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A juventude

Fandom: Demon Slayer

Criado: 07/09/2026

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O Efeito Colateral das Nuvens e das Más Influências

A tarde em meados da era Taisho arrastava-se com a lentidão de uma lesma subindo um talo de bambu. O céu, contudo, estava particularmente digno de nota. Muichiro Tokito, o Pilar da Névoa, encontrava-se em seu estado natural de suspensão existencial. Deitado sobre o deque de madeira da Mansão Borboleta, seus olhos claros seguiam uma formação gasosa que, a seu ver, assemelhava-se vagamente a um rabanete gigante, ou talvez a um bule de chá sem alça.

— Aquela nuvem... — murmurou Muichiro para o vazio, com a voz desprovida de qualquer urgência. — Como era mesmo o nome daquele pássaro que não voa? Ah, sim. Pinguim. Aquela nuvem parece um pinguim com dor de dente.

Entretanto, a paz contemplativa do jovem de quinze anos foi interrompida pelo som de passos pesados e pelo tilintar metálico de bainhas de espadas. Dois vultos cruzaram o seu campo de visão periférica. Um deles exalava uma aura de fúria contida e cicatrizes, enquanto o outro carregava uma serpente albina em volta do pescoço e um olhar de profundo desdém pelo resto da humanidade.

Sanemi Shinazugawa e Obanai Iguro.

Para a maioria dos caçadores de demônios, aquela dupla representava o ápice da intimidação. Para Muichiro, eles eram simplesmente as coisas mais interessantes que haviam passado por ele nos últimos dez minutos. Sem dizer uma palavra, o rapaz levantou-se com a fluidez de um fantasma e começou a segui-los.

Sanemi parou bruscamente, as veias da testa saltando.

— Por que diabos você está nos seguindo de novo, moleque? — rosnou o Pilar do Vento, virando-se com a mão no cabo da nichirin.

Muichiro piscou, a expressão tão vazia quanto um pergaminho em branco.

— O formato das suas cicatrizes é intrigante — respondeu o jovem, com uma sinceridade desconcertante. — Elas formam um mapa? Se eu seguir a do seu rosto, chego em algum lugar com comida?

Obanai soltou um suspiro abafado por trás de suas bandagens. Kaburamaru, a serpente, sibilou em concordância.

— Deixe-o, Shinazugawa. Ele provavelmente esqueceu onde mora novamente — disse Obanai, embora não fizesse esforço para enxotar o garoto.

Assim começou a rotina peculiar. Onde quer que Sanemi fosse para treinar seus golpes brutais e vociferar impropérios contra a incompetência alheia, ou onde quer que Obanai estivesse vigiando Mitsuri à distância com um olhar melancólico, Muichiro estava lá. Ele era como uma sombra silenciosa, observando tudo com olhos arregalados e inocentes, absorvendo cada palavra, cada gesto e, infelizmente, cada vocábulo de baixo calão que saía da boca de Sanemi.

Gyomei Himejima, o Pilar da Rocha, observava a cena de longe, as mãos unidas em oração e lágrimas escorrendo por suas faces calejadas.

— Pobre alma... — lamentou Gyomei, sua voz ressoando como um trovão distante. — A inocência de Tokito-kun está sendo corrompida pela brutalidade verbal de Shinazugawa. Namu Amida Butsu. Sanemi, peço-lhe que contenha seu linguajar. O jovem é como uma esponja, e você está mergulhando-o em um balde de lama.

Sanemi apenas bufou, chutando uma pedra com força.

— O pirralho tem que aprender como o mundo funciona, Himejima! Se ele quer andar comigo, tem que aguentar o tranco. E você, Iguro, pare de olhar para aquela árvore e diga algo!

Obanai apenas ajustou a máscara.

— Eu não me importo. Desde que ele não fique no caminho da Kanroji, ele pode flutuar por aqui o quanto quiser.

O que nenhum deles percebeu foi que Muichiro, em sua aparente distração, estava prestando uma atenção meticulosa. Ele anotava mentalmente as expressões que Sanemi usava quando errava um golpe ou quando o chá estava quente demais. Para o jovem da Névoa, aquelas palavras eram apenas sons novos, ferramentas linguísticas que pareciam dar muito ênfase às frases.

A culminação desse aprendizado ocorreu durante o Grande Jantar dos Hashiras, um evento raro convocado pelo próprio Mestre, Kagaya Ubuyashiki. A mesa estava farta. Tanjiro, Zenitsu e Inosuke também haviam sido convidados, sentados timidamente a um canto, maravilhados com a presença de tantas figuras poderosas.

O ambiente era de uma formalidade solene, temperada pela gentileza do Mestre.

— É uma alegria ver todos vocês reunidos em paz — disse Kagaya, com seu tom de voz que acalmava até as feras mais selvagens. — Momentos como este fortalecem nossos laços.

Tudo corria bem. Mitsuri Kanroji elogiava a textura do mochi de sakura; Rengoku exclamava "Gostoso!" a cada mordida, fazendo os pratos tremerem; e Uzui comentava sobre como a iluminação da sala poderia ser mais extravagante.

Foi então que o desastre aconteceu.

Muichiro, tentando alcançar uma travessa de rabanetes em conserva que estava um pouco longe demais, acabou esbarrando em sua própria tigela de sopa de missô. O líquido quente derramou-se sobre suas vestes largas e sobre o tatame impecável.

O silêncio caiu sobre a sala. Todos olharam para o jovem, esperando que ele simplesmente limpasse a sujeira com sua calma habitual.

Muichiro, no entanto, olhou para a mancha, franziu as sobrancelhas levemente e, com a dicção mais clara e formal que já usara na vida, soltou o que havia aprendido com seu novo ídolo.

— Mas que caralho de porra de merda é essa? — exclamou o garoto, com a voz serena, como se estivesse comentando sobre o clima.

O tempo parou.

Tanjiro quase engasgou com um pedaço de arroz, sendo socorrido por um Zenitsu que parecia ter visto um fantasma. Inosuke, por outro lado, soltou uma gargalhada gutural.

Gyomei Himejima parou de comer instantaneamente. Suas mãos tremeram e uma aura de desaprovação absoluta emanou de seu corpo.

— Tokito-kun... — a voz de Gyomei era um sussurro perigoso. — O que... o que foi que você disse?

Muichiro inclinou a cabeça para o lado, a expressão de pura inocência.

— Eu usei as ênfases do Shinazugawa-san. Elas não foram aplicadas corretamente ao contexto do missô derramado?

Sanemi, que até então estava tentando se esconder atrás de sua tigela, sentiu o peso dos olhares de todos.

— Shinazugawa... — Shinobu Kocho falou, seu sorriso habitual agora carregado de uma veia pulsante na têmpora. — Você transformou a criança em um delinquente verbal. Que fascinante. Eu deveria estudar o que acontece com o cérebro de alguém que passa tanto tempo perto de você.

— Eu não fiz nada! — gritou Sanemi, o rosto vermelho de vergonha e raiva. — O moleque que é um papagaio!

— Isso não é nada extravagante, Shinazugawa — comentou Uzui, embora estivesse se esforçando visivelmente para não gargalhar. — Ensinar palavrões a um prodígio? Isso é um novo nível de baixo calão.

Rengoku, por sua vez, soltou uma risada estrondosa que ecoou pelas vigas do teto.

— HAHAHA! A dicção foi perfeita! Tokito tem um talento natural para a oratória agressiva! Mas, de fato, é inadequado para a presença do Mestre!

Mitsuri estava com as mãos nas bochechas, o rosto tão rosa quanto seu cabelo.

— Oh, céus! Muichiro-kun, você não pode dizer essas coisas! São palavras feias! Sanemi-san, como você pôde ser um exemplo tão ruim? Eu pensei que você fosse mais... mais... educado no fundo!

Obanai sentiu a necessidade de intervir, embora sua lealdade estivesse dividida.

— Ele é apenas uma criança, Sanemi. Você deveria ter mais filtro. Agora olhe o que você fez. Até a serpente está escandalizada.

O Mestre, Kagaya, manteve o sorriso, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos cegos.

— Muichiro — chamou o Mestre suavemente.

O jovem Pilar da Névoa virou-se para ele, esquecendo instantaneamente o caos que havia causado.

— Sim, Oyakata-sama?

— Palavras carregam energia, meu jovem. Algumas energias são como tempestades que destroem jardins. Tente usar palavras que construam, em vez de demolir. E quanto a você, Sanemi...

Sanemi encolheu-se, algo que raramente fazia diante de qualquer pessoa.

— Sim, Mestre...

— Talvez seja prudente que você e Iguro passem algum tempo ajudando no orfanato local sob a supervisão de Himejima. Para... recalibrar o vocabulário.

Gyomei levantou-se, sua figura gigantesca projetando uma sombra sobre Sanemi e Obanai.

— Será um prazer — disse o Pilar da Rocha, as lágrimas agora sendo de determinação religiosa. — Vamos purificar essas línguas com orações e trabalho árduo.

— O quê?! — Obanai protestou. — Por que eu também? Eu mal falei nada!

— Você permitiu que a má influência prosseguisse — sentenciou Shinobu, cruzando os braços com um olhar triunfante. — Você é cúmplice, Iguro-san.

Enquanto a discussão acalorada continuava, com Sanemi tentando explicar que Muichiro já era "estranho" antes de conhecê-lo e Uzui e Rengoku fazendo piadas sobre a "Arte da Respiração do Palavrão", Muichiro voltou sua atenção para a janela.

Lá fora, uma nuvem em formato de coelho parecia estar perseguindo uma nuvem em formato de cenoura.

— Oyakata-sama — disse Muichiro, interrompendo o barulho.

— Sim, Muichiro?

— O que significa "caralho"? É um tipo de pássaro?

O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som de Gyomei batendo as contas de seu rosário com uma força renovada e pelo suspiro derrotado de Sanemi Shinazugawa, que sabia que, a partir daquele dia, sua reputação de "Pilar Durão" havia sido permanentemente substituída pela de "Babá de Linguajar Sujo".

— É uma palavra que não deve ser repetida, Tokito-kun — explicou Tanjiro, aproximando-se com um pano para ajudar a limpar o missô, sorrindo gentilmente. — Vamos, eu te ensino algumas palavras novas sobre flores.

Muichiro olhou para Tanjiro, depois para Sanemi, que estava sendo arrastado por Gyomei para um "sermão de purificação", e finalmente para as nuvens.

— Flores são legais — concluiu Muichiro. — Mas as nuvens não falam palavrão. Acho que prefiro as nuvens. Elas são mais... como era a palavra mesmo? Extravagantes.

Uzui deu um joinha de longe, enquanto o jantar prosseguia sob o olhar vigilante e agora ligeiramente traumatizado dos Hashiras.

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