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Fandom: Nenhum

Criado: 08/09/2026

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O Labirinto de Silêncio e Desejo

O ar da fazenda dos Albuquerque tinha um cheiro persistente de terra molhada e café fresco, um contraste gritante com o caos urbano que Emanuel costumava dominar. Dono de um império de estúdios de tatuagem e diversos outros negócios, ele estava acostumado a ter o controle de tudo sob suas mãos grandes e marcadas por tinta. No entanto, ali, sob o teto de madeira rústica dos avós de sua mulher, o controle parecia escorregar por entre seus dedos como areia fina.

Emanuel observava Sara do outro lado da varanda. Ela estava radiante, mesmo com o peso da gestação de quatro meses. Usava um vestido justo de seda vermelha que acentuava cada curva de seu corpo, incluindo a pequena saliência na barriga onde Valentina crescia. Sara era o excesso em forma de mulher: loira, siliconada, a voz alta e o riso provocador que preenchia qualquer ambiente. Ela era sua âncora e seu fogo. Ele a amava com uma intensidade possessiva e racional, uma parceria forjada na honestidade brutal.

— Você está encarando de novo, querido — disse Sara, aproximando-se dele com um gingado que desafiava a gravidade. Ela passou a mão pelo rosto dele, as unhas longas e bem feitas roçando sua barba curta. — Mas não é para mim que seus olhos estão fugindo agora, não é?

Emanuel não desviou o olhar. Ele nunca mentia para ela.

— Ela está na sala de música — respondeu ele, a voz rouca. — Tentando desaparecer entre as sombras, como sempre faz.

Sara soltou uma risada anasalada, encostando-se no peito firme de Emanuel.

— Eduarda é um passarinho assustado. Tão doce, tão... pura. Eu entendo por que você a quer, Manu. Ela é o oposto de tudo o que somos. E eu já te disse: se você a quer, pegue-a. Eu não me importo de dividir o que é meu, desde que eu continue sendo a rainha desse castelo.

Emanuel apertou a cintura de Sara, sentindo a firmeza do corpo dela. A dinâmica entre eles era clara. Sara não via a prima, Eduarda, como uma ameaça. Para a loira, a estudante de História da Arte e bailarina era quase como um animal de estimação precioso, algo delicado que Emanuel queria colecionar. E Sara, em sua autoconfiança inabalável, estava disposta a permitir, contanto que isso mantivesse o marido satisfeito e em casa.

O problema era Eduarda.

Aos 20 anos, Eduarda era a personificação da delicadeza. Enquanto Sara era o sol do meio-dia, Eduarda era o crepúsculo. Seus olhos castanhos eram carregados de uma sensibilidade que Emanuel achava hipnotizante e, ao mesmo tempo, irritante. Ela era tímida, manhosa, e parecia vibrar em uma frequência de medo e fascínio toda vez que ele entrava no mesmo cômodo.

Emanuel deixou Sara na varanda e caminhou em direção ao interior da casa. Ele a encontrou na biblioteca, encolhida em uma poltrona de couro, com um livro pesado sobre renascimento italiano no colo. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e fluido, que parecia grande demais para seu corpo esguio.

Ao ouvir os passos dele, Eduarda deu um sobressalto. O livro quase caiu de suas mãos.

— E-Emanuel... — sussurrou ela, a voz falhando. Ela fechou o livro rapidamente e se levantou, os olhos procurando desesperadamente uma rota de fuga.

— Por que você sempre tenta fugir quando eu chego, Duda? — perguntou ele, a voz baixa, carregada de uma autoridade que a fazia tremer.

— Eu não estou fugindo — mentiu ela, apertando o livro contra os seios médios e macios, que subiam e desciam rapidamente devido à respiração curta. — Eu só... esqueci que tinha um ensaio de ballet agora. No celeiro.

— O ensaio é só daqui a duas horas. Sua mãe me disse — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância. O cheiro de Eduarda era de baunilha e algo floral, muito diferente do perfume importado e forte de Sara.

Eduarda baixou a cabeça, o cabelo castanho caindo sobre o rosto fino.

— Eu prefiro praticar sozinha.

— Você prefere ficar longe de mim — corrigiu ele, sentindo a irritação borbulhar. Emanuel odiava não ter o controle sobre as reações dela. Ele queria que ela se apoiasse nele, que buscasse sua proteção, da mesma forma que via ela fazer com os pais ou com os avós. Mas, com ele, ela era um muro de silêncio e esquiva.

— Eu preciso ir — disse ela, passando por ele como um vulto.

Emanuel estendeu a mão e segurou seu pulso. Não com força, mas com uma firmeza que não admitia contestação. A pele dela era tão fria quanto a dele era quente.

— Duda, olhe para mim.

— Por favor, Emanuel... a Sara... — ela começou, a voz embargada.

— A Sara sabe — interrompeu ele, a intensidade do olhar fazendo Eduarda vacilar. — A Sara não é o problema aqui. O problema é você se escondendo em porões e fugindo para o meio do mato para visitar aquela mulher na floresta.

Eduarda puxou o braço, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas.

— A Morgana é minha amiga. Ela me entende. Ela não... ela não me olha do jeito que você olha.

— E como eu te olho? — desafiou ele.

— Como se eu fosse algo que você quer comprar. Como um dos seus estúdios. Eu não sou um negócio, Emanuel.

Ela se soltou e correu. Não para o celeiro, mas para a porta dos fundos que dava para a trilha da floresta.

Emanuel soltou um rosnado baixo de frustração. Ele era um homem prático. Se algo estava quebrado, ele consertava. Se queria algo, ele trabalhava até conquistar. Mas Eduarda era um enigma emocional que não respondia à lógica.

Horas depois, a chuva começou a cair, transformando a tarde em uma penumbra cinzenta. Emanuel estava no escritório do avô de Sara, tentando se concentrar em alguns contratos, quando Sara entrou, balançando as chaves do carro.

— Ela sumiu de novo, não foi? — Sara perguntou, sentando-se no colo dele sem a menor cerimônia, passando os braços pelo seu pescoço.

— Ela foi para o chalé na floresta. Com essa chuva, a trilha vai ficar perigosa — Emanuel disse, a mandíbula tensa.

— Ela é uma menina do campo, Manu. Conhece aqueles caminhos desde pequena. Mas se você está tão preocupado, por que não vai buscá-la? — Sara deu um sorriso malicioso, encostando o nariz no dele. — Traga-a para o jantar. Eu pedi para a cozinheira fazer aquele risoto que ela gosta. Quero minha família reunida. E quero você relaxado. Você está tão tenso que parece que vai explodir.

Emanuel olhou para a esposa. A segurança dela era sua âncora, mas a fuga de Eduarda era o vento que o desestabilizava.

— Vou levar o jipe.

A trilha estava lamacenta. Emanuel dirigia com uma fúria contida, os nós dos dedos brancos no volante. Ele não entendia por que ela resistia tanto. Ele podia dar a ela tudo. Proteção, conforto, uma carreira no mundo das artes, o melhor estúdio de dança do país. E Sara estava de acordo. O que mais uma garota de 20 anos poderia querer?

Ele avistou o chalé de Morgana, uma construção pequena e coberta de trepadeiras que parecia saída de um conto de fadas sombrio. Quando estacionou, viu Eduarda na varanda pequena, abraçando os próprios ombros, conversando com uma mulher de cabelos longos e negros que fumava um cachimbo de ervas.

Ao ver o carro de Emanuel, o corpo de Eduarda enrijeceu visivelmente.

Emanuel desceu do carro, ignorando a chuva que começava a molhar sua camisa escura. Ele caminhou até a varanda com passos pesados.

— Chega de brincadeira, Eduarda. Vamos para casa. Agora.

A mulher, Morgana, soltou uma fumaça azulada e observou Emanuel com olhos astutos.

— Ela está em paz aqui, senhor das tintas. Por que a pressa em levá-la de volta para a sua tempestade?

— Isso não é da sua conta — rosnou Emanuel, voltando sua atenção para a prima de sua esposa. — Duda, entre no carro.

— Eu não quero ir — disse ela, a voz pequena, mas decidida. — Eu quero ficar aqui. Aqui o silêncio não é pesado.

— O silêncio na fazenda é o que você faz dele — Emanuel subiu o primeiro degrau da varanda. — A Sara está esperando. Ela está grávida, Eduarda. Você sabe que ela fica ansiosa quando você some assim. Use um pouco dessa sua "intuição emocional" e pense nela, se não quiser pensar em mim.

Eduarda baixou o olhar. O uso de Sara como escudo era um golpe baixo, e Emanuel sabia disso. Eduarda amava a prima, sentia uma conexão quase infantil de admiração por ela.

— Você é cruel — sussurrou Eduarda.

— Eu sou prático. E estou perdendo a paciência.

Morgana tocou o ombro de Eduarda, um gesto suave de despedida.

— Vá, passarinho. A floresta estará aqui amanhã. Mas lembre-se: o lobo só morde quem corre.

Eduarda caminhou em direção ao jipe, a cabeça baixa, os ombros encolhidos. Emanuel a seguiu, sentindo uma mistura de triunfo e uma irritação profunda por ter tido que chegar a esse extremo.

O caminho de volta foi mergulhado em um silêncio sufocante. O único som era o das palhetas do limpador de para-brisa e o motor potente do carro. Eduarda estava encolhida contra a porta, o mais longe possível dele.

— Por que você me odeia tanto? — perguntou ele, finalmente, a voz mais suave, mas ainda carregada de tensão.

— Eu não te odeio — respondeu ela, olhando para a floresta passando rápido pela janela. — Eu tenho medo de você.

Emanuel freou o carro bruscamente no meio da estrada deserta. O impacto fez o corpo de Eduarda ir para a frente, mas o cinto a segurou. Ele se virou para ela, o rosto a poucos centímetros do dela.

— Medo de quê? Eu nunca levantei a mão para você. Eu cuido de você. Eu pago suas mensalidades extras, eu garanto que ninguém te incomode naquela faculdade. Eu protejo você!

— Você me controla! — ela explodiu, as lágrimas finalmente caindo. — Você e a Sara... vocês agem como se eu fosse um objeto que pertence aos dois. A Sara me olha como se eu fosse um brinquedo novo que ela comprou para você não ficar entediado. E você... você me olha como se quisesse me tatuar, me marcar para sempre para que ninguém mais possa me ver.

Emanuel ficou em silêncio por um momento, a respiração pesada. A percepção dela era afiada demais, dolorosa demais.

— E se eu quiser? — perguntou ele, a voz caindo para um sussurro perigoso. Ele levou a mão ao rosto dela, secando uma lágrima com o polegar. — E se eu quiser que você seja minha tanto quanto a Sara é? Ela aceita isso, Eduarda. Ela quer isso.

— Mas eu não sou ela — choramingou ela, fechando os olhos sob o toque dele, a sensibilidade traindo sua vontade de se afastar. — Eu sou só a Duda. Eu só quero dançar e ver os quadros e... e respirar sem sentir que estou sendo caçada.

Emanuel sentiu um aperto no peito que a lógica não conseguia explicar. Ele a puxou para perto, forçando-a a se apoiar em seu peito. Eduarda resistiu por um segundo, mas depois desabou, chorando baixinho contra a camisa úmida dele. Era a reação que ele esperava, a busca por proteção que ele sabia que ela tinha dentro de si, mesmo que estivesse fugindo dele.

— Você não está sendo caçada — murmurou ele, enterrando o rosto nos cabelos dela. — Você está sendo reivindicada. Há uma diferença.

— Emanuel, por favor... — ela pediu, a voz abafada pelo tecido da camisa.

— Vamos para casa — disse ele, voltando a ligar o carro, mas sem soltar a mão dela, que agora ele mantinha presa sobre o console central.

Quando chegaram à fazenda, a luz da varanda iluminava Sara, que os esperava com uma taça de suco na mão e um sorriso vitorioso. Ela viu as mãos dadas no carro antes mesmo de eles descerem.

— Finalmente! — exclamou Sara quando eles entraram. Ela caminhou até Eduarda e a abraçou, um abraço que parecia acolhedor, mas que Emanuel sabia ser uma marcação de território. — Você está ensopada, querida. Vá tomar um banho quente. Manu, pegue uma toalha para ela.

Eduarda olhou de um para o outro, sentindo-se cercada. A força de Sara e a solidez de Emanuel formavam uma barreira que ela não sabia como romper.

— Eu vou para o meu quarto — disse Eduarda, a voz sumindo.

— O jantar sai em trinta minutos — avisou Sara, dando um tapinha carinhoso no rosto da prima. — Não se atrase, ou o Emanuel vai ter que ir te buscar no porão.

Eduarda subiu as escadas apressadamente. Emanuel ficou parado na sala, observando-a subir até que ela desaparecesse no corredor.

Sara se aproximou dele, envolvendo sua cintura por trás.

— Ela está cedendo, Manu. Eu consigo sentir o cheiro da rendição dela daqui.

— Ela está assustada, Sara.

— O medo é apenas o começo do desejo, meu amor. Você sabe disso melhor do que ninguém — Sara beijou o ombro dele. — Valentina vai ter uma família muito interessante, não acha?

Emanuel não respondeu. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que criavam arte na pele das pessoas, mãos que agora ansiavam por moldar a vida daquela menina frágil que acabara de subir as escadas.

Lá em cima, Eduarda trancou a porta do quarto e encostou as costas na madeira, deslizando até o chão. Ela abraçou os joelhos, o coração batendo no ritmo da música de ballet que ela dançava em seus sonhos, uma música que, cada vez mais, parecia ser composta pelas vozes de Emanuel e Sara. Ela se sentia pequena, sentia-se manhosa e, acima de tudo, sentia que, por mais que corresse para a floresta ou se escondesse nas sombras, o labirinto que eles haviam construído ao redor dela não tinha saída.

E, no fundo de sua alma intuitiva e assustada, uma parte dela começava a parar de procurar a porta.

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