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Fandom: Nenhum
Criado: 04/09/2026
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Entre o Traço e a Tinta
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no vigésimo andar de um prédio comercial de luxo em São Paulo, cheirava a antisséptico, café caro e tinta. Era o seu santuário, o lugar onde a racionalidade do seu trabalho minucioso encontrava a válvula de escape para o estresse acumulado de gerenciar um império que se estendia de Londres a Tóquio. No entanto, naquela tarde de terça-feira, a paz habitual foi substituída pelo som de risadas infantis e pelo perfume doce que sempre acompanhava Eduarda.
Emanuel estava sentado em sua cadeira ergonômica, observando a cena à sua frente com uma expressão que, para qualquer estranho, pareceria severa, mas que, para quem o conhecia, transbordava uma adoração silenciosa.
Eduarda estava sentada no sofá de couro legítimo, com Maya no colo. A menina, de apenas um ano, tentava agarrar os pingentes do colar de prata da mãe. Eduarda usava um vestido de linho bege, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros esguios. Ela parecia uma pintura renascentista que havia ganhado vida e decidido visitar um ambiente moderno e industrial.
— Ela está com sono, Manu — murmurou Eduarda, a voz suave e melodiosa, típica de quem passava o dia ensinando passos de ballet para crianças. — Acho que a aula de hoje a cansou mais do que o normal.
Emanuel levantou-se, sentindo a tensão nos ombros diminuir apenas por ouvir a voz da prima. Ele caminhou até elas e estendeu os braços. Imediatamente, Maya soltou o colar da mãe e se inclinou para ele, esticando as mãozinhas gordinhas.
— Vem aqui com o papai, pequena — disse ele, a voz engrossando em um tom protetor que ele só usava com as suas meninas.
Ele a pegou com facilidade, acomodando-a contra o peito largo. O contraste era gritante: o homem alto, com os braços cobertos por tatuagens complexas e sombrias, segurando uma criança tão delicada.
— Você não precisa se preocupar com o horário da faculdade, Duda — Emanuel comentou, olhando para Eduarda, que parecia subitamente tímida sob o olhar dele. — Eu fico com ela aqui no estúdio até você terminar a aula de História da Arte. O motorista te leva e te busca.
— Eu não quero atrapalhar, Manu... você tem tantos compromissos — ela respondeu, desviando o olhar, as bochechas ganhando um tom rosado. — E a Sara? Ela não vai se importar?
Nesse exato momento, a porta do estúdio se abriu com um estrondo controlado. Sara entrou como um furacão de cores e confiança. Usando um vestido justo de seda vermelha que acentuava cada curva de seu corpo esculpido e siliconado, ela carregava Ágata, a filha do casal, no quadril. A menina era a cópia fiel do pai, mas com a energia caótica da mãe.
— Importar com o quê? — Sara perguntou, a voz alta e vibrante, soltando uma risada irônica enquanto deixava sua bolsa de grife sobre a mesa de desenho de Emanuel. — Se for com a Duda ficar aqui, você sabe que eu adoro ter companhia. Este lugar é muito sério, precisa de mais mulheres.
Sara caminhou até Eduarda e deu-lhe um beijo estalado no rosto, sem qualquer cerimônia. Eduarda sorriu, embora um pouco intimidada pela presença esmagadora da loira. Sara não via Eduarda como uma ameaça; para ela, a prima de Emanuel era como uma joia rara que precisava ser polida e protegida, não alguém com quem competir.
— Oi, Sara — disse Eduarda, ajeitando a alça do vestido. — Eu estava dizendo ao Manu que não quero incomodar.
— Deixa de bobagem, garota — Sara revirou os olhos, mas de forma carinhosa, enquanto colocava Ágata no chão para brincar com uns blocos de madeira. — O Emanuel adora bancar o herói protetor. Se ele pudesse, colocava você e a Maya em uma redoma de vidro.
Emanuel lançou um olhar de advertência para Sara, mas ela apenas piscou para ele, provocadora. Ele sabia que Sara lia cada pensamento seu. Ele não escondia nada dela. Sara sabia que o amor que ele sentia por ela, a paixão carnal e a cumplicidade de anos, coexistia com um sentimento profundo, quase devocional, por Eduarda.
— Duda, vá para a sua aula — Emanuel ordenou suavemente, mas com a firmeza de quem não aceitaria um não como resposta. — Maya vai ficar bem. Ágata está aqui para brincar com ela.
Eduarda levantou-se, sentindo-se pequena perto da imponência do primo e da exuberância de Sara.
— Está bem. Eu volto em duas horas. — Ela se aproximou de Emanuel para pegar Maya e dar um beijo de despedida na filha, mas Emanuel não a soltou imediatamente. Seus olhos se encontraram por um segundo a mais do que o estritamente necessário entre primos.
— Vá tranquila — ele murmurou.
Assim que Eduarda saiu, o silêncio no estúdio mudou de textura. Sara encostou-se na mesa, cruzando os braços, observando o marido que ainda olhava para a porta fechada.
— Você está babando, querido — provocou ela, com um sorriso de canto. — Cuidado para não manchar o carpete.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto e prático, sentindo o peso da responsabilidade e do desejo conflitante.
— Eu não sei como você consegue ser tão tranquila com isso, Sara — ele disse, finalmente olhando para a esposa. — Eu contei para você o que eu sinto. Eu amo você, você sabe que é a minha vida, mas a Duda...
— A Duda é o seu porto seguro emocional, o seu lado "certinho" e doce — Sara o interrompeu, caminhando até ele e passando as mãos pelos ombros tensos do marido. — E eu sou o seu fogo, a sua parceira no crime. Emanuel, eu te conheço melhor do que você mesmo. Se você quer ela, e se ela precisa de você — e Deus sabe que aquele embuste que a engravidou deixou marcas nela —, por que eu seria contra?
— Ela não faz ideia — Emanuel admitiu, a voz baixa. — Ela me vê como o primo que a salvou. O homem que assumiu a Maya como filha quando o mundo dela desabou.
— Por enquanto — Sara sorriu, uma expressão predatória e inteligente. — Mas ela é intuitiva. Ela sente a sua proteção. E eu estou aqui para garantir que, quando o momento chegar, ninguém saia ferido. Eu quero você feliz, Manu. E se a felicidade completa significa ter nós duas... eu não vejo problema nenhum. Eu não sou uma mulher de metades.
Emanuel puxou Sara para perto, beijando-a com uma intensidade que misturava gratidão e posse. Sara correspondia com a mesma força, a vulgaridade elegante de seus gestos sempre o prendendo.
— Você é louca — ele sussurrou contra os lábios dela.
— Eu sou prática, igual a você — ela rebateu. — Agora, pare de sofrer. Vamos cuidar dessas crianças enquanto a nossa pequena bailarina estuda sobre pintores mortos.
Duas horas depois, Eduarda retornou. Ela estava visivelmente cansada, com alguns fios de cabelo soltos do coque improvisado. Ao entrar no estúdio, ela parou, comovida pela cena.
Emanuel estava sentado no tapete, com Ágata e Maya ao seu redor. Ele lia um livro de gravuras para as duas, enquanto Sara, sentada na cadeira de tatuagem, lixava as unhas e comentava algo engraçado sobre uma cliente da sua loja de roupas.
— Cheguei — anunciou Eduarda, a voz falhando levemente pela emoção de ver a filha tão bem cuidada.
Emanuel levantou-se imediatamente. Ele caminhou até ela e, sem pensar, colocou a mão na base das costas de Eduarda, guiando-a para o sofá.
— Você parece exausta, Duda.
— A prova de hoje foi difícil — ela confessou, apoiando a cabeça no ombro dele por um breve momento, buscando aquele conforto que só ele proporcionava. — Obrigada por cuidar da Maya, Manu. Eu não sei o que seria de mim sem vocês.
Sara observava tudo da cadeira, um sorriso satisfeito no rosto. Ela se levantou e caminhou até o frigobar, pegando uma garrafa de água e entregando a Eduarda.
— Você precisa comer algo, querida. Vamos todos jantar na nossa casa hoje. Sem discussões.
— Ah, Sara, eu não queria incomodar os pais da Maya... quero dizer, meus pais estão esperando — Eduarda tentou protestar, a insegurança aflorando.
— Eu já liguei para os seus pais — Emanuel interveio, o tom controlador surgindo, mas suavizado pelo olhar carinhoso. — Eles sabem que você vai jantar conosco. Eu faço questão.
Eduarda olhou de um para o outro. Ela sentia algo no ar, uma eletricidade que não conseguia explicar. A forma como Emanuel a olhava, com uma fome contida, e a maneira como Sara a acolhia, sem um pingo de ciúme, a deixavam confusa, mas estranhamente segura.
— Tudo bem — ela cedeu, com um pequeno sorriso manhoso. — Se vocês fazem questão...
— Fazemos — disse Sara, piscando para Emanuel.
Emanuel pegou a bolsa de Eduarda em uma mão e Maya na outra. Ele se sentia no controle novamente. Ele tinha Sara ao seu lado, sua rocha e cúmplice, e tinha Eduarda sob sua asa, a doçura que ele precisava para equilibrar sua vida dura.
Enquanto caminhavam para o elevador, Emanuel sentiu o toque leve dos dedos de Eduarda em seu braço, um gesto de pura confiança. Ao mesmo tempo, Sara segurava sua mão livre, apertando-a com uma promessa silenciosa.
Ele era um homem de negócios, um artista da pele, um protetor. E, naquele momento, ele percebeu que o desenho que estava traçando para sua vida era muito mais complexo e colorido do que qualquer tatuagem que já fizera. Ele não precisava escolher. Ele iria manter as duas, proteger as duas e, eventualmente, amar as duas abertamente.
— Vai ficar tudo bem, Duda — ele murmurou, enquanto as portas do elevador se fechavam.
— Eu sei que vai — ela respondeu, sem saber exatamente o porquê, mas sentindo que, ao lado de Emanuel e Sara, ela nunca mais estaria sozinha.
Sara deu uma risadinha baixa, encostando a cabeça no ombro de Emanuel, enquanto olhava para o reflexo dos quatro no espelho do elevador. A família que eles estavam construindo era fora dos padrões, mas para ela, os padrões sempre foram terrivelmente entediantes. E para Emanuel, o que importava era a ordem no seu caos particular, e ali, entre a loira vibrante e a morena delicada, ele finalmente encontrou o seu equilíbrio perfeito.
