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Fios de outono

Fandom: Harry potter

Criado: 03/09/2026

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Entre Detenções e Doces de Trigo

O Salão Comunal da Lufa-Lufa costumava ser o lugar mais aconchegante de Hogwarts, mas naquela noite, Ellie Diggory sentia que as paredes amarelas estavam se fechando sobre ela. O motivo não era o excesso de deveres de Herbologia, mas sim a visão constante de Cho Chang rindo de alguma piada de seu irmão, Cedrico.

Ellie gostava de Cho, de verdade. Mas havia algo na perfeição daquele casal que a fazia querer se esconder em um barril de cerveja amanteigada. Para completar, ela acabara de descobrir que o garoto da Corvinal por quem ela nutria uma paixonite platônica desde o terceiro ano, Roger Davies, estava oficialmente interessado em uma das irmãs Patil.

— Você está esmagando essa vagem de papoula como se ela tivesse matado seu gato, Ellie — comentou Cedrico, sentando-se ao lado da irmã no sofá fofinho.

— Ela não quer abrir — resmungou Ellie, os cabelos castanhos escuros caindo sobre o rosto enquanto ela evitava olhar para o irmão.

— Talvez ajude se você usar a faca, e não a força bruta. — Cedrico sorriu, aquele sorriso que fazia metade da escola suspirar. — O que foi? Roger de novo?

— Não é nada. Vou dar uma volta. O ar aqui está... polonizado demais.

Ellie se levantou, ignorando o olhar preocupado do irmão. Ela era dois anos mais nova, consideravelmente mais baixa e, ao contrário do brilho solar de Cedrico, ela preferia as sombras dos corredores menos movimentados.

Foi justamente em um desses corredores, perto da estátua da Bruxa Caolha, que ela colidiu com algo sólido, quente e que cheirava a pólvora e canela.

— Opa! Cuidado, pequena Diggory. Se você quebrar, o Cedrico me transforma em um trasgo.

Ellie olhou para cima, e para cima, e um pouco mais para cima. Fred Weasley sorria para ela, os olhos castanhos brilhando com a habitual malícia. Ele estava acompanhado de Jorge, é claro, mas era Fred quem segurava o braço dela para estabilizá-la.

— Eu não sou pequena, Fred. Você é que é desproporcional — rebateu ela, tentando ajeitar o uniforme.

— Ela tem garras — comentou Jorge, rindo. — Gostei.

— Estamos indo para a cozinha buscar um estoque estratégico de tortinhas de abóbora — Fred explicou, inclinando-se um pouco para ficar na altura dos olhos dela. — Você parece alguém que precisa de açúcar ou de um plano para explodir algo. Qual dos dois é?

Ellie hesitou. Ela deveria voltar para a sala comunal e terminar o trabalho de Poções. Mas Fred tinha aquele jeito de fazer qualquer convite parecer a aventura mais importante do século.

— Açúcar parece mais seguro para a minha ficha escolar — respondeu ela, finalmente sorrindo.

— Ótima escolha — disse Fred, passando o braço pelos ombros dela com uma familiaridade que fez o estômago de Ellie dar um salto estranho. — Vamos, Diggory. Vamos te ensinar como os profissionais fazem.

A caminhada até as cozinhas foi preenchida pelas provocações constantes dos gêmeos. Ellie sempre soube que Fred tinha um interesse nada discreto por Angelina Johnson, e ela mesma passara os últimos meses suspirando por Davies. Eles eram apenas... conhecidos. Amigos de amigos. O tipo de relação que se resumia a acenos no Salão Principal.

Mas, enquanto se escondiam atrás de uma tapeçaria para evitar Filch, Ellie percebeu o quanto Fred era observador.

— Então — começou Fred, enquanto esperavam o corredor ficar limpo —, como vai o coração? Soube que o Davies foi visto com a Patil no Três Vassouras.

Ellie sentiu o rosto esquentar.

— A notícia corre rápido. E como vai a Angelina? Ouvi dizer que ela deu um fora em alguém que tentou testar um Nugget de Nariz Sangrento nela.

Fred soltou uma risada seca, mas não pareceu ofendido.

— Angelina é uma força da natureza. Às vezes, forças da natureza não querem ser perturbadas por inventores geniais como eu.

— Ou talvez você seja só irritante, Fred — provocou Ellie.

— Feriu meu ego, pequena Diggory. — Ele colocou a mão no peito, dramaticamente. — Vou precisar de pelo menos três tortinhas para me recuperar.

Nas cozinhas, rodeados por elfos domésticos solícitos, o clima mudou. Jorge acabou se distraindo conversando com um elfo sobre novas receitas de cremes de canário, deixando Fred e Ellie em um canto, sentados sobre uma mesa de madeira maciça.

— Você é diferente do Cedrico — observou Fred, observando-a morder uma tortinha. — Ele é todo... "olhem para mim, eu sou o capitão perfeito". Você é mais...

— Invisível? — completou ela, com um tom de amargura que não conseguiu esconder.

— Eu ia dizer "sorrateira" — corrigiu Fred, com uma suavidade inesperada na voz. — Você observa tudo. Eu vejo você nos jogos de Quadribol, Ellie. Você não olha para a goles, você olha para as táticas dos batedores.

Ellie parou de mastigar, surpresa.

— Você repara em mim nos jogos?

— É difícil não reparar. Você é a única pessoa que não grita quando o Cedrico faz um mergulho suicida. Você só revira os olhos e anota algo num pergaminho.

— Ele é um exibido — murmurou ela, sentindo um calor diferente subir pelo pescoço. — Alguém tem que manter os pés no chão enquanto ele voa.

— Eu gosto disso — disse Fred. Ele estava mais perto agora. O cheiro de pólvora era mais forte, mas não era ruim. Era... excitante. — Gosto de pessoas que veem o que os outros ignoram.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de algo novo. Ellie olhou para as mãos de Fred — mãos grandes, calejadas pelo cabo da vassoura e manchadas de tinta de escrever. Ela pensou em Roger Davies e percebeu, com um choque, que não conseguia se lembrar da cor dos olhos dele naquele momento. Mas os olhos de Fred... eles eram como âmbar sob a luz das velas.

— Fred! — Jorge chamou do outro lado da cozinha. — Temos que ir antes que a Murta Que Geme resolva inundar o andar de cima e o Filch comece a patrulhar com mais raiva.

Fred se levantou, mas não se afastou imediatamente.

— A gente se vê por aí, Ellie? Digo, sem ser por acaso e sem envolver quase ser pega pelo Filch?

Ellie sentiu o coração martelar contra as costelas.

— Talvez. Se você prometer não testar nenhum produto novo em mim.

Fred deu um sorriso de lado, aquele que Ellie sempre achou que era destinado apenas para as grandes travessuras.

— Prometo solenemente não fazer nada de bom — brincou ele, piscando antes de se juntar ao irmão.

Ellie ficou para trás por alguns segundos, segurando o que restava de sua tortinha de abóbora. O interesse por Roger Davies parecia, de repente, uma memória distante e sem graça. O que ela sentia agora era uma curiosidade vibrante, um "quero mais" que a assustava e a fascinava ao mesmo tempo.

— Vamos, Ellie? — Cedrico apareceu na porta da cozinha, parecendo confuso ao encontrá-la ali. — Eu vi os gêmeos saindo. Eles te importunaram?

— Não, Ced — disse ela, passando pelo irmão e dando um tapinha em seu ombro. — Na verdade, eles foram bem divertidos.

— Divertidos? Os Weasley? — Cedrico arqueou uma sobrancelha, seguindo-a pelo corredor. — Cuidado, Ellie. Eles são encrenca.

— Eu sei — respondeu ela, e pela primeira vez na vida, a ideia de encrenca parecia exatamente o que ela precisava.

Nos dias que se seguiram, a dinâmica entre os dois mudou de forma sutil, quase imperceptível para quem olhasse de fora. Não houve grandes declarações ou convites para Hogsmeade. Em vez disso, houve trocas de olhares durante o jantar no Salão Principal. Houve um bilhete anônimo deixado na bolsa de Ellie que dizia apenas: "A biblioteca é um lugar terrível para estudar, tente o terceiro andar, atrás da armadura de Barnabás, o Banzado. É mais silencioso e tem uma passagem para os jardins."

Ellie foi até lá, é claro. E Fred estava lá, fingindo testar um novo tipo develas que não apagavam com o vento, mas o sorriso que ele deu quando a viu atravessar o corredor disse muito mais do que qualquer conversa barulhenta.

Eles conversaram por horas sobre coisas banais — as aulas de Snape, o medo que Ellie tinha de altura (o que era irônico para uma Diggory) e o sonho de Fred de abrir uma loja de logros.

— Você acha que meu pai vai me matar? — perguntou Fred, sentado no chão frio de pedra, as costas apoiadas na parede.

— O Sr. Weasley? Não. Acho que ele vai ficar secretamente orgulhoso, mas a sua mãe... — Ellie fez uma careta. — É, a Sra. Weasley talvez tente te transformar em um espanador de pó.

— Vale o risco — disse ele, olhando para ela com uma intensidade que a fez desviar o olhar. — Sabe, Ellie... eu achei que você era só a "irmã do Cedrico". Peço desculpas por isso.

— Todo mundo acha — respondeu ela, brincando com a bainha da saia. — Eu já me acostumei.

— Pois eu não vou mais cometer esse erro. Você é muito mais interessante do que o apanhador de ouro da Lufa-Lufa.

Ellie sentiu um frio na barriga. Fred ainda falava de Angelina ocasionalmente, e ela ainda sentia uma pontada de ciúmes quando via Roger Davies no corredor, mas essas coisas estavam perdendo o peso. O que estava sendo construído ali, naquelas fugas noturnas e conversas sussurradas, era algo mais sólido. Mais real.

— Fred? — chamou ela, quando ele se levantou para ir embora.

— Sim?

— Obrigada pelas tortinhas. E por... você sabe. Não me tratar como se eu fosse de vidro.

Fred se aproximou, a altura dele sempre a obrigando a inclinar a cabeça. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que ninguém associaria a um batedor da Grifinória, afastou uma mecha de cabelo castanho do rosto dela.

— Você não é de vidro, Ellie Diggory. Você é feita de algo muito mais resistente. Acho que é por isso que eu gosto tanto de te provocar.

Ele não a beijou. Não era o momento, e ambos sabiam disso. Havia uma dança sendo executada, um passo de cada vez, lenta e cuidadosamente. Mas, ao vê-lo desaparecer na escuridão do corredor, Ellie soube que o gosto de "quero mais" não ia embora tão cedo. Pelo contrário, estava apenas começando a se transformar em algo que nenhum feitiço ou poção poderia explicar.

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