
Amor
Fandom: Cia e mundo real
Criado: 05/09/2026
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Sob a Máscara de Neon e Vidro
O ar dentro do Cassino L’Émeraude era uma mistura asfixiante de fumaça de charuto caro, perfume barato e o cheiro metálico de desespero mascarado pelo luxo. As luzes de neon refletiam-se nas colunas de mármore dos três andares do estabelecimento, criando uma ilusão de grandeza que escondia a podridão dos negócios da gangue "Presa de Ferro".
Kuro Hatake ajeitou a gola da camisa social, sentindo o peso da arma escondida sob o coldre axilar. Aos 24 anos, com seus 1,80m de músculos bem distribuídos e o cabelo branco repicado que sempre chamava atenção, ele costumava usar o humor como escudo. Mas naquela noite, o brilho divertido em seus olhos castanhos estava apagado, substituído por uma seriedade cortante.
Ao seu lado, Charles, um loiro de 25 anos com postura de soldado, e Zoe, cujos cabelos castanhos caíam em ondas até o meio das costas, mantinham a fachada de clientes VIPs.
— Três andares de puro lixo humano — sussurrou Zoe, fingindo observar as mesas de roleta. — O contato disse que o carregamento de metanfetamina vai ser discutido no escritório do subsolo em duas horas.
— Primeiro, precisamos de um lugar seguro para monitorar a rede interna — Charles respondeu, a voz baixa e firme. — A reserva está feita. Quarto 402.
Kuro não ouvia totalmente o plano tático. Seus olhos estavam fixos em uma figura que ele vinha observando há semanas. Tatsuyo. Ele a vira ser arrastada pelos corredores várias vezes; enquanto as outras garotas exibiam uma frieza endurecida ou um sorriso plástico, Tatsuyo parecia uma alma em frangalhos.
— Vamos logo — disse Kuro, o tom de voz mais grave do que o normal. — A garota já deve estar lá.
Eles subiram as escadas, atravessando o tapete aveludado que abafava o som dos passos. O esquema era simples: três clientes pagando por uma única garota era incomum, mas o dinheiro falava mais alto naquele lugar, e a gerência simplesmente assumia que eram fetiches caros. Ninguém desconfiava de agentes da CIA sob disfarce.
Quando Charles girou a maçaneta e a porta do quarto 402 se abriu, o cenário que encontraram fez o estômago de Kuro revirar.
Tatsuyo estava sentada no centro da cama king-size. Ela parecia minúscula. A pele parda contrastava com a lingerie branca e preta, uma fantasia de empregada estilizada que era curta e reveladora demais, feita para objetificar. Seus longos cabelos pretos e ondulados caíam até a cintura, mas estavam emaranhados.
O que mais chocou os agentes, porém, foram as marcas. Hematomas arroxeados nos braços, cortes finos nos ombros e a marca de dedos em volta dos pulsos finos.
Ela não olhou para eles quando entraram. Seus olhos pretos estavam fixos em um ponto vazio na parede, e seus lábios se moviam em um sussurro inaudível. O corpo de 1,63m tremia violentamente, um pânico silencioso que parecia irradiar dela como ondas de choque.
— Ela está em choque — Zoe murmurou, fechando a porta e trancando-a silenciosamente.
Kuro deu um passo à frente, mas parou quando Tatsuyo soltou um arquejo sufocado, encolhendo-se como se esperasse um golpe.
— Ei, calma... — Kuro começou, baixando o tom de voz, tentando usar seu tom mais amigável. — Nós não vamos te machucar.
Tatsuyo finalmente focou a visão neles, mas não havia alívio. Havia terror puro.
— Eles estão falando... eles disseram que vocês trazem a escuridão — a voz dela era trêmula, quase um chiado. — As sombras nas paredes estão rindo. Por favor... eu fiz o que a minha mãe mandou... eu fiquei aqui...
Charles franziu a testa, aproximando-se com cautela.
— Tatsuyo, escute. Nós não somos quem você pensa. Meu nome é Charles, esta é a Zoe e aquele é o Kuro. Nós somos agentes federais. Da CIA.
Ele puxou o distintivo oculto e o mostrou rapidamente, junto com os documentos de identificação. Zoe fez o mesmo.
— Estamos aqui para derrubar esse lugar — Zoe explicou, tentando manter a voz suave. — Vimos o que sua mãe faz. Sabemos que ela te vende para sustentar os vícios dela. Isso acaba hoje.
Tatsuyo balançou a cabeça freneticamente, as mãos agarrando os lençóis com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Não, não, não... é um truque. As vozes disseram que o castigo vem depois da esperança. Vocês são da gangue. Estão testando se eu vou falar. Eu não sei de nada! Eu juro!
Kuro sentiu um aperto no peito. Ele via o suor frio na testa dela, a forma como ela olhava para os cantos do quarto como se houvesse monstros ali. Ele já tinha lido o dossiê preliminar. Esquizofrenia. Estando naquele ambiente hostil, sem medicação e sob abuso constante, ela devia estar vivendo um inferno mental.
Ele percebeu como ela tentava se cobrir com as mãos, visivelmente desconfortável com a exposição da lingerie vulgar. Sem hesitar, Kuro desfez o zíper de sua jaqueta tática preta, pesada e quente, e a tirou.
— Ei, olha para mim — Kuro pediu, aproximando-se lentamente até sentar na beira da cama, mantendo uma distância respeitosa.
Tatsuyo recuou, mas ele apenas estendeu a jaqueta.
— Coloca isso. Está frio aqui dentro, não está?
Ela olhou para a jaqueta, depois para o rosto de Kuro. A pele branca dele e os cabelos brancos pareciam menos ameaçadores sob a luz suave do abajur. Com dedos trêmulos, ela pegou a peça de roupa. A jaqueta era enorme para ela, cobrindo-a até as coxas e escondendo quase toda a lingerie. Ela se fechou dentro do tecido, aspirando o cheiro de sabão e algo que lembrava floresta, longe do cheiro de cigarro do cassino.
— Melhor? — Kuro perguntou com um meio sorriso encorajador.
— Por que... por que o homem loiro tem luzes saindo dos ombros? — ela perguntou, a voz subitamente infantil, os olhos fixos em Charles.
Charles e Zoe trocaram um olhar preocupado.
— Não há luzes, Tatsuyo — Kuro disse suavemente, atraindo a atenção dela de volta. — É a sua mente tentando te proteger, criando coisas. Mas aqui, agora, no mundo real, somos só nós quatro. E nós somos os mocinhos. Eu sei que é difícil acreditar, especialmente morando neste lugar.
— Minha mãe disse que eu sou um fardo — ela sussurrou, as lágrimas finalmente começando a descer. — Que o único valor que eu tenho é o que os homens pagam por hora. Se vocês são da polícia... por que demoraram tanto?
Zoe se ajoelhou no chão, ficando abaixo da linha de visão de Tatsuyo.
— Porque estávamos montando o caso para garantir que, quando tirarmos você daqui, ninguém nunca mais possa te tocar. Nem a gangue, nem sua mãe.
Tatsuyo começou a balançar o corpo para frente e para trás, um mecanismo de defesa óbvio.
— Eles vão me matar. Se eu sair com vocês, eles vão me encontrar. As sombras dizem que não há saída.
Kuro estendeu a mão, mas não a tocou. Ele esperou que ela visse o gesto.
— Tatsuyo, olhe para mim. Eu sou o Kuro, lembra? Você me viu no bar algumas vezes. Eu sempre peço aquela bebida azul horrível só para ter uma desculpa para observar o movimento.
Ela hesitou, então assentiu levemente.
— Você... você nunca olhou para mim como os outros. Você parecia triste.
Kuro soltou uma risada curta, tentando quebrar a tensão.
— Eu estava triste porque o drink era realmente ruim. Mas também porque eu odiava ver você aqui. Escute, eu te dou a minha palavra. Eu sou musculoso, sou treinado e, embora o Charles seja meio chato com regras, ele é o melhor atirador que eu conheço. A Zoe? Ela consegue derrubar um homem do dobro do tamanho dela em cinco segundos. Você está no lugar mais seguro do mundo agora, dentro deste quarto.
— Vocês prometem? — ela perguntou, a voz falhando. — Prometem que as vozes vão parar?
— Não podemos prometer que as vozes vão parar imediatamente — Charles disse com honestidade brutal, mas gentil. — Mas prometemos que vamos te levar a um médico, que você vai ter remédios e um lugar onde ninguém vai te machucar. Você nunca mais vai precisar vestir essa roupa ou ver sua mãe, se não quiser.
Tatsuyo olhou para a porta, depois para Kuro. O pânico ainda estava lá, uma névoa densa em seus olhos pretos, mas havia uma faísca minúscula de algo novo. Esperança.
— Eu... eu tenho medo de sair.
— Você não vai sair sozinha — Kuro afirmou, levantando-se e oferecendo a mão, desta vez com a palma para cima. — Nós vamos sair juntos. Vamos fingir que estamos indo para outro lugar, e assim que cruzarmos a porta dos fundos, você estará livre. Você confia em mim?
Tatsuyo olhou para a mão grande e calejada de Kuro. Ela parecia tão sólida, tão real em comparação com as alucinações que a atormentavam. Ela levou a mão pequena e trêmula até a dele, sentindo o calor da pele do agente.
— Eu quero ir para casa — ela soluçou. — Mas não a minha casa. Uma casa de verdade. Onde não existam sombras.
— Então é para lá que vamos — Kuro prometeu, fechando os dedos suavemente sobre os dela. — Eu prometo, Tatsuyo. Ninguém toca em você. Eu juro pela minha vida.
Zoe e Charles começaram a preparar o equipamento de comunicação para coordenar a extração. O clima no quarto havia mudado; o desespero ainda pairava, mas agora havia um propósito. Kuro permaneceu ao lado de Tatsuyo, sua presença alta e protetora servindo como uma âncora para a jovem que passara tanto tempo à deriva em um mar de loucura e dor.
— Kuro? — ela chamou baixinho, apertando a jaqueta dele contra o peito.
— Sim?
— A jaqueta... ela é quente. É a primeira vez que não sinto frio em anos.
Kuro sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto.
— Pode ficar com ela. Combina com você mais do que comigo.
Pela primeira vez naquela noite, Tatsuyo não olhou para as sombras. Ela olhou para Kuro, e por um breve momento, o mundo real pareceu um pouco menos assustador. A missão da CIA era derrubar uma gangue, mas para Kuro Hatake, a verdadeira missão tinha acabado de se tornar pessoal: garantir que Tatsuyo Nakamura nunca mais precisasse ter medo da própria mente ou da crueldade do mundo.
