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Amor oculto

Fandom: Não tem

Criado: 04/09/2026

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Máscaras de Farda e Beijos Proibidos

O calor de Sorriso, em Mato Grosso, não dava trégua, especialmente dentro do uniforme pesado da Escola Militar Tiradentes. O sol do meio-dia parecia cozinhar o asfalto do pátio, mas Lucas não sentia o calor do tempo, e sim a adrenalina pulsando em suas veias. Ele caminhou pelo corredor com aquele jeito marrento de sempre, os ombros largos para um garoto de treze anos, o cabelo raspado impecavelmente de acordo com o regulamento e o olhar castanho escuro fixo no seu objetivo.

Ele deu um chute de leve na porta do banheiro masculino do bloco D, certificando-se de que estava vazio. Segundos depois, a porta se abriu novamente e Anthony entrou, fechando-a com o trinco.

Anthony era menor, tinha o rosto marcado por espinhas que ele insistia em espremer na frente do espelho e um sorriso de quem estava sempre prestes a contar uma piada suja. Mas ali, entre as paredes de azulejo branco e o cheiro de desinfetante barato, a máscara de "palhaço da turma" caía.

Sem dizer uma palavra, Lucas o prensou contra a porta.

— Demorou, porra — resmungou Lucas, a voz engrossada pela puberdade e pela irritação fingida.

— O sargento tava me encarando, achei que ia levar um pito por causa da meia — Anthony riu baixo, mas sua respiração falhou quando Lucas puxou sua nuca.

O beijo foi urgente, desajeitado e carregado de uma tensão que eles não sabiam explicar, apenas sentir. Lucas apertava os ombros de Anthony com força, descontando a raiva que sentia do mundo, da escola e de si mesmo. Era ali, naqueles minutos roubados do recreio, que Lucas deixava de ser o garoto rebelde que respondia aos professores para ser apenas... ele. Mas a vulnerabilidade o assustava.

Anthony correspondeu com a mesma intensidade, as mãos subindo pela farda de Lucas. Eles eram dois reflexos de uma mesma confusão.

— A gente tem cinco minutos — sussurrou Anthony entre os beijos, sentindo o coração bater contra o peito de Lucas.

— Cala a boca e me beija — ordenou Lucas, a agressividade sendo sua única forma de demonstrar afeto.

Quando o sinal tocou, o som estridente pareceu um balde de água fria. Eles se afastaram instantaneamente. Lucas limpou a boca com as costas da mão, recompondo a expressão de desprezo que usava como armadura. Anthony ajeitou o cinto da farda e bagunçou o próprio cabelo raspado, voltando a ser o garoto barulhento de sempre.

— Vai na frente — disse Lucas, friamente. — Não quero ninguém achando estranho.

— Relaxa, cara. Ninguém desconfia de nada — Anthony deu uma piscadinha, a confiança voltando ao seu rosto cheio de espinhas.

Eles saíram com um intervalo de um minuto. Assim que entraram na sala do 7º ano D, o ambiente mudou. O ar-condicionado da sala mal dava conta do calor humano. Lucas sentou-se na última fileira, jogando a mochila de qualquer jeito na mesa.

— E aí, bando de arrombado! — gritou Anthony ao entrar, chutando a cadeira de um colega. — O que vocês estão olhando?

A aula de Geografia começou, mas ninguém estava prestando atenção. Lucas e Anthony começaram a trocar olhares, mas não olhares de carinho. Eram olhares de cumplicidade na maldade.

— Ô, fessor! — Lucas gritou, interrompendo a explicação sobre o agronegócio no Mato Grosso. — O senhor viu que o fulano ali tá parecendo um viadinho com esse jeito de sentar?

A sala explodiu em risadas. Anthony, fazendo coro, completou:

— É verdade! Daqui a pouco vai querer usar saia no desfile cívico. Coisa de doente, né, Lucas?

— Nojo dessa gente, Anthony — Lucas cuspiu as palavras, sentindo um gosto amargo na boca. — Se eu pego um desses na rua, nem sei o que faço. Tem que ser muito frouxo pra não ser homem de verdade.

Eles continuaram com as piadas homofóbicas durante toda a aula, competindo para ver quem era mais "macho" e mais ofensivo. Era um jogo perigoso, uma cortina de fumaça que eles construíam com tijolos de preconceito para que ninguém jamais olhasse para trás dela. Lucas sentia uma pontada no peito toda vez que Anthony ria de uma piada cruel, mas ele ria mais alto. Era a sobrevivência no Tiradentes.

O tempo passou devagar, entre anotações no caderno e bolinhas de papel jogadas nos outros alunos. Anthony não parava quieto, fazia gracinha com o sargento que passava no corredor, imitava os trejeitos dos professores e mantinha a fama de ser o mais mal-educado da turma.

Quando o sinal final tocou, anunciando o fim das aulas, a correria foi geral. Os alunos começaram a arrumar as mochilas, ansiosos para sair daquele regime de disciplina e calor.

Lucas estava encostado na porta, esperando Anthony terminar de guardar o material. O pátio estava cheio de alunos, pais e alguns oficiais. A tensão do dia, a adrenalina do banheiro e o peso das mentiras pareciam ter atingido um ponto de ebulição na cabeça de Lucas. Ele olhou para Anthony, que vinha em sua direção rindo de alguma coisa que um colega disse.

Algo dentro de Lucas estalou. Talvez fosse o desejo de provar que ele mandava nas regras, ou talvez fosse apenas a rebeldia pura e sem controle que o definia.

Quando Anthony passou por ele, Lucas o segurou pelo braço com força.

— Ei, Anthony — disse Lucas em voz alta, atraindo a atenção de alguns alunos que passavam por perto.

— Que foi, doido? — Anthony parou, confuso, mantendo o sorriso de deboche no rosto.

Lucas não hesitou. Ele não se importou com a farda, com o sargento no final do corredor ou com os olhares curiosos. Ele puxou Anthony para perto e, em um movimento rápido e possessivo, desferiu um beijo estalado e demorado no pescoço do amigo, logo abaixo da orelha.

O silêncio caiu sobre o pequeno grupo que estava ao redor como uma granada que não explode, mas deixa todos surdos.

Lucas se afastou, olhando fixamente nos olhos de Anthony, que estava paralisado, o rosto ficando vermelho por baixo das espinhas.

— Até amanhã, Anthony — disse Lucas, com um sorriso de canto, a voz carregada de uma arrogância que desafiava qualquer um a dizer algo.

Ele deu as costas e saiu caminhando pelo pátio, a mochila pendurada em um ombro só, deixando para trás um rastro de choque e confusão. Ele sabia que, no dia seguinte, as piadas teriam que ser ainda mais pesadas, a homofobia ainda mais agressiva para cobrir o que ele acabara de fazer. Mas, naquele momento, enquanto sentia o vento quente de Sorriso no rosto, Lucas se sentia o dono daquela escola, o dono do segredo e, acima de tudo, o dono de Anthony.

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