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As cores que tudo revelam

Fandom: percy jackson

Criado: 08/09/2026

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FantasiaAventuraDramaEstudo de PersonagemSobrevivênciaCrossoverCenário CanônicoDor/Conforto
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Sombras em Vidro e Mel

O reflexo no espelho do banheiro da escola pública de Manhattan não era de alguém que carregava o peso de um incêndio nas mãos. Maria Morales Garcia ajeitou os cachos castanhos, observando como os fios teimosos pareciam ter vida própria. Seus olhos cor de mel, profundos e alertas, escondiam o fato de que ela tinha passado a noite anterior dormindo no banco de trás de um Mustang que ela mesma "pegou emprestado" em Nova Jersey.

Aos dezesseis anos, Maria era uma contradição ambulante. Ela era a aluna que tirava notas exemplares e discutia política com os professores, mas também era a garota que sabia exatamente como fazer a fiação de um carro brilhar em menos de trinta segundos. Ela era a jovem gentil que ajudava os calouros com os armários, mas que carregava o trauma de ter visto as chamas consumirem o homem que deveria tê-la protegido, mas que apenas a quebrara.

Ela saiu do banheiro e caminhou pelos corredores, sentindo o peso da mochila cheia de livros de literatura e mangás. Maria adorava a escola. Para muitos, era um fardo; para ela, era a única coisa que a mantinha ancorada à civilização, longe do abismo que a chamava desde os nove anos de idade.

— Ei, Maria! — uma voz ecoou pelo corredor.

Ela se virou, abrindo um sorriso calmo. Era Leo, um dos poucos garotos que não a achava intimidante demais por causa de sua altura de 1,73m ou por sua postura ereta e séria.

— Oi, Leo. Já terminou aquele quadrinho que eu te emprestei? — perguntou ela, a voz suave, mas firme.

— Quase! O Capitão América é incrível, mas como você consegue ler tanto e ainda costurar essas roupas? — Ele apontou para a jaqueta dela, que tinha bordados feitos à mão nas costas, representando uma constelação.

— Organização e pouco sono — ela brincou, embora houvesse uma pitada de verdade melancólica ali.

Maria sentiu um arrepio na nuca. Não era o tipo de arrepio de frio, mas aquela pressão psíquica que ela começara a sentir nos últimos meses. Era como se o mundo estivesse ficando "fino", como se ela pudesse ver através das camadas da realidade. Às vezes, as pessoas pareciam brilhar; outras vezes, ela sentia que, se quisesse, poderia simplesmente desaparecer da vista de todos.

— Você está bem? — Leo inclinou a cabeça. — Ficou pálida de repente.

— Só um pouco de fome. Preciso de açúcar. Se eu não comer um cookie nos próximos dez minutos, posso entrar em combustão espontânea — ela riu, mas o uso da palavra "combustão" trouxe um gosto amargo à sua boca. Fogo. O único elemento que ela odiava com todas as suas forças.

— Tem aquela padaria na esquina. A gente se vê depois?

— Com certeza.

Maria se despediu e seguiu em direção à saída. O dia estava estranho. O ar cheirava a ozônio e mar, o que era incomum para o centro da cidade. Enquanto caminhava, ela percebeu que um homem alto, vestindo um sobretudo longo demais para a estação, a seguia.

Ela não entrou em pânico. O pânico era para quem tinha algo a perder. Maria Morales Garcia era uma sobrevivente. Ela dobrou em um beco, acelerando o passo. Quando sentiu que ele estava perto, ela se concentrou. Não foi algo pensado, foi instintivo. Ela desejou não estar ali. Desejou ser parte das sombras, uma mancha de luz na parede.

O homem passou direto por ela, olhando freneticamente para os lados. Maria estava encostada na parede, a poucos centímetros dele, mas ele não a viu. Ela estava invisível, camuflada pelo próprio desejo de segurança.

— Onde ela foi? — o homem rosnou. — O sangue dela cheira a mar e poder. O mestre vai querer essa.

Maria prendeu a respiração. "Sangue? Mestre?". Aquilo não era um cobrador de dívidas do seu falecido pai ou um policial. Ela esperou que ele se afastasse e, quando a sensação de invisibilidade passou, ela saiu correndo na direção oposta.

Ela não foi para o "esconderijo" — o carro roubado da vez. Ela foi para o Central Park. A água do reservatório parecia chamá-la. Sempre fora assim. A água a acalmava, limpava a sujeira da sua alma.

Sentada à beira da água, Maria tirou um pacote de cookies da mochila e começou a comer, tentando acalmar o coração acelerado.

— Você não deveria estar aqui sozinha, sabe? — Uma voz masculina, jovem e curiosa, soou atrás dela.

Maria se virou rapidamente, a postura defensiva assumida instantaneamente. O garoto tinha cabelos pretos bagunçados e olhos verdes que lembravam o oceano. Ele parecia ter a idade dela.

— Eu sei me cuidar — disse ela, medindo o estranho. — E você também está sozinho.

— É diferente. Eu estou procurando alguém. Alguém que cheira a... bem, a cookies e a algo muito antigo.

Maria franziu a testa, a teimosia brilhando em seus olhos cor de mel.

— Escuta, se você for mais um daqueles caras esquisitos de sobretudo, eu sugiro que vá embora antes que eu decida que você é um problema.

O garoto riu, um som genuíno.

— Meu nome é Percy. E eu não uso sobretudo. Mas eu vi o que você fez no beco. Como você sumiu.

Maria sentiu um frio na espinha.

— Você me viu? Ninguém me vê quando eu não quero.

— Eu sou bom em ver coisas que as pessoas tentam esconder — Percy deu um passo à frente. — E a água... você sente ela, não sente? Como se ela fosse parte de você?

Maria olhou para o reservatório. Sem perceber, a água estava começando a formar pequenas ondas rítmicas, seguindo a sua respiração.

— O que você é? — perguntou ela, a voz baixa.

— Eu sou como você. Um meio-sangue. Um semideus.

Maria soltou uma risada seca, desprovida de humor.

— Semideus? Garoto, eu cresci em um barraco com um pai que preferia uma garrafa de pinga a mim. Eu matei para sobreviver. Se existe algum deus lá em cima, ele esqueceu de mim há muito tempo.

— Eles não esquecem — Percy disse, a expressão ficando séria. — Eles só são... complicados. Mas você tem poderes, Maria. Invisibilidade, controle da água... e eu aposto que você consegue fazer muito mais.

Nesse momento, um som de cascos ecoou no asfalto da trilha próxima. Um cavalo branco, com asas majestosas que pareciam feitas de nuvens, pousou suavemente a poucos metros deles.

Maria arregalou os olhos. O animal era a coisa mais linda que ela já vira.

— Um Pégaso... — ela sussurrou.

O animal relinchou, balançando a cabeça. Para a surpresa de Percy, Maria não recuou. Ela caminhou até a criatura.

Ele é lindo, não é? — a voz na mente de Maria não era dela. Era uma sensação, uma imagem de céus abertos e ventos fortes.

— Você é maravilhoso — Maria disse em voz alta, estendendo a mão. O Pégaso bufou e encostou o focinho na palma da mão dela, reconhecendo uma alma familiar.

— Você fala com eles? — Percy parecia impressionado. — Quero dizer, eu falo com peixes e cavalos, mas os Pégasos costumam ser mais seletivos.

— Ele é gentil — Maria disse, voltando sua atenção para Percy. — O que está acontecendo? Por que agora?

— Porque você está despertando. E quando você desperta, os monstros sentem o seu cheiro. Aquele cara de sobretudo? Era um Lestrigão. Um gigante disfarçado. Ele teria te jantado se você não tivesse se escondido.

Maria sentiu uma onda de raiva. Ela odiava ser caçada. Odiava a sensação de impotência que a perseguira na infância.

— Eu não sou presa de ninguém — ela afirmou, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa.

— Eu sei que não. Por isso existe um lugar. O Acampamento Meio-Sangue. Lá você vai aprender a usar o que tem. Vai aprender a lutar.

Maria olhou para o Pégaso, depois para Percy, e finalmente para suas próprias mãos. Ela pensou na sua vida: os furtos, as noites frias, a solidão mascarada por sorrisos gentis na escola. Ela pensou na sua cultura brasileira, na força das mulheres da sua família que ela mal conhecera, e na resiliência que a trouxera até aqui.

— E se eu não quiser ir? — desafiou ela, embora a curiosidade estivesse vencendo a teimosia.

— Você é livre para tentar a sorte sozinha — Percy deu de ombros. — Mas lá tem cookies de chocolate azul. E são os melhores do mundo.

Maria deu um meio sorriso.

— Você sabe como convencer uma garota.

De repente, a luz ao redor de Maria pareceu se intensificar. Não era o fogo que ela temia, mas uma luz pura, branca e dourada, que emanava de sua própria pele. A água do reservatório subiu em uma coluna elegante, circulando-a como uma guarda de honra.

— Você tem muitos dons, Maria — Percy observou, maravilhado. — Invisibilidade, luz, água... você é uma mistura interessante.

— Eu sempre fui — ela disse, recuperando a compostura. — Então, como chegamos a esse acampamento? Eu tenho um carro estacionado a três quadras daqui. É um Audi. Muito bom, por sinal.

Percy riu.

— Acho que podemos ir de Pégaso. É mais rápido que um Audi.

Maria olhou para o cavalo alado.

— Tudo bem. Mas se ele tentar me derrubar, eu juro que descubro como transformar a água do corpo dele em gelo.

— Gostei dela — Percy murmurou para o Pégaso. — Ela tem atitude.

Enquanto montavam, Maria olhou para a cidade de Nova York uma última vez. Ela sentia que uma fase de sua vida estava morrendo, assim como aquela casa em chamas anos atrás. Mas, desta vez, ela não estava fugindo do medo. Estava correndo em direção ao seu destino.

— Percy? — ela chamou, enquanto o Pégaso batia as asas, ganhando altitude.

— Sim?

— Se houver música eletrônica nesse acampamento, eu vou embora no primeiro dia.

Percy gargalhou, o som se perdendo no vento enquanto eles subiam em direção às nuvens.

— Prometo que o máximo que temos é um cara tocando lira.

Maria relaxou, sentindo o vento nos cachos. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia uma órfã ou uma ladra. Ela se sentia poderosa. E, acima de tudo, sentia que finalmente estava indo para casa.

O trajeto foi curto, mas para Maria, pareceu uma eternidade de descobertas. Ela percebeu que, ao se concentrar, podia ver as correntes de ar, quase como se pudesse manipulá-las também. Sua mente, sempre tão cheia de preocupações com a sobrevivência, agora se expandia, tocando as mentes dos pássaros que passavam e sentindo a energia da terra lá embaixo.

Quando o acampamento surgiu no horizonte — um vale verdejante protegido por colinas, com construções gregas clássicas e campos de morangos — Maria sentiu um nó na garganta.

— É lindo — ela admitiu.

— É o nosso lar — Percy disse suavemente.

Eles pousaram na Colina Meio-Sangue, perto de um pinheiro alto que parecia irradiar uma energia protetora. Um homem em uma cadeira de rodas, que Maria logo percebeu ser algo muito mais do que um simples professor, os esperava.

— Quíron — Percy anunciou ao descer. — Esta é Maria Morales Garcia.

O centauro olhou para Maria com olhos sábios e cansados, mas acolhedores.

— Seja bem-vinda, Maria. Estávamos esperando por você.

Maria desceu do Pégaso com a elegância de quem já tinha pulado de muitos muros e janelas. Ela encarou Quíron, a coluna ereta, a expressão séria, mas gentil.

— Eu ouvi dizer que aqui é o lugar onde eu aprendo a não deixar monstros me comerem — disse ela. — E que os cookies são bons.

Quíron sorriu.

— Você tem a lealdade nos olhos e a força nas mãos, minha jovem. Sim, você aprenderá muito aqui. Mas primeiro, precisamos descobrir quem é o seu pai... ou sua mãe. Embora, pelo que vejo, você já carregue a bênção de mais de um lado da família.

Maria olhou para o vale. Ela viu jovens treinando com espadas, outros costurando tecidos que brilhavam como seda de aranha, e alguns lendo sob as árvores. Era tudo o que ela amava e tudo o que ela temia.

— Eu não me importo muito com quem eles são — Maria disse com sinceridade. — Eu aprendi a ser minha própria dona há muito tempo. Mas se eles quiserem ajudar agora, eu não vou reclamar.

Quíron assentiu, impressionado com a maturidade da garota.

— Venha. Vamos instalá-la. Temos muito o que conversar sobre política divina, e algo me diz que você terá opiniões fortes sobre o assunto.

Maria sorriu, um sorriso real que iluminou seus olhos cor de mel.

— Pode ter certeza que sim.

Enquanto caminhava para dentro do acampamento, Maria sentiu a presença da água à distância, o calor do sol em sua pele e a sombra reconfortante das árvores. Pela primeira vez, os demônios do passado pareciam um pouco mais distantes. Ela ainda era a menina que sobreviveu ao fogo, mas agora, ela era a garota que dominava a luz. E o mundo dos deuses estava prestes a descobrir que a garota brasileira não aceitava menos do que o respeito que conquistara nas ruas.

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