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Romances Impossíveis

Fandom: adolescentes

Criado: 07/09/2026

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Entre Linhas de Giz e o Vermelho das Tranças

O Colégio Romano Santa Marta sempre exalou um ar de tradição e rigidez, com seus corredores de ladrilhos antigos e o cheiro onipresente de cera de assoalho. Para Anna Helena, no entanto, o terceiro ano estava sendo marcado por algo muito mais denso do que o vestibular: a presença magnética e, por vezes, sufocante de Adriana de Souza Quadros.

Adriana era uma instituição dentro da instituição. Professora de História há dezoito anos, ela carregava a experiência nas linhas bem marcadas do rosto e no sorriso gengival que, embora lembrasse uma dentadura, possuía um charme peculiar. Com seus 53 anos, o cabelo moreno iluminado caindo em ondas naturais e o corpo tonificado pelas trilhas de fim de semana, ela emanava uma energia que poucos conseguiam ignorar. Especialmente Anna.

Tudo começou a mudar sutilmente nos meses que antecederam o Baile de Gala de 13 de novembro.

Era uma tarde quente de outubro quando Anna percebeu a primeira alteração. Estava na biblioteca com Izadora quando seu celular vibrou.

— O que foi, Anna? — perguntou Izadora, notando a expressão confusa da amiga.

— A Adriana... — Anna franziu o cenho, mostrando a tela. — Ela mudou meu nome no WhatsApp. Antes estava "Anna Helena Santa Marta", agora está só "Anna". Com um coração do lado.

Izadora revirou os olhos, uma ponta de preocupação surgindo.

— Ela está estranha, Anna. Eu te disse. Ela te olha de um jeito que não olha para mais ninguém.

A obsessão silenciosa de Adriana se manifestava em detalhes. Nas aulas de Itinerários Formativos, a professora tinha o hábito de sentar na mesa, abrindo as pernas de forma relaxada enquanto conversava com a turma, mas seus olhos — sempre contornados por um delineado preto ligeiramente torto no olho esquerdo — nunca deixavam a boca de Anna. Ela ficava ali, de braços cruzados, ignorando o resto do mundo.

— Anna, você entendeu a parte sobre o Brasil Colônia? — Adriana perguntou em uma terça-feira, a voz aveludada.

— Sim, professora.

Adriana sorriu, aquele sorriso largo que mostrava a gengiva. Quando o sinal tocou e os alunos começaram a sair, Adriana caminhou em direção ao fundo da sala. Anna estava de costas, guardando o material.

— Cuidado, querida! — Adriana exclamou, simulando um tropeço desajeitado. Para se equilibrar, ela espalmou a mão firmemente na coxa de Anna, apertando o músculo por cima do tecido da calça escolar.

Anna congelou. O toque durou mais do que o necessário para um simples equilíbrio.

— Desculpe, o chão está escorregadio — murmurou Adriana, a voz próxima ao ouvido de Anna, antes de deslizar a mão pela cintura da menina em um esbarrão que pareceu tudo, menos acidental.

As semanas passaram e o comportamento de Adriana escalou. No aniversário de Anna, a professora postou um story no Instagram que deixou o corpo docente e os alunos em polvorosa. Era uma colagem de fotos de Anna, com uma trilha sonora melancólica e um texto longo sobre "almas que se encontram no tempo".

— Cara, ela postou um texto maior do que o que fez para a própria afilhada mês passado — comentou Izadora, sentada no pátio com Anna. — E olha isso, ela postou para a sobrinha e para a melhor amiga de anos algo super simples. Para você, parece uma declaração.

Anna mexia nas suas box braids vermelhas, o estômago dando nós.

— Eu amo ela, Iza. Ela é a melhor professora que já tive. Mas... às vezes me sinto um urso de pelúcia.

Naquele mesmo dia, Adriana encontrou Anna no corredor. Sem dizer nada, ela se aproximou e apertou as bochechas de Anna com as duas mãos, balançando-as.

— Você é tão fofa, parece o Ursinho Pooh com essas tranças — disse Adriana, rindo. O tom era de brincadeira, mas os olhos eram intensos, devoradores.

— Obrigada, Profe — respondeu Anna, tentando se esquivar sutilmente.

— Eu te amo, sabe disso, não sabe? — Adriana soltou, a queima-roupa.

Anna travou. Era a segunda vez em uma semana. A primeira tinha sido por mensagem, um "Te amo" solto após Anna tirar uma dúvida sobre a matéria. Agora, era pessoal.

— Eu também gosto muito da senhora — Anna respondeu, a voz falhando.

— Não foi isso que eu disse, mas tudo bem — Adriana piscou, afastando-se, mas não antes de apertar a cintura de Anna com força, os dedos se enterrando na lateral do corpo da jovem.

O ápice do favoritismo aconteceu na prova bimestral. Anna tinha comentado, em um momento de cansaço, que estava com dificuldade em um tópico específico. Quando recebeu a prova, percebeu que as questões sobre aquele tema eram ridiculamente fáceis, quase um presente.

— Isso não é justo — reclamou um colega de classe em voz alta.

Adriana, da sua mesa, nem levantou os olhos do livro.

— A prova é minha, eu decido o nível de dificuldade. Se não estão satisfeitos, estudem mais.

Ela olhou para Anna e deu uma piscadinha. Anna sentiu o rosto queimar de vergonha.

O Baile de Gala finalmente chegou. O ginásio do Santa Marta estava transformado com luzes de LED, cortinas de veludo e uma orquestra juvenil. Anna estava deslumbrante em um vestido preto que contrastava com suas tranças vermelhas. Izadora estava ao seu lado o tempo todo, como um escudo humano.

Adriana chegou acompanhada do marido, Alexandre Craveiro. Ele parecia alheio a tudo, cumprimentando os colegas, enquanto Adriana, em um vestido verde musgo que realçava seu corpo de trilheira, não tirava os olhos de Anna.

Durante a festa, Adriana não se conteve. Ela se aproximou do grupo de Anna.

— Anna, podemos conversar um minuto? — A professora ignorou completamente a presença de Izadora, lançando à melhor amiga da menina um olhar carregado de ciúmes e desdém.

Anna seguiu Adriana até um canto mais reservado, perto da mesa de ponche.

— Você está linda — disse Adriana, a voz baixa, competindo com a música. — Sabe, eu andei pensando. Janeiro está logo aí. As aulas acabam, você se forma...

— É, vai ser estranho não vir mais para cá — Anna tentou manter o tom casual.

— Quero marcar um café. Só nós duas. Em janeiro, quando eu não for mais oficialmente sua professora. Eu quis muito te propor isso antes, mas tive que me segurar.

Anna sentiu um calafrio.

— Profe, o Alexandre está logo ali...

— O Alexandre não entende o que a gente tem, Anna. Esse magnetismo. Você percebeu, não percebeu? Como eu te olho? Como eu vou até o fundo da sala só para ver sua nuca quando você passa a aula de costas para mim?

Anna deu um passo atrás, o desconforto atingindo o limite.

— A senhora é minha professora, Adriana. Eu te admiro muito, mas...

— Shhh — Adriana interrompeu, aproximando-se e apertando a cintura de Anna pela terceira vez naquela noite, puxando-a para mais perto do que o aceitável. — Não estrague o momento.

O restante da noite foi um borrão. Adriana passou o tempo todo reagindo aos stories que Anna postava em tempo real, enviando emojis de fogo e corações. Ela vigiava Anna de longe, e toda vez que a menina ia pegar uma bebida ou falar com alguém, Adriana se certificava de cruzar o caminho dela, esbarrando "sem querer" ou lançando olhares possessivos para qualquer um que se aproximasse demais.

A formatura veio semanas depois. O clima era de despedida e alívio. Anna recebeu seu diploma sob o olhar atento e úmido de Adriana, que estava na mesa de honra.

Após a cerimônia, no pátio onde as famílias se reuniam, Adriana encontrou Anna uma última vez.

— Então é isso? — perguntou a professora, as linhas do rosto parecendo mais profundas sob a luz do sol. — O café em janeiro está de pé?

Anna olhou para Izadora, que esperava no carro, e depois para Adriana. Ela viu a mulher que a ensinou a amar história, mas também viu a mulher que ultrapassou fronteiras invisíveis e a fez se sentir caçada em sua própria escola.

— Eu acho que não, Adriana — Anna disse, usando o nome dela pela primeira vez. — Eu preciso de espaço. O que aconteceu nesses últimos meses... não foi normal.

O sorriso gengival de Adriana desapareceu. Por um segundo, a máscara de professora dedicada caiu, revelando uma solidão amarga e uma obsessão não resolvida.

— Você vai sentir falta disso, Anna Helena. Ninguém nunca vai te olhar como eu olhei.

— É exatamente disso que eu espero ter sorte, Profe.

Anna virou as costas e caminhou em direção ao futuro, suas tranças vermelhas balançando a cada passo.

Adriana de Souza Quadros permaneceu no Colégio Romano Santa Marta. Ela continuou sendo a professora respeitada, a mulher que fazia trilhas e postava fotos com o marido. Mas, nos corredores, os alunos mais atentos notavam que ela agora tinha uma nova "favorita" no segundo ano. O ciclo de toques, olhares e favoritismo recomeçava, enquanto Adriana buscava em outros rostos jovens o preenchimento para o vazio que sua ética nunca permitiu que ela admitisse ter.

Anna, por outro lado, nunca mais respondeu às mensagens que chegavam em seu celular todo dia 13 de cada mês. Ela bloqueou o número, mudou de cidade para a faculdade e guardou Adriana apenas como uma lição de história que ela preferia não ter que revisar.

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