Fanfy
.studio
Imagem de fundo

D

Fandom: Nenhum

Criado: 04/09/2026

Tags

RomanceDramaDor/ConfortoHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaEstudo de PersonagemRealismo
Índice

O Laço Silencioso da Mentira

A sala de jantar dos avós de Emanuel e Eduarda exalava o cheiro nostálgico de assado e madeira antiga. Era um ambiente que, para Eduarda, sempre representou segurança, mas naquela noite, parecia uma jaula de vidro prestes a estilhaçar. Sentada à mesa, ela apertava as mãos sobre o colo, sentindo o tecido leve de seu vestido bege. Aos vinte anos, a delicadeza de seus traços e a postura impecável de bailarina escondiam o turbilhão que crescia em seu ventre.

Ela estava grávida de Maya. E estava sozinha. O homem que deveria estar ao seu lado havia desaparecido assim que o teste deu positivo, deixando para trás apenas o silêncio e a insegurança que agora a sufocava.

Do outro lado da mesa, Emanuel observava tudo. Ele era o pilar daquela família, o homem que transformou o talento com as agulhas em um império global de tatuagem. Sua presença era magnética, mas carregada de uma tensão silenciosa. Ao seu lado, Sara, sua esposa, era o contraste absoluto. Com seus cabelos loiros impecavelmente alinhados, o brilho do gloss nos lábios e um vestido vermelho justo que marcava a barriga de cinco meses de Ágata, ela parecia uma rainha em seu trono de confiança.

— Você está muito quieta, Duda — comentou Sara, a voz carregada de uma ironia que, estranhamente, não era maldosa. Ela gostava da prima de Emanuel, via nela uma doçura que o mundo raramente preservava. — Nem tocou no vinho. Algum problema na faculdade de História da Arte ou as sapatilhas estão apertando demais?

Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto. Ela olhou para os pais, sentados à cabeceira, e depois para os avós. O momento era agora.

— Eu... eu preciso contar uma coisa para vocês — começou Eduarda, a voz falhando, quase um sussurro. — Eu estou grávida.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O garfo do avô bateu no prato com um tinido metálico. A mãe de Eduarda levou a mão à boca. O ar parecia ter sido sugado da sala.

— Grávida? — a avó perguntou, a voz trêmula. — Mas, minha querida... quem é o pai?

Eduarda abriu a boca para dizer a verdade, para dizer que fora abandonada, que Maya teria apenas a ela. Mas antes que a primeira sílaba saísse, a cadeira de Emanuel rangeu contra o chão.

— O pai sou eu.

A declaração caiu como uma bomba. Eduarda arregalou os olhos, o coração disparando contra as costelas. Ela virou o rosto lentamente para o primo, a confusão nublando sua visão.

— Emanuel? O que você... — Eduarda tentou protestar, mas ele a cortou com um olhar.

Era um olhar de comando, frio e prático, mas com uma centelha de proteção que a fez travar. Emanuel não vacilou. Ele estendeu a mão sobre a mesa, não para Eduarda, mas para o centro, como se estivesse reivindicando o território.

— Eu e a Eduarda... aconteceu há alguns meses — mentiu ele, a voz firme, sem qualquer sinal de hesitação. — Eu vou assumir a criança. Maya terá o meu sobrenome e tudo o que precisar.

— Emanuel! — a mãe dele exclamou, horrorizada, olhando para Sara. — E a sua esposa? E a Ágata?

Sara, surpreendentemente, não teve um ataque de nervos. Ela apenas encostou o corpo na cadeira, cruzando os braços sobre os seios fartos, e observou o marido com um sorriso enigmático. Ela sabia. Emanuel já havia plantado as sementes dessa confissão nela, mesmo que a confirmação pública estivesse acontecendo agora.

— Por mim, tudo bem — disse Sara, dando de ombros, a voz carregada de uma vulgaridade elegante. — Se o Emanuel diz que o filho é dele, quem sou eu para discutir genética? O que importa é que a família cresça, não é?

Eduarda sentia que ia desmaiar. O jantar continuou sob uma nuvem de choque e murmúrios, mas ela não conseguia comer. Assim que teve oportunidade, ela se esquivou para a varanda, buscando o ar frio da noite.

Não demorou muito para que os passos pesados de Emanuel ecoassem atrás dela.

— Por que você fez aquilo? — Eduarda se virou, os olhos cheios de lágrimas, a voz trêmula. — Você sabe que não é verdade. Você sabe que aquele homem me deixou e...

— Shhh — Emanuel deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele era muito mais alto, uma parede de estabilidade e controle. — Você não ia conseguir lidar com o julgamento deles, Duda. Você é sensível demais.

— Mas mentir assim? E a Sara? — ela soluçou, abraçando o próprio corpo.

— A Sara sabe de tudo o que precisa saber — ele disse, estendendo a mão para tocar o rosto dela, o polegar acariciando a pele macia com uma ternura que não condizia com sua expressão séria. — Maya é minha agora. Eu vou cuidar de você. Eu vou dar tudo para essa menina.

— Você ficou louco... — ela sussurrou, mas não se afastou do toque dele.

— Talvez — admitiu ele, a voz ficando mais rouca. — Mas eu não vou deixar você passar por isso sozinha. Nunca.

Emanuel a puxou para um abraço. Eduarda, em sua fragilidade, desmoronou contra o peito dele, aspirando o perfume caro misturado ao cheiro de tinta de tatuagem. Ela era apenas uma bailarina, uma estudante que via o mundo através das cores e das formas da arte, e Emanuel era a estrutura bruta que ela sempre buscou sem saber.

Do portal da varanda, Sara observava a cena. Ela alisava a própria barriga, sentindo o chute de Ágata. Para muitos, aquela situação seria um escândalo, uma traição imperdoável. Mas Sara não era como a maioria das mulheres. Ela conhecia Emanuel. Sabia que o coração dele era grande o suficiente para ser um império, e ela não se importava em dividir o trono com alguém tão inofensiva e doce como a prima dele.

— Ele realmente tem um tipo, não é, Ágata? — murmurou Sara para si mesma, um sorriso astuto brincando em seus lábios pintados de vermelho.

Dias depois, a rotina começou a se transformar em uma estranha dança de três. Emanuel comprou um apartamento maior, um duplex luxuoso onde Sara instalou seu escritório para a loja de roupas que administrava com mão de ferro, e onde Eduarda ganhou um estúdio de dança particular.

Eduarda ainda se sentia perdida. Ela continuava dando aulas de ballet para crianças durante a tarde, os movimentos ficando mais lentos à medida que a barriga crescia discretamente.

Certa tarde, enquanto Eduarda descansava no sofá da sala de Emanuel, exausta após uma aula, Sara entrou no recinto carregada de sacolas de compras.

— Levante esse ânimo, bailarina — disse Sara, jogando uma sacola de seda no colo de Eduarda. — Comprei umas roupas novas para você. Cores claras, do jeito que você gosta, mas com um pouco mais de... presença. Você é a mãe da segunda filha do homem mais rico desse ramo, precisa se vestir como tal.

Eduarda abriu a sacola, encontrando vestidos de linho e sedas delicadas.

— Sara... eu não sei como te agradecer por não me odiar — Eduarda disse, a voz pequena.

Sara sentou-se ao lado dela, o perfume forte preenchendo o espaço. Ela tocou a barriga de Eduarda com uma mão adornada por anéis de ouro.

— Escuta aqui, Duda — começou Sara, a voz perdendo um pouco da ironia. — O Emanuel é um homem difícil. Ele é controlador, ele é viciado em trabalho e, às vezes, ele esquece como respirar. Eu sou a força dele, a diversão, a mulher que segura as pontas quando ele quer explodir. Mas você... você é a paz dele. Eu vejo como ele olha para você quando você está dançando ou distraída com aqueles livros de arte.

Eduarda corou violentamente.

— Ele não... ele só está me protegendo.

— Ele está te amando, sua boba — Sara riu, uma risada alta e confiante. — E eu decidi que está tudo bem. Se ele estiver feliz, eu estou feliz. E se a Maya e a Ágata crescerem juntas como irmãs, sob o mesmo teto, melhor ainda. Nós somos uma família agora. Diferente, mas uma família.

Naquela noite, Emanuel chegou tarde. Ele passou primeiro pelo quarto de Sara, deixando um beijo possessivo em seus lábios e ouvindo as reclamações dela sobre os fornecedores da loja. Depois, ele caminhou até o quarto de hóspedes, onde Eduarda lia um livro sobre o Renascimento.

Ele parou na porta, observando-a. A luz do abajur criava uma aura suave ao redor de seu cabelo castanho escuro.

— Você comeu direito hoje? — ele perguntou, entrando e fechando a porta atrás de si.

— Comi. A Sara me obrigou a jantar dois pratos — Eduarda sorriu, fechando o livro. — Ela me deu roupas novas também.

Emanuel sentou-se na beirada da cama. O peso dele fez o colchão afundar. Ele parecia exausto, as olheiras marcando o rosto bonito, mas seus olhos brilharam quando pousaram nela.

— Ela gosta de você — disse ele. — E eu também.

Eduarda sentiu o coração falhar uma batida.

— Emanuel, as pessoas vão falar. Meus pais ainda estão em choque, os vizinhos...

— Deixe que falem — ele a interrompeu, a voz firme e autoritária. — Eu tenho dinheiro e poder o suficiente para silenciar qualquer um que tente te machucar. Você só precisa se preocupar em cuidar da Maya e em continuar sendo essa luz que você é.

Ele se aproximou, e por um momento, Eduarda achou que ele a beijaria. Mas Emanuel apenas encostou a testa na dela, fechando os olhos e respirando o perfume de lavanda que ela sempre usava.

— Eu nunca tive paz, Eduarda — confessou ele em um sussurro. — Com a Sara, eu tenho fogo, tenho guerra, tenho paixão. Mas com você... eu sinto que posso finalmente parar de lutar.

Eduarda estendeu as mãos trêmulas e acariciou a nuca dele, onde o cabelo era cortado rente.

— Eu não quero ser um problema na sua vida — ela disse, com a sinceridade que a definia.

— Você é a solução, não o problema — respondeu ele, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Agora durma. Amanhã vou te levar para ver o novo berço que encomendei para a Maya. É de madeira esculpida à mão. Só o melhor para a minha filha.

Quando ele saiu do quarto, Eduarda ficou olhando para a porta por um longo tempo. Ela sabia que a situação era absurda, que a mentira de Emanuel havia criado um caminho sem volta. Mas, pela primeira vez desde que descobriu a gravidez, ela não sentia medo.

Ela se sentia protegida.

Enquanto isso, no corredor, Emanuel encontrou Sara encostada na parede, esperando por ele.

— Ela está bem? — perguntou a loira, ajeitando a camisola de seda.

— Está — respondeu ele, passando o braço pela cintura de Sara e a puxando para perto.

— Você é um homem de sorte, Emanuel — Sara provocou, mordendo o lábio inferior. — Duas filhas a caminho e duas mulheres que fariam qualquer coisa por você.

— Eu sei — disse ele, a rigidez de seus ombros finalmente cedendo. — E eu vou garantir que nenhuma de vocês jamais sinta falta de nada.

A dinâmica estava estabelecida. Entre o luxo dos estúdios de tatuagem, a delicadeza do ballet e o caos do mundo da moda, um novo tipo de lar estava sendo construído. Uma mentira que, ironicamente, trouxe a verdade sobre os sentimentos de Emanuel à tona. Maya e Ágata cresceriam cercadas por um amor complexo, mas absoluto. E Eduarda, a bailarina tímida, finalmente descobriu que, às vezes, para encontrar o equilíbrio, é preciso aceitar que a vida não segue uma coreografia perfeita.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic