormia profundamente, para cima. Kuro seguiu logo atrás, bocejando e tentando manter os olhos abertos.
Tatsuyo ficou por último na sala, observando as brasas moribundas na lareira. Ela se sentia estranhamente leve. Ser um demônio era solitário; ser uma criança era cansativo; mas ser "Tatsuyo", a protegida de Nathan e a prima de Kuro e Esther, era algo que ela ainda estava aprendendo a processar.
Ela subiu as escadas, seus passos não fazendo som algum na madeira velha. Ao passar pelo espelho do corredor, ela viu seu reflexo. A menina de olhos escuros e cabelos pretos parecia inofensiva. Mas, nas profundezas de suas pupilas, algo antigo e poderoso brilhou por um segundo.
Ela entrou no quarto e deitou-se na cama, puxando as cobertas até o queixo. Antes de fechar os olhos, ela ouviu um sussurro vindo do quarto ao lado.
— Boa noite, Tatsuyo — era a voz de Kuro.
— Vá dormir, pirralho — respondeu ela, baixinho.
Mas, enquanto fechava os olhos para mergulhar em um sono sem sonhos, um pequeno e imperceptível sorriso surgiu em seu rosto. Ela era um demônio milenar, sim. Mas, naquela noite, ela era apenas uma menina em casa. E, por enquanto, isso era mais do que suficiente.
