
Let me .... You
Fandom: Alien stage
Criado: 07/09/2026
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Sangue Novo e Açúcar Mascarado
O sol da manhã batia contra as janelas de vidro temperado da Escola Secundária Anakt, criando reflexos que incomodavam a visão de qualquer um que tivesse passado a noite em claro. Mizi, no entanto, não parecia se importar. Ela estava encostada nos armários do corredor do terceiro ano, com uma perna dobrada e a saia preta — consideravelmente mais curta do que as normas da escola sugeriam — balançando levemente.
— Eu juro por Deus, se o professor de literatura vier com aquele papo de "análise profunda do eu" hoje, eu vou ter um colapso nervoso bem no meio da aula — Mizi declarou, ajeitando a gravata frouxa que pendia sobre sua blusa social branca. O último botão da camisa estava aberto, revelando a total falta de paciência para o rigor acadêmico.
Marty, que estava ocupado girando um de seus vários anéis de prata no dedo médio, soltou uma risada anasalada. Seu cabelo verde-escuro estava mais bagunçado que o normal, o que lhe dava um ar de quem tinha acabado de sair de um show de punk rock.
— Relaxa, Mizi. Você só diz isso porque não quer admitir que não leu nem o resumo da orelha do livro — provocou Marty, dando um empurrão de leve no ombro da amiga. — Mas concordo, aquela aula é um porre.
Vianna, que até então estava checando algumas notificações no celular, levantou o olhar. Seu longo cabelo preto moldava o rosto pálido e sereno.
— Vocês reclamam demais — disse ela, embora desse um sorriso cúmplice. — Pelo menos a Mizi tem a desculpa de ser a "estrela" da escola. Ninguém vai te dar suspensão por não ler poesia, Mizi. Eles têm medo de estragar o visual do pôster do festival.
— Ah, vai se foder, Vianna — Mizi riu, jogando o cabelo rosa e azul para trás. — Eu só sou honesta com o meu desinteresse. E, honestamente? Eu preferia estar em qualquer lugar que não tivesse cheiro de cera de assoalho e hormônios reprimidos.
Do outro lado do corredor, a alguns metros de distância, o clima era diferente. Till estava encostado na parede oposta, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça preta. Ele não usava o blazer, e sua gravata parecia ter sido colocada com o puro intuito de irritar a coordenação, de tão torta que estava. Seus olhos verdes seguiam, quase que involuntariamente, o movimento do grupo de Mizi.
Ele a viu rir. Viu o jeito que ela gesticulava, confiante, brilhando sob a luz fluorescente do corredor. Para Till, Mizi era como uma supernova: bonita demais para olhar diretamente, perigosa demais para se aproximar.
— Você está encarando de novo, Till — a voz de Hyuna o trouxe de volta à realidade.
Hyuna estava impecável, como sempre, com o blazer bem ajustado, embora tivesse deixado o último botão da blusa aberto para manter seu estilo descolado. Ela deu um tapinha nas costas de Till, quase o fazendo tropeçar.
— Eu não estou encarando — mentiu Till, sentindo as orelhas esquentarem. — Só estava... pensando no setlist do ensaio de hoje.
— Sei, o setlist chamado "Mizi" — Luka comentou, aproximando-se dos dois.
Luka era a imagem da perfeição estudantil. O uniforme completo, o blazer abotoado, o cabelo loiro penteado milimetricamente. Ele segurava seus livros com uma elegância que fazia Till se sentir um bicho do mato.
— Por favor, Till, não seja tão óbvio — continuou Luka, com seu tom calmo e formal. — A probabilidade de você conseguir manter um diálogo coerente com ela hoje é de aproximadamente zero por cento, dado o seu estado de nervosismo.
— Vai se ferrar, Luka! — Till resmungou, ajeitando o cabelo cinza bagunçado. — E você não tem nada melhor pra fazer não? Tipo, ser o namorado perfeito da Hyuna ou algo assim?
Hyuna riu e passou o braço pelo pescoço de Luka, que apenas sorriu de volta com uma paciência angelical.
— Ele já é o namorado perfeito, Till. Agora vamos, o sinal vai bater e eu ouvi dizer que tem carne nova no pedaço hoje.
— Carne nova? — Till franziu o cenho.
— Alunos transferidos — explicou Luka. — Dois irmãos, se não me engano. Devem estar na nossa sala.
O sinal tocou, um som estridente que ecoou pelas paredes de concreto. O fluxo de alunos começou a convergir para as salas de aula. Mizi, Marty e Vianna seguiram na frente, rindo de alguma piada interna. Till seguiu logo atrás com Hyuna e Luka, mantendo uma distância segura, como se houvesse uma barreira invisível entre o grupo dos populares e o grupo dos rebeldes.
Dentro da sala 3-A, o burburinho era alto. Mizi sentou-se em sua mesa habitual, jogando a mochila no chão de qualquer jeito. Ela não percebeu, mas Till sentou-se três fileiras atrás, tentando focar em qualquer coisa que não fosse a nuca dela.
A professora de Literatura entrou, pedindo silêncio. Atrás dela, duas figuras caminharam com passos silenciosos e uma postura que destoava do caos adolescente da sala.
— Bom dia, turma — disse a professora. — Antes de começarmos, gostaria de apresentar os novos colegas de vocês. Eles acabaram de se mudar e espero que todos os recebam bem.
Mizi levantou o olhar, apenas por curiosidade.
O primeiro era um rapaz alto, de cabelos pretos e pele excessivamente pálida. Ele tinha um sorriso no rosto — um sorriso que, para Mizi, parecia estranhamente irritante, como se ele soubesse de uma piada que ninguém mais entendia. O uniforme dele estava perfeitamente alinhado.
Ao lado dele, uma garota baixa, também de cabelos pretos e franja reta. Seus olhos tinham um tom de roxo profundo que parecia absorver a luz da sala. Ela parecia melancólica, quase entediada, mantendo as mãos cruzadas à frente do corpo. O blazer estava fechado até o último botão.
— Eu sou o Ivan — disse o rapaz, o sorriso aumentando ligeiramente. — E esta é minha irmã, Sua. É um prazer conhecer todos vocês.
O silêncio na sala durou um segundo a mais do que o normal. Havia algo neles... uma aura de refinamento ou talvez apenas uma frieza que não combinava com o calor do verão que começava lá fora.
— Podem se sentar nas mesas vagas ao fundo — orientou a professora.
Ivan caminhou pelo corredor central. Ao passar pela mesa de Mizi, seus olhos pretos se encontraram com os dourados dela por uma fração de segundo. Ele não desviou o olhar; em vez disso, o sorriso dele pareceu ganhar um contorno mais provocador antes de ele continuar andando.
— Estranhos — sussurrou Mizi para Marty, inclinando-se para o lado.
— O cara parece que saiu de um comercial de perfume caro e a garota parece que vai chorar ou bater em alguém — comentou Marty em voz baixa. — Mas ó... bonitos, hein?
— Menos, Marty. Bem menos — Mizi revirou os olhos, embora tivesse que admitir que a presença deles era magnética.
Lá atrás, Ivan sentou-se e imediatamente tirou um pequeno drops de morango do bolso, colocando-o na boca com uma agilidade impressionante. Sua, ao seu lado, suspirou de forma audível, abrindo o caderno sem olhar para ninguém.
— Você não consegue ficar cinco minutos sem açúcar? — Sua murmurou, a voz baixa e carregada de um cansaço existencial.
— O gosto do ferro é muito monótono, irmãzinha — Ivan respondeu no mesmo tom, quase imperceptível para ouvidos humanos. — Preciso de algo que me lembre que estamos "vivos".
Sua lançou um olhar cortante para ele.
— Comporte-se. Não podemos chamar atenção.
Ivan deu de ombros, observando a sala. Ele notou o garoto de cabelo cinza, Till, que parecia estar tendo um colapso interno toda vez que a garota de cabelo rosa se mexia. Notou a garota de cabelo marrom, Hyuna, que sussurrava algo para o loiro ao seu lado. O mundo humano era tão... barulhento. Tão cheio de cheiros e batimentos cardíacos acelerados.
Para Ivan e Sua, o som dos corações batendo na sala era como um metrônomo constante. O ritmo de Mizi era forte e confiante. O de Till era errático e rápido. O de Luka era calmo, quase metódico.
Era um banquete de sons, mas eles precisavam fingir que eram apenas dois adolescentes normais preocupados com o vestibular.
A aula prosseguiu. Mizi passou metade do tempo desenhando no verso do caderno, enquanto Marty tentava lhe mostrar memes por baixo da mesa. Vianna, ocasionalmente, chutava a canela de Marty para que ele parasse de rir alto.
— Mizi, foco — Vianna sussurrou. — A professora está olhando.
— Ela não está olhando para mim, está olhando para os esquisitos lá atrás — Mizi respondeu, fazendo um sinal rápido com a cabeça.
De fato, a professora parecia fascinada com a postura de Sua, que anotava cada palavra da aula com uma caligrafia impecável.
Quando o sinal para o intervalo finalmente tocou, a sala explodiu em movimento.
— Graças a Deus! — Mizi se espreguiçou, o que fez sua blusa subir um pouco, revelando a linha da cintura. — Eu estou morrendo de fome. Marty, se você não me pagar um lanche, eu vou contar para todo mundo que você chora ouvindo Taylor Swift.
— Isso foi um segredo confidencial, sua traíra! — Marty exclamou, fingindo indignação enquanto pegava sua carteira.
Eles saíram da sala em meio a risadas. Till, que estava guardando seu material com uma lentidão deliberada, esperou que Mizi saísse para poder respirar direito.
— Ela nem te viu, cara — Hyuna disse, passando o braço pelos ombros de Till. — Mas não desanima. Quem sabe no quarto ano?
— A gente está no terceiro ano, Hyuna. Não tem quarto ano — Luka corrigiu, ajustando os óculos. — E, Till, se me permite a observação, sua estratégia de "ser invisível" está funcionando perfeitamente bem. Talvez bem demais.
— Vão se ferrar os dois — Till resmungou, embora não houvesse raiva real em sua voz. — Eu só não quero ser um idiota. Ela é popular, eu sou... bom, eu sou eu.
— Você é um músico talentoso com um gosto duvidoso para penteados — Hyuna brincou. — Vamos comer.
Enquanto os grupos se dispersavam para o pátio e para o refeitório, Ivan e Sua permaneceram por último. Ivan terminou seu doce e guardou o papel no bolso.
— Aquela garota, a de cabelo rosa — começou Ivan, levantando-se. — Ela tem um cheiro interessante. Não é só o perfume. É... vibrante.
Sua fechou o caderno com um estalo seco.
— Não comece, Ivan. Estamos aqui para passar despercebidos. Não para escolher "sabores".
— Eu sei, eu sei — Ivan sorriu, aquele sorriso que mostrava dentes brancos demais, alinhados demais. — Mas ninguém disse que eu não podia observar. A escola é um lugar fascinante, não acha? Tantos dramas, tantos segredos.
— O único segredo que importa é o nosso — Sua disse, caminhando em direção à porta. — E se você colocar tudo a perder por causa de um capricho, eu mesma te enterro sob o sol.
Ivan soltou uma risada leve, seguindo a irmã.
— Você sempre tão dramática, Sua. Eu só quero ver como esses humanos funcionam. Especialmente aqueles três ali.
Ele apontou discretamente para o corredor, onde Mizi, Marty e Vianna caminhavam abraçados, alheios ao fato de que, pela primeira vez em muito tempo, algo realmente perigoso — e sedento — caminhava entre eles.
No pátio, o sol brilhava forte. Mizi sentou-se em um banco de cimento, abrindo uma lata de refrigerante. O gás escapou com um chiado, e ela tomou um gole longo, sentindo a ardência refrescante na garganta.
— Ei, olha lá — Vianna apontou com o queixo.
Os dois irmãos novos estavam atravessando o pátio. Eles não foram para a fila do refeitório. Em vez disso, sentaram-se em uma mesa isolada sob a sombra de uma árvore frondosa. Ivan tirou outro doce do bolso — desta vez um pirulito — e Sua abriu um livro de capa dura.
— Eles não comem? — perguntou Marty, franzindo a testa.
— Devem ser daqueles tipos saudáveis ou esquisitos — Mizi deu de ombros. — O cara não para de comer bala. Deve ter as cáries mais bonitas da escola.
Ela riu da própria piada, mas seus olhos ficaram presos em Ivan por um momento a mais do que o necessário. Havia algo nele que a irritava, mas também algo que a deixava curiosa. Era como se ele estivesse interpretando um papel, e Mizi, que sempre foi muito boa em ler as pessoas, não conseguia entender qual era o script.
Ao longe, Till observava a cena de sua própria mesa. Ele viu Mizi olhando para o novato. Um sentimento familiar de insegurança cutucou seu peito.
— Ótimo — Till murmurou para si mesmo. — Além de ser a Mizi, agora tem um modelo de revista de vampiro — ele ironizou a própria comparação sem saber o quão perto estava da verdade — pra competir pela atenção da sala.
— O que você disse, Till? — Luka perguntou, terminando de comer seu sanduíche de forma impecável.
— Nada. Só que o dia vai ser longo.
— Longo e interessante — Hyuna completou, observando os novatos com um olhar analítico. — Tem algo naqueles dois que não fecha. E eu adoro um mistério.
O sol continuava a subir, aquecendo o asfalto da escola. Para a maioria, era apenas mais uma segunda-feira de aulas chatas e dramas adolescentes. Para Ivan e Sua, era o início de um jogo perigoso de sobrevivência e disfarce. E para Mizi e Till, era apenas o começo de um ano que mudaria tudo o que eles pensavam saber sobre o mundo e sobre as pessoas ao seu redor.
Afinal, na Anakt, os segredos eram a moeda de troca mais valiosa, e alguns deles tinham dentes bem afiados.
