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Fandom: estilhaça-me

Criado: 09/09/2026

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O Santuário de Vidro

A luz que entrava pelas imensas janelas de vidro duplo era suave, filtrada por cortinas pesadas de linho claro que impediam qualquer raio implacável de tocar o interior do quarto. O quarto era vasto, decorado em tons quentes de marfim, madeira nobre e veludo, um refúgio luxuoso e silencioso construído a centenas de quilômetros de qualquer setor civil, longe das cinzas, dos muros de concreto e das cercas elétricas do Restabelecimento. Ali, o mundo exterior não existia.

Clara acordou sentindo o peso habitual em seus membros. Cada centímetro do seu corpo parecia feito de chumbo, uma fraqueza densa e exaustiva que a acompanhava desde a noite do parto, semanas atrás. Ela tentou se apoiar nos cotovelos para se sentar, mas a respiração falhou, um tremor fraco percorrendo seus dedos.

Antes que o pânico silencioso pudesse se instalar, passos firmes e conhecidos abafaram o som no tapete espesso.

— Não se esforce, meu amor — a voz era grave, melodiosa e desprovida de qualquer aspereza.

Paris Anderson surgiu ao lado da cama. Ele vestia apenas uma camisa branca de linho com as mangas dobradas até os antebraços e calças escuras, muito distante do uniforme militar impecável, rígido e intimidador que usava em seus "dias de viagem a trabalho". Em seus braços, aninhado contra o peito largo que tantos temiam sem que ela soubesse, estava um pequeno embrulho de lã azul-celeste.

Clara relaxou instantaneamente na cabeceira, abrindo um sorriso tímido que iluminou suas bochechas naturalmente arredondadas e pálidas.

— Ele acordou cedo hoje? — perguntou ela, a voz saindo em um sussurro rouco.

— Ele é voraz, assim como você previra — respondeu Paris, aproximando-se com passos medidos.

Ele sentou-se na beirada do colchão, o peso de seu corpo afundando as molas macias. Com uma delicadeza que beirava o inacreditável para um homem de sua estatura e reputação, Paris ajeitou o bebê nos braços para que Clara pudesse ver o pequeno rosto redondo e sereno.

— Eu já troquei as fraldas e dei a primeira mamadeira com o leite que você retirou ontem à noite — continuou ele, levando a mão livre à testa dela, afastando os fios castanhos que grudavam em sua pele morna. — Você precisa descansar. Não tinha que tentar se levantar sozinha.

— Eu me sinto tão inútil, Paris... — Clara abaixou os olhos, as bochechas corando de vergonha. Suas mãos, rechonchudas e macias, repousaram sobre o edredom. — Já faz quase um mês. Eu deveria conseguir pelo menos segurá-lo de pé, andar até a sala sem quase desmaiar. Eu sou sua esposa, e você tem que fazer tudo. Cuidar de mim, do bebê, do seu trabalho...

Paris franziu o cenho de leve, mas não havia irritação em seu olhar, apenas uma determinação paciente e protetora.

— Nunca mais repita isso — ordenou ele suavemente, erguendo o queixo dela com a ponta dos dedos para forçá-la a encará-lo. — Você quase deu sua vida para trazer nosso filho ao mundo. Não há fraqueza nisso, Clara. Há apenas valor. Eu cuido de você porque essa é a minha maior honra. Entendeu bem?

Clara assentiu com a cabeça, seus olhos castanhos brilhando com lágrimas não derramadas.

— Entendi.

Ela tinha apenas dezenove anos quando o conheceu, sete anos atrás. Vivia escondida nas margens de uma cidade em ruínas, com medo do próprio corpo, com medo do calor estranho que emanava de suas palmas — uma habilidade que não sabia controlar e que fazia os metais amolecerem ao seu toque. O mundo estava desmoronando, as pessoas eram cruéis, e sua timidez a transformara em um alvo fácil. Os outros a julgavam por sua figura cheinha, por seus passos hesitantes, por seu silêncio assustado.

Então, Paris apareceu.

Ele fora o único que não rira. O único que não tentara explorá-la ou destruí-la. Ele a tirou do frio, encontrou um refúgio seguro em meio às montanhas isoladas e ensinou-a a respirar sem medo. Ele nunca pediu nada que ela não quisesse dar; ele a cobriu de conforto, de livros, de comida quente e, acima de tudo, de um afeto incondicional que ela nunca soubera existir.

Para Clara, Paris Anderson era um diplomata nobre, um homem ocupado com a reorganização humanitária de uma sociedade fraturada. Ela não fazia ideia de que ele era o Comandante Supremo. Não sabia que os homens tremiam ao ouvir seu nome, não sabia que ele mandava executar vilarejos inteiros sem pestanejar.

E, acima de tudo, não sabia sobre as cinzas de seu passado. Clara nunca ouvira falar de outras mulheres. Nunca soubera que ele já havia sido casado, que tratara uma esposa como um mero objeto descartável, que espancara e quebrara psicologicamente um filho chamado Aaron até torná-lo um reflexo de sua própria frieza. Paris havia enterrado todas as evidências de seus erros anteriores muito longe dali. Diante de Clara, ele não era o Comandante. Era apenas o marido dedicado.

— Vamos — disse ele, quebrando o silêncio acolhedor. — Vou preparar seu banho. Você vai se sentir melhor depois de se limpar, e o dia lá fora está límpido. O sol vai fazer bem a vocês dois.

— Você não tem reuniões hoje? — perguntou ela, estendendo timidamente os dedos para tocar a bochecha gordinha do bebê adormecido.

— Nada que não possa esperar — respondeu ele com desdém, embora um transmissor de alta patente vibrasse silenciosamente no bolso oculto de suas calças, repleto de relatórios urgentes sobre rebeliões e execuções no Setor 45. Ele ignorou o aparelho sem hesitar. — Meu lugar é aqui. Com você e com Andrew.

Ele se levantou, caminhou até o berço esculpido em carvalho no canto do quarto e colocou o filho sobre os lençóis de cetim com cuidado meticuloso. Em seguida, voltou para a cama.

Com movimentos treinados e surpreendentemente afetuosos, Paris deslizou os braços por baixo das costas e dos joelhos de Clara.

— Pronta? — perguntou.

— Eu peso muito, Paris... você não precisa me carregar sempre.

— Pare com essas tolices, Clara — murmurou ele contra o cabelo dela, erguendo-a sem o menor sinal de esforço físico.

Ele a apertou de encontro ao peito robusto, saboreando a maciez dela. Paris sempre detestara a rigidez e a magreza das pessoas consumidas pelo desespero do mundo exterior; adorava as curvas de Clara, a suavidade de sua pele, a forma como ela se encaixava nele sem resistir. Ela era a única coisa pura que ele possuía. O único território que ele não conquistara com violência, mas com um teatro tão perfeito de paciência que, aos poucos, até mesmo ele passara a acreditar em sua própria máscara.

No banheiro espaçoso, o vapor quente subia da banheira de mármore já abastecida com sais de alfazema. Ele a despiu devagar, despindo-a não com a lascívia voraz dos primeiros anos, mas com a atenção de um curandeiro. Ele limpou o corpo dela com cuidado, lavando-lhe os ombros rechonchudos, a curva da cintura que ainda guardava a memória da gravidez recente, e as pernas que tremiam se ficassem de pé por mais de dois minutos.

Clara mantinha a cabeça recostada no ombro dele, os olhos semicerrados enquanto sentia a água morna aliviar as pontadas nas costas.

— Você é bom demais para mim — sussurrou ela, as mãos relaxadas na água. Uma leve onda de calor subiu de suas palmas, fazendo a água ao redor borbulhar sutilmente, aquecendo o banho de forma involuntária.

Paris sentiu a mudança térmica na pele. Ele olhou para a água e depois para o rosto ingênuo da esposa. O poder dela era fascinante, destrutivo em potencial, mas ela só o usava para aquecer cobertores, chá e, agora, a própria água do banho. O Restabelecimento daria fortunas para colocar as mãos nela, para transformá-la em uma arma. Mas Anderson preferia queimar o próprio continente antes de permitir que qualquer um dos seus soldados soubesse da existência de Clara. Ela era um segredo absoluto. Uma joia guardada em uma caixa-forte nas montanhas.

— Você é a única coisa que me faz querer ser bom, Clara — disse ele, e para seu próprio espanto, a frase não era totalmente uma mentira.

Quando terminou de banhá-la, ele a secou com toalhas felpudas, ajudou-a a vestir um vestido folgado de algodão e a pegou no colo novamente. Levou-a até a ampla varanda envidraçada que dava para a floresta de pinheiros e a acomodou em uma poltrona reclinável coberta de mantas macias. Depois, buscou Andrew no berço e o colocou nos braços dela.

Clara soltou um suspiro de alívio puro, o calor do bebê em seu colo dissipando a maior parte de sua angústia física.

— Veja, Andrew — sussurrou ela para o pequeno ser adormecido —, o seu pai nos dá o mundo inteiro.

Paris sentou-se na cadeira ao lado, observando os dois. O menino era perfeito, saudável, sem os traços doentios da desnutrição que assolava os bebês fora daquela propriedade. E ele seria criado do jeito certo. Sem as fraquezas emocionais que Anderson detestava, mas também sem o ódio cru que ele depositara em Aaron. Andrew cresceria em um paraíso, até que chegasse a hora de herdar o mundo que Paris estava limpando a ferro e fogo.

Um bipe baixo e insistente soou.

Paris franziu o cenho e levantou-se com passos rápidos, saindo para o corredor antes que o som perturbasse o silêncio da varanda. Ele tirou o pequeno comunicador codificado do bolso e atendeu a linha segura.

— O que é? — sua voz mudou drasticamente. A suavidade evaporou, dando lugar a uma frieza cortante, o tom que fazia homens feitos caírem de joelhos.

— Senhor — a voz trêmula de um comandante subalterno ecoou pelo fone —, pedimos desculpas pela interrupção. O Setor 45 registrou uma brecha de segurança significativa. Seu filho, o líder do setor, solicita ordens diretas sobre a captura dos insurgentes. Ele insiste que o senhor precisa autorizar a intervenção imediata.

Os olhos azuis de Paris se estreitaram em uma fúria gélida.

— Aaron deveria saber resolver a própria bagunça sem choramingar como uma criança assustada — disparou Paris em um tom tão baixo e venenoso que o homem do outro lado da linha prendeu a respiração. — Diga a ele que contenha a situação ou eu mesmo irei até lá e o substituirei por alguém competente. Não ouse me chamar de novo por ninharias. Se este canal for violado mais uma vez hoje, eu farei questão de arrancá-lo do seu posto pessoalmente.

— S-sim, senhor! Perdão, Comandante Supremo!

Paris encerrou a chamada bruscamente e guardou o aparelho. Respirou fundo uma, duas vezes, recompondo os traços rígidos do rosto. Alisou a gola da camisa, soltou os músculos dos ombros e forçou a calma de volta aos olhos. Ele não permitiria que a incompetência do primogênito ou a imundície de seu império quebrassem a paz daquele refúgio.

Ele voltou para a varanda.

Assim que abriu a porta de vidro, viu Clara olhando em sua direção, a testa franzida em preocupação.

— Está tudo bem, Paris? — perguntou ela com voz mansa. — Você parecia tenso quando saiu. É o seu trabalho?

O monstro que comandava exércitos morreu instantaneamente, e o marido devoto tomou o seu lugar. Paris sorriu com ternura e caminhou até ela, ajoelhando-se ao lado da poltrona para ficar na mesma altura que seu rosto.

— Apenas colegas inexperientes que não sabem resolver problemas básicos na administração das cidades — disse ele, estendendo a mão para acariciar as bochechas dela, sentindo a maciez reconfortante de sua pele. — Mas já dei as instruções necessárias. Eles não vão mais nos incomodar hoje.

— Você trabalha tanto para ajudar essas pessoas... — murmurou Clara, comovida pela suposta abnegação dele. Ela levou a mão gordinha até a bochecha áspera de Paris, acariciando-a com uma afeição que ninguém no mundo jamais ousaria demonstrar ao temível Comandante Supremo. — Não deixe que eles te sobrecarreguem. Você precisa descansar também.

Paris fechou os olhos por um segundo, absorvendo o toque quente e puro. Para ela, ele era um salvador. Um protetor abnegado. E ele faria qualquer coisa para que ela continuasse acreditando nisso até o fim de seus dias.

— Eu descansarei — respondeu ele, abrindo os olhos e depositando um beijo suave na palma da mão dela. — Agora, beba um pouco do suco que deixei na mesinha. Suas energias ainda estão muito baixas.

Clara obedeceu, pegando o copo com cuidado enquanto mantinha Andrew seguro no braço esquerdo.

— Ele se parece com você — comentou ela, olhando para o bebê que agora começava a se remexer, esticando os pequenos braços. — Tem o seu nariz e a curvatura da sua boca. Espero apenas que ele herde a sua coragem, e não o meu medo de tudo.

— Ele não terá medo — afirmou Paris com uma certeza fria que passou despercebida por Clara. — Ele crescerá seguro. Eu garantirei que nada toque este lugar, Clara. Nada nem ninguém.

Clara sorriu, sentindo o coração se aquecer. As inseguranças que carregara durante toda a vida — sobre não ser bonita o suficiente para ele, sobre seu corpo gordinho que ela achava inadequado, sobre o poder estranho que a assustava — sempre derretiam diante da devoção dele.

— Eu amo você, Paris — disse ela em um sussurro tímido, como se ainda tivesse dezenove anos e confessasse seu amor pela primeira vez sob a luz das estrelas.

Paris olhou para ela. Olhou para a curva macia de seus lábios, para os olhos cheios de admiração e para a criança que ela havia gerado em seu ventre. Em seu mundo de sangue, guerra e domínio absoluto, Clara era a única fraqueza que ele se permitia ter. Mas era uma fraqueza que ele defenderia como o bem mais precioso do universo.

— Eu sei, meu amor — respondeu ele em voz baixa, levantando-se para beijar-lhe o topo da cabeça com reverência. — E eu manterei o mundo inteiro do lado de fora, só para que você nunca precise deixar de me amar.

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