
shikamaru e maya
Fandom: naruto
Criado: 03/09/2026
Tags
Sombras, Vento e Outros Problemas
O céu de Konoha estava pintado com tons de laranja e púrpura, o tipo de cenário que qualquer pessoa normal consideraria romântico, mas que para Shikamaru Nara significava apenas uma coisa: o dia estava finalmente acabando e ele poderia, em teoria, ir para casa dormir.
Entretanto, o destino — ou melhor, o Hokage e sua mania de organização — tinha outros planos.
Shikamaru estava sentado no topo do muro de pedra que cercava o campo de treinamento, observando o movimento das nuvens. Ele tentava decidir se a nuvem à esquerda parecia mais um coelho ou um rolo de pergaminho, quando um estrondo de vento cortou o ar, quase o derrubando de sua posição.
— Você está ficando cada vez mais lento, Shikamaru. Se eu fosse um inimigo, sua sombra estaria sendo enterrada agora mesmo.
Ele nem precisou abrir os olhos completamente para saber quem era. A voz era firme, carregada de uma confiança que beirava a arrogância, e tinha aquele tom levemente debochado que ele conhecia desde que mal conseguia segurar uma kunai.
— Que problemático... — resmungou Shikamaru, abrindo um olho e encontrando a figura de Maya parada à sua frente.
Maya era a definição de energia contida. Seus cabelos castanhos ondulados estavam levemente bagunçados pelo vento que ela mesma criava com seu leque gigante, e seus olhos castanhos brilhavam com aquele desafio constante. Ela cruzou os braços, batendo o pé no chão com impaciência.
— Levanta daí, preguiçoso. O relatório da missão conjunta precisa ser entregue amanhã cedo e eu não vou carregar você nas costas de novo.
— "De novo"? — Shikamaru sentou-se lentamente, bocejando. — Eu criei toda a estratégia de contenção enquanto você simplesmente saía balançando esse leque e destruindo metade da floresta. Eu diria que o esforço foi bem equilibrado.
Maya soltou uma risada curta e seca, pulando para sentar ao lado dele no muro.
— Destruição estratégica, Shikamaru. É um conceito que a sua mente brilhante deveria entender. Além disso, se eu não tivesse dispersado aquela fumaça, você estaria tossindo até agora.
— É, talvez — admitiu ele, voltando a olhar para o céu. — Mas ainda é um saco ter que escrever tudo isso. Por que você é tão certinha com prazos?
— Porque alguém tem que ter responsabilidade nesta dupla — retrucou ela, dando um empurrão leve no ombro dele. — E porque eu quero terminar logo para irmos comer alguma coisa. Estou morrendo de fome.
Shikamaru sentiu o toque dela e, por um breve segundo, seu coração falhou em uma batida. Era uma sensação estranha, um formigamento que ele vinha tentando ignorar desde o fim dos Exames Chunin. Antes, Maya era apenas Maya: a garota irritante que batia nele quando ele perdia o foco e a única pessoa que conseguia acompanhá-lo em um jogo de Shogi sem deixá-lo entediado. Mas agora, a proximidade dela parecia ter um peso diferente.
Ele notou como o sol poente refletia nos olhos dela, tornando o castanho quase dourado. Notou o jeito que ela prendia uma mecha de cabelo atrás da orelha quando estava frustrada. Detalhes desnecessários. Informações inúteis que seu cérebro de estrategista insistia em catalogar.
— O que foi? — perguntou Maya, arqueando uma sobrancelha. — Tenho alguma coisa na cara ou você finalmente percebeu que eu sou muito mais bonita que as nuvens?
— Você é muito convencida, isso sim — respondeu Shikamaru, desviando o olhar rapidamente, sentindo as orelhas esquentarem. — Estava apenas pensando que seu penteado está mais desastroso que o normal.
Maya bufou, fingindo ofensa, mas havia um sorriso no canto de seus lábios.
— Idiota. Vamos logo.
Enquanto caminhavam pelas ruas de Konoha em direção ao restaurante de churrasco, o silêncio entre eles não era desconfortável. Era o silêncio de quem se conhecia há anos. No entanto, para Shikamaru, o ar parecia mais denso.
Eles passaram por um grupo de shinobis mais velhos, e um deles, um jounin que Shikamaru vagamente lembrava de ter visto em missões de reconhecimento, acenou para Maya com um sorriso largo.
— Ei, Maya! Bom trabalho na fronteira semana passada. O capitão elogiou muito sua técnica de vento. Que tal um brinde qualquer dia desses?
Maya sorriu de volta, um sorriso aberto e sincero que raramente mostrava a Shikamaru quando estavam discutindo estratégias.
— Obrigada, Kaito! Quem sabe na próxima folga.
Shikamaru sentiu uma pontada aguda no peito. Não era dor física, era algo mais irritante, como uma areia nos olhos. Ele cerrou os punhos dentro dos bolsos da calça.
— "Quem sabe na próxima folga"? — repetiu ele, a voz carregada de um sarcasmo mais ácido que o habitual. — Você nem gosta de beber com estranhos.
Maya olhou para ele, confusa.
— O Kaito não é um estranho, ele é um ótimo shinobi. E desde quando você se importa com quem eu saio ou deixo de sair?
— Não me importo — mentiu Shikamaru, apressando o passo. — Só acho que você deveria gastar seu tempo livre treinando para não ser tão lenta nas missões. É puramente lógico.
— Lógico? — Maya parou de andar, obrigando-o a parar também. Ela se colocou à frente dele, as mãos nos quadris. — Shikamaru, você está sendo estranho. Mais estranho que o normal. Está com fome ou é só a sua preguiça atingindo um novo nível de mau humor?
— É só o cansaço, Maya. Que problemático ter que explicar tudo.
Ela o encarou por longos segundos, seus olhos castanhos parecendo ler cada camada da expressão dele. Maya era inteligente demais para ser enganada por muito tempo.
— Você está com ciúmes? — perguntou ela, com um tom de voz que misturava deboche e uma curiosidade genuína.
Shikamaru sentiu o sangue subir para o rosto. Ele tentou manter a expressão de indiferença, mas sabia que, contra Maya, suas defesas eram sempre mais fracas.
— Não seja ridícula. Ciúmes dá muito trabalho. Exige um investimento emocional que eu não estou disposto a fazer.
— Sei... — Maya deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. — Então por que você está esmagando o papel do relatório na sua mão desde que o Kaito falou comigo?
Shikamaru olhou para a própria mão e percebeu que, de fato, o pergaminho estava todo amassado. Ele soltou um suspiro longo, derrotado.
— Eu só... — Ele hesitou, procurando as palavras certas, algo que não costumava ser difícil para ele. — Eu só acho que as pessoas não percebem o quanto você pode ser... intensa. E barulhenta. E mandona. Eles veem a kunoichi habilidosa e não sabem o problema que você é.
Maya riu, mas desta vez foi uma risada suave, quase doce.
— E você, Shikamaru? Você sabe o problema que eu sou?
— Infelizmente, eu sei melhor do que ninguém — respondeu ele, a voz baixando de tom.
Eles ficaram ali, parados no meio da calçada, enquanto os moradores passavam por eles. O mundo parecia ter diminuído para aquele pequeno espaço entre os dois. Shikamaru observou a determinação no rosto dela, a força que ela emanava, e percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar. A amizade deles era o alicerce de sua vida, mas a estrutura que estava sendo construída em cima dele agora tinha cores e formas que ele não podia mais ignorar.
— Você é um idiota, Shikamaru Nara — disse Maya, embora não houvesse nenhum veneno em suas palavras. — Mas é o meu idiota estrategista favorito.
Ela estendeu a mão e, por um momento, Shikamaru achou que ela fosse bater nele. Em vez disso, ela ajeitou a gola do colete dele, deixando a mão repousar ali por um segundo a mais do que o necessário.
— Vamos comer — continuou ela, voltando ao seu tom direto. — Se eu desmaiar de fome, você vai ter que me carregar, e nós dois sabemos que isso seria esforço demais para você.
— Com certeza — concordou ele, sentindo um alívio misturado com uma antecipação estranha. — Um esforço completamente desnecessário.
O jantar no restaurante foi como sempre: Maya comendo o dobro do que ele, reclamando da demora do serviço e desafiando-o para uma partida de Shogi mental enquanto mastigavam. Shikamaru respondia com seus comentários secos, provocando-a até que ela ficasse com as bochechas coradas de raiva, o que ele secretamente achava a coisa mais interessante do mundo.
Quando saíram do restaurante, a noite já estava alta. A lua brilhava intensamente, projetando sombras longas no chão.
— Vou te acompanhar até em casa — disse Shikamaru, como quem não quer nada.
— Mora no caminho oposto, Shikamaru. Isso é um esforço desnecessário, não é? — Maya sorriu, provocando-o.
— As ruas estão perigosas — mentiu ele descaradamente. — E se você encontrar outro jounin sorridente e decidir que quer ir beber? Eu teria que terminar o relatório sozinho.
Maya revirou os olhos, mas não protestou. Eles caminharam lado a lado, os ombros se roçando ocasionalmente. Quando chegaram à porta da casa de Maya, ela se virou para ele.
— Obrigada pela escolta, "guarda-costas".
— Não se acostume — respondeu ele, embora soubesse que faria aquilo todas as noites se pudesse.
Maya hesitou por um momento. Ela parecia estar travando uma batalha interna entre sua independência feroz e algo novo que estava florescendo. Por fim, ela se aproximou e depositou um beijo rápido, quase imperceptível, no canto da boca dele.
— Boa noite, Shikamaru. Tente não sonhar com nuvens o tempo todo.
Antes que ele pudesse reagir, ela entrou e fechou a porta.
Shikamaru ficou parado ali, no meio da rua deserta, com os dedos tocando o lugar onde os lábios dela haviam encostado. Ele olhou para cima, para a lua, e soltou um suspiro profundo.
— Que problemático... — murmurou ele, mas, pela primeira vez na vida, havia um sorriso genuíno e bobo em seu rosto. — Isso vai dar um trabalho danado.
Ele começou a caminhar de volta para casa, já traçando mentalmente mil estratégias para o dia seguinte. Nenhuma delas envolvia nuvens. Todas elas envolviam uma certa kunoichi de cabelos castanhos e temperamento explosivo que, de alguma forma, havia se tornado a peça mais importante do seu tabuleiro.
