
Vila
Fandom: Demon Slayer
Criado: 07/09/2026
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A Fragrância do Jasmim e o Peso da Seda
O sol se punha no horizonte, tingindo o céu com matizes de violeta e ouro, enquanto a carruagem de madeira rangia pelas estradas de terra batida que levavam à Vila das Sombras Perpétuas. O ar ali era denso, carregado com um cheiro adocicado de flores noturnas que parecia esconder algo mais pútrido por baixo. Para qualquer viajante comum, aquele seria apenas um vilarejo próspero e isolado; para dois Hashiras, era um ninho de serpentes.
Sentado no interior apertado da carruagem, Obanai Iguro sentia que cada fibra de seu ser protestava. Ele não estava apenas desconfortável com a missão; ele estava em um estado de humilhação silenciosa que beirava a fúria. Suas pernas estavam envoltas em camadas de seda fina, um quimono de tons esmeralda e negro que acentuava sua figura esguia. O obi, apertado com maestria em torno de sua cintura, revelava curvas que ele próprio nunca soubera possuir, ou que talvez sempre estivera escondendo sob o uniforme largo dos Caçadores de Onis.
Ao seu lado, relaxado como se estivesse em um festival de verão, Uzui Tengen ocupava quase todo o espaço restante. O som das joias em seus braços tilintava suavemente a cada solavanco. Ele trajava roupas civis de alta qualidade, mas sua presença ainda era avassaladora, extravagante por natureza.
— Você precisa relaxar, Iguro — comentou Tengen, sua voz ressoando baixa e aveludada no espaço confinado. — Se continuar com essa expressão de quem engoliu agulhas, vão descobrir o disfarce antes mesmo de descermos.
Obanai, cujos cabelos negros estavam presos em um penteado feminino elaborado, adornado com grampos de prata, lançou-lhe um olhar gélido por cima da máscara de tecido que ainda cobria sua boca.
— Eu odeio isso — sibilou Obanai, a voz abafada, mas cortante. — Por que eu? Himejima é grande, mas você poderia ter escolhido qualquer outro. Por que eu tenho que ser a "esposa"?
Uzui soltou uma risada sonora, os olhos brilhando com uma diversão genuína enquanto percorria o olhar pela figura de Obanai.
— Vamos ser realistas. Você é pequeno, tem traços delicados e esse cabelo... se eu não soubesse quem você é, eu mesmo me enganaria. Além disso, a sua agilidade é perfeita para se infiltrar entre as mulheres da vila. Elas são a chave para descobrir onde o Oni se esconde, e eu estarei ocupado com os homens, garantindo que ninguém suspeite de nada.
Tengen estendeu a mão, mas antes que pudesse tocar o ombro de Obanai, o menor se encolheu, encostando-se na parede da carruagem.
— Não me toque — ordenou Obanai.
— Ah, meu caro "cônjuge", isso vai ser um problema — disse Uzui, inclinando-se para frente, a expressão subitamente séria, embora o sorriso ainda brincasse no canto dos lábios. — Casais recém-casados se tocam. Eles são afetuosos. Especialmente nesta vila, onde os relatos dizem que a intimidade é tratada com uma liberdade quase... escandalosa. Se você recuar toda vez que eu chegar perto, estaremos mortos em dois dias.
Obanai desviou o olhar para a janela, observando as primeiras lanternas da vila se acenderem. Ele sabia que Uzui tinha razão, e isso o irritava ainda mais.
A carruagem parou diante de uma estalagem de aparência refinada. O cocheiro abriu a porta e Uzui saiu primeiro, estendendo a mão com uma galanteria impecável. Obanai hesitou por um segundo eterno antes de colocar sua mão enluvada na palma grande e calejada de Tengen. O contato enviou um choque estranho pelo braço de Obanai, algo que ele atribuiu imediatamente ao nervosismo.
— Venha, minha querida — disse Uzui em voz alta, para que os curiosos ao redor ouvissem. — Finalmente chegamos ao nosso novo lar.
Ao descer, Obanai sentiu o peso dos olhares. A Vila das Sombras Perpétuas era habitada por pessoas que pareciam vibrar com uma energia peculiar. As mulheres usavam cores vibrantes e os homens falavam alto, rindo de piadas que pareciam carregar duplos sentidos.
Assim que entraram na estalagem, foram recebidos por uma mulher de meia-idade, cujos olhos pequenos esquadrinharam o casal com uma curiosidade predatória.
— Sejam bem-vindos! — exclamou ela, batendo as palmas das mãos. — Soube que teríamos novos moradores. Um homem tão... robusto, e uma esposa tão miúda. Que contraste adorável!
Uzui passou o braço pela cintura de Obanai, puxando-o para perto. Obanai sentiu os dedos de Tengen pressionarem a carne macia acima do seu quadril. A pressão era firme, possessiva.
— Sim, minha pequena flor é um pouco tímida com viagens longas — disse Uzui, dando um aperto leve na cintura de Obanai que o fez perder o fôlego por um instante. — Mas garanto que ela é muito mais resiliente do que parece.
— Oh, imagino que sim — a mulher riu, um som rouco e sugestivo. — Mas diga-me, querida, você é tão magrinha... quase não tem busto! Como o seu marido consegue se agarrar a algo à noite?
O rosto de Obanai, escondido pela máscara e pelas sombras do cabelo, ardeu em um vermelho profundo. Ele sentiu o corpo de Uzui vibrar com uma risada contida.
— Eu... eu não sei — respondeu Obanai, tentando afinar a voz o máximo possível, mantendo o tom baixo e submisso que haviam treinado. — Ele nunca se reclamou.
— Reclamar? — Uzui interveio, sua voz descendo um oitava, tornando-se perigosamente sedutora. — Ela é perfeita exatamente como é. Cada curva, por menor que seja, foi feita para as minhas mãos.
O comentário foi tão direto que até a estalajadeira pareceu surpresa por um momento antes de soltar uma gargalhada escandalosa. Obanai queria apenas desembainhar sua espada e acabar com aquela farsa, mas a missão era absoluta. O Oni que devorava jovens naquela região era astuto e qualquer erro custaria vidas inocentes.
Foram conduzidos ao quarto, uma suíte luxuosa com tatames impecáveis e um futon largo o suficiente para dois. Assim que a porta deslizou e se fechou, Obanai se desvencilhou do braço de Uzui como se tivesse sido queimado.
— Nunca mais — sibilou ele, andando de um lado para o outro, o quimono farfalhando. — "Cada curva feita para as suas mãos"? Você perdeu o juízo, Uzui?
Tengen sentou-se no chão, apoiando os cotovelos nos joelhos, observando a figura agitada à sua frente. Sob a luz das velas, a pele de Obanai parecia de porcelana, e o modo como o quimono se ajustava ao seu corpo era, de fato, perturbadoramente atraente.
— Eu estava apenas entrando no personagem, Iguro. E você deveria me agradecer. Aquela mulher ia continuar fazendo perguntas inconvenientes se eu não tivesse cortado o assunto com algo... extravagante.
— Você é um idiota — retrucou Obanai, sentando-se o mais longe possível. — Vamos repassar o plano. Amanhã, você vai à casa de chá dos mercadores. Eu vou ao poço e ao mercado com as mulheres. Kaburamaru vai vigiar os arredores da floresta.
— Certo, certo — disse Uzui, mas seus olhos não saíam da figura de Obanai. — Mas antes de dormir, preciso admitir uma coisa.
Obanai arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— O quê?
— Esse disfarce... — Uzui sorriu, um sorriso que não era apenas para a missão, mas algo mais denso, mais carregado. — Você ficou realmente gostoso assim, Iguro. Se eu não soubesse que você pode me cortar em pedaços com aquela espada ondulada, eu teria dificuldade em manter as mãos longe de você.
Obanai sentiu um calafrio que não era de medo. Era uma sensação desconhecida, um calor que subia por sua espinha.
— Cale a boca e durma, Uzui.
— Como desejar, "minha esposa" — provocou o Hashira do Som, apagando a vela com um sopro, deixando o quarto mergulhado em uma penumbra onde apenas o som da respiração de ambos podia ser ouvido.
O dia seguinte amanheceu com uma névoa baixa, dando à vila uma aura de mistério. Obanai passou horas cercado por mulheres que falavam abertamente sobre seus maridos, seus desejos e as lendas locais sobre o "Senhor da Noite", o suposto Oni. Ele ouvia tudo, fingindo timidez, enquanto sua mente processava cada detalhe, cada nome mencionado.
No final da tarde, ele encontrou Uzui em um corredor isolado da estalagem. Tengen parecia satisfeito, mas havia uma tensão em seus ombros.
— Descobriu algo? — perguntou Obanai, mantendo a distância.
— Os homens aqui são estranhamente devotos a uma figura que vive no templo no topo da colina. Eles dizem que ele abençoa os casamentos com fertilidade e prazer eterno. Mas notei que muitos desses homens parecem... drenados. Pálidos demais sob a pele. E você?
— As mulheres mencionaram que, uma vez por mês, uma "noiva" é escolhida para servir no templo. Ninguém nunca vê essas mulheres novamente, mas todos acreditam que elas alcançaram um estado de divindade. É óbvio o que está acontecendo.
Uzui assentiu, aproximando-se um passo.
— Precisamos ser escolhidos, Iguro. Ou melhor, você precisa ser notado.
Antes que Obanai pudesse protestar, Uzui o puxou para um nicho na parede, escondendo-os atrás de uma cortina de seda grossa. A proximidade era absoluta. Obanai podia sentir o calor do peito de Uzui contra o seu, o cheiro de incenso e metal que emanava dele.
— O que você está fazendo? — sussurrou Obanai, o coração batendo contra as costelas.
— Tem alguém vindo — murmurou Uzui perto de seu ouvido. — Aja como se estivéssemos em um momento íntimo. Agora!
Passos se aproximaram. Uzui inclinou a cabeça, escondendo o rosto de Obanai na curva de seu pescoço. Uma das mãos de Tengen subiu para a nuca de Obanai, os dedos se enroscando nos fios de cabelo negro, enquanto a outra mão pressionava a base de suas costas, forçando seus corpos a se colarem.
Obanai congelou. Ele odiava toques. Ele odiava a sensação de estar vulnerável. Mas, naquele momento, cercado pelo calor de Uzui, ele sentiu algo vacilar. O toque de Tengen não era bruto; era firme, mas havia uma delicadeza estranha ali, uma proteção que ele nunca se permitira sentir.
— Oh, peço desculpas! — disse uma voz feminina do outro lado da cortina, seguida por uma risadinha abafada. — Não queria interromper os recém-casados. Continuem, por favor!
Os passos se afastaram, mas Uzui não soltou imediatamente. Ele permaneceu ali, sentindo a respiração acelerada de Obanai contra sua pele.
— Eles já foram — disse Obanai, a voz trêmula.
Uzui se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Obanai. A heterocromia dos olhos do menor brilhava na semi-escuridão, refletindo uma mistura de pânico e algo que Uzui não conseguia identificar, mas que fazia seu próprio sangue correr mais rápido.
— Você está tremendo — notou Uzui, sua voz agora desprovida de qualquer ironia.
— Eu disse que não gosto de toques — respondeu Obanai, embora não fizesse menção de se afastar.
Uzui deslizou a mão do pescoço para a bochecha de Obanai, o polegar roçando levemente sobre a máscara.
— Eu sei. Mas para esta missão, Iguro... vamos ter que ir muito além de simples abraços. Você está pronto para o que vem a seguir?
Obanai sustentou o olhar, a determinação de um Hashira voltando a endurecer sua postura.
— Eu farei o que for necessário para decapitar aquele Oni.
— Bom — disse Uzui, um sorriso predatório surgindo em seu rosto. — Porque a festa de boas-vindas é hoje à noite. E eles esperam que o casal mais bonito da vila dê um show de devoção.
A noite caiu, e com ela, o início de um jogo perigoso onde as linhas entre o dever e o desejo começariam a se apagar sob o peso da seda e o perfume do jasmim. A Vila das Sombras Perpétuas estava prestes a ver uma extravagância que jamais esqueceria, e Obanai Iguro estava prestes a descobrir que algumas barreiras eram feitas para serem quebradas, mesmo que fosse apenas por uma missão.
