
Acordo secreto
Fandom: Off Campus
Criado: 07/09/2026
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Perfume, Provocação e o Gelo Fino
A cozinha da república dos jogadores de hóquei cheirava a bacon, café forte e, estranhamente, a algo que lembrava baunilha e sândalo. Esse último aroma não vinha de Tucker, que estava concentrado em virar panquecas com a precisão de um cirurgião, mas sim de Ellie Nascenza Graham. Sentada na bancada de mármore com as pernas balançando, ela segurava uma caneca de cerâmica e observava o caos matinal com o olhar afiado de quem já nasceu entendendo as regras daquele jogo.
— Tucker, se você colocar mais uma pitada de canela nisso, eu juro que te peço em casamento e a gente foge para a Itália — Ellie disse, abrindo um sorriso largo que fazia suas bochechas rosadas ganharem um destaque quase angelical.
Tucker riu, sem desviar os olhos da frigideira.
— Cuidado, Nascenza. Garrett pode ter um infarto se ouvir você propondo fuga com o melhor amigo dele. E, honestamente, eu não sei se estou pronto para ser um Graham.
— Ninguém está pronto para ser um Graham, Tuck — a voz de Garrett ecoou enquanto ele entrava na cozinha, ainda com o cabelo escuro bagunçado pelo sono e vestindo apenas uma calça de moletom. Ele passou pela irmã e deixou um beijo rápido no topo da cabeça dela, antes de tentar roubar um pedaço de bacon. — É uma carga genética pesada demais para meros mortais.
Ellie deu um tapa na mão do irmão gêmeo antes que ele alcançasse o prato.
— Tira a mão, capitão. O esforço físico de ontem foi seu, mas o apetite matinal hoje é meu. E você está cheirando a vestiário, Garrett. Por favor, tome um banho antes de contaminar meu café.
— Nossa, que agressividade logo cedo — Garrett resmungou, mas sorriu. Ele adorava a língua afiada da irmã, contanto que ela não estivesse mirando nele. — Onde está o Logan?
— Provavelmente tentando convencer alguma caloura de que ele é o verdadeiro herói do time e não você — Ellie respondeu, dando um gole em seu café.
O clima estava leve, como quase sempre ficava quando Ellie estava por perto. Ela era a alma daquele grupo, a pessoa que trazia o equilíbrio entre o testosterona excessiva do hóquei e a realidade do mundo acadêmico. Mas a leveza evaporou no segundo em que passos pesados e confiantes desceram a escada.
Dean Di Laurentis apareceu na cozinha parecendo ter saído de um catálogo de moda esportiva. O cabelo loiro estava perfeitamente desalinhado, e o sorriso convencido que ele carregava no rosto era o suficiente para fazer Ellie querer atirar sua caneca nele.
— Bom dia, raios de sol — Dean anunciou, sua voz carregada daquele sarcasmo que Ellie tanto detestava. — E bom dia para a Nascenza, que aparentemente decidiu que a nossa cozinha é a nova sede do curso de Marketing.
Ellie nem se virou para olhá-lo, mantendo os olhos fixos em Tucker.
— Engraçado, eu ouvi um barulho irritante agora pouco. Tucker, você esqueceu de ligar o exaustor? Parece que o lixo está começando a cheirar mal.
Dean soltou uma risada curta e se aproximou, apoiando o cotovelo na bancada, perigosamente perto de Ellie. O cheiro dele — algo cítrico e caro — colidiu com o perfume dela.
— Você é tão previsível, princesa — Dean disse, baixando o tom de voz apenas o suficiente para que Garrett, que estava distraído com o celular, não prestasse atenção total. — Sempre com a resposta pronta. Já pensou em usar essa criatividade para algo útil, em vez de tentar me insultar?
Ellie finalmente virou o rosto para ele. Seus olhos grandes e expressivos brilharam com desafio.
— Eu uso minha criatividade para coisas úteis o tempo todo, Dean. Por exemplo, agora mesmo estou criando dez maneiras diferentes de fazer você calar a boca sem precisar usar violência. Mas confesso que a violência está ganhando.
— Você não teria coragem — Dean provocou, inclinando-se mais um pouco. — Você me ama secretamente. Eu sou o ponto alto do seu dia.
— Você é o ponto baixo da minha existência — ela rebateu, com um sorriso doce que não chegava aos olhos. — Você é como uma música ruim que toca no rádio: irritante, repetitiva e eu não vejo a hora de mudar de estação.
— Ei! — Garrett interveio, finalmente percebendo a faísca entre os dois. Ele se colocou entre a irmã e o melhor amigo com uma expressão de alerta. — Dean, deixa ela em paz. Ellie, não provoca o animal. Eu não quero ter que limpar sangue do chão antes do treino.
— Ele que começou, G — Ellie disse, pulando da bancada. — E eu não sou "ela", sou sua irmã. E eu posso me defender sozinha.
— Eu sei que pode — Garrett suspirou —, é disso que eu tenho medo.
A tensão foi interrompida pela porta da frente se abrindo com força. Logan entrou, seguido por um vulto alto e de ombros largos que fez o ar na sala mudar instantaneamente. Hunter, o novo integrante da casa e o pesadelo pessoal de Dean, entrou no recinto com a confiança de quem já era dono do lugar.
— O cheiro de comida está bom, mas o clima aqui dentro está pesado — Hunter comentou, seus olhos escuros varrendo o ambiente até pararem em Ellie. Um sorriso lento e muito diferente do de Dean surgiu em seus lábios. — Olá, Ellie. Você está radiante hoje.
Dean endureceu a postura imediatamente. O maxilar dele travou, uma reação quase instintiva à presença de Hunter.
— Ela está de saída, Hunter — Dean disse, a voz subindo uma oitava na escala da agressividade.
Ellie arqueou uma sobrancelha, olhando de Dean para Hunter. A rivalidade entre os dois era lendária, e ela achava aquilo uma perda de tempo monumental, mas não podia negar que Hunter sabia como ser gentil quando queria.
— Na verdade, eu não estou de saída — Ellie disse, dando um passo em direção a Hunter. — Eu estava esperando as panquecas do Tucker. E obrigada pelo elogio, Hunter. É bom ver que pelo menos alguém nesta casa tem modos básicos.
Hunter soltou uma risada baixa, ignorando o olhar mortal que Dean lançava em sua direção.
— Modos são o mínimo para alguém como você. O que acha de irmos ao jogo de sexta juntos? Eu posso conseguir um lugar melhor para você, longe da área dos reservas onde o Di Laurentis costuma ficar.
Dean deu um passo à frente, mas a mão de Garrett no seu peito o impediu.
— Ela senta na área da família, Hunter — Garrett disse, com a voz firme de capitão. — Comigo.
— Eu sei onde ela senta, Graham. Só estava oferecendo uma companhia mais... interessante — Hunter piscou para Ellie.
Ellie sentiu o peso dos olhares sobre ela. Dean parecia prestes a explodir, uma mistura de fúria e algo que ela não conseguia identificar — ou não queria. Hunter era charmoso, seguro de si e, o mais importante, irritava Dean profundamente. E Ellie, sendo a pessoa impulsiva e competitiva que era, não conseguiu evitar a oportunidade.
— Eu adoraria conversar mais sobre isso, Hunter — Ellie disse, lançando um olhar de soslaio para Dean. — Quem sabe você não me explica por que o Dean fica tão nervoso quando você entra no gelo? Deve ser uma história fascinante.
— Oh, é uma história longa — Hunter respondeu, aproximando-se. — Envolve talento, dedicação e o fato de que eu sou simplesmente melhor.
— Em seus sonhos, Hunter! — Dean exclamou, perdendo a compostura. — Você deu sorte em dois jogos e agora acha que é o rei do campus?
— Sorte? — Hunter riu. — Pergunta para a Ellie o que ela acha. Ela entende de hóquei mais do que você imagina, Dean. Ela sabe reconhecer um jogador de elite quando vê um.
Ellie sentiu uma pontada de prazer ao ver o rosto de Dean ficar vermelho. Ela adorava o caos. Adorava ser o centro daquela disputa, mesmo que soubesse que era perigoso.
— Chega! — Tucker gritou da cozinha, batendo com a espátula na bancada. — As panquecas estão prontas. Se alguém falar mais uma palavra sobre hóquei ou rivalidade, eu jogo tudo no lixo e vocês vão treinar de estômago vazio.
O silêncio caiu sobre a sala, mas a eletricidade continuava lá. Ellie pegou seu prato, sentando-se à mesa. Hunter sentou-se ao lado dela, e Dean, em um movimento puramente possessivo e mal-disfarçado, puxou a cadeira do outro lado da garota.
Logan, que observava tudo de longe com um sorriso de entretenimento puro, aproximou-se de Garrett e sussurrou:
— Isso vai acabar em desastre, G. E eu vou ter um lugar na primeira fila para assistir.
— Cala a boca, Logan — Garrett resmungou, massageando as têmporas. — Minha irmã é um ímã de problemas.
Durante o café, a conversa fluiu de forma estranha. Hunter fazia perguntas sobre o curso de Marketing de Ellie, demonstrando um interesse genuíno que a deixava lisonjeada. Ele era inteligente, sarcástico na medida certa e não parecia se abalar com as tentativas de Dean de interromper a conversa.
Dean, por outro lado, estava impossível. Ele fazia comentários ácidos sobre tudo o que Hunter dizia, tentava desviar a atenção de Ellie com piadas internas que só eles (e o restante do time) entendiam, e não parava de tamborilar os dedos na mesa.
— Então, Nascenza — Dean disse, interrompendo Hunter pela décima vez —, você vai à festa na casa da fraternidade hoje à noite? Ou vai ficar em casa estudando o comportamento dos primatas, que é basicamente o que você faz quando sai com o Hunter?
Ellie largou o garfo e encarou Dean. Os olhos dele estavam fixos nos dela, e por um breve segundo, a provocação sumiu, dando lugar a uma intensidade que a fez perder o fôlego. Era aquele olhar que Dean guardava para os momentos em que não havia plateia, um olhar que dizia que ele a via de uma forma que ninguém mais via.
Mas durou apenas um segundo.
— Eu vou — Ellie respondeu, recuperando a voz. — E vou com quem eu quiser, Dean. Não recebo ordens de jogadores de hóquei que acham que o mundo gira em torno do próprio taco.
— Eu só estou preocupado com a sua reputação, princesa — ele deu de ombros, voltando ao tom convencido. — Sair com o inimigo pode pegar mal para a marca Graham.
— Minha marca está ótima, obrigada — ela rebateu. — E Hunter não é o inimigo. Ele é apenas... uma mudança de ritmo refrescante.
Hunter sorriu vitorioso. Dean cerrou os dentes.
Mais tarde, quando a casa finalmente se esvaziou e os meninos foram para o treino, Ellie ficou para trás terminando um trabalho no laptop. O silêncio era raro naquela república, e ela estava aproveitando até que a porta dos fundos se abriu.
Era Dean. Ele havia esquecido os protetores de patins.
Ele parou no meio da sala ao vê-la. Ellie não levantou os olhos da tela, mas sentiu a presença dele. O perfume de Dean pareceu preencher o espaço subitamente.
— Esqueceu alguma coisa, Di Laurentis? — ela perguntou, a voz calma. — Além do seu senso de ridículo?
Dean não respondeu de imediato. Ele caminhou até o sofá e pegou o equipamento, mas em vez de sair, ele parou atrás da cadeira onde ela estava sentada.
— Por que você faz isso, Ellie? — ele perguntou. A voz dele estava diferente. Sem sarcasmo. Sem deboche.
— Faço o quê? — ela finalmente se virou, encontrando-o perigosamente perto.
— Dá corda para ele. Você sabe que o Hunter só está fazendo isso para me irritar. Ele não se importa com você.
Ellie sentiu uma pontada de irritação, mas também de mágoa. Ela odiava admitir que as palavras dele a atingiam.
— E você se importa? — ela disparou, levantando-se para ficar na altura dele, o que ainda exigia que ela olhasse para cima. — Você passa o dia inteiro me chamando de irritante, dizendo que eu falo demais e tentando me diminuir na frente dos seus amigos. Por que você se importa com quem eu saio?
Dean deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ellie não recuou. Ela era uma Graham; ela nunca recuava.
— Porque você é irritante, sim — ele sussurrou, os olhos fixos nos lábios dela por um milésimo de segundo antes de voltarem para os olhos expressivos dela. — Você é teimosa, fala pelos cotovelos e tem essa mania de achar que sempre tem a última palavra. Mas você é a nossa Ellie. Minha... — ele hesitou — ... amiga. E o Hunter não é o cara para você.
Ellie soltou uma risada sem humor, embora seu coração estivesse batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado.
— "Nossa" Ellie? Eu não sou propriedade de ninguém, Dean. E muito menos sua. Se eu quiser sair com o Hunter, ou com o time inteiro de basquete, o problema é meu.
— Você não faria isso — ele desafiou.
— Quer apostar? — ela provocou, cruzando os braços.
Dean soltou um suspiro pesado, uma mistura de frustração e desejo contido que ele se recusava a nomear.
— Você é impossível, Nascenza.
— E você é um idiota, Di Laurentis.
Eles ficaram ali, em um impasse silencioso, a centímetros de distância. A tensão entre eles era quase palpável, uma corda esticada ao máximo, prestes a arrebentar. Ellie sentia o calor emanando do corpo dele, e por um momento insano, ela se perguntou o que aconteceria se ela parasse de falar e simplesmente o puxasse pela gola da camisa.
Mas então, o som do carro de Garrett estacionando na garagem quebrou o feitiço.
Dean recuou rapidamente, recuperando sua máscara de arrogância.
— Vejo você na festa, princesa — ele disse, caminhando em direção à porta. — Tente não usar nada muito curto. Eu não quero ter que passar a noite inteira batendo em caras que olharem demais para a irmã do meu capitão.
— Eu vou usar o vestido mais curto que eu encontrar, Dean! — ela gritou para as costas dele. — Só para ver você tentar!
Dean saiu sem olhar para trás, mas ele estava sorrindo. E Ellie, sozinha na sala, sentou-se novamente, sentindo suas mãos tremerem levemente. Ela odiava Dean Di Laurentis. Ela tinha certeza disso.
Ou, pelo menos, era o que ela tentava dizer a si mesma enquanto o cheiro dele ainda pairava no ar, misturando-se ao dela e criando algo novo, perigoso e completamente irresistível.
O jogo estava apenas começando, e Ellie Graham não tinha a menor intenção de perder. Nem para Hunter, nem para Dean, e certamente não para o seu próprio coração teimoso.
