
Amor
Fandom: Stranger Things
Criado: 04/09/2026
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O Segredo das Ondas de Ébano
A luz alaranjada do fim de tarde em Hawkins banhava a garagem dos Wheeler, criando sombras longas que dançavam sobre o tabuleiro de Dungeons & Dragons. O ar estava pesado com o cheiro de pipoca amanteigada e o som metálico dos dados rolando sobre a mesa de madeira.
Tatsuyo estava sentada em um caixote de leite no canto, ajustando a gola da jaqueta jeans três vezes maior que o seu tamanho. A peça, herdada de seu irmão mais velho, cheirava levemente a maresia e cera de prancha, um conforto familiar em meio à agitação barulhenta do grupo. Suas mãos, com a pele parda contrastando com o tecido desbotado, mexiam nervosamente na ponta da longa trança lateral que caía sobre seu ombro esquerdo.
— Tatsuyo, sua vez! — exclamou Dustin, batendo na mesa. — O Demogorgon não vai esperar você terminar de ajeitar essa jaqueta de skatista.
Tatsuyo deu um pulinho, sentindo o rosto esquentar. Ela se inclinou para frente, a trança balançando como um pêndulo negro e brilhante.
— Desculpe — murmurou ela, a voz suave quase sumindo sob o som da risada de Lucas. — Eu... eu vou atacar com o feitiço de proteção.
— Proteção? De novo? — Kuro Hatake, sentado ao lado dela, inclinou-se para trás, cruzando os braços musculosos atrás da cabeça branca repicada. O movimento fez sua camiseta apertada subir levemente, revelando a linha do abdômen definido. — Você é muito cautelosa, Tatsu. Às vezes a gente precisa de um pouco mais de... ação.
Kuro deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que fazia Mike revirar os olhos e Will desviar o olhar, desconfortável. Kuro tinha 1,80m de pura confiança e uma mente que, segundo Max, precisava urgentemente de um banho de água fria.
— Deixa ela, Kuro — defendeu Eleven, sentada no chão ao lado de Max. — Ela está jogando bem.
— Eu só acho que ela se esconde demais — rebateu Kuro, seus olhos castanhos escuros brilhando com uma malícia brincalhona. Ele esticou a mão e, por um segundo, Tatsuyo achou que ele ia tocar seu rosto, mas ele apenas puxou levemente a ponta de sua trança. — Até o cabelo ela mantém preso em segurança. Qual é o segredo, Nakamura? Você guarda armas aí dentro? Ou é uma antena para falar com o seu irmão?
Tatsuyo sentiu um frio na barriga e puxou a trança de volta para perto do peito, segurando-a como se fosse um tesouro.
— Não é nada disso — respondeu ela, olhando para os próprios pés calçados em tênis de skate gastos. — É só... mais prático. Para andar de skate, para não atrapalhar.
— Prático? — Max interveio, ajeitando o cabelo ruivo. — Tatsu, a gente te conhece há um ano. Você é uma de nós. Mas eu juro que nunca vi seu cabelo solto. Nem quando fomos à piscina no verão passado. Você usou aquela touca bizarra.
— Faz parte da cultura dela, não faz? — perguntou Will, sempre o mais sensível do grupo.
Tatsuyo hesitou. Ela não gostava de mentir, mas também não sabia como explicar.
— Um pouco — disse ela, a voz falhando levemente. — Uns cinco por cento, talvez. Meu irmão diz que o cabelo comprido é uma conexão com a terra, com nossos antepassados.
— E os outros noventa e cinco por cento? — Mike perguntou, genuinamente curioso.
Tatsuyo deu de ombros, as calças baggies fazendo um som de atrito enquanto ela se ajeitava no caixote.
— Os outros noventa e cinco por cento são porque eu não quero que ele fique no caminho. E porque dá muito trabalho.
Kuro soltou uma risada abafada, inclinando-se mais perto dela. O cheiro de sabonete e juventude dele era inebriante, o que só servia para deixar Tatsuyo mais nervosa.
— Eu aposto dez pratas que, se você soltar esse cabelo, ele bate na sua cintura — disse Kuro, a voz baixando um tom, ficando mais rouca. — E aposto mais dez que você fica ainda mais gata do que já é.
— Kuro! — Eleven e Max gritaram em coro, enquanto Lucas jogava um saco de salgadinho vazio na cabeça do garoto de cabelo branco.
— O quê? Eu só estou sendo honesto! — Kuro riu, defendendo-se com os braços, os músculos do tríceps saltando. — Ela é toda misteriosa com essas roupas largas e esse cabelo de guerreira samurai. É intrigante.
Tatsuyo sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela amava o grupo, amava a forma como eles a aceitaram, mas a atenção de Kuro era... diferente. Era intensa. Ele a olhava de um jeito que nenhum garoto jamais olhara, e embora ela soubesse da fama dele de ser um pouco "saidinho", não conseguia evitar a atração.
— Vamos voltar ao jogo — pediu Tatsuyo, tentando mudar de assunto. — Onde estávamos?
O jogo continuou por mais duas horas, mas a tensão sobre o "mistério de Tatsuyo" não se dissipou completamente. Quando a noite caiu e a mãe de Mike desceu para avisar que os pais de Lucas e Dustin já estavam chegando, o grupo começou a se dispersar.
— Quer uma carona de skate até em casa, Tatsu? — Kuro perguntou, pegando sua mochila.
— Meu irmão vem me buscar — respondeu ela, levantando-se e limpando a poeira da calça larga. — Ele deve estar chegando com a van.
— Ah, o lendário Kenji — Kuro sorriu. — O cara que te ensinou a ser uma skatista de primeira e a se esconder em roupas de gigante.
— Ele cuida de mim — Tatsuyo disse com firmeza, embora houvesse um brilho de afeto nos olhos. — Desde que nossos pais se foram, ele é tudo o que eu tenho.
Kuro suavizou a expressão. Por um momento, o garoto provocador deu lugar a alguém que realmente se importava.
— Eu sei, pequena. Só estou brincando.
Eles saíram para a calçada fria de Hawkins. A van de Kenji, uma carcaça velha decorada com adesivos de marcas de surf, encostou logo em seguida. Antes de Tatsuyo entrar, Kuro se aproximou, aproveitando que os outros estavam distraídos se despedindo de Mike.
— Sabe — sussurrou ele, perto do ouvido dela —, um dia eu ainda vou ver esse cabelo solto. E espero que seja só para mim.
Tatsuyo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela não disse nada, apenas entrou na van e acenou enquanto o irmão acelerava.
Dentro do veículo, Kenji olhou pelo retrovisor e sorriu.
— Aquele cara de cabelo branco de novo? Ele não desiste, não é?
— Ele é só o Kuro, Kenji — Tatsuyo suspirou, encostando a cabeça no vidro.
— Ele olha para você como se você fosse uma onda perfeita que ele está com medo de perder — Kenji comentou, mudando a marcha. — E você... você olha para ele como se ele fosse o sol.
Tatsuyo não respondeu. Ela levou a mão à trança, sentindo o peso do cabelo. Ela sabia que, para o mundo, ela era a garota tímida de roupas largas e trança impecável. Mas, por baixo daquelas camadas, havia alguém que queria ser vista. Alguém que queria soltar as amarras, tanto literais quanto figuradas.
— Ele perguntou do meu cabelo hoje — confessou ela em voz baixa.
— E o que você disse?
— Que era prático.
Kenji riu, um som rouco que ecoou na cabine da van.
— Prático. Sei. Tatsu, você tem o cabelo mais bonito que eu já vi, igual ao da nossa mãe. Um dia, você vai encontrar alguém que te faça querer soltá-lo no meio de um furacão, só para sentir o vento.
Tatsuyo fechou os olhos, imaginando a cena. Ela não via um furacão, mas via os olhos castanhos de Kuro e o sorriso convencido que, por algum motivo, a fazia se sentir segura.
No dia seguinte, na escola, o grupo se reuniu no pátio antes da primeira aula. O clima estava agitado. Dustin estava tentando convencer todos de que havia visto uma luz estranha na floresta, mas ninguém estava prestando muita atenção.
Kuro chegou por último, vestindo uma regata que deixava seus braços musculosos totalmente à mostra, atraindo olhares de várias garotas do segundo ano. Ele caminhou direto até Tatsuyo, que estava sentada em um banco lendo um livro.
— Ei, Nakamura. Tenho um desafio para você.
Tatsuyo levantou os olhos, o coração já acelerando.
— Que tipo de desafio?
— Uma corrida de skate depois da aula. Se eu ganhar, você vai ao baile da escola comigo.
O grupo ficou em silêncio absoluto. Max soltou um assobio baixo.
— E se eu ganhar? — Tatsuyo perguntou, tentando manter a voz firme, apesar do tremor nas mãos.
Kuro se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos para ficar na altura dos olhos dela.
— Se você ganhar... eu paro de te encher o saco sobre o seu cabelo. E pago lanche para o grupo todo no Benny’s por uma semana.
Tatsuyo olhou para os amigos. Dustin e Lucas estavam fazendo sinais positivos frenéticos, claramente interessados na comida grátis. Eleven sorria encorajadoramente.
— Feito — disse Tatsuyo.
A tarde chegou rápido demais. O local escolhido foi uma ladeira pouco movimentada perto da pedreira. O sol estava começando a descer, pintando o céu de roxo e rosa.
— Pronta para perder, pequena? — Kuro perguntou, posicionando o skate.
— Você fala demais, Hatake — Tatsuyo respondeu, ajustando sua jaqueta larga.
— Três, dois, um... VAI! — gritou Mike.
Os dois dispararam ladeira abaixo. Kuro era forte e usava seu peso para ganhar velocidade, mas Tatsuyo era ágil e conhecia o asfalto como ninguém. Ela deslizava suavemente, seu corpo pequeno se movendo em perfeita harmonia com o skate.
O vento começou a soprar mais forte conforme a velocidade aumentava. Tatsuyo sentiu a adrenalina percorrer suas veias. Ela estava na frente, por pouco, mas estava. Kuro estava logo atrás, rindo, claramente se divertindo com a competição.
De repente, uma rajada de vento lateral atingiu Tatsuyo com força. Ela oscilou por um segundo, e foi nesse momento que aconteceu. O laço que prendia sua trança, já desgastado pelo uso constante e pela tensão da corrida, arrebentou.
Tatsuyo sentiu o peso se deslocar instantaneamente.
Como uma cascata de seda negra, seu cabelo se soltou. Ele não apenas caiu; ele explodiu ao vento, ondas pretas e brilhantes que chegavam até sua cintura, chicoteando o ar atrás dela. O contraste da pele parda com o ébano dos fios era hipnotizante.
Kuro, que estava prestes a ultrapassá-la, perdeu o fôlego. Ele ficou tão chocado com a visão que quase esqueceu de equilibrar o skate. Tatsuyo parecia uma criatura mística, uma guerreira das lendas que seu irmão contava, envolta em um manto de escuridão viva.
Ela cruzou a linha de chegada improvisada — um risco de giz no chão — vários metros à frente dele.
Tatsuyo freou o skate bruscamente, fazendo uma manobra de 180 graus que levantou poeira. Ela estava ofegante, o rosto corado pelo esforço, e o cabelo... o cabelo estava por toda parte. Fios negros cobriam seus ombros, emolduravam seu rosto e voavam desordenadamente com a brisa da noite.
O grupo, que estava esperando no final da ladeira, ficou mudo.
— Meu Deus... — sussurrou Max, quebrando o silêncio. — Tatsu, você é... você é linda.
Tatsuyo levou as mãos à cabeça, sentindo o vazio onde a trança deveria estar. Ela entrou em pânico por um segundo, tentando juntar os fios com as mãos trêmulas.
— Eu ganhei — disse ela, a voz baixa, tentando se esconder atrás das mechas.
Kuro caminhou lentamente até ela, deixando seu skate de lado. Ele não estava sorrindo agora. Sua expressão era de puro assombro. Ele parou a poucos centímetros dela, e Tatsuyo pôde ver o brilho intenso em seus olhos castanhos.
— Você ganhou — admitiu ele, a voz rouca. — Mas eu acho que o prêmio é meu por ter visto isso.
Ele estendeu a mão e, desta vez, Tatsuyo não recuou. Kuro tocou uma mecha do cabelo dela, sentindo a textura macia e ondulada.
— Eu disse que você era gata — sussurrou ele, de modo que só ela pudesse ouvir —, mas eu errei. Você é magnífica, Tatsuyo.
Tatsuyo sentiu o rosto arder, mas, pela primeira vez, ela não tentou se esconder dentro da jaqueta do irmão. Ela olhou para Kuro, os cabelos pretos ainda dançando ao redor do rosto pardo, e deu um sorriso pequeno, mas genuíno.
— O lanche é por sua conta, Hatake — disse ela.
— Com todo o prazer do mundo — respondeu ele, sem desviar o olhar.
Dustin e Lucas começaram a comemorar a comida grátis, enquanto Eleven e Will se aproximavam para admirar o cabelo de Tatsuyo, fazendo perguntas sobre como ela conseguia manter algo tão longo e bonito escondido.
Naquele momento, enquanto o sol desaparecia no horizonte de Hawkins, Tatsuyo percebeu que não precisava mais se esconder. O segredo estava fora, e o mundo não tinha acabado. Na verdade, com o vento batendo em seu couro cabeludo e o olhar de Kuro fixo nela, parecia que a vida estava apenas começando.
— Tatsu — chamou Mike —, vamos logo, antes que o Benny feche!
Tatsuyo pegou seu skate, mas não tentou prender o cabelo novamente. Ela apenas o jogou para trás, sentindo a liberdade de cada fio solto.
— Vamos — disse ela, caminhando ao lado de Kuro.
Kuro passou o braço pelos ombros dela, um gesto possessivo mas carinhoso, e Tatsuyo não o afastou. Ela ainda era a garota das calças baggies e das jaquetas largas, mas agora, ela era a garota que corria com o vento em seus próprios termos. E Hawkins, com todos os seus mistérios escondidos, parecia um pouco mais brilhante naquela noite.
