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K.

Fandom: Demon Slayer

Criado: 07/09/2026

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O Veneno da Extravagância e o Silêncio da Serpente

A lua pairava no ápice do firmamento, uma foice prateada que observava silenciosamente a densa floresta de bambus. O ar estava saturado com o cheiro metálico de sangue e o perfume enjoativo, quase anestésico, de flores exóticas que não deveriam florescer naquela região. Obanai Iguro mantinha-se vigilante, sua respiração concentrada e rítmica sob a máscara de bandagens. Kaburamaru, sua fiel serpente, havia sido enviada minutos antes para reconhecer o terreno do outro lado do riacho, deixando-o momentaneamente desprovido de seu guia sensorial mais aguçado.

Ao seu lado, a presença de Tengen Uzui era, como sempre, impossível de ignorar. O Hashira do Som, mesmo em combate, exalava uma aura de grandiosidade que beirava a arrogância. Contudo, algo estava errado. O Oni que enfrentavam, uma criatura de formas fluidas e olhos que brilhavam em um tom de rosa doentio, não possuía uma força física avassaladora, mas sim uma técnica de sangue demoníaco insidiosa.

— Cuidado, Uzui! — exclamou Obanai, sua voz saindo abafada pelas faixas.

Foi tarde demais. O Oni, em um último esforço antes de ter sua cabeça ceifada pelas lâminas duplas de Tengen, explodiu em uma névoa densa e rosada. Uzui, no centro da explosão, inalou a substância volátil antes que pudesse recuar. O demônio da devassidão riu uma última vez antes de se desfazer em cinzas, deixando para trás um veneno que não buscava a morte do corpo, mas a corrupção da vontade.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Obanai embainhou sua espada ondulada, aproximando-se do companheiro.

— Você está bem? — perguntou Obanai, sua voz fria e cortante como o gelo. — Foi imprudente.

Tengen não respondeu de imediato. Ele estava ajoelhado, as mãos cravadas na terra úmida. Seus ombros largos tremiam violentamente. Quando ele ergueu o rosto, Obanai recuou um passo, instintivamente buscando o cabo de sua nichirin. Os olhos de Tengen, geralmente cheios de uma confiança brilhante, estavam transformados. As pupilas estavam dilatadas, e um brilho lascivo, quase animal, emanava de suas íris, que agora pulsavam em um rosa neon.

— Iguro... fuja... — a voz de Tengen saiu como um rosnado, uma luta interna audível em cada sílaba. — Saia daqui... agora!

— Do que você está falando? O Oni está morto — retrucou Obanai, embora a inquietação crescesse em seu peito. Sem Kaburamaru, ele se sentia vulnerável àquela aura predatória que emanava do homem à sua frente.

Tengen soltou um grito abafado, uma mistura de dor e desejo reprimido. O veneno da devassidão estava agindo, obliterando seus centros de lógica e transformando cada terminação nervosa em um condutor de necessidade carnal absoluta. O Hashira do Som, conhecido por sua virilidade e amor pelas suas três esposas, via-se agora escravo de um instinto que não reconhecia.

Em um borrão de movimento que Obanai, sem sua serpente, não conseguiu prever totalmente, Tengen avançou. A força do Hashira do Som era naturalmente superior à de Iguro, mas agora, impulsionado pela febre do veneno, ele parecia possuir a força de dez homens.

Obanai tentou usar a técnica da serpente para se esquivar, mas Tengen o agarrou pelo colarinho do uniforme e o arremessou contra o solo coberto de musgo. O impacto tirou o fôlego de Obanai. Antes que pudesse se recuperar, o corpo maciço de Tengen estava sobre ele, prendendo seus pulsos acima da cabeça com uma única mão, que parecia um grilhão de ferro.

— Uzui! O que pensa que está fazendo? Solte-me! — sibilou Obanai, debatendo-se com toda a sua força.

— Eu... eu sinto muito, Iguro... — as lágrimas começaram a escorrer pelos olhos de Tengen, contrastando terrivelmente com o sorriso predatório que seus lábios, contra sua própria vontade, começavam a formar. — Meu corpo... não consigo parar... dói... queima...

— Lute contra isso! Você é um Hashira! — gritou Obanai, o pânico começando a infiltrar-se em sua voz usualmente monótona.

Tengen não conseguia mais ouvir. O som do sangue latejando em seus ouvidos era como um tambor de guerra. Com a mão livre, ele agarrou a frente do uniforme de Obanai. O tecido resistente da corporação de caçadores rasgou-se como papel sob a força bruta de Uzui.

— Não olhe para mim... — pediu Tengen em um sussurro quebrado, enquanto seus dentes cravavam-se no pescoço exposto de Obanai.

A mordida não foi um gesto de carinho, mas uma marca de posse selvagem. Obanai soltou um gemido de dor, sentindo o calor da saliva de Tengen e a pressão que certamente deixaria um hematoma profundo. O Hashira da Serpente sentia-se humilhado, a vulnerabilidade de seu corpo sendo exposta de uma forma que ele nunca permitira a ninguém. Sem Kaburamaru para guiá-lo em um contra-ataque cego, ele era apenas um homem pequeno sob o peso de um gigante enlouquecido.

As mãos de Tengen eram bruscas. Ele não tinha a delicadeza de um amante; ele era um homem possuído por uma fome demoníaca. Ele arrancou as bandagens que escondiam o rosto de Obanai, revelando as cicatrizes que o menor tanto tentava ocultar. Mas Tengen, em seu delírio, não sentiu repulsa. Ele beijou as cicatrizes com uma sofreguidão violenta, suas mãos deixando marcas roxas nas costelas e nos quadris de Obanai conforme removia o restante de suas roupas.

— Pare... por favor... — a voz de Obanai falhou, o orgulho sendo esmagado pela força da natureza que era Uzui.

— Perdoe-me... perdoe-me... — repetia Tengen, um mantra de desculpas que perdia força à medida que o prazer químico do veneno inundava seu cérebro.

A primeira penetração foi desprovida de qualquer preparação. Foi um ato de invasão pura e dolorosa. Obanai arqueou as costas, um grito mudo morrendo em sua garganta enquanto seus olhos se arregalavam em agonia. O corpo de Tengen era como brasa contra a sua pele pálida e fria. O Hashira do Som movia-se com uma urgência maníaca, cada estocada sendo um lembrete da força avassaladora que ele possuía.

O ambiente ao redor deles parecia desaparecer. Não havia mais floresta, não havia mais missão, apenas a dor aguda que lentamente começava a se misturar com uma estranha e indesejada dormência. Obanai fechou os olhos com força, as lágrimas escorrendo pelas têmporas, enquanto sentia o peso de Tengen sobre si, as mãos do homem maior apertando seus ombros com tanta força que ele temia que os ossos fossem ceder.

— Você é... tão bonito, Iguro... — Uzui murmurou, a voz distorcida pela luxúria. — Tão... extravagante...

O contraste entre as palavras gentis e a brutalidade dos atos era dilacerante. Tengen mordia os ombros, o peito e a clavícula de Obanai, deixando um mapa de violência e desejo por toda a sua extensão. Ele estava em transe, um escravo da fisiologia alterada pelo Oni, lutando uma batalha perdida contra seus próprios músculos que se contraíam em busca de alívio.

Horas pareceram passar naquela eternidade de agonia e êxtase forçado. A lua continuou seu curso, indiferente ao sofrimento no solo da floresta. Obanai, exausto e com o corpo trêmulo de dor, eventualmente parou de lutar, permitindo que a tempestade passasse por ele, esperando apenas que o fim chegasse logo.

Quando os primeiros raios de sol começaram a filtrar-se entre as folhas de bambu, a névoa rosada que ainda pairava levemente no ar dissipou-se. O efeito do veneno, alimentado pela escuridão e pela técnica do Oni, murchou sob a luz da aurora.

Tengen Uzui despertou de um pesadelo lúcido. Seus olhos voltaram à cor normal, a pulsação frenética em suas têmporas finalmente acalmando-se. O silêncio da manhã era interrompido apenas pelo som de sua própria respiração pesada e um soluço baixo e contido vindo debaixo dele.

Ao olhar para baixo, o horror o atingiu com a força de um golpe físico.

Obanai Iguro estava deitado sobre o manto de folhas secas, sua pele pálida agora coberta de marcas roxas, mordidas sangrentas e arranhões profundos. Suas roupas estavam em farrapos ao redor deles. O rosto de Obanai, desprovido de suas bandagens, estava virado para o lado, os olhos fechados e a expressão vazia, como se ele tivesse se retirado para um lugar profundo dentro de si onde a dor não pudesse alcançá-lo.

Tengen recuou bruscamente, caindo sentado, a nudez de ambos sendo um testemunho silencioso da atrocidade cometida.

— Iguro... — a voz de Tengen saiu em um fio, carregada de um desespero genuíno. — O que eu... o que eu fiz?

Obanai não respondeu de imediato. Ele tentou se sentar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios e ele fraquejou, seus braços falhando sob seu peso. Tengen instintivamente estendeu a mão para ajudá-lo, mas Obanai recuou com um espasmo de medo que cortou o coração de Uzui mais do que qualquer lâmina de Oni poderia.

— Não me toque — sussurrou Obanai. Sua voz estava rouca, desprovida de sua habitual autoridade.

— Eu sinto muito... Iguro, eu juro por tudo o que é sagrado, eu não queria... o veneno... — as palavras de Tengen tropeçavam umas nas outras. Ele, o homem da extravagância e da confiança, estava reduzido a um monte de culpa e remorso.

Obanai finalmente conseguiu se sentar, cobrindo-se precariamente com os restos de seu haori listrado. Ele olhou para Tengen, e o que Uzui viu naqueles olhos heterocromáticos não foi ódio, mas uma tristeza profunda e uma exaustão que parecia vir da própria alma.

— Eu sei — disse Obanai, sua voz estabilizando-se ligeiramente. — Eu vi você lutando. Eu ouvi você pedindo desculpas enquanto... enquanto fazia.

— Isso não torna as coisas melhores! — exclamou Tengen, socando o chão. — Eu deveria ter sido forte o suficiente para resistir. Eu sou um Hashira! Eu deveria proteger meus companheiros, não... não destruí-los.

Obanai tentou se levantar, mas suas pernas tremeram violentamente e ele teria caído se não tivesse se apoiado em um bambu próximo. O desconforto era evidente em cada movimento seu, a dificuldade de andar sendo um lembrete físico da violência da noite anterior.

Nesse momento, um deslizar suave foi ouvido e Kaburamaru surgiu por entre as folhas, sibilando ansiosamente ao ver o estado de seu mestre. A serpente enrolou-se rapidamente no pescoço de Obanai, oferecendo o único conforto que ele era capaz de aceitar naquele momento.

— Precisamos voltar — disse Obanai, mantendo o olhar fixo no horizonte onde o sol nascia. — Não podemos ficar aqui.

— Deixe-me carregá-lo — pediu Tengen, a voz suplicante. — Por favor, Iguro. Você mal consegue ficar de pé.

Obanai guardou silêncio por um longo tempo. O vento matinal soprava frio, arrepiando a pele marcada. Ele olhou para Tengen, vendo o homem que sempre fora o epítome da força agora quebrado pela culpa.

— Apenas... ajude-me a caminhar — cedeu Obanai, a voz quase inaudível. — Mas se você mencionar isso a alguém, se você olhar para mim com pena... eu o matarei, Uzui.

Tengen aproximou-se com uma cautela que nunca demonstrara antes. Ele ofereceu o braço, permitindo que Obanai se apoiasse nele. O contato fez Obanai enrijecer, mas ele não se afastou. Enquanto caminhavam lentamente para fora da floresta, a distância entre a vila mais próxima parecia infinita.

— Iguro — disse Tengen após um longo período de silêncio, enquanto o sol iluminava plenamente as marcas no pescoço do outro. — Eu nunca vou me perdoar por isso.

Obanai parou por um momento, sentindo a dor latejante em seu corpo e o peso da mão de Tengen em sua cintura, agora agindo como um suporte necessário em vez de um grilhão.

— O Oni nos tirou algo ontem à noite, Uzui — respondeu Obanai, voltando a caminhar com dificuldade. — Mas não deixe que ele tire também a sua sanidade. Foi uma missão. Uma missão que deu errado.

Tengen olhou para o perfil de Obanai, admirando a resiliência silenciosa daquele homem que ele sempre considerara apenas "estranho". Havia uma força em Iguro que não vinha dos músculos, mas de uma vontade inquebrável de permanecer íntegro, mesmo quando o mundo tentava despedaçá-lo.

— Você é um homem incrível, Obanai Iguro — murmurou Tengen, a formalidade de usar o nome completo indicando a gravidade de seu respeito.

— Guarde seus elogios extravagantes para suas esposas — retrucou Obanai, embora não houvesse veneno em suas palavras, apenas um cansaço infinito.

A jornada de volta seria longa e marcada pelo silêncio, um contraste gritante com a natureza de ambos. As marcas físicas desapareceriam com o tempo, curadas pelos cuidados da Mansão Borboleta, mas a memória daquela noite sob a lua de sangue e flores rosadas permaneceria como uma cicatriz invisível, unindo os dois Hashiras em um segredo doloroso que nenhum deles jamais ousaria nomear novamente.

Ao chegarem à borda da floresta, Obanai soltou-se do apoio de Tengen, forçando-se a caminhar sozinho, mesmo que cada passo fosse uma agonia. Ele ajeitou a máscara improvisada com um pedaço de pano rasgado, escondendo novamente seu rosto e sua dor do mundo.

— Uzui — chamou Obanai, sem olhar para trás.

— Sim?

— Não se desculpe de novo. O silêncio é a única coisa que eu aceito de você a partir de agora.

Tengen observou a figura pequena e determinada da Serpente seguir em frente. Ele sabia que o perdão não era algo que Obanai daria facilmente, se é que algum dia o daria. Mas ele também sabia que, a partir daquele dia, sua extravagância seria sempre temperada pela sombra daquela noite, e que ele passaria o resto de sua vida tentando, de formas silenciosas e invisíveis, compensar o homem que ele havia ferido no âmago de seu ser.

O sol estava alto agora, e a floresta de bambus, antes um cenário de pesadelo, era apenas uma floresta comum novamente. Mas para dois homens, o mundo nunca mais seria exatamente o mesmo.

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