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Hockey

Fandom: Escola/hockey

Criado: 10/09/2026

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DramaAngústiaRomancePsicológicoCiúmesSobrevivênciaRealismo
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Lâminas no Gelo e Linhas Cruzadas

O inverno em Alberta nunca dava trégua. O vento uivava do lado de fora das janelas de vidro duplo da escola, carregando tempestades de neve que congelavam as calçadas antes mesmo que os tratores municipais pudessem limpá-las. Para a maioria dos estudantes da Saint Patrick High, aquele frio era uma maldição que os obrigava a usar casacos pesados e botas térmicas pelos corredores aquecidos. Para mim, no entanto, aquele ar cortante era quase um combustível.

Eu tinha quatorze anos, cursava o nono ano e tinha uma facilidade enorme para fazer amigos. Gostava de conversar, de rir alto perto dos armários e de planejar os fins de semana com as pessoas da minha turma. Mas a minha verdadeira obsessão atendia por outro nome: hóquei no gelo. Desde os seis anos, eu passava mais tempo equilibrada sobre lâminas de aço do que com tênis comuns. Foi por causa dessa paixão — e de uma dedicação quase insana — que a treinadora Miller me chamou para integrar o time principal da high school, mesmo eu sendo ainda uma caloura que tecnicamente nem deveria estar ali.

A notícia deveria ter sido um conto de fadas, mas veio acompanhada de um obstáculo furioso de um metro e setenta: Ashley.

Ashley tinha dezesseis anos, estava no penúltimo ano e jogava como ala esquerda. Ela era rápida, incrivelmente talentosa e dona de um temperamento vulcânico que fazia até os árbitros mais velhos hesitarem antes de apitar uma penalidade contra ela. Nos corredores da escola, nossos caminhos raramente se cruzavam, já que as salas do nono ano ficavam em uma ala totalmente separada das turmas mais velhas. Mas quando o destino resolvia nos colocar frente a frente perto do refeitório ou da biblioteca, o clima despencava abaixo de zero.

Ela não me cumprimentava. Ashley simplesmente me encarava de cima a baixo, erguia o queixo e soltava comentários ácidos sem a menor cerimônia.

— Look what the wind blew in — dizia ela, apoiada nos armários vermelhos, cruzando os braços com um sorriso de escárnio nos lábios finos. — Did you get lost looking for middle school, kid?

Eu tentava ignorar, fingindo que arrumava os cadernos na mochila, mas o deboche dela sempre encontrava uma brecha para irritar. E se nos corredores ela era desagradável, dentro do rinque ela se transformava em um verdadeiro pesadelo.

Como era uma das veteranas mais experientes e respeitadas pelo seu desempenho absurdo com o disco, a treinadora Miller costumava confiar a Ashley o comando de alguns aquecimentos e circuitos táticos quando precisava preencher súmulas ou falar com a coordenação. Era aí que a minha vida virava um teste de sobrevivência. Ashley adorava pegar pesado com as novatas, mas comigo a marcação era pessoal.

Ela não aceitava que uma garota de quatorze anos tivesse reflexos tão rápidos e que a treinadora me elogiasse abertamente durante os treinos coletivos. Para Ashley, eu era uma invasora exibida que precisava aprender qual era o meu lugar na hierarquia.

— Move those legs! — gritava Ashley do centro da pista de gelo, batendo o taco contra a superfície branca para marcar o ritmo. — You’re too slow! Do it again until you stop crying!

Em um treino de quarta-feira, durante um exercício de marcação e proteção de disco nos cantos da quadra, ela veio com força total. Em vez de disputar apenas a trajetória do puck com o taco, Ashley usou o quadril e o ombro para me prensar violentamente contra o acrílico de proteção. O impacto ressoou por todo o ginásio fechado. Minhas costelas latejaram sob as ombreiras e meu capacete bateu com um estalo seco na barreira transparente.

Caí de joelhos no gelo, tentando recuperar o fôlego que tinha sido arrancado dos meus pulmões. As outras meninas pararam, tensas, mas a treinadora estava longe naquele segundo.

Ashley deslizou graciosamente ao meu redor em um semicírculo perfeito, segurando o stick com apenas uma mão e me olhando do alto, sem o menor remorso.

— Welcome to high school, rookie — sussurrou ela, com a respiração condensando em uma nuvem de vapor branco entre nós. — If you can’t handle the heat, stay off my ice.

— I’m not going anywhere — respondi entre dentes, apoiando o taco no chão para me levantar imediatamente, apesar da dor que queimava na minha lateral.

A hostilidade silenciosa entre nós esticou uma corda invisível que, cedo ou tarde, iria se romper. E o rompimento aconteceu da pior forma possível, durante uma partida preparatória contra uma escola rival de Calgary.

O jogo estava truncado, o placar apertado e a torcida nas arquibancadas de madeira gritava a cada dividida. Eu tinha acabado de entrar no segundo período, substituindo uma colega machucada na linha de frente ao lado de Ashley. Em tese, deveríamos cooperar para furar a defesa adversária. Na prática, Ashley se recusava a me passar o disco.

No terceiro tempo, com dois minutos restantes no cronômetro e o jogo empatado, a defensora adversária perdeu o controle do puck na zona neutra. Eu reagi mais rápido que todo mundo. Interceptei a jogada, girei sobre os patins e arranquei em direção ao gol, deixando duas jogadoras para trás. Ashley vinha pela lateral, batendo o taco no gelo e berrando em desespero por um passe.

— Pass it! Pass the damn puck to me! — berrava ela, a voz cortando os gritos da arquibancada.

Eu tinha a visão livre, o ângulo perfeito entre a trave e a perna da goleira rival. Confiei no meu instinto. Puxei para a direita e soltei uma pancada de pulso certeira. O disco estufou as redes no ângulo superior antes que a goleira pudesse sequer piscar. O apito soou, a luz vermelha piscou atrás do gol e o banco da Saint Patrick explodiu em comemoração.

Deveria ter sido o momento de glória do meu início de temporada. Mas, enquanto eu levantava os braços para comemorar com as minhas companheiras, senti um impacto brutal pelas costas.

Ashley não tinha vindo me abraçar. Ela tinha me atropelado de propósito.

Fui jogada no gelo de bruços, deslizando vários metros. Quando tentei me virar, desnorteada pelo golpe desleal da minha própria companheira de time, Ashley já estava sobre mim. Ela jogou as luvas para longe em um acesso cego de fúria e puxou a gola da minha camisa com força suficiente para quase me sufocar contra o acolchoado do protetor de pescoço.

— Who the hell do you think you are?! — gritou ela, os olhos castanhos chispando uma raiva descontrolada, a respiração quente e ofegante atingindo o meu rosto. — You think you’re a star now?! You don’t ignore my calls!

— Get off me! — gritei de volta, tentando empurrá-la com os antebraços, mas presa sob o peso dela e a desvantagem da queda.

Eu nunca tinha entrado em uma briga na vida. Eu era a garota bem-humorada do nono ano, a novata que gostava de fazer piadas no vestiário. Não sabia socar no gelo. Ashley, por outro lado, parecia pronta para me quebrar ao meio ali mesmo. Ela levantou o punho fechado, cega de indignação por ter sido ofuscada pela garota que menosprezava.

Antes que o golpe descesse, as duas juízas da partida invadiram a confusão, derrapando e jogando lascas de gelo para todos os lados.

— Break it up! Now! — gritou uma das árbitras, agarrando Ashley por trás e passando os braços ao redor do peito dela para puxá-la à força.

A outra juíza se colocou entre nós duas, estendendo as mãos para me proteger enquanto eu ainda tentava me recompor no chão frio. Ashley se debatia violentamente, chutando o gelo e rosnando como um animal enjaulado, enquanto duas oficiais suavam para arrastá-la até o banco de punições.

— She’s off the game! Bench her! — ordenou a árbitra principal.

A treinadora Miller estava lívida na beira da pista, berrando para que Ashley entrasse imediatamente para o vestiário antes que a suspensão da federação fosse ainda pior.

Eu me levantei com a ajuda de uma veterana solidária, sentindo o corpo tremer da cabeça aos pés. Minha boca tinha um gosto metálico de adrenalina e choque. Olhei para a saída do rinque bem a tempo de ver Ashley sendo empurrada pelo túnel. Ela virou a cabeça uma última vez. Não havia apenas fúria em seus olhos; havia algo confuso, estranhamente denso e fixo que me fez arrepiar muito mais do que qualquer golpe físico.

Nas semanas que se seguiram, a punição disciplinar manteve Ashley fora de duas partidas oficiais. No entanto, ela continuou autorizada a frequentar os treinos sob estrita vigilância. Eu esperava que o ódio dela por mim se multiplicasse por mil. Esperava sarjetas de insultos, armadilhas no gelo ou fofocas venenosas pelos corredores.

O que aconteceu, porém, foi mil vezes mais desconcertante.

A raiva ruidosa de Ashley simplesmente desapareceu, dando lugar a uma atenção obsessiva e silenciosa. De repente, ela não me empurrava mais contra o acrílico para me machucar. Durante os treinos, ela se colocava perto de mim com uma frequência desconfortável. Seus olhos não saíam da minha silhueta quando fazíamos exercícios de alongamento na lateral da quadra. Se eu tropeçava, em vez de zombar, ela estendia a luva para me segurar, os dedos apertando o tecido do meu uniforme um segundo a mais do que o necessário.

Aquilo não fazia sentido. Eu tinha quatorze anos, era completamente heterossexual e via as dinâmicas românticas com uma simplicidade tranquila: garotos da minha idade, conversas bobas no cinema, paqueras tímidas de baile escolar. A intensidade carregada com que Ashley começou a me encarar me deixava sem ar, assustada e desesperada por espaço.

A situação atingiu o limite numa tarde de sexta-feira, logo após o término de um treino exaustivo.

O vestiário já havia esvaziado quase por completo. As meninas tinham saído correndo para pegar o ônibus escolar ou encontrar carona antes que a tempestade de neve prevista para as seis da tarde fechasse as estradas principais. Eu tinha ficado para trás apenas para recolher meus patins e guardar o jogo de fitas adesivas na sala de equipamentos, um cubículo estreito nos fundos do complexo esportivo, cheio de tacos reservas, capacetes empilhados e o cheiro característico de borracha vulcanizada e desinfetante.

A luz fluorescente piscava com um zumbido fraco no teto baixo. Eu estava terminando de enrolar minha fita quando ouvi a porta pesada bater suavemente contra o batente de ferro. O trinco estalou.

Virei-me com um sobressalto.

Ashley estava encostada na porta fechada, bloqueando a única saída. Ela já tinha tomado banho; os cabelos castanhos e compridos ainda estavam úmidos, caindo sobre a jaqueta pesada da equipe escolar. Não havia nenhum taco na mão dela, nenhuma pose de agressividade explícita. Havia apenas aquele olhar pesado, quase faminto, que ela vinha cultivando há semanas.

— What are you doing, Ashley? — perguntei em inglês, mantendo a voz tão firme quanto conseguia, embora minhas mãos tenham recuado para segurar a borda de uma prateleira metálica.

Ela não respondeu de imediato. Deu dois passos lentos para a frente, diminuindo o espaço minúsculo entre nós. O calor do corpo dela contrastava violentamente com a frieza que parecia emanar das paredes do ginásio.

— You played well today — disse ela, a voz saindo mais baixa, rouca e mansa do que eu jamais ouvira nos treinos.

— Thanks — respondi secamente, dando um passo lateral para tentar alcançar a maçaneta. — I really need to go. My dad is waiting outside in the car.

Ashley não se moveu para me dar passagem. Pelo contrário: deu mais um passo, fechando o meu caminho até que suas botas quase tocassem os meus tênis. Ela ergueu a mão direita devagar. Congelei no lugar, temendo que ela fosse me acertar como fez no jogo da briga. Mas o que aconteceu foi o oposto.

Com uma lentidão deliberada, a ponta dos dedos de Ashley tocou a gola alta da minha blusa térmica, subindo pela curva do meu pescoço até roçar a linha da minha mandíbula. O toque era quente, quase elétrico, e fez todos os pelos do meu corpo se eriçarem em puro alarme.

— Stop it — murmurei, recuando a cabeça contra a prateleira fria de ferro. — Don't touch me.

— Why do you always run away from me, Anne? — perguntou ela em um sussurro arrastado, inclinando o rosto um pouco mais para perto, o olhar caindo brevemente sobre os meus lábios antes de voltar a prender os meus olhos. — You’re not afraid of me on the ice. Why are you shaking now?

— Because you're acting crazy! — disparei, a respiração curta e o pânico subindo pela garganta. — I don’t like this. I don't like girls, Ashley. At all. Back off!

Ashley deu um sorriso torto, sem se deixar intimidar pela minha rejeição clara. Parecia encarar a minha recusa como apenas mais uma barreira tática que ela precisava quebrar na base da insistência, da mesma forma que quebrava as defesas adversárias nas partidas.

— You don’t know what you like yet, rookie — insistiu ela, abaixando ainda mais a voz, dando mais meio passo até que pude sentir a respiração dela contra o meu queixo. — You just need to stop being so stubborn. Just stay here for a minute.

— No! — gritei.

O desespero me deu forças. Em vez de ficar paralisada pelo choque, usei as duas mãos para empurrá-la com força no peito. Ashley não esperava a minha reação tão brusca e cambaleou um passo para trás, perdendo o equilíbrio momentâneo no chão liso de cimento da sala de equipamentos.

Aproveitei aquela fração de segundo de abertura. Passei como um raio por ela, bati a mão na barra de metal da porta, empurrei-a com todo o peso do meu corpo e disparei pelo corredor deserto do vestiário.

— Anne, wait! — a voz dela ecoou às minhas costas, irritada, urgente e cortante. — Don't run!

Eu não olhei para trás. Ignorei o chamado, agarrei minha bolsa pesada de equipamentos que tinha deixado sobre o banco de madeira e continuei correndo em direção à saída de emergência. Meus tênis derrapavam no piso úmido, o coração parecia que ia saltar pela boca e o eco dos meus próprios passos me perseguia como se eu estivesse em uma fuga de vida ou morte.

Empurrei a porta de saída de incêndio com o ombro e fui recebida por uma rajada brutal de vento gelado e flocos grossos de neve branca. O ar a vinte graus abaixo de zero invadiu meus pulmões com um choque térmico doloroso, mas nunca me pareceu tão reconfortante.

O carro cinza do meu pai já estava parado perto do meio-fio coberto de gelo, com o motor ligado e as luzes traseiras vermelhas iluminando a névoa branca. Corri pelo estacionamento escorregadio, joguei a bolsa no banco de trás e bati a porta do passageiro, ofegante, com o peito subindo e descendo em espasmos.

— Everything okay, sweetie? — perguntou meu pai, abaixando o volume do rádio que tocava notícias locais e me olhando com preocupação paternal. — You look like you just saw a ghost.

Olhei pelo espelho retrovisor lateral. A porta de saída do complexo havia se aberto novamente. Ashley estava parada sob a luz amarela do poste externo, sem casaco, enfrentando a tempestade de neve em silêncio. A nevasca caía sobre seus ombros enquanto ela mantinha os olhos cravados no nosso carro, imóvel, teimosa e obstinada.

— Yeah, Dad — respondi, puxando o cinto de segurança com as mãos trêmulas e desviando o olhar do espelho para encarar a estrada escura à frente. — Just a tough practice. Please, let’s just go home.

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