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ferah5

Fandom: desafia-me

Criado: 09/09/2026

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O Peso de um Fantasma

O cheiro de Paris ainda estava impregnado no lençol de linho egípcio. Era uma mistura densa de tabaco caro, pinho e o frio cortante do inverno que ele sempre parecia carregar na lapela do casaco militar.

Clara apertava aquele tecido contra o peito, sentada na beirada da cama king-size, com a respiração curta. Nos braços dela, a pequena Alice ressonava baixinho, alheia ao tremor que sacudia o corpo da mãe. Era uma bebê bochechuda de quatro meses, com os mesmos olhos cinzentos e tempestuosos do pai, mas com a boca desenhada pela maciez de Clara.

Clara olhou para o espelho dourado do toucador. Aos vinte e seis anos, sua silhueta nunca recuperara os contornos esguios do final da adolescência, quando Paris a conhecera e a desposara em segredo absoluto, no auge dos seus dezenove anos. A gravidez recente deixara suas curvas ainda mais cheias, os quadris largos, a barriga macia, o busto farto de quem ainda amamentava a cada três horas. Paris nunca se importara com isso. Na verdade, ele costumava enterrar o rosto em seu pescoço todas as noites que conseguia escapar para aquela propriedade isolada, murmurando que a carne macia dela era o único lugar seguro de todo o planeta.

Para Clara, Paris Anderson não era um título ou uma patente. Era o homem maduro que beijava suas mãos com reverência, que providenciava frutas frescas em meio à escassez global, que lhe trazia caixas de música antigas e passava horas admirando o modo como ela ninava a filha.

Ele era o seu protetor. O único homem que ela amara.

O estrondo que partiu as portas duplas de carvalho maciço do andar de baixo destruiu a ilusão com a violência de uma ogiva nuclear.

Alice acordou com um sobressalto, abrindo a boca em um choro agudo e desesperado. Clara levantou-se em um pulo, o coração galopando na garganta, envolvendo a filha em uma manta grossa de lã. O barulho de passos pesados ecoou pela escadaria, acompanhado pelo som metálico de armas sendo destravadas e ordens sussurradas com urgência.

— Paris? — chamou Clara, a voz trêmula, recuando até encostar as costas na parede do quarto. — Paris, é você?

A porta do quarto foi chutada para dentro com uma força sobre-humana, as dobradiças estalando como ossos quebrados.

Clara gritou, encolhendo-se sobre a bebê.

Entraram três pessoas. A primeira era uma garota de cabelos escuros e olhos faiscantes, vestida com um uniforme de combate negro e rasgado, com vestígios de poeira e sangue fresco nas mãos pálidas. Ao lado dela, um rapaz asiático empunhava um fuzil, com os olhos arregalados ao examinar o ambiente luxuoso.

— Parados! Ninguém se mexe! — gritou o rapaz, ajustando a mira. — Se der um passo, eu juro que...

Ele parou no meio da frase.

A garota congelou. Os olhos dela caíram sobre Clara — não uma espiã armada, não uma comandante cruel do Restabelecimento, mas uma mulher jovem, de camisola de algodão branco, gordinha, com os cabelos castanhos desgrenhados e cobrindo desesperadamente um bebê que chorava a plenos pulmões.

— Onde ele está? — perguntou a garota de uniforme escuro, a voz surpreendentemente suave, mas carregada de uma eletricidade assustadora. — Quem é você?

— Por favor... — Clara soluçou, caindo de joelhos, tentando esconder a filha com o próprio corpo macio. — Por favor, não machuquem a minha filha. Levem tudo. Tem joias no cofre, tem comida na despensa... Só não toquem na Alice. Cadê os guardas? Cadê o meu marido?

O rapaz do fuzil olhou para a garota, depois para os armários luxuosos, e de volta para Clara.

— Marido? — repetiu ele, incrédulo. — Juliette, do que diabos ela está falando? Essa casa era para ser um depósito de segurança máxima do Comandante Supremo. Não havia registros civis aqui.

A garota — Juliette — deu um passo cauteloso à frente. Suas luvas estavam manchadas de fuligem.

— O seu marido... — Juliette começou, e sua voz falhou ligeiramente. — Você está falando de Paris Anderson?

— Sim! — Clara ergueu o rosto banhado em lágrimas, procurando qualquer faísca de humanidade nos olhos da invasora. — O Paris. Ele é o Comandante Supremo, ele vai voltar logo! Se vocês saírem agora, eu não conto nada para ele, eu juro por Deus! Ele vai punir vocês se fizerem mal à família dele, ele...

— Ele não vai punir ninguém — cortou Juliette. O tom não era de triunfo, mas de uma tristeza gélida e definitiva. — Paris Anderson está morto.

O mundo de Clara parou.

O choro de Alice continuava a ecoar, mas para Clara, o som tornou-se um zumbido distante e abafado, como se estivesse sob dez metros de água gelada. O ar fugiu de seus pulmões com tanta violência que ela arquejou, cambaleando no chão.

— Não... — balbuciou ela, balançando a cabeça em negação frenética. — Não, você está mentindo. Ele me ligou ontem à noite. Ele disse que as revoltas no Setor 45 estavam quase controladas, que ele viria jantar conosco no final de semana... Ele me prometeu!

— Eu atirei nele — disse Juliette, fria, embora suas mãos tremessem de leve. — Eu o matei com as minhas próprias mãos há menos de duas horas. O quartel-general caiu. O Setor 45 é nosso agora.

— Assassina! — Clara gritou, a dor rasgando sua garganta em um uivo primitivo. A dor a fez esquecer o medo, e ela tentou se levantar, cega de cólera, segurando a bebê com um braço enquanto apontava o outro para Juliette. — Seu monstro! Ele cuidava de todo mundo! Ele mantinha a ordem! O que você fez?!

O rapaz asiático avançou rapidamente, desarmando a distância com passos leves, mas manteve a arma apontada para o chão, com uma expressão atônita no rosto.

— Ei, calma! Juliette, o que a gente faz? Ela pode ter códigos de comando, frequências de rádio, rotas de fuga dos outros setores... Ela era a esposa dele? Anderson tinha uma mulher? Desde quando aquele demônio tem coração para casar com alguém?

— Ela vem conosco — decidiu Juliette, engolindo em seco. Havia um conflito visceral estampado no rosto da jovem líder. — Não podemos deixá-la aqui. Os soldados leais ao Restabelecimento vão saquear este lugar assim que a notícia se espalhar, ou outros comandantes virão para apagar testemunhas. Peguem as coisas da criança. Nós a levaremos para o Setor.

Dois soldados entraram e, apesar dos protestos e dos gritos dilacerados de Clara, eles a escoltaram até um veículo blindado. Clara apertava Alice contra o seio, derramando lágrimas quentes sobre a cabecinha da filha. Ele está morto. O meu Paris está morto. As palavras repetiam-se em sua mente como pregos enferrujados sendo cravados em sua carne.


A viagem foi um pesadelo silencioso de solavancos e poeira. Quando o blindado finalmente parou, Clara foi conduzida por corredores cinzentos e impessoais, cercada por muros de concreto armado e luzes fluorescentes que piscavam com zumbidos irritantes. O cheiro de ferro, terra e desinfetante hospitalar empesteava o ar.

Aquele era o temido Setor 45, agora ocupado por rostos cansados, rebeldes de roupas maltrapilhas e pessoas armadas até os dentes. Todos paravam para olhar quando ela passava. Uma mulher jovem, de corpo farto e formas suaves, segurando um recém-nascido, contrastava grotescamente com a rigidez marcial de tudo ao redor.

Ela foi colocada em uma sala estéril, com uma mesa de metal fixada no chão e duas cadeiras desconfortáveis.

— Fique aqui — disse um dos guardas, fechando a porta pesada.

Clara sentou-se, exausta. Seus seios doíam, cheios de leite, e Alice começava a se inquietar novamente, resmungando contra a gola de seu vestido. Com as mãos trêmulas, Clara desabotoou a parte superior do vestido e aninhou a menina, deixando-a mamar. A sucção faminta da filha foi a única âncora de sanidade que a impediu de desmaiar de pânico.

Minutos depois, a porta se abriu.

Entraram três pessoas. Juliette, o rapaz de antes e um homem mais velho, de pele escura e expressão sábia, que parecia exalar uma autoridade calma. Atrás deles, encostado no batente da porta com os braços cruzados, surgiu um jovem de cabelos loiros brilhantes e olhos de um verde perturbadoramente penetrante.

Clara ergueu os olhos e, por um segundo, seu fôlego travou. O rapaz loiro tinha o mesmo queixo talhado, a mesma postura aristocrática e fria de Paris. Mas o olhar dele era diferente — desprovido da ternura que Paris guardava apenas para ela, preenchido, em vez disso, por um abismo de ressentimento e amargura.

— Então é verdade — disse o loiro. Sua voz era aveludada, mas cortava o ar como uma lâmina. — O Comandante Supremo tinha um ninho escondido.

— Aaron, por favor — pediu Juliette, lançando um olhar de aviso ao rapaz antes de se aproximar da mesa.

Clara puxou a manta para cobrir o seio e proteger a intimidade de Alice, encolhendo-se na cadeira de metal que parecia pequena demais para o seu quadril.

— Eu sou Castle — disse o homem mais velho, sentando-se à frente dela com um tom conciliador. — E este é Kenji Kishimoto. Você já conhece a senhorita Ferrars. Nós não queremos machucar você nem a sua filha, senhora...

— Clara — respondeu ela, em um fio de voz quebrada. — Clara Anderson.

O rapaz loiro no fundo da sala soltou uma risada seca e áspera, sacudindo a cabeça.

— Anderson — zombou ele. — Ele deu o próprio nome a você. Fascinante. Enquanto ele trancava a minha mãe em um asilo para apodrecer viva com as próprias dores, ele brincava de casinha com uma garota nos bosques.

Clara piscou, atordoada pela crueldade daquelas palavras.

— Quem é você? — sussurrou ela.

— Aaron Warner — respondeu o loiro, dando um passo lento em direção à mesa. — Sou o filho dele. Aquele que ele torturava semanalmente para garantir que se tornasse um soldado perfeito.

— Mentira — Clara retrucou, com os olhos ardendo em lágrimas frescas. — Paris me disse que a família dele havia morrido na guerra há muitos anos. Ele nunca torturaria ninguém! Ele era um diplomata, um pacificador!

O silêncio que se instalou na sala foi tão pesado que o som da respiração de Alice pareceu ensurdecedor. Kenji olhou para Castle com as sobrancelhas erguidas, boquiaberto. Juliette fechou os olhos por um segundo, massageando as têmporas como se sentisse uma dor física.

— Você está falando sério? — perguntou Kenji, inclinando-se para a frente, incrédulo. — Você realmente não sabe quem era o homem com quem você dormia todas as noites?

— Eu sei quem ele era! — Clara elevou a voz, protegendo a cabeça da bebê com a mão espalmada. — Ele me tirou da miséria quando eu tinha dezenove anos! A minha família estava morrendo de fome quando os primeiros colapsos começaram. Ele me deu uma casa, me deu comida, me deu dignidade! Ele passava semanas fora consertando o mundo que vocês, rebeldes, tentavam destruir! Ele era paciente, ele nunca levantou a voz para mim, ele... Ele chorou quando a Alice nasceu! Ele segurou a mão dela e disse que ela era o futuro!

Juliette deu um passo à frente, com a voz embargada de indignação e piedade.

— Clara... Paris Anderson ordenou o assassinato de milhares de crianças. Ele executou famílias inteiras por suspeita de deslealdade. Ele criou setores que funcionavam como campos de concentração. Ele me trancou em uma cela de isolamento por quase um ano, esperando que eu enlouquecesse ou me tornasse uma arma para o exército dele. Ele atirou em civis desarmados. Ele destruiu o meio ambiente sistematicamente para manter as pessoas submissas através da fome.

— Não! Isso é propaganda! Vocês são terroristas! — gritou Clara, o rosto vermelho, as lágrimas escorrendo pelo queixo duplo e manchando a gola de seu vestido. O choque daquelas descrições colidia com brutalidade contra a memória dos beijos suaves de Paris em suas bochechas gordinhas, dos elogios sussurrados ao seu corpo na escuridão do quarto, da paciência infinita com que ele lia poesias antigas para ela dormir. — Ele não era esse monstro! Vocês o mataram porque ele era forte!

Warner descruzou os braços e se aproximou da mesa. Seus olhos verdes examinaram o rosto de Clara com uma frieza cirúrgica, descendo depois para a bebê adormecida em seu colo.

— Olhe para ela, Juliette — disse Warner, a voz desprovida de qualquer calor. — Ela não sabe de nada. Não há códigos de lançamento na cabeça dela. Não há estratégias de defesa. O meu pai era um psicopata narcisista, mas não era tolo. Ele a manteve ignorante para que ela continuasse sendo exatamente o que ele queria: um animal de estimação dócil. Um refúgio limpo onde ele pudesse fingir que tinha alma antes de voltar para o mundo real e sangrar inocentes.

As palavras de Warner foram como punhais envenenados no estômago de Clara.

— Cale a boca... — soluçou ela, apertando Alice com tanta força que a bebê resmungou no sono. — Cale essa boca imunda...

— É a verdade — insistiu Warner, inclinando-se sobre a mesa, os olhos brilhando com uma dor que ele tentava desesperadamente mascarar. — Você viveu em uma gaiola dourada construída sobre os ossos de dezenas de milhares de pessoas. As joias que você usava foram arrancadas dos dedos de cadáveres. As frutas que a alimentavam foram roubadas de crianças que morreram de inanição a cinquenta quilômetros da sua varanda florida.

Clara sentiu uma náusea violenta subir pela garganta. Ela olhou para as próprias mãos, macias e sem calos, e depois para os rostos endurecidos de Juliette e Kenji. Não havia zombaria nas feições da garota dos olhos elétricos; havia apenas uma tristeza esmagadora. Juliette a olhava como se olhasse para uma vítima de um naufrágio.

— Chega, Aaron — interveio Castle com firmeza, levantando-se. — Isso não ajuda em nada.

— O que vocês vão fazer comigo? — perguntou Clara, as forças se esvaindo de repente de seus membros. A raiva derreteu, deixando em seu lugar apenas um vazio aterrorizante, cinzento e desolador. — Vocês vão nos matar? Vão matar a filha dele também?

Juliette deu a volta na mesa e parou a poucos centímetros de Clara. Seus olhos castanhos continham um peso que Clara nunca vira no rosto de nenhuma pessoa jovem.

— Nós não somos ele — disse Juliette em voz baixa. — Você não tem as respostas militares que nós esperávamos encontrar. Você não tem culpa pela ignorância em que foi mantida, mas também não poderá voltar para a sua casa. Ela não existe mais.

— E para onde eu vou? — Clara abraçou Alice, sentindo o calor frágil do coraçãozinho da filha bater contra o seu. — Eu não tenho ninguém no mundo. Eu só tinha ele.

— Você vai ficar no complexo residencial — declarou Juliette. — Terá abrigo, comida e atendimento médico para a bebê. Mas terá que aprender a viver na realidade. O mundo em que você acreditava era uma mentira inventada por um carrasco.

Castle e Kenji saíram da sala primeiro, trocando sussurros preocupados sobre o destino dos outros comandantes subordinados a Anderson. Juliette permaneceu por mais um instante, observando o pranto silencioso e convulsivo de Clara, antes de também se retirar, deixando a porta entreaberta.

Apenas Warner ficou para trás.

Ele olhou fixamente para a meia-irmã que acabara de descobrir que tinha. A pequena Alice, alheia a todas as guerras e monstruosidades dos homens, soltou um bocejo preguiçoso, esfregando o punho fechado contra a bochecha de Clara.

— Ele realmente sorria para ela? — perguntou Warner, com a voz tão baixa que quase se perdeu no zumbido das lâmpadas. A máscara de gelo do jovem soldado pareceu rachar por uma fração de segundo.

Clara engoliu o choro, erguendo os olhos avermelhados para o enteado que nunca soube que existia.

— Ele a segurava todas as noites antes de dormir — respondeu Clara, com a voz embargada pela dor da desilusão que começava a corroer suas memórias mais queridas. — Ele dizia que o riso dela era a única música limpa que restava na terra.

Warner apertou o maxilar, os nós dos dedos ficando brancos enquanto ele cerrava os punhos nos bolsos do casaco militar impecável. Ele não disse mais nenhuma palavra. Apenas deu meia-volta e caminhou para o corredor escuro, deixando para trás o eco de seus passos firmes.

Sozinha no silêncio metálico daquela cela improvisada, Clara baixou a cabeça e beijou a testa de Alice. Pela primeira vez em sete anos, ela sentiu frio. Um frio cortante, desprovido de qualquer calor ou proteção, enquanto o fantasma do homem que amara começava a se desintegrar diante de seus olhos, revelando o monstro que ela nunca tivera a coragem de enxergar.

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