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Sequestrado pelo sistema

Fandom: Baldur's gate

Criado: 10/09/2026

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Carne de Canhão e Uma Lança Barata

Acordar com gosto de areia molhada, salmoura e cinzas estelares na boca definitivamente não estava nos planos de terça-feira de Duost. Na verdade, ser arrancado de sua existência medíocre por uma força cósmica arbitrária também não constava em sua lista de afazeres.

Ainda deitado de bruços, ele tossiu convulsivamente, expelindo água salgada e grãos ásperos que pareciam lixa em sua garganta. Antes mesmo de conseguir abrir os olhos por completo ou tentar mover os membros doloridos, uma luz azul neon, irritantemente brilhante e fora de foco, pulsou diante de sua retina.

[Transferência Dimensional Concluída com Sucesso!]

[Bem-vindo a Faerûn, Viajante!]

[Para auxiliá-lo em sua jornada pela sobrevivência, o Sistema concede o Pacote Básico de Integração: — 1x Lança de Infantaria (Comum) — 20x Pontos de Atributo Bônus]

Duost piscou lentamente, sentindo os cílios grudados pelo sal. O cabelo preto, comprido e ensopado, caía sobre o rosto, bloqueando metade de sua visão já prejudicada. Ele fechou os olhos com força, respirou fundo, inalou mais cheiro de fumaça e carne queimada, e os abriu de novo, esperando que a maldita janela flutuante fosse apenas uma alucinação provocada por uma concussão grave.

A janela continuava lá. Flutuando, estática e desprovida de qualquer empatia.

— Fantástico — murmurou ele, a voz soando como duas pedras raspando uma na outra. — Eu não pedi para nascer da primeira vez, mas agora estão me forçando a reencarnar como bucha de canhão em um jogo mal programado. Que progresso maravilhoso da civilização.

Ele empurrou o chão com as palmas das mãos, sentindo a fraqueza típica de seu corpo esguio e desprovido de qualquer rotina de academia. Duost era alto demais para o próprio bem, magro a ponto de parecer um espantalho elegante e, até aquele instante, considerava que sua única arma funcional no mundo era o sarcasmo afiado e um pessimismo funcional que o protegia de desapontamentos. Agora, porém, ele estava de joelhos na praia de um mundo desconhecido, vestindo trapos úmidos e com uma tela holográfica exigindo decisões burocráticas.

Ao seu lado, materializada com um estalo seco e quase cômico sobre os seixos molhados, estava a tal "Lança de Infantaria". Ele a encarou. Era um pedaço longo de freixo com uma ponta de ferro tosca, atada por tiras de couro mal curtido. Não brilhava. Não parecia mágica. Parecia algo que um camponês desesperado usaria para cutucar porcos rebeldes.

— Uma lança. Claro — desdenhou ele, pegando a haste de madeira, que parecia desconfortavelmente pesada em suas mãos finas. — Contra demônios, monstros e seja lá o que mais habita este lixão metafísico, nada como uma vara pontuda. O orçamento de boas-vindas deve estar em crise severa.

A tela piscou de novo, insistente.

[Alocação de Atributos Pendente: 20 Pontos Disponíveis.] [Força: 8] [Destreza: 10] [Constituição: 9] [Inteligência: 12] [Sabedoria: 11] [Carisma: 10]

Duost encarou aqueles números medíocres com uma sobrancelha arqueada. Uma constituição de 9? Ele sempre soube que sua imunidade e resistência física eram vergonhosas, mas ver isso quantificado em uma tabela azul era quase ofensivo.

— Vamos ser pragmáticos, antes que um caranguejo mutante me mate enquanto leio menus — murmurou ele consigo mesmo, analisando as opções.

Se dependesse de sua força, morreria no primeiro golpe de clava de um ogro. Ser um brutamontes não combinava com sua estrutura óssea desengonçada. Destreza, por outro lado, permitia correr, esquivar e talvez enfiar a ponta daquela lança ordinária nos olhos de algo antes de fugir covardemente. E Constituição... bem, aguentar um golpe a mais parecia a diferença entre continuar respirando ou ter as tripas espalhadas na areia.

Com toques mentais rápidos e cínicos, ele começou a distribuir: seis pontos em Destreza, elevando-a para 16; seis pontos em Constituição, subindo para 15; quatro pontos em Sabedoria, elevando-a para 15 — afinal, perceber o perigo antes que ele rasgasse sua garganta era a essência de sua paranoia; e os últimos quatro pontos ele dividiu entre Carisma e Inteligência, só para garantir que ainda conseguisse formular insultos sofisticados enquanto implorava por sua vida.

No momento em que confirmou a distribuição, uma onda repentina de calor atravessou sua espinha. Seus músculos, antes flácidos e pesados de cansaço, contraíram-se com uma densidade recém-adquirida. Sua postura naturalmente curvada se endireitou alguns centímetros. O peso da lança diminuiu na mão, o equilíbrio da arma de repente fazendo um sentido quase intuitivo em seus dedos longos. A respiração tornou-se menos ofegante; o ar salgado não queimava mais tanto em seus pulmões.

— Pelo menos isso funciona — admitiu ele, girando a lança de forma desajeitada, mas funcional. — Agora, só falta descobrir onde diabos...

Uma pontada excruciante perfurou sua têmpora direita.

Duost largou a lança e caiu de joelhos na areia, segurando a cabeça. Era uma dor viscosa, que latejava no fundo de seu olho, acompanhada por um som repulsivo de sucção e estalos de carapaça. Algo vivo, úmido e alienígena se contorcia dentro de seu crânio, raspando na massa cinzenta com intenção predatória.

Por um breve segundo, flashes de memória que não eram inteiramente suas invadiram sua consciência: casulos gosmentos, tentáculos roxos reluzentes na penumbra, criaturas de cabeças polvilhadas de bulbos repugnantes e uma criatura em forma de larva que se enterrava sob sua pálpebra.

[Anomalia Detectada: Parasita Ilitídico em Estase Temporária.]

— Maravilha. Simplesmente magnífico — grunhiu Duost através dos dentes cerrados, a dor diminuindo gradualmente para uma pulsação incômoda e abafada atrás do olho. — Um verme espacial comendo meu cérebro. Obrigado, Sistema. Você realmente sabe como receber um hóspede. Que tal um câncer de brinde também?

Ele se levantou devagar, limpando a areia das calças surradas e recolhendo a lança. Olhou ao redor pela primeira vez, compreendendo finalmente a dimensão da catástrofe.

A praia estava em ruínas. A poucos metros dele, imensa e fumegante como uma carcaça de leviatã apodrecendo sob o sol cinzento, repousava a proa destruída de um náutiloide. O navio dos devoradores de mentes parecia uma concha grotesca feita de osso, quitina e tripas mecânicas, soltando labaredas azuis e nuvens de fuligem espessa. Havia cadáveres espalhados pela areia: goblins queimados, pescadores desmembrados e restos informes de massas cinzentas.

E, a cerca de vinte passos de onde ele estava, caída de bruços na areia fofa, havia uma mulher.

Duost estreitou os olhos. Cabelo escuro preso com uma franja distinta, armadura de cota de malha manchada de fuligem, e uma estranha caixa prismática de metal angular brilhando fracamente caída a poucos centímetros dos dedos enluvados dela.

— Ótimo. Outra vítima do apocalipse particular — resmungou ele para si mesmo. — Se eu for inteligente, dou meia-volta e finjo que sou um arbusto. Mas como o destino claramente me odeia, ela provavelmente é a única pista para tirar essa larva da minha cabeça antes que eu crie tentáculos.

Com passos cautelosos, a lança mantida baixa em uma empunhadura defensiva que parecia surpreendentemente natural graças aos novos pontos de Destreza, Duost se aproximou da figura adormecida.

Antes que ele pudesse cutucá-la com o cabo de madeira da lança — o que parecia a forma mais higiênica e prudente de checar se ela ainda estava viva —, a mulher gemeu. Ela rolou de lado, os olhos semicerrados e a mão voando imediatamente para o cabo de uma maça em sua cintura.

— Quem está aí? — sibilou ela, a voz fraca, mas carregada de uma desconfiança mortal.

Duost parou a dois passos de distância, apoiando a lança verticalmente na areia e exibindo a mão esquerda aberta em um gesto de rendição apática.

— Apenas outro sobrevivente lamentando suas escolhas de vida — respondeu ele com seu tom habitual, seco e desprovido de qualquer calor heroico. — Sugiro que guarde a maça. Minha cabeça já está doendo o suficiente sem você tentar transformá-la em purê.

A mulher piscou, forçando os olhos verdes a focarem nele. Ela olhou para o sujeito alto, magro, de cabelos pretos empastados de salmoura e segurando uma lança barata, depois para o náutiloide fumegante ao fundo. A mão dela soltou a arma, mas os olhos continuaram frios e calculistas.

— Você estava na nave — disse ela, não como uma pergunta, mas como uma dedução rápida. Ela se sentou com dificuldade, apanhando o estranho prisma de metal e guardando-o apressadamente antes que ele pudesse examinar o objeto com mais atenção. — Você sobreviveu à queda.

— Aparentemente. Uma infelicidade estatística, eu diria — Duost deu de ombros, olhando para o horizonte vazio. — Se eu soubesse que sobreviver significava acordar com gosto de naufrágio na boca e um verme mastigando meus neurônios, teria pedido para cair um pouco mais perto das chamas.

A mulher estacou. Uma expressão sombria cruzou suas feições afiadas. Ela levou a mão à própria têmpora, como se sentisse a mesma pulsação sinistra que Duost acabara de experimentar.

— Você... você também sente? — perguntou ela, a voz descendo uma oitava.

— O verme nojento fazendo moradia gratuita atrás do meu olho direito? — Duost arqueou uma sobrancelha. — Sim. A menos que eu tenha desenvolvido subitamente um caso grave de esquizofrenia tátil, temos o mesmo problema parasitário.

A clériga soltou um suspiro contido, colocando-se de pé com uma agilidade tensa. Ela limpou a areia da armadura escura com movimentos rápidos, mantendo uma distância segura.

— Então estamos no mesmo barco. Ou melhor, no mesmo naufrágio — ela olhou para ele de cima a baixo, avaliando a lança de infantaria e o porte magro do rapaz. — Eu sou Umbraltérea. E você é...?

— Duost. Um pessimista em tempo integral e, ao que tudo indica, o mais novo membro de um clube de aberrações em potencial — ele fez uma reverência irônica com a cabeça. — É um desprazer conhecê-la sob estas circunstâncias, Umbraltérea.

— Pelo menos você tem senso de realidade — retrucou ela, sem paciência para floreios. — Nós precisamos de um curandeiro. E precisamos de um rápido. Aquelas coisas... os devoradores de mentes. Eles colocam essas larvas para nos transformar neles. Em questão de horas, nossos ossos podem derreter e nossos dentes cair.

— Uma imagem adorável para se pensar antes do almoço — Duost fez uma careta. — Concordo que encontrar alguém com habilidades médicas avançadas seja prioritário, assumindo que curandeiros deste lugar não cobrem os olhos da cara. Falando nisso, você tem alguma ideia de onde estamos?

— Em algum lugar ao longo da Costa da Espada, suponho. Longe o bastante de qualquer cidade grande para estarmos em perigo constante — Umbraltérea ajustou o escudo no braço esquerdo. — Sozinhos, somos alvos fáceis. Juntos, talvez tenhamos uma chance mínima de encontrar ajuda.

— Adoro como você usa a palavra "mínima" — disse ele, ajeitando a lança na mão direita. O peso agora parecia perfeitamente balanceado, um lembrete tranquilizador de que os números do Sistema haviam alterado a realidade de seu corpo. — Traz um conforto quase quentinho ao peito. Vamos, então. Quanto mais cedo encontrarmos outros desgraçados infectados, mais escudo humano teremos entre nós e as criaturas da floresta.

Eles começaram a subir a colina de areia em direção aos restos da fuselagem do náutiloide. O calor das chamas roxas aumentava à medida que se aproximavam de uma brecha na lateral do navio, onde tentáculos grossos jaziam retorcidos e carbonizados.

— Você maneja essa lança ou ela é apenas um enfeite para parecer perigoso? — perguntou Umbraltérea, observando-o de canto de olho enquanto caminhavam sobre os destroços.

— Se eu disser que nunca enfiei a ponta dela em nada mais ameaçador do que um fardo de feno até dez minutos atrás, você foge aos gritos? — ele perguntou calmamente.

— Provavelmente apenas pediria para você andar na frente — respondeu ela, com um vislumbre quase imperceptível de humor seco.

— Justo. Diplomacia em seu ápice.

Antes que pudessem avançar mais dois metros para o interior da carcaça, um estalo viscoso ressoou no topo de uma pilha de escombros.

Duost parou instantaneamente. Seus sentidos aprimorados pelos 15 pontos de Sabedoria registraram a ameaça antes mesmo que Umbraltérea pudesse desembainhar a maça.

Do topo de uma viga torcida, três massas disformes saltaram para o chão arenoso, bloqueando o caminho.

Eram cérebros humanos expostos, pulsantes e de um tom cinza-rosado doentio, mas apoiados sobre quatro patas caninas de cartilagem e tendões expostos. Pequenas garras afiadas cravavam-se nos seixos, e tentáculos minúsculos chicoteavam a partir de suas fendas neurais. Devoradores de intelecto.

— Pelos deuses... — sussurrou Umbraltérea, recuando meio passo e levantando o escudo, o símbolo de sua divindade reluzindo debilmente no metal. — Criaturas menores do náutiloide. Não deixe que cheguem perto da sua cabeça!

— Cérebros ambulantes — Duost suspirou profundamente, sentindo o pulso acelerar em uma mistura potente de medo primordial e adrenalina súbita. — Claro que seriam cérebros com pernas. A ironia de enfrentar algo que literalmente quer devorar a única parte funcional do meu corpo é quase poética.

Uma das criaturas soltou um chiado estridente e saltou diretamente na direção do peito de Duost, as patas estendidas e os pequenos dentes da cavidade bucal ventral arreganhados.

Se fosse o Duost de antes, magro, lento e sedentário, ele teria congelado e sido derrubado como um graveto. Mas os reflexos da Destreza 16 assumiram o controle antes que seu pessimismo pudesse formular outro protesto.

Ele deu um passo ágil para o lado, girando o quadril para fora da trajetória do salto. A criatura passou raspando por seu casaco rasgado. Em um movimento fluido e quase involuntário, Duost cravou a ponta de ferro da lança com toda a força para baixo.

A madeira rangeu, mas o ferro encontrou a massa cinzenta com um som repugnante de matéria biológica estourando. A ponta atravessou o cérebro saltitante, pregando-o na areia molhada. A criatura se debateu espasmodicamente por dois segundos, pernas arranhando o ar em agonia inútil, antes de amolecer e cessar os movimentos, derramando um líquido leitoso e fedorento sobre a praia.

— Um a menos — disse Duost, retirando a ponta da lança com um puxão firme, a respiração ligeiramente alterada, mas as mãos firmes. — O acabamento da arma é lamentável, mas o ferro faz furos onde é apontado. Nota seis de dez.

Umbraltérea aproveitou a brecha para golpear a segunda aberração com a maça pesada, esmagando a criatura contra uma pedra em um impacto brutal de osso e feitiçaria menor que brilhou em fagulhas douradas.

A terceira criatura hesitou, os pequenos tentáculos fremindo em dúvida ao ver seus companheiros aniquilados em segundos.

— Deixe-me ver se ainda me lembro de como se arremessa coisas — murmurou Duost.

Ele recuou o braço direito, transferiu o peso do corpo para a perna traseira e disparou a lança como uma azagaia curta. A arma cortou o ar com um assobio rápido e cravou-se com violência cirúrgica no centro da última criatura, arremessando-a um metro para trás antes de deixá-la estirada na areia, inerte.

O silêncio voltou a reinar sobre a praia, quebrado apenas pelo marulhar das ondas contra a costa e o crepitar distante dos destroços em chamas.

Umbraltérea abaixou a maça, olhando boquiaberta para os três cadáveres e depois para o homem magro de cabelos escuros que acabara de desarmar a si mesmo para matar um monstro com frieza calculada.

— Para quem nunca tinha enfrentado nada mais ameaçador do que feno... você não se saiu mal — comentou ela, com uma sobrancelha ligeiramente erguida, em um tom de aprovação cautelosa.

Duost caminhou languidamente até o último devorador morto, apoiou a bota sobre o corpo da aberração e puxou a lança com um estalo úmido, sacudindo o sangue alienígena da ponta com visível nojo.

— Foi puro instinto de autopreservação — respondeu ele, encarando a ponta manchada da arma com desdém. — Se há uma coisa que aprendi na vida, é que quando o universo decide atirar porcaria na sua direção, é melhor você ter algo afiado entre você e a porcaria.

Ele olhou para além dos destroços, avistando o caminho que subia as falésias em direção ao interior verdejante e desconhecido da floresta. Havia sinais de outros sobreviventes mais adiante: gritos abafados, ruídos de emboscada e a fumaça de outras fogueiras.

A janela azul invisível para Umbraltérea piscou suavemente no canto de sua visão, anunciando que ele havia sobrevivido ao primeiro encontro.

Duost apoiou a lança no ombro, ajeitou a gola rasgada de sua camisa e olhou para a clériga com um meio sorriso cansado e sarcástico.

— Muito bem, Umbraltérea. Lidere o caminho para o próximo desastre iminente. Estou ansioso para ver que tipo de horrores adicionais este continente encantador preparou para o nosso comitê de boas-vindas.

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